domingo, 25 de fevereiro de 2007

Ler é a maior viagem!

Estávamos lá não necessariamente pelo Carnaval. Isso ficava claro nas estampas de caveiras, de garrafas de whisk e de coisas em chamas em nossas camisas pretas. Mas o certo é que estávamos lá mais ou menos com o mesmo objetivo de todo mundo: ficar bêbado, dar algumas risadas e, com um pouco de sorte, conseguir um belo par de pernas.

Lucas, o gordo, é que tinha dado a idéia de irmos a esse bloco em Laranjeiras. Eu preferia muito bem ficar quieto, tomar algumas latinhas e me preparar para a viagem do dia seguinte. Mas é difícil dizer não para o meu amigo obeso quando ele quer alguma coisa. E é muito mais difícil ficar em casa em uma sexta-feira.

Conosco estava Assis. Empunhando uma garrafa do bom e velho Jack, ele dispara contra mim:

- Quer dizer que agora você é perseguido pela polícia? O que vai fazer quando quiser falar de drogas? - Eu roubo a garrafa de sua mão, dou um belo gole e o Estranho mundo de Jack Daniel’s me dá uma bela idéia:

- Vou continuar falando, mas agora vou trocar qualquer termo que remeta a drogas por escritores. Assim, eles poderão acusar-me de apologia à literatura mundial. Ele recuperou a garrafa:

- Você está bêbado! – Ele estava certo, ninguém agüenta um bloco sóbrio. Eu rebati:

- Sim. Genialmente bêbado.

Ao nosso lado o cara pegava uma magricela vesga. Parece que não existe um padrão ISO para blocos carnavalescos. Do outro lado existe uma rapaziada gritando alguns sambas. Lucas puxou uma nota de dez e trouxe algumas geladas para nós. Vamos misturar e tentar convencer nossos fígados que ainda temos 17 anos. O meu deve ter uns 100, mas eu não estou ligando. Dou mais uma talagada no meu bom amigo Jack. Coloco a garrafa entre as minhas pernas e pego uma Skol e começo a fazer o discurso de abertura:

- Existem algumas coisas imutáveis no nosso mundo. O céu vai continuar lá em cima, o chão aqui em baixo e mais o que? Alguém sabe? – Eles me encaravam curiosos – Bem, a outra coisa é que nosso amigo Assis não vai voltar para casa sozinho. – ele não gostou muito do meu comentário. Assis fica puto quando a gente fala que ele vai Assisar durante a noite. (Assisar é o verbo que a galera usa quando alguém vai pegar uma mulher). Mesmo sendo o cara mais novo da turma e nem muito bonito, o rapaz tem um talento especial. Talvez ele seja o primeiro X-men com um poder realmente útil. Ele mudou de assunto:

- Lá vêm vocês com esse papinho. Olha só, eu vi uma rapaziada lendo um bom Machado de Assis naquela pracinha. Por que a gente não chega lá e dá uma lidinha? – Lucas, um grande viciado em literatura, logo concordou. Eu me recusei:

- Vão lá vocês galera. Já não leio há algum tempo e prefiro continuar iletrado. Fiquem a vontade que eu vou ficar conversando com o meu bom e velho Jack. - E lá foram eles para a sala de leitura. Com certeza Lucas tinha algum livro de Bolso. Provavelmente um Kerouac. Tanto faz.

Fiquei ali observando as pessoas. Uma bela loira chegou perto do homem do isopor e pediu para ele trocar a cerveja dela que estava quente por uma gelada. Que coisa mais maluca, eu pensei. O que aquela doida fez? Comprou cerveja barata no supermercado e ficava trocando? Caramba, a situação financeira da galera não está muito boa mesmo. Pessoal já está mendigando cerveja. Na minha época, quando estávamos quebrados comprávamos uma garrafa de vodka e misturávamos com refrigerante ou com um suco qualquer. Essa nova geração...

Fiquei paquerando uma linda ruiva branquinha. Estava vestida nesse novo visual “rebeldes”, o que ficava difícil precisar a idade. Pensei em ir lá e falar alguma besteira sobre a sua saia, mas eu estava sem muita locomoção com a garrafa de Jack entre os pés, a latinha de cerveja na mão e o Marlboro na boca. Ela estava junto com uma japonesinha vestida da mesma forma. No auge da minha fantasia sexual, uma morena me interrompeu.

- Me empresta o isqueiro? – Era uma mulata. Não era muito bonita, mas tinha um belo corpo. Um par de coxas que podia me quebrar. Ela olhou em direção as “meninas rebeldes” e depois olhou para mim, como se estivesse me repreendendo. Eu dei de ombros e falei:

- Qual é? Não é todo dia que a gente vê dois fetiches juntos.

- Vocês homens... só pensam nisso....

- Nada. Também pensamos em ficar bêbados. – peguei a garrafa e ofereci um gole. Ela aceitou.

- Eu sou Vic.

- Eu sou Tânia. Você está sozinho aí?

- Alguns amigos meus estão lendo Veríssimo ali na praça.

- Você não é chegado em literatura?

- Isso é uma longa história....

- Bem, se quiser podemos te fazer companhia até eles voltarem.

- Você está com quem? – Ela assoviou e uma loirinha baixinha se aproximou. Isso estava ficando bom. A loirinha era daquele estilo baixinha gostosa. Chegou pulando:

- Oi!

- Opa! Eu sou Vic. – E a morena respondeu pela baixinha:

- Essa daqui é a Fê, a minha namorada. – e as duas se abraçaram. Eu quase engasguei com o gole de cerveja. Dei uma risadinha e falei para Tânia:

- Parece que essa é a noite dos fetiches. – E ela respondeu de pronto:

- Não os meus.

Não sei se os caras virão de longe que eu conversava com duas garotas e decidiram fazer uma leitura dinâmica, ou simplesmente só deram uma lidinha rápida no primeiro capítulo, sei que eles logo apareceram para nos fazer companhia. Fui logo me apressando para retirar qualquer vontade escusa de Assis em cima do meu novo casal lésbico de amigas.

- Esses aqui são Assis e Lucas e essas aqui são as minhas novas amigas lésbicas Tânia e Fê. – sinceramente, não sei se isso foi muito inteligente. Assis, como qualquer homem, ao ouvir a palavra “lésbica” ficou mais excitado do que nunca. Tânia, claramente o macho da relação, deixou evidente as suas intenções:

- Parece que nosso amigo Vic estava com problemas de matar essa garrafa de Jack e viemos aqui reforçar o time dele. Algum problema? – Sei lá, acho que eu nunca falei em um tom tão macho quanto a Tânia. Achei foda. Gosto de amigas com personalidade forte.

- Sem nenhum problema – Lucas respondeu com um sorriso – portanto que depois você compareça com algumas geladas. Tânia concordou e ainda acrescentou:

- Quem sabe depois do whisk vocês não me acompanham na Divina Comédia? – Assis na mesma hora concordou e o grande gordo já estava radiante. Ela deu um gole, passou a garrafa para mim e perguntou:

- Qual é, Vic? Abre o jogo! Você tem cara de rato de biblioteca! Nem uma lidinha?

- Como eu te falei, eu já fui muito fã de Conan Doyle, mas hoje estou paradão.

- Conan Doyle?

- Elementar minha cara Tânia.

- Engraçado, eu achei você mais com cara de Rowan Robinson.

- Até já curtir, mas o meu negócio era John Fante.

- Nossa! Prefiro ficar no meu Carl Sagan que estou bem.

- Com certeza.

- Mas como você conseguiu parar com Baudelaire?

- Usei um pouco de Descartes.

- Descartes?

- Pois é. Só Freud explica. – Tânia ficou tão entretida com o nosso papo que só notou que Assis estava em cima de sua namorada quando voltou com a cerveja. Pensei que iria ter algum tipo de problema, mas no final pareceu que aquele cinto de arco-íris que ela usava não era tão colorido assim. E logo que o gordo deu uma escapadinha para dar uma mijada, os três foram até a praça para um Kafka rápido e não voltaram mais.

- Pois é, gordo, acho que rolou uma Assisada.

- Como ele conseguiu isso?

- Sei lá. A Tânia me pareceu tão bêbada. Daqui há uns dez anos ela vai poder falar que no carnaval de 2007 ela ficou tão bêbada que até homem ela pegou.

- Mundinho doido esse.

- Por que você não parte comigo e o resto da galera para Lumiar amanha?

- Porra, eu tenho que abrir a locadora amanhã. Malditos viciados em filmes. Aproveitam esses dias para alugar umas 10 porcarias e não sair de casa nem pelo cacete. – A família de Lucas tem uma dessas locadoras poeirinhas em Botafogo. Mas a verdade é que o Gordo não viajou para fazer exatamente a mesma coisas que seus clientes viciados em filme. Ficamos em Laranjeiras madrugada adentro olhando as gostosas, discutindo livros e filmes. De certa maneira, aquilo me deu um bom sinal para o carnaval que ainda estava por vir.

6 comentários:

  1. hahaha, vic.. vc é de uma criatividade da porra... o torcadilho com a literatura ficou do kct... mas se eu fosse vc tinha ido pegar as rebeldes haiouahoi


    flw ai doido

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  2. Caralho!

    ficou loco os trocadilhos!

    kkkk

    sucesso, e cuidado com Dan Brown hehehe.

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  3. hauhauhuahuaa... bela idéia, essa da literatura! É a prova que driblar a censura aguça a criatividade! :D

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  4. Gostei do verbo, Assisada!
    HAHAHAHAHAHAHAHA
    Muito bom!

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  5. ahuah

    a parada eh saber


    u u William Shakespeare.


    eauaaeuioae

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