quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vida de escritor

A maior mentira que alguém pode contar é que o maior problema para um escritor é encarar a página em branco. Para mim, ele está encarando a própria criatividade. Um escritor que diz não ter inspiração para escrever, é para mim um escritor morto. Um ninguém. Ou pior ainda, um ninguém se fingindo de escritor. 

Um escritor escreve e ponto final. Escreve em linhas, escreve em prosa, escreve na mente dele. Escreve certo como os escritores que ganham dinheiro ou escreve errado como eu que sou uma criança brincado de ser escritor. Mas escreve. Um escritor que não escreve, é um cara. Ponto final. Não é um escritor. No máximo, um babaca com idéias interessantes.

Fico bastante puto com os “escritores” que existem por ai. Dizem que encarar uma página vazia é muito difícil. Para mim, o difícil é encarar o teclado. É o ato de escrever em si. É me motivar a bater essas merdas dessas teclas e ter certeza que o que escrevo é alguma coisa. Faz sentido? Faz alguma diferença para alguém? É conversar com o teclado. Isso tudo vale a pena? Será que vou bater em você simplesmente por bater? Para satisfazer uma tara pessoal? No final....que final?....tem final?

Eu sou auto-destrutivo. Eu sou um babaca. Eu sou um merda. Minha vida sempre anda quando eu escrevo e estaciona quando não escrevo. Mesmo assim eu me martirizo toda vez que eu tenho que escrever. Por favor, não estou entrando no julgamento que o que eu escrevo é bom ou ruim. É simplesmente o ato de escrever.



(para mim tudo que escrevo é muito foda, mas quem entende da mesma forma é simplesmente maluco, porque no final eu acho que o que escrevo é apenas merda com atitude e vocês são pessoas que por algum desvio não conseguem entender a pura verdade. É tudo merda!). 

O que sobra? Uma luta insana, absurda e idiota entre eu e eu mesmo. To be or not to be? Mas afinal, essa não é a luta de todos nós? A briga do escritor com os teclados não é a nossa luta para ser o que sempre sonhamos ser? Por todos os motivos que sempre inventamos, deixamos de ser aquilo que queríamos? É certo cobrar de um escritor por ele não escrever se nós mesmos acordamos todas as manhãs e enfrentamos a rotina do dia-a-dia sem a coragem de ser aquela pessoa que gostaríamos de ser? 

Eu pergunto e eu respondo. Sim. É certo. O escritor não tem essa escolha depois que ele decidiu o caminho que ele trilhou. É dever do escritor fazer as pessoas sonharem. Não é dever do escritor escrever corretamente. Não é dever do escritor agradar a todos. Tão pouco ter uma regularidade na escrita. Mas o escritor é o arauto da esperança e é dever do escritor oferecer alguns segundos, minutos ou horas de entretenimento, de esperança ou simplesmente de anulação do mundo real. E para isso, é um trabalho de observação e de criatividade. Você pode reclamar da sua motivação de fazer isso, mas não culpar simplesmente a sua incapacidade de fazer isso em uma página em branco que não tem nada de ameaçadora.

Mais uma vez eu quero agradecer meus leitores e me desculpar. A página em branco não me ameaça. Mas toda vez que eu encaro os teclados, eu encaro a mim mesmo. Toda vez que escrevo eu não só modifico a vida dos outros, mas a minha mesmo. Me pergunto, será que vale  a pena?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Grande Promoçao de Natal

Natal está chegando, muita gente para presentear. Tem amigo oculto, secreto e aqueles velhos amigos de todas as horas.  O grande problema é gastar pouco e dar um presente legal. 

Por isso, estou fazendo uma grande queima de estoque do meu livro “Viciado Carioca – Amor & Rock and Roll”.  Uma bela oportunidade para quem ainda não comprou o livro, para os que já conhecem e querem dar de presente para um amigo e ainda de quebra, ajudar a divulgar o trabalho do velho Vic.

Para os que ainda estão pensando se vale a pena, se o livro é bom e tudo mais segue alguns links de resenhas de leitores que não conheciam o blog. São leitores isentos e críticos, pois trabalham com isso e fazem resenhas todos os dias:

Literatura de Cabeça

Sentimento nos Livros

Psychobooks

Viaje na Leitura

Virando a página

Skoob

Como funciona a promoção?

Não teria sentido dar desconto em um livro apenas se o grande lance é ter um presente bom e barato para dar aos amigos. Por isso decidi em parceria com a Editora Parênteses de dar descontos progressivos.  O preço de tabela do livro é R$23,00 e é por esse preço que você encontrará nas livrarias e no site da editora. Mas aqui no meu blog até o final do ano os preços serão:

1 Livro com 15% de desconto!!! De R$23 por apenas R$19,55












2 livros de R$46 por apenas R$36,80!!!

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3 Livros de R$69 por apenas R$51,75!!!


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3º Livro com 35% de desconto!!! De R$23 por apenas R$14,95









Gostaram? Está moleza para comprar, hein? Através do Pagseguro você pode comprar com todos os cartões de crédito, boleto bancário, transferência online. 

Então, não perca tempo, pois eu tenho um número limitado de livros que eu posso vender nessas condições. Para quem desejar dedicatória, basta me mandar um e-mail com o nome da(s) pessoa(s).

Peço também a ajuda para divulgar a promoção. Postem em seus blogs, Twitter, Facebook.Obrigado! Forte abraço, boas compras e boas festas!

Em algum lugar de Zion durante Matrix Reloaded

Agenor fumava um cigarro no cantinho da caverna enquanto observava Zac carregando algumas caixas de tambores para a festa de mais tarde. Entre uma baforada e outra, ele soltou:

- Eu não acredito que vai ser mesmo uma Rave.

- Por que não? – perguntou Zac colocando algumas caixas no chão - É a onda do momento, e disseram que até o Escolhido vai aparecer.

- Meu problema não é a festa. É o estilo musical. Música eletrônica. Não é um contra senso? Estamos lutando contra as máquinas e vamos escutar música eletrônica!

Agenor deu mais uma baforada no cigarro. Zac abriu uma das caixas e ficou batucando de leve no tambor.

- Qual seria a sua sugestão, Age?

- Por que não o bom é o velho Rock and Roll? Cara, desde que eu saí da Matrix que não escuto uns bons acordes. Meu Deus, nunca achei que ia sentir tanta falta do meu Ipod...

- Não era um Ipod de verdade e sim um programa que simulava...

- Eu sei, eu sei... mesmo nada sendo real, eu sinto muita falta de certas coisas do outro mundo. 


- Tipo?

- Um bom vinho, sushi, filmes em geral, mas principalmente os pornôs.   Droga, Zac ! Desde que o mundo é mundo existe pornografia! Somente nessa maldita Zion que não tem um puterinho, internet, uma revistinha de mulher pelada. Nem uma revistinha em quadrinho erótica!

- Você arrependeu-se de ter tomada a pílula vermelha, Age?

- Se eu me arrependi? Eu não entendi porra nenhuma quando me procuraram! Quando vi, eu estava nessa caverna amaldiçoada!

Zac arrastou a caixa para mais perto. Agenor levantou-se.

- Como foi que aconteceu então, Age?

- Minha noiva terminou comigo. Relacionamento sério, uns quatro anos de namoro. Ela disse que estávamos vivendo um conto de fadas e que nosso namoro não era real.

- Mal sabia ela....

- Pois é. Não era real mesmo.De qualquer forma, eu fiquei bem abalado. Saía todas as noites, enchia a cara, pegava umas mulherzinhas, essas coisas.

-  Você queria farrear!

- Exatamente, Zac. Foi quando Morpheus apareceu. Eu cheio de cachaça na mente, aquele puta negão forte com uma roupinha meio esquisita e uma branquela do lado. Começou um papo estranho de escolhido e coisa e tal. Pensei que ele era um desses malucos que gostam de ver a esposa transando com outro cara, saca?

- Nossa! E aí?

- Daí ele me ofereceu a pílula e eu achei que era uma anfetamina e nem pensei duas vezes. Grande erro. Vim parar aqui e eu não tenho nada haver com esse mundo real, Zac.

- Nada haver?

- Olha em volta, Zac! Dentro da Matrix nós tínhamos tudo. Tínhamos conforto,  Tevê a cabo, Jack Daniel´s, Jim Morrison! Aqui a gente mora dentro de cavernas, com um número bem limitado de mulher. Porra, o próprio Morpheu que é um dos manda-chuvas não tem mulher, como eu vou arrumar alguém? Você tem que ser realmente o Escolhido para conseguir uma gatinha.

-  Você disse que o Morpheus achava que você era o Escolhido.

- Pois é. Maior micão. Morpheu se enganou por conta do meu nome. Todo mundo por aqui tem um nome bacana. Neo, Cypher, Trinity. Até você mesmo! Zac. Um puta nome maneiro. O meu. Agenor. Ele achou que isso era um sinal.

- Você foi escolhido pelo seu nome.

- O pior nem é isso, Zac. O pior foi visitar a Oráculo.

- Você conheceu a Oráculo?

- Infelizmente. Puta velha maconheira neo age desgraçada. Logo que cheguei foi me dando esporro “Não vai quebrar essa merda de vaso porque só o escolhido de verdade é que tem esse direito”. Tentei não tocar em nada. Ela colocou a mão no meu rosto, olhou no fundo dos meus olhos e disse: “você gosta de transar?” . Mesmo com medo daquela velha querer me carcar, respondi que sim.

- E ela?

- Ela começou a rir. Eu perguntei o que era e ela respondeu que não iria me dizer “porque certas pessoas não estão preparadas para a verdade”.  Só não enfiei um dos garfos tortos que as crianças estavam brincando na bunda dela porque Morpheus me proibiu.

- Que fase, heim?

- Pois é, Zac. Quando saímos do apartamento da bruxa pedi para me deixar na Matrix e ele disse que não dava, tinha um monte de rolo burocrático e ele não ia assinar a papelada porque tinha perdido muito tempo comigo.

- Putz.

- No final eles carregaram um monte de programas de controle de estoque no meu cérebro e me jogaram aqui no almoxarifado de Zion.

- Sinto muito, Age.

- E no final, a velha coronga estava certa. Estou na seca há seis anos. Seis anos sem sexo. Sabe como eu me sinto?

- Como?

- Eu me sinto uma máquina. Seis anos sem sexo. Ainda dizem que estamos salvando a humanidade. Para isso, deveríamos estar nos reproduzindo igual coelhos. Porém aqui estou eu. Seis anos sem sexo. Que motivação que eu tenho de lutar contra as maquinas se eu também sou uma?

- Que isso, Agenor. Anima-se de repente você conhece alguém legal na Rave.

- Não tem jeito, a minha última esperança é o Arquiteto.

- Quem?

- O Arquiteto. O cara de fala enrolada que construiu essa porra toda. Ele vai dizer para o Neo entrar na fonte da Matrix e dar um ctrl+alt+del na coisa toda. Daí ele terá que escolher 23 indivíduos - 16 mulheres e 7 homens - a fim de reconstruir Zion.

- Reconstruir Zion?

- Sim! Sete homens para dezesseis mulheres! Todo mundo vai ter duas namoradas e dois sortudos vão ter três.  Nem posso esperar esse dia chegar!

- E como você pretende ser um dos escolhidos?

- Da maneira mais antiga e eficiente de conseguir o sucesso no mundo coorporativo.

- Trabalhando?

- Sendo baba ovo. O saco do chefe é o corrimão do sucesso! Afinal, são duas mulheres para cada homem!!!! Ainda chamam isso aqui de mundo real!



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Do pó viemos e ao pó voltaremos

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 15
A história até agora: Ainda desolado pelo termino da relação com Nicole, Vic recebe um telefonema que vai mudar totalmente o rumo de sua vida. Pra pior, é claro. 

Sugestão de música: Legião Urbana - Os Anjos

- Eu não consigo dormir. Eu não consigo dormir de maneira nenhuma e a culpa é totalmente sua, seu merda! 

Mesmo com tanto ódio, dor e xingamentos, ainda era confortante ouvir a voz da Ruiva do outro lado da linha.

- Calma Nicole é somente o efeito das bolinhas. Uma hora isso vai passar e você vai dormir. – eu tentava dizer com a voz mais carinhosa possível.

Meu coração batia forte só de ouvir a voz de Nicole, a minha paixão.

Nicole, a mulher da minha vida.

Nicole, a ruiva.

Nicole, a louca.


Ela afinou a voz e começou a me imitar:

Fica calma! Fica calma! – daí a voltou a gritar furiosa – Eu estou aqui sozinha e morrendo e você só sabe dizer isso!

- Foi você que me expulsou e terminou comigo, você queria que eu fizesse o que? – eu respondi com raiva.

Eu já tinha aprendido que não devia reagir dessa maneira. Da última vez quase bati nela por agir assim. Fiz uma anotação mental para me controlar mais.

- Eu não estou te ligando porque eu te quero de volta, Vic. Estou te ligando porque foi você que me colocou nessa furada e é você que vai me tirar disso. Tudo que aconteceu é culpa sua!

Ela me culpava por que eu não avisei que era apenas para tomar uma bolinha. Eu não iria discutir isso. Eu não iria alimentar mais aquela briga. Afinal, nada disso mais importava. Nem se eu iria conseguir conquistá-la novamente importava. A saúde de Nicole que era a prioridade naquele momento.

- Eu estou indo para ai, Nic. Vou te colocar na Falcon Milenium e nós vamos a um hospital!

- É Milenium Falcon, seu imbecil! Quantas vezes eu vou ter que te dizer isso? Que merda de nerd você é que nem decorar a porra do nome correto da nave você consegue? – eu comecei a contar até dez e ignorar os seus comentários jocosos. Ela continuou disparando – Eu não vou a hospital porra nenhuma! Eu não vou dizer oficialmente que eu sou uma drogada!

Só Nicole mesmo. Desesperada com as drogas que tomou, porém irredutível em procurar ajuda profissional.

- O que você quer que eu faça então, Nic?

- Eu não sei o que fazer, porra! Ou não estava te ligando! Você me colocou nessa, você me tira dessa, Vic! Ou a casa vai cair para todo mundo, seu babaca! Quero ver sua mãezinha católica ouvindo da sua namorada macumbeira que o caçulinha queridinho dela é um maconheiro sem-vergonha.

O sangue ferveu a minha cabeça. Podem fazer qualquer coisa comigo, mas ameaçar a minha mãe eu não iria admitir. Nem mesmo da mulher que eu amo. Não estava preocupado com a minha reputação, mas nada poderia interferir na felicidade da coroa.

Não mesmo.

- Nic, seja lá o que você esteja pensando sobre mim nesse momento, você está errada. Eu vou te ajudar não é porque eu sou culpado de alguma coisa ou porque eu te amo. Eu vou te ajudar porque é a coisa certa a fazer. Mas se você ameaçar mais uma vez a minha família ou você fizer alguma coisa para magoar a minha mãe, Ruiva, você vai conhecer um outro Vic.

Fiz uma pausa e ela calou do outro lado. O meu sangue estava fervendo. Maldito pacto. Maldito fantasma. Maldita vida. Eu respirei e voltei a falar:

- Sem piadinhas, sem choro e sem reclamação. Mais uma vez, fique calma que tenho uma idéia do que vou fazer.

Desliguei o telefone sem escutar a resposta e a deixando pensar que eu era o cara mais cheio de certezas do mundo.

Fui tomar um banho rezando para que alguma idéia surgisse na minha cabeça.

Terminei o banho e a única idéia que eu tinha era voltar a casa do Dez e perguntar a ele o que fazer. Não era algo que me agradava, depois de ter largado Luther desacordado no banheiro do quarto dos seus pais, mas era a minha única opção.

Decidi tentar uma ajuda extra para aquela tarefa e liguei para o Gordo. Afinal, para que servem os amigos?

Quase caí para traz da cadeira da forma que ele atendeu o telefone:

- O que é agora? – ele gritou.

Normalmente eu largaria uma piada, mas eu não estava bom para pensar em uma e obviamente ele não estava no espírito de ouvir.

- Algum problema, Gordo?

- Ah, é você. – ele parou alguns segundos surpreso e depois continuou com um tom um pouco desolado - Desculpa, Vic. Mas agora não dá para falar, estou no meio de uma briga telefônica com Wendy.

O Domingo continuava sangrento para todos nós.

- Desculpa, cara.  Deixa para lá, depois a gente se fala.

Pensei em oferecer ajuda nesse momento, mas desisti. Eu estava atolado em confusão e não tinha como auxiliar alguém..

- É... depois a gente se fala... – ele respondeu desanimado.

Droga, Lucas era meu amigo e eu não poderia deixá-lo na merda, por mais enrolado que eu tivesse.

- Olha, Gordo, se eu puder ajudar em alguma coisa...

- Não sei, Vic....

- Cara, se você não desembuchar eu não poderei te ajudar.

- Deixa pra lá, Vic. Depois a gente se fala.

Ele estava decidido. Eu não estava tão determinado.
 
- Até mais, Gordo. – então desliguei.

Sem nenhum Robin para me ajudar na minha cruzada, segui solitário para casa do Dez.

A tarde de Domingo já estava avançada e muito silenciosa. Todos de luto com a morte de Ayrton Senna. Observei em várias janelas a bandeira do Brasil pendurada e em algumas um pano preto por cima. Um país de luto. Enquanto a minha vida e a dos meus amigos desmoronavam os brasileiros choravam.

Morreríamos todos abraçados na lama.

A ligação para Lucas acabou não sendo em vão. Ela me afastou dos pensamentos negativos sobre eu e Nicole e me fez pensar em outras coisas. Estranhamente me lembrei de quando era um pouco mais jovem e meu irmão mais velho já estava se envolvendo com garotas e vivendo as desilusões do amor.

Lembrei-me de um dia específico. Eu devia ter uns onze anos e meu brother uns dezoito. Eu estava jogando Atari e ele conversava com um amigo pelo telefone. Eu sabia que alguma coisa estava ruim, porque ele não estava implicando comigo. Thomas sempre foi assim. Se as coisas iam mal na sua vida particular, ele ficava um doce em casa. Se as coisas iam bem na vida, ele arrumava um monte de confusão em casa.

Meu irmão sempre gostou de viver no olho do furacão. Provavelmente um mal de família.

- Pois é, aquela piranha! Que raiva que eu estou dela! – ele falava com seu amigo, Madson, enquanto eu controlava o meu pequeno Smurf para salvar a Smurfet de aranhas e pontes que abriam e fechavam rapidamente.

- O que foi, Mad? Sua garota terminou com você também?

Meu irmão na parecia surpreso. Ele ficou quieto ouvindo as lamurias de seu amigo do outro lado da linha e eu tinha sido pego pela aranha mortal.  Foi quando o meu irmão disse uma frase que eu nunca esqueci.

- Quando um cai, todos caem. Minha namorada me traiu, a tua te largou e o Fabiano também tomou um pé na bunda. Quando um cai, todos caem, Mad.

Eu também não consegui salvar a Smurfet naquele dia.

Quando um cai, todos caem.

É o efeito dominó do amor. Essas coisas que não tem nenhuma explicação científica, mas que acontecem. Eu não acredito em bruxas, mas elas existem.

Depois que meu irmão desligou o telefone, ele pegou o segundo controle e fomos jogar aquele emocionante Tênis do Atari onde os jogadores se moviam na velocidade impressionante de menos de um milímetro por segundo. 

Eu venci o primeiro jogo, o que era uma coisa rara pois ele sempre me vencia. Mas ele não reclamou. Ele soltou o controle e falou:

- Irmãozinho, eu vou te dizer uma coisa sobre mulheres: aconteça o que acontecer, nunca deixe se levar muito por elas, ou elas arrancam seu couro. Se possível, não se apaixone nunca. O primeiro suspiro da paixão é o último da razão.

Gostaria de ter ouvido mais atentamente o meu irmão. Talvez não teria entrado de cabeça e me entregando tanto no relacionamento com a Ruiva. Agora era inevitável.

Quando um cai, todos caem. Nicole tinha me dado o fora, Lucas estava prestes a também levar um pé na bunda.

Os heróis morrem jovens, principalmente em um Domingo sangrento como aquele.

No final, meu irmão acabou arrumando uma outra mulher, se casou e tem um filho. Parece um chefe de família feliz e aquelas cicatrizes de amor curadas e esquecidas. Mas eu sei que de vez em quando, principalmente quando ele bebe e fica um pouco nostálgico, esses cortes se abrem e ainda pingam uma ou duas gotas de sangue por lá.

O primeiro suspiro da paixão é o último da razão.

Cheguei em frente ao prédio de Dez. Eu iria aparecer no apartamento do traficante predileto da galera depois de largar um Luther drogado em quarto destruído. O ladrão sempre volta a cena do crime. Mais uma dessas coisas que não tem nenhuma explicação científica, mas que acontecem.

Fiquei pensando se aquela ela a melhor coisa a fazer. Possivelmente não. Eu deveria levar Nicole para o hospital, deixar tudo bem e assumir todas as conseqüências. Por que envolver um traficante naquilo tudo?  Por mais que o Dez fosse um cara gente boa, não gostaria de ficar devendo um favor a ele. Mas que opções eu tinha? Depois de toda a briga com a Nicole, o esperado esporro que o Dez me daria pela overdose de anfetaminas nem me assustava. Ele iria reclamar e dizer que nunca mais forneceria algo para mim. Eu pediria desculpas e cagaria para o resto. Afinal, eu nunca gostei de atravessadores. Só queria que ele me disesse o que fazer. Um calmante para dar a ela, uma lavagem estomacal caseira. Qualquer coisa. Essas informações que só drogados experientes conhecem.

Apertei o interfone

- Dez? Aqui é o Vic. Eu preciso falar com você.

-. Pode subir.

Aquela viagem de elevador até a cobertura foi longa.

Ele abriu a porta. Vestia uma cueca e um roupão. Incrivelmente sua cara não era de um homem que acabara de acordar. Era de um que nem mesmo tinha dormido. Provavelmente igual a minha.

Entrei no apartamento e tudo estava impecavelmente limpo. Como se nunca tivesse tido uma festa de arromba há umas doze horas antes. Como eu gostaria que nada daquilo tivesse acontecido. Sem festas, sem bolinhas, sem a transa louca durante a madrugada, sem Luther jogado no banheiro, sem minha briga com Nicole.

- O pessoal da Colurb trabalhou direitinho hoje.

- É claro que sim. Contratei duas faxineiras de primeira linha para deixarem o apartamento um brinco. – vamos lá para o quarto.

Segui pelo corredor até chegar ao quarto psicodélico. Por alguma razão Dez não demonstrava surpreso pela a minha visita. Provavelmente estava doido de mais para ficar pensando sobre aquilo. Pelo menos, ele estava doido de mais para me levar ao seu sem se importar com aquela garota dormindo nua sobre a cama. Sentei na poltrona bolha:

- Noite intensa, heim?

- Pois é, Vic. A noite mais incrível de todas.

Ele andou até o seu armário especial onde guardava alucinógenos o bastante para recriar um novo Woodstock.

- Mas acredito que você não veio aqui conversar sobre a festa de ontem, não é mesmo Vic?

- Dez, é que ontem aconteceu um acidente. Sem querer Nicole acabou tomando três bolinhas ao invés de uma e agora o coração dela desparou e ela não consegue dormir. Estive pensando se você poderia dar uma dica para sair dessa solução.

Ele continuou com o corpo enfiado para dentro do armário. Quando retirou, estava com uma pistola 9mm na mão. Ele enfiou um cartucho de balas na arma e a preparou. Eu queria levantar da cadeira, mas minhas pernas tremiam sem parar. Ele andou na minha direção, puxou uma cadeira e colocou na minha frente. Então apontou a arma para mim e disse:

- Sabe, da primeira vez que eu ouvi falar de você, eu gostei logo de cara. Um sujeitinho com o apelido de “Viciado Carioca”. Sabia que em breve eu teria um cliente preferencial ou até mesmo um bom soldadinho para distribuir a minha mercadoria.

Enquanto apontava a arma com a mão direita, ele pegou um cigarro de dentro do bolso do ropão com a mão esquerda. Depois tirou um isqueiro e acendeu.

- Mas o tempo passou e o tão falado “Viciado Carioca” na verdade era um maconherinho playboy de quinta igual tem vários por aí. Mas te achei gente boa e te tratava com respeito, apesar de você sempre me esnobar. Nunca comprou nada de mim, mesmo sabendo que eu tenho coisas da melhor qualidade para oferecer.

O suor na minha testa caía para o olho. Meu coração pulava até a boca e voltava. Minhas palavras pareciam de uma menininha de 8 anos:

- D-desculpa D-dez. E-eu não queria incomodar. Eu s-sempre comprei direto da fonte. S-sem atravessadores....

Ela levantou e começou a gritar:

- ATRAVESSADOR? Você acha realmente que quando você sobe o morro você está cortando os atravessadores? AQUELES FAVELADOS COM AK-47 NA MÃO QUE NÃO CONSEGUEM NEM ARTICULAR DUAS FRASES É QUE SÃO OS ATRAVESSADORES, SEU IMBECIL.

Então deu uma coronhada com a arma na minha testa. Minha cabeça foi para trás batendo contra o sofá bolha. Uma dor de cabeça instantânea se instalou e o sangue começou a correr. Ele pegou uma toalha jogada em cima de uma mesa e jogou para mim:

- Vê se não vão sujar o meu tapete caro com o seu sangue sujo.

Eu pressionei a toalha sobre o ferimento. OK, então era disso que Guilherme me avisou. Agora eu ia realmente morrer pelo traficante predileto entre 8 de 10 drogados da zona sul do Rio de Janeiro.

- Então, você tinha que se meter com a mulher do Luther. Quando ele chegou aqui pedindo a sua vida eu disse que não. Sabe como é, não ia ser bom para os negócios. Qualquer hora um policial querendo ser herói ou um deputado querendo aparecer poderia descobrir a nossa pequena movimentação no Casarão e isso não é nada bom.

Ele deu algumas baforadas em seu cigarro.

- Nosso volume de vendas no Casarão é excelente. Ali as pessoas se sentem seguras de comprar e consumir. Além do mais, é muito bom para o marketing quando você mistura vendas com filosofia. Então, disse para ele esquecer. Que aquilo era uma paixão adolescente e que ele poderia comer qualquer roqueirinha dessa cidade. Ele deixou para lá. Luther é um bom soldado.

A toalha estava pesada de tão molhada, mas o sangramento parecia ter parado. Mas não a dor de cabeça. Como eu fui tão estúpido. Me envolvi com um dos vendedores prediletos de um traficante. Ele foi até o armário, mas matinha a arma apontada para mim, enquanto pegava alguma coisa.

- Mas você, Vic. Você não poderia deixar para lá. Resolveu no meu aniversário preparar a sua vingança. Deixou sua garotinha tomar uma overdose com as minhas bolinhas. Me pediu calmantes para dopar Luther e se masturbar em cima dele. Você é um doente!

- N-não Dez. Não foi isso que aconteceu!

Ele saiu disparado do armário e colou a arma na minha testa!

- CALA BOCA SEU FILHO DA PUTA SE NÃO EU TE APAGO AGORA MESMO!

Engoli as palavras, a minha língua e o resquício que eu tinha de coragem. Muito em breve eu iria visitar Guilherme do outro lado da vida e ficaria assombrando jovens drogados.

- Quanto dinheiro você tem no bolso?

- O que? – eu perguntei desnorteado.

- Eu estou falando outra língua, seu merda? Perguntei quanto dinheiro você tem no bolso.

Coloquei a mão e puxei a grana. Quase uns cinqüenta reais. Ele tirou o dinheiro da minha mão e jogou as moedas para cima de mim.

- Eu não sou mendigo. 

Então ele lançou para mim três saquinhos cheios de pó branco.

- Agora escuta o que vou falar. Mantém isso longe dela. Isso é para você não apagar. Pelas minhas contas essa mulher vai ficar acordada por uns dois dias e eu quero você tão aceso quanto ela.

- Mas...

Ele me deu outra coronhada com a arma. Dessa vez não sangrou mais a dor de cabeça que já estava insuportável aumentou em cem vezes.

- Presta atenção seu merdinha. Você vai passar na farmácia e vai comprar algum comprimidinho qualquer. Um Melhoral, uma Novalgina, qualquer porcaria dessas.

Comprar remédio para dor de cabeça depois de tanta porrada na cabeça? Disso eu não tinha dúvida nenhuma.

- Você vai dar para ela e dizer que é uma coisa que vai acalmá-la. Não vai fazer diferença nenhuma, mas uma coisa que eu aprendi é que drogados tem uma tendência em acreditar em Placebos. Então você vai ficar ao lado dela e o seu único objetivo é não deixar ela morrer.Se ela piorar, faça ela vomitar, qualquer coisa. A última coisa que eu quero é essa garota morta e um monte de policiais perguntando onde ela arrumou as drogas.

- Eu nunca contaria...

- Claro que não. Você está aí quase cagando em cima do meu sofá de tanto medo. Mas quando essas piranhas da Zona Sul morrem, a mãe quer justiça, a imprensa faz um circo. Vão começar a perguntar para um e para outro e vão concluir que ela esteve aqui. Entendido?

- Entendido.

- Depois você vai voltar aqui. Vai comprar um pouco para repassar na sua rua, no seu colégio ou sei lá onde. Você vai pagar toda a dor de cabeça que você me causou.

- Claro, Dez.

- Agora rala peito. Some da minha frente, antes que eu faça uma besteira, seu merdinha carioca.

Levantei e comecei a andar rapidamente para a porta. Quando já estava saindo do quarto ele colocou a arma na minha nuca:

- E, Vic. Assim que ela melhorar você vai terminar com essa mulher. Nunca mais vai aparecer no Casarão, em um show rock and roll ou em qualquer bar sujo que estiver tocando Metallica. Você vai sumir e deixar que Luther tenha um pouco de paz. Eu não sei qual é dessa garota, mas a buceta dela deve ser mais gostosa que chocolate para vocês todos ficarem em cima dela.

Ele empurou minha cabeça com a arma e eu sai do quarto, corri pelo corredor de sua casa, sai do apartamento e desci pelas escadas correndo. Acho que só fui respirar quando já estava a uns 4 quarteirões de distância daquele prédio.

Eu tinha a certeza que só não morri naquele dia porque iria causar mais problemas do que soluções para Dez. Mas estava claro que os meus dias de Viciado Carioca estavam contados. Depois daquilo tudo que vi naquele quarto, tudo o que ele me disse e, sobretudo o que eu fiz, ele não me deixaria circulando por aí. Provavelmente iria mandar alguém simular um assalto na rua, uma bala perdida, qualquer coisa.

Viciado Carioca iria morrer.




No próximo capíutlo: Os últimos passos de um homem.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Não é mais Domingo desde a sua morte...

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 14

A história até aqui: Depois da noite mais longa de todas, o pior aconteceu. Vic e Nic terminaram seu namoro. Que rumo o Vic dará para sua vida agora? Se você ainda não sabe o que está acontecendo, acesse os capítulos anteriores no menu lateral. Para os fieis leitores, recomendo que releia toda a saga clicando no menu lateral para não perder nenhum detalhe dessa grande história.

Sugestão de música: Alice in Chains - Down in a Hole

Promoção: Compre agora na Saraiva Viciado Carioca – Amor & Rock and Roll – o livro que reúne os Arcos I e II dessa incrível saga!

O meu pé ainda doía com o corte feito pelo caco de vidro quebrado da noite anterior, mas isso não me impedia a dar mais um passo.

Caminhando eu saí de Botafogo e cheguei no limite entre o Catete e a Glória. Estava cansado, mas isso também importava. Tão pouco eu ligava se meu rosto fervia com os sol que já queimava no céu, com os socos e tapas que Nicole me dera ou com as lágrimas que pareciam não acabar.

Nada mais fazia sentido sem ela. A dor, o cansaço ou a vida.

“Todo amor tem os ingredientes para se tornar uma grande bomba e destruir a vida dos dois de forma irreparável.”.

Essas foram às palavras de Guilherme que se tornaram reais depois de uma super-dosagem de anfetaminas.

Parei um instante e notei que as pessoas me ignoravam na rua apesar de eu ser o único vestido com roupas “de noite” em pleno Domingo pela manhã. Para elas eu era tão invisível quanto um fantasma.

Mal elas sabiam o estrago que um fantasma podia causar.

Aquela indiferença me causou um mal estar e decidi acabar com aquilo. Se estava morto, iria ficar quieto no meu caixão e tentar me isolar o maximo possível do mundo dos vivos. Eu ficaria dentro da caixa sem nenhuma esperança de alguém vir me salvar. Peguei um ônibus direto para casa e esse foi a última fagulha de pensamento racional que tive.

De resto eu só pensava em morrer.

Cheguei em casa e tudo estava tão silencioso quanto a minha alma. Meus pais tinham ido a Missa de Domingo. De certa forma, aquilo era uma benção. Eu não iria precisar explicar o que eu fazia em casa tão cedo. Ou tão tarde, dependendo do ponto de vista. Não sentia sono nem fome. Apenas sede e uma vontade infinita de morrer. Todos os meus movimentos eram lentos e pesados. Peguei uma garrafa de água e me tranquei no meu quarto.

Liguei a televisão, mas não prestava atenção no que estava acontecendo. Eu estava muito desolado para me entreter com algo.

Mesmo assim, coloquei a fita do Alice in Chains no walkman e ouvia aquele lamurio enquanto lembrava da minha briga com Nicole. Os discos quebrados, o cinzeiro estilhaçado, o buraco na parede, o meu nariz sangrando e as palavras ríspidas da Ruiva. Nenhuma briga deveria ir tão longe. Se Nicole não tivesse tão sensível e fragilizada pelas drogas certamente aquilo não teria acontecido. Se eu tivesse raciocinado que relembrar o pai falecido para a minha namorada depressiva era uma péssima idéia, aquilo não teria acontecido.

Se ela me amasse de verdade, aquilo não teria acontecido!

Sobretudo, se Guilherme nunca tivesse aparecido e dito as coisas que disse, certamente aquilo não teria acontecido!!!!

Que tipo de visão era aquela que vinha alertá-lo sobre o futuro e acaba mudando o rumo do destino? Ele me avisou que nosso namoro iria morrer e que eu aprenderia sobre sofrimento, mas se eu não soubesse disso, eu nunca teria pego aqueles discos, não teríamos brigado e tudo continuaria como sempre foi.

Comecei a odiar aquele suicida mais do que nunca. Não entendia o objetivo daquilo. Não estava certo. Afundei a minha cabeça entre as minhas mãos e o amaldiçoei com toda a raiva do mundo. Era como se eu tivesse seguido a risca um plano maquiavélico pré-formatado para mim e sem chance de escolha. Onde estava o raio do livre-arbítrio afinal?  Era essa porcaria que o destino me reservava?

Se fosse possível matar o morto, eu o faria.

Estava terminado.

Eu não conseguia absorver, mas era a mais pura verdade. Era algo muito esquisito. Como estar vivendo a vida de outra pessoa. O fim.

Gostaria de acordar na cama, ao lado da Ruiva, com a testa suada e contando a ela o pesadelo horrível que tivera. Ela iria colocar o livro da Polyanna de lado, me beijaria e diria que tudo tinha passado.

Mas não ia acontecer. Estava terminado. Eu estava na vida real e nem sempre o “jogo do contente” funciona por aqui.

Tudo perdia o sentido. Até beber aquela água para saciar a minha sede, não tinha razão.

Talvez eu estivesse experimentando o primeiro sintoma do “vazio” que a Ruiva descrevera. Conseguia prever meus dias; Em uma semana eu estaria enchendo a cara, chorando como um bebê e Lucas me consolando dizendo para ter calma e que o tempo era o melhor remédio. Os dias virariam semanas e depois meses. Nicole provavelmente estaria com outra pessoa e eu andaria novamente por aí, tentando preencher o vazio com atitudes misóginas.

Estava terminado e eu tinha sido feliz até onde o destino permitira. Pois é, nós morremos jovens.

Antes de conhecer Nicole eu me orgulhava de ser inconseqüente. Vivia a vida da forma que ela se oferecia para mim sem me importar com o que viria depois. Não queria nem saber. Nunca acreditei ou me importei com o destino.

No primeiro instante que eu vi a Ruiva caminhando pela grama do Casarão do rock, eu me apaixonei quase que imediatamente. Nesse nosso primeiro encontro ela pediu para que eu retirasse uma carta do maço de tarot e eu tirei justamente a carta da Morte. Lembro-me que fiquei assustado e ela me acalmou revelando que não era uma morte literal, mas se eu tomasse a atitude correta eu iria passar por varias transformações e no final, seria um homem diferente.

Foi o que aconteceu. Comecei a acreditar em destino e no amor. Aprendi a valorizar as mulheres, as minhas amizades e a não ser tão inconseqüente.

Agora o que eu era? Um garoto assustado de cara com a morte. Ferido, rasgado, perdido e esquecido. A verdade é que o amor é tão bom que faz você pensar que controla a sua vida, mas isso é uma mentira. Ninguém controla nada. Basta um segundo para que o jogo vire, a máscara da felicidade caia e o sofrimento surja como uma fênix renascida e fortalecida para queimar toda e qualquer alegria.

Afinal, isso era só fruto da tristeza que afundava a minha alma. Pois a grande verdade que negava era que tudo era minha culpa. Minha tão grande culpa. Eu fui atrás de Nicole enquanto ela tinha um namorado. Eu continuei com Nicole sabendo que ela gostava de garotas e eu forcei a todo o momento que ela declarasse um amor que ela nunca sentiu ou iria sentir por mim.

Estava tudo acabado, o mundo continuava girando, as pessoas continuariam as suas vidas e pouco se importando se eu estava morto por dentro ou não.

Comecei a desejar profundamente nunca ter conhecido Nicole, o amor e vivido tudo aquilo. Você pega um homem, o faz acreditar no amor. Dê para ele toda a felicidade que ele pode conceber. No final, você tira isso tudo em um estalar de dedos. O que sobra?

Dizem que a felicidade não se compra, mas será mesmo que se você nunca tivesse existido faria alguma diferença para o mundo? Se o poder absoluto corrompe absolutamente, do mesmo modo, a felicidade absoluta quando acabar trará a tristeza absolutamente.

Será que sua vida é tão importante assim?

Tentei apagar a minha mente disso tudo. Onde eu iria chegar com tantos pensamentos mórbidos? Mais um pouco eu literalmente iria pegar uma arma e estourar os meus miolos no banheiro.

Sabia que não iria conseguir dormir, não só por conta das anfetaminas, mas também pelo meu estado de espírito. Tão pouco eu iria me alegrar, mas também eu não precisava piorar a situação. Decidi deixar o Alice in Chains de lado e pegar algum livro.

Desliguei o walkman. Foi que eu percebi a televisão. A esperança estava morta, pois ele estava morto. Ele que acelerava rápido aos Domingos trazendo um pouco de vigor, de felicidade e de sonhos para todos nós acabara de falecer. 

Na televisão as pessoas estavam desesperadas. Notei que meus pais tinham retornado da igreja e choravam na sala.

Senna estava morto. O maior herói brasileiro dos últimos tempos, ou talvez de todos os tempos, não estava mais entre nós. O acidente fatal naquela curva maldita.

Todos precisam de heróis. Não precisamos do Super-homem e sua capa, da Mulher Maravilha e seu laço mágico, do Batman e seu cinto ou do Flash e sua velocidade. Precisamos de pessoas reais que superam todos os limites e nos mostrem que é possível realizar os nossos sonhos, independente de qualquer coisa. Basta ter a vontade e a determinação para vencer os obstáculos. Precisávamos de Ayrton e seu heroísmo todas as manhãs. Ele dava aos brasileiros algo muito valioso que muitos tentam vender, mas não conseguem.

Ele dava sonhos. Ele dava esperança. Mas nem mesmo o mais destemido herói pode lutar contra o seu destino.

Os heróis também morrem jovens.

Fui até a janela e olhei o mundo lá fora. De alguma forma eu sabia que todos choravam. Por alguns segundos, eu percebi que o Brasil estava tão triste como eu. Por alguns segundos eu me senti mais tranqüilo por não está sofrendo sozinho.

Até hoje me odeio por esse pensamento.

Minhas opções não eram nada boas. Poderia ligar para a Nicole e tentar uma reconciliação. E ouvir um monte de desaforos. Poderia pegar uma faca e cortar os pulsos. E acabar com uma vida aparentemente perfeita da minha família. Ou poderia simplesmente ficar ali parado esperando a morte chegar.

Desliguei a televisão e voltei a ouvir Alice in Chains no walkman. Fiquei deitado na cama virando a fita do lado A para o B e do B para o A durante horas sem nenhuma perspectiva da vida melhorar.

Até que o telefone tocou....e a vida piorou! 

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No próximo capítulo: Do pó viemos e ao pó voltaremos

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O vazio que nos preenche


Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 13

A história até agora: Depois de uma noite de anfetaminas e sexo descontrolado, Vic e Nic seguem para seu apartamento para a noite mais longa de todas. Se você está seguindo essa história desde o começo eu só tenho que agradecer a dedicação, a fidelidade e sobretudo a fé que eu vou continuar postando até o final.
E acredite. Eu vou continuar até o fim. 

Sugestão de Música: The Doors - The End
Chegamos à casa da Ruiva e o dia iniciava a sua luta com a noite. Estávamos sozinhos. A mãe de Nicole mais uma vez viajava com o namorado no fim de semana e só deveria voltar na segunda. Poderíamos dormir tranquilamente sem ser incomodados.

Pelo menos, esse era o meu plano.

Fiz um pequeno lanche na cozinha enquanto Nicole preparava o quarto. Ofereci a ela um dos meus maravilhosos queijos quentes temperados com orégano e alecrim, mas ela disse que não sentia fome. Com certeza efeito das bolinhas. A Ruiva é uma das maiores adeptas a larica pós balada que eu conheci. Acabei tendo que degustar o meu sanduíche com um refrigerante sem gás sozinho.

Quando terminei, fui para o quarto e desabei na cama. Eu estava totalmente esgotado. Nicole deitou ao meu lado e começou a acariciar a minha cabeça. Sua voz era tão macia quanto o de uma criança quando ela disse:

- É estranho. Sinto-me cansada, mas não tenho sono.

- O sono vai chegar logo, Nic. Só se acalme e procure não pensar muito.

Nem sei como respondi. Estava morto. Ficamos na festa o tempo todo em pé e logo depois veio à olimpíada sexual. Com certeza eu não acordaria antes das quatro horas da tarde. Não precisei de muito tempo. Em menos de dois minutos eu estava roncando.

Eu estava na minha casa. Tudo era silencioso e sem cor. As paredes, o sofá, as flores no vazo. Eu estava em um filme mudo e preto em branco.  

Guilherme sorriu, parado no corredor. Olhei para ele e levantei a mão para cumprimentá-lo, mas ele deu as costas e sumiu para dentro do apartamento. 

Eu o segui.

Ele parou na porta do meu quarto. Com sua voz tenra, ela cantou:

- Venha, Vic! Venha para a caixa!

A situação era linda. Hipnótica.

Eu entrei no quarto e ele fechou a porta. Virei para tentar encontrá-lo, mas ele não estava mais lá. Eu queria gritar seu nome, mas não fiz. Simplesmente deitei na cama, fechei os olhos e percebi que seria uma idiotice chama-lo. Por que ele estava ali comigo. Não ao meu lado, mas comigo.

Ele não estava sozinho. Deus estava conosco e todo os anjos e santos.

Ainda deitado na cama, abri os olhos e vi meu pai vestindo um terno preto. Meu irmão mais velho estava ao seu lado, segurando a sua mão. Meu pai chorava e gritava:

- Por que isso foi acontecer? Não é justo! Eu deveria ir primeiro.

- Está tudo bem. Está tudo bem. – meu irmão tentava acalma-lo.

Era exatamente o que eu sentia. Apesar de morto, tudo estava bem.

Tudo era belo e bonito. Não deveria existir sofrimento. Eu iria dizer isso ao meu pai. Então, levantei-me e toquei a sua mão para conforta-lo. Minha mão o atravessou e eu não toquei a sua carne e sim a sua alma. Ela estava tão escura, tão fria e tão seca quanto nenhuma dor que eu conhecia conseguiria causar.

Eu queria gritar, mas foi nesse momento que a Ruiva me chamou.

Nicole me acordou apenas trinta minutos após a minha cochilada. Minha boca estava amarga e uma azia de cerveja misturada com maconha transformava o meu estômago em gelatina. Ela estava sentada na cama e seus olhos continuavam tão arregalados quanto na primeira hora que ela tomara os remédios. Ela disse afobada, com uma voz vacilante:

- Não consigo dormir.

- Pega o pior livro da casa e leia uma ou duas páginas. Tenho certeza que você vai sonhar antes de terminar um capítulo.

Depois de responder eu me virei de lado, ajeitando o travesseiro. Mal acabei de me acomodar e estava dormindo novamente, mas ela me balançou outra vez.Vire-me e ela mostrou uma edição tão antiga de Pollyanna que os ácaros naquelas páginas deveriam ser tombados como patrimônio histórico.

- Eu tentei isso. Mas esse livro é muito depressivo. Essa garota é muito feliz! Ninguém pode ser tão contente assim.

Eu achava que seu mau humor matutino era por acordar, mas parecia que mesmo depois de uma noite em claro ela era naturalmente depressiva no início do dia. Eu nem conseguia raciocinar direito. Eu tentava abrir os olhos, mas as palbrebas queimavam o meu rosto:

- Escolhe outro livro, Ruiva.

- Eu acho que nunca mais vou conseguir dormir, Vic.

A ruiva estava assustada e suas veias continuavam saltadas. Suspirou e por fim disse:

 – Eu acho que vou morrer.

Esforcei-me para levantar e sentei na cama. Olhei para Nicole e o seu brilho tinha desaparecido. Sua cara estava abatida, seus cabelos alaranjados estavam desarrumados e ganhavam uma tonalidade acinzentada em algumas partes. Ela apoiou a cabeça em meus ombros e começou a chorar copiosamente.

- Fique calma. Você não vai morrer, Nic.

Sinceramente, nem eu acreditava em minhas palavras. Como tinham passado algumas horas desde que ela tomou os comprimidos e nada mais aconteceu além da sua velocidade exacerbada e seu apetite insaciável por sexo, pensei que a maior parte do efeito tinha passado. Porém, sua imagem fragilizada me abismava. Nicole era um reflexo distorcido daquela pessoa que apenas algumas horas antes era um vulcão sexual. Foi como se tivesse encontrado cara a cara com a morte que roubou um pouco de sua alma.

- Não me deixe sozinha! Por favor! – ela suplicou.

Eu fiquei pensando se estivesse ciente após o encontro com o fantasma de seu pai, eu não teria a mesma reação. Deus, eu só fui recobrar a consciência no dia seguinte e estava me cagando de medo. Nicole era sensitiva, ela limpava a aura e falava sobre o destino através das cartas de tarô. Será que ela também tinha tido uma experiência metafísica?

- Você está tendo alucinações? Viu algum espírito ou algo do tipo?

Minha voz soava fraca. Eu estava muito cansado. Mesmo preocupado, seria difícil fazer companhia a Ruiva.

- Não. Isso também está me assustando. Nem sua aura eu consigo mais enxergar. Quando forço para lembrar como era na festa, eu simplesmente não lembro. Não consigo recordar se eu enxergava ou não o espectro das pessoas na noite passada.

Ela voltou a chorar e enfiou a cara novamente no meu ombro:

 – Eu já li isso em um livro, Vic. Quando um médium vai desencarnar, ele perde a sua sensibilidade momentos antes de sua morte. Eu vou morrer. EU VOU MORRER, VIC!.

- Para com isso, Ruiva. Eu já disse, você não vai morrer. Só está muito acesa para dormir. Fica clama.

Cada lágrima que caia no seu rosto era um rasgo no meu coração. Eu senti uma pontada na cabeça e paulatinamente a dor foi aumentando, como se uma serra elétrica tivesse sido ligada na velocidade máxima no meu cérebro. Era o sono. Eu precisava dormir.

- Não me deixe sozinha. Por favor, Vic!

Mais do que qualquer coisa, eu precisava muito de algumas boas horas de sono. Mas eu não poderia. Eu tinha que ficar ao lado de Nicole. Segurei seu rosto desesperado entre as palmas da minha mão e falei em um tom calmo, quase sedutor:

- Tudo bem. Você só precisa se distrair. Por que não vai me fazer um café enquanto eu procuro uma aspirina para curar a minha ressaca, ok? Eu não vou dormir até você conseguir. Eu prometo.

Ela concordou comigo. Me abraçou, me beijou e então levantou.

Eu esfreguei o rosto. Minha cabeça doía como eu nunca tinha sentido antes. Maldita ressaca. Mesmo com todo café do mundo, eu não iria conseguir ficar acordado. Eu poderia ter despertado naquele momento, mas depois que Nicole se acalmasse, provavelmente eu iria cair no sono outra vez.

Era difícil de admitir, mas só existia uma coisa a se fazer.

Catei a minha calça jeans em um canto do quarto e não foi difícil encontrar a cartela dentro do meu bolso.

A última bala que restara.  O ecstasy que eu precisava. A pílula que Nicole poupou, pensando que estava sendo prudente. Na cabeça dela, era para tomar as quatro de uma vez, e tomou “apenas” três para experimentar a droga.

Saí do quarto e cheguei a cozinha com o comprimido na mão. Ela estava fazendo o café e deu um sorriso ao perceber a minha presença. Peguei um copo d’agua e mostrei a ela o remédio. Nicole se desesperou:

- O que você vai fazer? Você não está pensando em tomar isso!

- É a única maneira de me manter acordado.

- Você está maluco? É isso que está me matando e você pretende engolir esse veneno?

- Não acredito que isso esteja te matando, Nic. Não vou deixá-la sozinha nesse seu estado tão depressivo. De qualquer forma, esse comprimido vai me manter acordado.  .

- Isso é suicídio, Vic.

- Se for, seremos um Romeu e Julieta modernos. – Coloquei o comprimido na boca, levantei o copo em reverência - Senhorita Capuleto, ao pacto! –

Engoli a bolinha.

Imediatamente caí no chão da cozinha com a mão apertando o meu peito e estrebuchando de dor.

– Estou morrendo! – eu gritava.

Nicole me chutou:

- Não tem graça, seu babaca.

Levantei-me com um sorriso idiota nos lábios.

- Eu só queria cortar um pouco a tensão.

Segui para o quarto de Nicole novamente. Ainda não sentia nada de diferente. Não podia me deitar. Talvez um pouco de música pudesse cortar o clima pesado. Comecei a pegar os vinis para colocar alguma alegria no ambiente. Eram seis horas da manhã e eu teria um dia inteiro pela frente. Um pouco de música não faria mal.

Minha mente começou a martelar que aquela era uma bela hora para matar uma dúvida. Deixei os discos da Nicole de lado e fui até a sala. Comecei a revirar os discos. Era uma grande coleção apesar do gosto questionável. A quantidade de LP’s de novela e os promocionais de rádio eram ridiculamente constrangedores.

Não demorou muito e os encontrei. Contei no mínimo uns cinco do Gonzaguinha.

- Por que você está mexendo nessas velharias?

Nicole entrou na sala com duas xícaras altas de café. O cheiro era maravilhoso, apesar de eu não estar tão interessado na bebida. Ela se aproximou e notei que a droga já fazia efeito na minha mente.

Quando ela arriou a xícara na minha direção, entendi perfeitamente o que ela quis dizer com as gotas do chuveiro. Eu conseguia ver cada “frame” do movimento. Era como se um estrobo tivesse ligado na sala e congelasse os movimentos a cada segundo.

- Eu queria ouvir algo diferente. Algo com otimismo e acho que Gonzaguinha vem bem a calhar.

Ela olhou indiferente enquanto eu tentava escolher o disco certo. Não tive dúvidas quando vi o homem barbudo, com aquele semblante de malandro, sentado no quintal de alguma casa na capa de “Caminhos do Coração”. Escrito a caneta estava a assinatura de Guilherme e o ano 1982.

- Era o cantor predileto do meu pai. Ele escutava isso o tempo todo. Eu nunca te contei isso? – ela disse tomando uma golada no café, claramente se controlando.

- Acho que não. Isso te deprime? – eu disse sem perceber como era idiota aquela idéia. Mas ela evidenciou isso enfaticamente:

- Se me deprime? Vic, se Pollyana me deprime, o que você acha que vai acontecer ouvindo as canções favoritas do meu pai suicida? Você é um imbecil.

Ela voltou a chorar. Larguei os discos de lado e fui abraçar a Ruiva. Eu realmente não tinha pensado na sua reação. Eu queria saber se o encontro com o fantasma fora verdade. O contato com aquela visão. Entender mais um pouco sobre a psicologia de Guilherme e talvez compreender perfeitamente a sua mensagem para mim.

- Desculpa, Nic. Mil desculpas, eu não pensei direito. Eu só achei que precisávamos de um pouco de alegria e as músicas do Gonzaguinha são tão otimistas.
Minhas palavras se atropelavam. Meu sono tinha sumido de vez e eu não me sentia tão cansado como no momento que chegara.

Na verdade, me sentia cheio de energia.

- Gonzaguinha é tão otimista que o seu maior fã colocou uma pistola na boca e explodiu a sua cabeça dentro daquele banheiro. Para merda com Gonzaguinha!

Nicole correu até os discos e começou a pular em cima deles.

– Eu odeio isso. Odeio essa vida. Eu odeio tudo.

Dava para escutar o barulho dos discos quebrando enquanto a Ruiva gritava a sua ira. Eu me sentia mais culpado do que nunca. Mais uma de minhas idéias imbecis. Eu devia lembrar que a última vez que ela me falou do pai estava em prantos. Mesmo assim, só para satisfazer a minha curiosidade, eu abri uma cicatriz que nunca fora curada por completo.

A saudade paterna iria sangrar na alma da Ruiva por toda a sua vida. Eu andei lentamente ao seu encontro e tentei abraça-la.

- Desculpa, Nic. Vamos esquecer isso.

Ela desvencilhou dos meus braços e começou a socar o meu peito.

- Você não entende. Nunca perdeu alguém que não teve tempo o suficiente para amar de verdade.

Ela me empurrou para longe e caiu ajoelhada no chão. Apertava os discos com força e contra o peito. Voltou a falar:

– No início você só chora e as pessoas dizem que o tempo vai te consolar, mas quando ele passa, você não sente mais dor, saudades ou sofrimento. A única coisa que você tem é um vazio enorme que você não consegue preencher. Você nunca consegue superar isso e nunca consegue chorar de verdade quando quer se aliviar. Só existe o nada. O vazio. – ela amassava as capas dos discos e quebrava os poucos pedaços que ainda restavam. – Você me pede para esquecer isso, Vic? Eu nunca vou esquecer isso!

Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas nenhuma gota escorria pelo o meu rosto. Eu me segurava para não chorar. Não poderia me dar esse luxo. Eu tinha que ser forte para reerguer a Ruiva. Abracei forte e dessa vez ela não fugiu. Apenas aceitou aquele abrigo carinhoso e ficamos ali por algum tempo. Depois levantou-se e eu a acampanhei. Ela olhou para mim de maneira séria e disse:

- Por que você fez isso? Por que pegou nesses discos agora?

Eu tinha a resposta na ponta da língua, mas não poderia dizer-la. Não poderia contar a ela sobre a minha alucinação. Sobretudo naquele momento, depois de todo o desabafo e com nós dois sob o efeito das anfetaminas.

- Eu não pensei direito. Desculpa.

Seu corpo tremeu. Ela fechou os braços tentando segurar o máximo. Mas no fim, sua fúria explodiu e ela desferiu um sonoro tapa no meu rosto.

- Seu merda. Olha o que você me fez fazer! Eu quebrei todos os discos do meu pai. Os discos prediletos dele e isso porque você “não pensou direito”.

Eu não reagi e isso a motivou a me bater mais. Deu outro tapa e começou a me chutar.

- Eu te odeio! Eu te odeio! Eu te odeio!

Nicole gritava enquanto continuava me batendo. Eu tentava segura-la, mas ela escapava, me arranhando e me socando. Meu corpo estava em chamas e adrenalina corria como uma manada descontrolada.

- Para Nicole, porra!

Meu grito não adiantou. Ela bateu mais duas vezes em meu rosto com a mão fechada e uma gota de sangue caiu do meu nariz em cima do meu peito desnudo. Então, eu armei um soco para dar na cara de Nicole.

Pura reação de defesa. Minhas pupilas dilatadas, o sangue pingando, o corpo fervendo e a minha cara de raiva.

Foi o seu rosto assustado que me deteve antes que eu cometesse a maior besteira da minha vida. Ela ficou me olhando e eu baixei a mão não acreditando no que eu estava prestes a fazer.

- Você ia me bater seu merda? Quer dizer que você iria me bater??

Ela gritava e eu não encontrava uma maneira de justificar aquilo.

- Eu não pensei, eu só reagi.

- Você nunca pensa, seu escroto. Você é burro de mais!

Ela voltou a me bicar. Pegou um cinzeiro na mesa da sala e jogou na direção da minha cabeça.

Eu desviei no último momento e o cinzeiro se espatifou contra a parede, fazendo um pequeno buraco e quebrando-se em vários pedacinhos. Comecei a acreditar que aquele seria o momento da minha morte. Eu seria assassinado pela única mulher que amei verdadeiramente.

A Ruiva estava furiosa e todas as veias do seu corpo estavam sobressaltadas. Era uma cena até patética de se ver. Ela com um pijaminha de pano rosado. Infantil. Eu apenas de cueca e aquela briga infernal.

Limpei o sangue do meu nariz e ela partiu para cima de mim, apontando o seu dedo na minha cara:

- Saí daqui. Eu quero você fora dessa casa e fora da minha vida.

Seus olhos estavam injetados de sangue e seu rosto totalmente vermelho. Ela me bateu mais uma vez e naquele nosso melhor momento, o interfone do apartamento tocou.

- Ah, que merda! – ela gritou e correu para a cozinha.

Meu nariz ainda sangrava e fui até o banheiro. Peguei um papel higiênico. De lá de dentro, podia ouvir os gritos da Ruiva no interfone

– Aquela velha está reclamando do barulho? Manda ela enfiar o barulho dentro daquela bunda caída!

Meu Deus, onde fomos chegar?

Eu voltei para a sala e coloquei a minha cabeça para o alto, rezando para que o sangramento parasse.

- Se ela quiser chamar a polícia, que chame!

Nicole gritou e escutei ela batendo o interfone violentamente.

Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo.

Ela voltou para a sala furiosa e olhou desdenhosamente para mim. Eu não disse nada, apenas a observava como um garoto assustado. Ela colocou a mão na cintura e determinou:

- Eu vou tomar um banho e quando eu acabar espero que você tenha ido embora.

Saiu da sala e bateu forte a porta do banheiro.

Era o fim.

A grande paixão da minha vida terminava da maneira mais truculenta e brutal que eu jamais poderia imaginar.

Eu temia o fim o tempo todo. Mas achei que aconteceria de maneira tranqüila. Ela finalmente iria confessar que não me amava e voltar para o Luther. Arrumar uma garota
ou até, muito provavelmente com um idiota do tipo o Pedro dos Garotos Radioativos.

Se você não ama ninguém, mas não quer ficar sozinho, a melhor opção é escolher alguém com personalidade mais fraca possível, para não ter tantos problemas. E Pedro, o vocalista da pior banda de rock and roll era a melhor opção.

Finalmente concluí o óbvio.

O que Guilherme me alertara o tempo todo e eu com meu medo infantil não enxerguei. A morte que ele anunciara, não era uma morte física. Não era a morte de fato e sim o fim do meu relacionamento com Nicole.

A primeira gota salgada brotou preguiçosa em um dos meus olhos. Como se não acreditasse na verdade incontestável, ela desceu lentamente pelo o meu rosto e morreu inerte no meu lábio. A segunda veio naturalmente e antes de tocar meu queixo, já era seguida pela terceira. A quarta e quinta gota se transformaram rapidamente em uma cachoeira que nascia dos meus olhos.

Me vesti e fui embora.

Estava tudo acabado entre eu e Nicole.  

No próximo capítulo: O Domingo não é o mesmo desde que você se foi...