segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Sutilezas

O bar na sexta-feira sempre está mais animado. Geralmente na sexta o pessoal está com disposição para beber, o que já não acontece no Sábado onde muitos acreditam que é uma obrigação. A diferença é sutil, nem todos percebem, mas eu consigo perceber isso até no cheiro.

Lucas, meu amigo gordo, marcou de tomar umas geladas comigo. Parti direto do trabalho. Gravata afrouxada, barba por fazer e calça social. Se existe uma coisa que eu odeio no meu trabalho é o diabo da calça social. Ela é uma espécie de Miss Universo das calças. Ela é mais leve que um jeans, mais bonita que um jeans mas não é uma boa calça. Assim como a Miss Brasil, Universo ou qualquer outra Miss. É bonita, educada e coisa e tal, mas parece que falta alguma coisa para ser uma mulher de verdade. A diferença é sutil, nem todos concordam, mas eu não trocaria uma mulher de bar, com risos altos e gostosos e um cigarro no canto da boca por uma Miss.

Então eu estava solitário nesse bar, tomando chope no balcão e matando tempo para o Lucas chegar. Ele estava esperando dar umas nove horas para fechar a locadora. Na calçada uma grande mesa. Universitários, eu chutei. Mas tinham um ou dois sujeitos com sotaque. Tinham umas mulheres no canto conversando e os homens estavam em pé, rindo bastante. Pedi um sanduíche de pernil com abacaxi. Um dos meus prediletos em botecos. Existe uma coisa no sanduíche de pernil com abacaxi desses pés sujos que me atrai. Eu não sei dizer o que é. Já fiz várias vezes o mesmo sanduíche, com os mesmo ingredientes em casa e não rolou. O caseiro fica gostoso, mas o do bar tem um gostinho de mal feito. A diferença é sutil, uns atribuem a chapa engordurada, dizem que o abacaxi absorve aquela gordura o que em casa não acontece. Eu acredito que seja verdade.

Comi meu sanduíche observando o papo das meninas. Falavam de cabelo. Sabiam tudo do assunto. Como o cabelo se comporta no vento, na chuva, no calor, no frio, em ambientes fechados e toda essa porcaria. Não sei por que, mas comecei a reparar nessa loira nariguda. Eu nunca fui fã das narigudas, mas aquela tinha uma beleza peculiar. Uma diferença sutil, que um sujeito que estava em pé notou muito antes de mim, e isso explicava porque os dois estavam namorando. Desisti da loira e comecei a oferecer os meus olhares a uma baixinha.

Pedi outro chope e decidi dá uma reparada na rapaziada para ver se alguém estava com a baixinha. Em pé os homens falavam de futebol. Sabiam tudo do assunto. Como o Joel deveria escalar o Flamengo, o que o Botafogo deveria fazer para se manter na liderança e a invencibilidade quase sobrenatural do Vasco nos jogos em casa. Eu tinha acertado, tinham dois paulistas naquele grupo. Um era Palmeirense e o outro São Paulino. Eles usavam calças sociais e o resto do grupo jeans. Uma diferença sutil.

A baixinha se desgarrou do rebanho e veio em minha direção. Fiquei estático. Não tinha notado ela me olhando. Ela passou por mim, trocamos olhares e ela seguiu até o banheiro. Fiquei na dúvida se olhar dela era me dando condição ou se era um olhar de “por que esse psicopata está me encarando”. Parece que não, mas a diferença do olhar de uma mulher é sutil. Bem sutil e muitos não entendem muito bem o que quer dizer. Eu faço parte desse nada seleto grupo.

Decidi eu mesmo dar uma mijada. Já estava no quarto chope e nada de Lucas. Fui até o banheiro e fiquei vigiando se a minha calça social não ia fazer nenhuma gracinha. Sei lá, desejar a paz mundial ou qualquer coisa estúpida parecida. Fiz tudo muito rápido porque não queria perder a volta da baixinha. Encostei no balcão e fiquei na marcação. Tentava mostrar tranqüilidade e desinteresse enquanto aguardava. Essa diferença sutil na hora de chegar numa mulher pode ser vital.

Ela saiu do banheiro e eu ainda não tinha decidido se chegava ou não. Nem tive tempo para decidir. Ela veio ao meu encontro e perguntou se a gente não se conhecia, eu respondi que possivelmente sim porque não esquecia facilmente um sorriso bonito. Ela agradeceu e perguntou de onde era. Eu respondi que não sabia e quis saber onde ela morava, o que ela fazia. Ela respondeu que morava na Tijuca mas que estudava ali em Botafogo. Eu disse que provavelmente a gente se conhecia de alguma festinha maluca da vida. Ela concordou e começou a olhar para as amigas. Eu convidei para tomar um chope comigo e ela disse que não dava. Eu insisti dizendo que não era nada de mais só para descobrirmos onde já tínhamos nos esbarrados e ela falou que provavelmente na próxima vez e disse para eu tomar mais cuidado quando eu fosse ao banheiro. Eu não entendi nada e ela se foi. Tomei mais um chope e o gordo chegou. Paguei a conta e seguimos para um outro bar. Antes de ir, mandei um tchau para ela e ela me respondeu com outro e riu junto com as amigas. Lucas me perguntou o que aconteceu e eu contei tudo que tinha rolado. Como estava ali paquerando a baixinha, como ela tinha sido simpática, como ela tinha ido embora e como ela tinha falado para eu tomar cuidado quando fosse ao banheiro. Lucas de uma boa olhada em mim e me mostrou a diferença sutil entre um homem interessante e um completo idiota: os pingos de mijo marcando a calça.

13 comentários:

  1. Realmente a linha é ténue entre o sucesso e a derrota.

    Ótimo texto como de costume Vic.

    Abs.

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  2. Existe algo diferente nesse texto, algo sutil, que poucos percebem, e acredito fazer parte deste seleto grupo.

    Abração Vic, fica em paz!

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  3. Que no próximo texto o vic se de bem...

    Abs

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  4. oh, tinha esse mesmo problema com calça soci, mas hj sou HEAVY USER das mesmas. Sempre uso com tênis e pólo, workwear. Sobre o olhar feminino, muito feliz em comentar o assunto, sobre a DECODIFICAÇÃO do mesmo.


    Sobre a mijada, aquela espremidinha no final é essencialmente necessária.

    Persisitindo os sintomas, procure um urologista.

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  5. Se prestasse atenção no seu ao invés de ficar manjando o Chico Buarque, isso n aconteceria...

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  6. hauhauahu

    depois do chico buarque vc anda meio que viajando nos banheiros hein vic ^^



    otimo como sempre esse texto

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  7. ahhahaha

    muito bom vic...diferencas sutis que realmente fazem a diferença


    abraço

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  8. Sutil!
    Adorei a "diferença sutil" de tudo o que pode ser sutilmente diferente.
    Você continua escrevendo gostoso!
    Beijos!

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  9. "eu não trocaria uma mulher de bar, com risos altos e gostosos e um cigarro no canto da boca por uma Miss."

    eh por isso que eu acho que tu sabe tudo! ;)

    beijos

    .
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  10. ahahahahahaha
    mermão, curti demais o texto
    esse primeiro parágrafo descreveu um sentimento que eu nunca consegui transformar em palavras antes!
    realmente sábado rola uma obrigação de beber, sexta é mais a instiga!
    valeu brother, se garantiu
    o texto da peituda em búzios é fudido tambem!
    abração! se um dia tu vier em fortaleza e a gente se esbarrar eu boto um do solto! falou!

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  11. Pensei que o ultimo pingo era da cueca...

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