segunda-feira, 30 de abril de 2007

Recife

Os sete pecados capitais – Parte 1 - Ira

Era Sábado e eu estava trabalhando. Meu chefe me mandou em uma jornada exaustiva por sete capitais do país durante sete dias para treinar um grupo que vai treinar outro grupo que irá treinar outras pessoas a usarem um sistema ultra-moderno para dar respostas sem sentido no telefone quando um cliente ligar. Coisas de trabalho. Para isso, eu deveria trabalhar sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta e sexta. Sem piscar. Pegando aviões, táxis e dormindo em hotéis que eu nunca me hospedaria em condições normais. Ele também me arrumou um Laptop e um celular que liga de graça. Coisas de trabalho.

- Tome cuidado. – ele disse na sexta-feira.

- Esse é o meu segundo nome. – dei um tiro com o meu dedo e uma piscadinha. Não é isso que os idiotas trabalhadores fazem?

- Não se esqueça de usar gravata. – ele recomendou.

- Eu nem durmo sem uma. – eu também odeio o Vic-trabalhador.

Ele fez questão de frisar que uma boa apresentação, pontualidade e educação faziam grande diferença no treinamento. O que ele queria realmente dizer nas entrelinhas era para eu não encher os córneos entre uma viagem e outra e não ficar fazendo piadinhas obscenas. Coisas de trabalho.

Como tudo aconteceu em cima da hora, a empresa não conseguiu coordenar perfeitamente os horários dos vôos com os horários do treinamento. Meu primeiro destino era Recife, aonde eu chegaria por volta de quatro da manhã para fazer um treinamento às oito. Coisas de trabalho.

Como tudo aconteceu em cima da hora e a empresa só me colocou nessa viagem porque a pessoa mais qualificada está de licença maternidade eu decidi que deveria ligar o foda-se e me divertir em cada capital brasileira que eu fosse passar. E para isso, eu me prometi cometer um pecado capital em cada destino. Coisas da vida.

Fiz tudo correndo. Joguei algumas roupas caretas com as roupas normais dentro da mala. Sem me importar muito, viajei de calça jeans e uma camisa do Ramones, sem saber que ela iria ser o meu passaporte para diversão na capital Pernambucana. Coisas da vida.

Sentei no avião torcendo para que alguma gostosa sentasse ao meu lado. Não conheço nenhuma história de alguém que tivesse pegado “a gostosa ao lado” em uma viagem de avião, de ônibus ou de metrô. Mesmo assim, torci. Coisas da vida. Sentou um negão. Ficou me encarando. Logo percebi que ele estava com outras pessoas que se sentaram em bancos diversos da aeronave. Ouvidos os procedimentos imbecis de emergência, tripulação preparada para decolagem. Vamos voar.

Antes do amendoim, o sujeito finalmente abriu a boca.

- Você vai tocar também? – Não sei se respondi como Renato Aragão por conta do sono da madrugada ou a bolação de que aquilo era alguma cantada homossexual pervertida:

- Cuma?

- Estou perguntando se você vai pro Abril pro Rock pra tocar ou pra assistir o show. – aquilo me acordou. Iria ter um show de rock em Recife e ninguém me disse nada?

- Na verdade estou indo trabalhar. Nem estava sabendo do show.

- É uma pena. O Marky Ramone vai tocar.

Puta que pariu, finalmente a sorte estava ao meu lado. Eu estaria em Recife em um dia de show com o Marky Ramone. Tudo bem, que se compararmos os Ramones com Os Trapalhões, o Marky é uma espécie de Dedé Santana. Mesmo assim, ainda valia a pena. O bom samaritano continuou a me dar detalhes do show e as coisas só iam melhorando:

- Além do Marky, vai ter Ratos e Sepultura. – Puta que pariu de novo! E ainda tem gente que diz que Deus não existe. Dei uma olhada na minha passagem e vi que o meu vôo para Fortaleza era no Domingo e somente às duas da tarde. Alguma coisa conspirava ao meu favor. Coisas da vida.

Desci em Recife, peguei um táxi e segui para o hotel. Passava o treinamento na minha cabeça pensando em como eu poderia torná-lo o mais rápido possível. Se eu saísse por volta de três horas da tarde, teria tempo suficiente para conseguir ingresso e ir ao show.

No hotel um rapaz abre o sorriso quando me vê.

- Você veio lá do Rio para o show do Marky?

- Você vai ao show?

- É claro! Vocês lá no sul têm oportunidade de ir a show o tempo todo, mais aqui em Recife a gente só consegue quando tem o Abril... – Olhei a plaqueta em seu peito que me dizia qual era o seu nome:

- André, você vai ter que arrumar um ingresso para mim.

- Ô Cabra! Tu veio lá do Rio pro show e nem comprou o ingresso pela internet?

- Cara, acabei de descobrir sobre o show agora e eu não posso perder essa porcaria! Na verdade eu vim para trabalhar, mas agora o show é prioridade máxima.

- Deve ter alguém vendendo na porta.

- Como você vai pro show?

- Eu devo sair daqui do hotel umas quatro horas da tarde....

- Perfeito! Não vá embora sem mim.

E fui pro meu quarto. Dormi, acordei, tomei banho, café da manhã com bolo de rolo e um malandro da minha empresa que trabalha em Recife veio me buscar. Começou a falar sobre trabalho, meta, treinamento, gestão. Coisas de trabalho. Perguntei pra ele se ele iria no Abril pro Rock e ele falou que “não gostava desses negócios”. Malditos engravatados. Coisas de trabalho.

Fiz o que fui pago pra fazer. Dei o meu treinamento. Gente chata, papo chato. Olha esse power point aqui. Pega um café ali para mim. Ao invés de almoçar, vamos fazer um lanche e assim todo mundo saí mais cedo. Alguma dúvida? Sempre tem um imbecil com uma dúvida. Qualquer coisa vocês podem ligar pro meu celular ou me mandar um e-mail. Coisas de trabalho.

Pego um táxi e mando o cara ir o mais rápido possível. - Minha mulher está passando mal. O senhor tem que ir o mais rápido possível. – E o pernambucano correu mais do que Baiano corre do trabalho. Cheguei no hotel e André já estava me esperando. Disse para ele esperar 10 minutos e esse foi o tempo que levei para tomar um banho, tirar a minha farda de trabalho e ir para o show.

Infelizmente não pude fazer todo o meu ritual antes de um show. Mas foi perfeito para algo tão em cima da hora. Consegui um ingresso ao que eu chamei de um preço justo e fiquei tomando umas latinhas com o cara do hotel e seus amigos metaleiros. Papo vai, papo vem e a morena venenosa apareceu.

- Poxa, obrigado, mas eu estou meio parado.

E a fumaça louca rola de boca em boca e eu tomando a minha cerveja. Já estava claro que em um show do Ratos do Porão e Sepultura o pecado capital mais óbvio para cometer era a ira.

Não vou perder muito tempo analisando tecnicamente os shows. Resumindo, o show do Ratos e do tal Tequila Baby (que eu recomendo para quem não conhece) foram ótimos. O Sepultura foi muito próximo de uma merda grande. Eu encontrei essa crítica aqui que mais ou menos traduz todos os meus sentimentos.

Logo que eu entrei, me separei do grupo. Um mar de pessoas, cabeludos, vestidos de preto. Percebi que mulher que gosta de metal raramente ser bonita não é uma particularidade somente do Rio de Janeiro. Deve ser um fenômeno mundial ou coisa parecida. Realmente, luxúria estava fora dos meus planos para aquela noite.

Entrei na maior roda de polgo durante o show do Ratos. Os nordestinos realmente batem para valer. Enferrujado, tomei uma banda logo no começo. Levantei-me, e a minha única preocupação era defender o meu rosto enquanto o Gordo vomitava suas músicas. Eu não poderia aparecer em Fortaleza com um olho roxo para o treinamento.

Aquele clube da luta musical foi perfeito. Só depois que eu saí da roda, sentei em um lugar afastado para saborear uma cerveja que eu percebi o quanto eu precisava de um momento de catarse. Cada chute recebido, cada soco deferido foram essenciais. Eu estava renovado. Pensei o quanto longe de casa eu estava, dentro de um show de metal totalmente sozinho. E, como em outras ocasiões muito raras, eu agradeci por ser eu mesmo.

Resolvi ficar um pouco mais bêbado para curtir o Marky Ramone numa boa. Precisava guardar energias para voltar a polgar durante o Sepultura. Fiquei realmente impressionado com a Tequila Baby. Raramente vamos a um show que não conhecemos as músicas e curtimos. Esse foi um desses dias. Pena que o resto do público não sabia também as letras e o show ficou morno até a entrada da estrela maior da noite. Talvez eles tivessem um pouco tensos para ver um Ramone de perto.

E o momento Ramones da noite foi o melhor. Aquela corrente de felicidade percorreu o meu peito, quando eu lembrei do show memorável no Circo Voador. Não resisti. Cheguei perto de uma rodinha e tive que dar uma bola na erva. Eu devia isso aos Ramones. Uma Pernambucana gostou do meu sotaque quando eu pedi para dar um dois na maconha, mas eu tive que dispensa-la. Estava fechado para balanço em uma egotrip espetacular. Não tenho nem palavras para descrever aquele sentimento de empolgação e total aceitação de mim mesmo. Deixa eu parar, ou isso vai ficar muito homossexual.

Quando o Sepultura chegou e tocou uma, duas, três músicas eu sabia que aquilo seria um fracasso. Desisti de entrar em mais uma roda de polgo e me dedicar mais a cervejas. Lá pela sexta ou sétima música decidi que se continuasse por ali, o Sepultura poderia estragar o que foi quase uma noite perfeita. Fui embora. Queria continuar com aquela sensação boa e, de qualquer forma, eu tinha que dormir e partir para Fortaleza na tarde seguinte. Voltei em um táxi pedindo para o sujeito parar em cada loja de conveniência que eu encontrava para comprar mais uma cerveja. No hotel, ainda tomei as cinco latinhas do frigobar. E fui dormir muito bêbado, feliz e ansioso com o que mais aquela viagem guardava para mim.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Trabalho, aquela coisa que atrapalha o descanso

Fiquem calmos. Eu estou de volta. Mas ainda falta um pouco de inspiração/disposição para relatar as minhas desventuras pelas capitais brasileiras.

Fora isso, meu chefe agora pensa que eu sou competente. Coitado, ele deve usar drogas. Estou sendo “entubado” com um projeto atrás do outro. Qualquer dia é dia de pedir demissão. Ou um aumento. Sei lá.

Devo dizer que trabalhar é muito chato. Tem responsabilidade, estresse, engravatados, metas, números e muito excel e powerpoint. E, por mais que eu tente, não consigo arrumar sexo no trabalho.

As pessoas têm um ditado que diz que não se deve comer a carne onde se ganha o pão, mas eu não concordo muito com essa corrente filosófica. Eu sempre fico com um sorrisinho pervertido quando a minha supervisora fala algumas palavras como “metas”, “encabeçar” e “macarrão”. Essa última, ela não fala muito, mas quando ela fala com aquele sotaque paulista, é uma loucura.

Outra coisa que eu odeio é quando chega gente nova. Quando meu chefe faz uma reunião de equipe e diz que está chegando um fulano que “vem para somar” eu penso se não seria melhor colocar o cara na contabilidade da empresa. Lembro-me que eles me acharam genial quando eu disse que estava chegando para “multiplicar”. Putz, era uma piada boba, mas os engravatados acharam fantástico.

"Esse menino é muito criativo"

"Esse rapaz vai longe"

E quando meu chefe diz que “somos uma grande família” e eu fico com pensamentos de cometer um parricídio, um fratricídio ou suicídio. As vezes olho para algumas colegas e penso em cometer um incesto. E lembro do Douglas, um cara grandão e desengonçado que trabalha no Helpdesk que me confessou na festinha de fim de ano que se masturba no banheiro do trabalho:

- Cara, é animal. Só o fato de você lembrar que está ganhando dinheiro enquanto se masturba é uma das melhores sensações do mundo. - Pois é. O trabalho enobrece o homem.

A escolha do Wallpaper é essencial. Se você coloca algo como Star Wars, você acaba atraindo os nerds e afastando as meninas. Se você coloca algum motivo floral, podem pensar que você é bicha. Se você coloca uma foto sua, podem pensar que você é psicopata. Colocar mulher boa, nem pensar. As meninas podem te achar tarado. Banda de rock é atrair aqueles metaleiros xiitas. Então, eu coloquei o Joe Cool. É batata. Sempre para uma estagiária para comentar que adora o Snoopy. E isso já é meio caminho andado para você chamar para um chopp. E quando ela diz que não pode por causa da faculdade, do namorado ou porque mora longe, você simplesmente pega um papel qualquer e diz pra ela:

- Você pode levar isso aqui para o Douglas do Helpdesk.

O trabalho está cheio dessas pequenas vinganças marotas.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Até Breve

Queria ser menos rápido e sucinto, mas o fato é que vou ficar uma semana longe daqui, já esta tarde pra caralho e eu tenho que arrumar as minhas malas. Aparentemente, a mulher acima de mim na escala hierárquica do meu emprego está de licença maternidade e eu fui abençoado de passar os próximos sete dias em sete cidades diferentes implantando um novo sistema da empresa. Pelo menos é isso que eles acham que eu vou fazer.

Na verdade, eu vou beber em sete bares, em sete dias, em sete cidades diferentes. Como estarei longe de vocês por uma semana, preparei o conto abaixo cheio de referências de musicas, livros, series de Tv para que vocês se entretenham com material de qualidade durante a minha ausência.

E, é claro, o conto também é uma homenagem ao auto intitulado “pior autor de ficção científica” da história, Kurt Vonnegut, o qual eu deposito todo o meu respeito, admiração, carinho e saudades. Para vocês passarem o tempo, coloquei mensagens subliminares nos títulos dos contos bem difíceis de serem compreendidas.

É isso aí.

Abraços

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Porra Galera!

Eu sempre falei que textos começados por palavrão eram maneiros. Creio que esse não seja. Mas ele é totalmente necessário e eu acredito que vocês são bem grandinhos para compreender esse post.

Antes de tudo eu quero agradecer a chuva de comentários no post anterior. É muito legal falar de um projeto novo, o qual você não tem controle e nem certeza do resultado e ver que um monte de gente te dá todo o apoio para que aconteça e que tudo dê certo. Quem me acompanha por todo esse tempo sabe que eu sempre dei todo o crédito a quem merecia: o leitor. Vocês são a força motora desse blog. Por menor que ele seja, e não é papo de locutor de rádio AM, cada um aqui sempre foi meu amigo, meu confidente, meu vigia e a minha força por esses quase dois anos. Sempre que posso, estou dando os créditos a cada um que me manteve vivo por todas as dificuldades que vivi.

Tá bom, vamos cortar a baboseira. Eu não vou republicar o texto do filme. E tenho uma razão para isso. Vocês mesmos. Sei lá, é como contar para um amigo um filme que ele vai ver. E vocês vão me responder: foda-se eu quero saber mesmo assim, por que você não republica?. E a única resposta que eu tenho para dar é a clássica que um pai tem para um filho: Porque não e eu sei o que é melhor para vocês.

Mas posso dizer algumas coisas sobre aquele texto. Ele teve uns 20 comentários, quase um record para o meu blog. Fora isso, 3 pessoas me procuraram para fazer um curta dele – então ele não pode ser tão ruim. E o melhor disso tudo – para mim, é claro – ele é uma história real e eu ganhei um boquete nessa história!!!!!

Eu estou discutindo o roteiro com os Claudios. Eles estão transformando tudo que eu escrevi para uma linguagem televisiva. Eles estão trabalhando duro para que o filme fique do cacete e eu tenho total confiança nos dois. Fora isso, os caras estão empolgados de acatar uma sugestão minha: produzir outros filmes de histórias do blog (aceito sugestões). O que peço para vocês é um pouco de fé. Na estória e neles. Tenho certeza que o resultado final sairá com uma qualidade boa para os padrões que a coisa esta sendo produzida. Além disso, combinei com eles que cada detalhe dessa produção será publicada aqui para que vocês acompanhem tudo em “loco”. (sempre sairá com o marcador Fazendo as Regras)

E, para resumir tudo, obrigado pela confiança e desculpa de não republicar o texto, mas é por uma causa nobre. Voltamos a nossa programação normal!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Os mancos


Um eu já conhecia de longa data, o outro acabei de conhecer. Os dois se juntaram para me pagar um chopp, e confesso a vocês que essa era a oferta mais atraente que eu achava que os Claudios tinham nas mangas.

O Cláudio mais gordo, o Simões, eu conheço quase o mesmo tempo que escrevo. Ele é o maior incentivado do meu livro e é o cara que vai fazer as coisas acontecerem quando eu entregar o material. Gordinho gente boa, com um papo animado e insiste em dizer que é meu fã número 1 e eu insisto em responde-lo que preferiria que uma loira peituda ocupasse esse cargo de destaque.

O outro Cláudio, o Lemos, não é tão gordo e parece não dar tanta importância ao cabelo como o primeiro. Eu o conheci ali, naquele mesmo bar do Flamengo onde há uns dez anos atrás eu tive que comprar dois litros de sorvete para tentar matar a ressaca de uma mulher antes de deixá-la em casa. Mas isso já é uma outra história...

Fato é, que por ironia do destino outra dupla de nomes iguais cruzou a linha da minha vida tentando muda-la para sempre. Ou não. O Simões me ligou marcando o chopp. Disse que tinha algumas coisas para conversar comigo e um amigo para apresentar. Eu respondi que preferia que ele parasse com essa viadagem de fã número 1 e que me apresentasse algumas gostosas. Ele rebateu dizendo que os dois iriam pagar o meu chopp e eu pensei: que inferno, não é todo dia que você pode beber de graça e aceitei.

Quando cheguei ao bar e observei de longe alguns papéis sobre a mesa sabia que eles queriam falar de negócios. Por mais absurdo que pode parecer, eu não gosto de fazer negócios como os irlandeses. Com algumas doses etílicas na cabeça, você pode acabar esquecendo de algum detalhe bobo ou deixar os outros tirarem uma vantagem. Ou o pior, se vender por pouco. Por isso mesmo, já cheguei a mesa decidido que não sairia perdendo. Em hipótese nenhuma. Depois das apresentações e antes de pedir o meu primeiro chopp, falei para o garçom:

- Traz uma porção de lingüiça acebolada que a galera não pode beber de barriga vazia. Vocês trazem com pãezinhos?

- A nossa porção não incluiu os pãezinhos...

- Faz o seguinte, arruma uns pães, cobre o que você achar justo que a gente paga. O que não podemos é ficar sem os pãezinhos, não é mesmo?

- Claro!

- E nesse meio tempo, traz um chopp bem gelado pro seu amigo.

- É pra já!

- Vem cá, vocês ainda vendem pote de sorvete de dois litros?

- Sim, só não sei os sabores que temos...

- Pode ficar tranqüilo, eu só queria averiguar em um caso de emergência... – O garçom se foi e vi que os claudios me observavam. Isso era bom.

- Mas diz ai, moçada. Quem ganhou na mega-senna e está bancando o nosso banquete hoje?

- Vic, a gente quer fazer um filme de uma história sua. – Disse o Simões enquanto o Lemos dava uma golada na cerveja.

- Deixa eu adivinhar, vocês querem fazer um filme do Walk of Life? – os dois me olharam com os olhos arregalados e o Cláudio magro só conseguiu falar:

- Como? – E eu tive o prazer de respondê-los.

- Vocês não são os primeiros a me procurarem para fazer um curta desse texto. – E é verdade. Eles eram os terceiros a me procurarem. O primeiro foi meu amigo Edmundo, um dos garotos gorduchos do DDD. Logo que eu escrevi o texto. Ele tinha a vontade, mas estava sem tempo na época. Eu falei ok e ficou nisso. Um pouco depois apareceu um leitor, o Raphael. Cheguei até fazer um roteiro e ele um teaser trailer, mas as coisas acabaram não acontecendo.

- Mas e ai? – Perguntou o Simões, um pouco afoito.

- Nada rolou e para ser sincero, talvez seja melhor que fique assim. – Não estava fazendo nenhum joguinho. Na verdade, não tenho certeza se o que escrevo é realmente tão bom e, principalmente, se funciona em outras mídias. Mas é claro que eu acho a idéia do caralho.

- Bem cara, a gente está com umas idéias bem legais para fazer um curta. Podemos conversar e depois você decide. – Disse o Lemos e realmente era coisa mais sensata a se fazer.

Basicamente ele me deu o seu background em trabalhos de humor e de vídeo. O cara tem uma produtora de Tv e parece ser meio sabichão nesses apetrechos. Ele me contou que ele e o seu xará já estavam trabalhando no roteiro e só precisavam de carta branca para começar a pré-produção. E o mais importante de tudo, assim como o outro Cláudio, ele é gente boa.

- Bem, meninos, eu tenho uma notícia ruim para vocês. Eu não tenho nenhum puto para gastar nisso. – Ai, ai...eu e a minha sinceridade.

- Nós pretendemos fazer isso mantendo o custo baixo, arrumar atores que gostem da idéia e topem fazer isso por cerveja, a mesma coisa com os produtores e assistentes. O equipamento nós podemos conseguir boa parte. O que não der, nós vamos tirar do bolso e pagar.– O Simões sabe falar as coisas que eu gosto de ouvir. Acho que mais importante do que arrumar gente boa pra trabalhar é encontrar gente que queira trabalhar na boa. Que goste da idéia e faça tudo com sorriso no rosto. Então continuei:

- E tem outra coisa. O gordinho aqui sabe mais do que ninguém que eu estou devendo uma coisa desse tipo pros meus leitores, a galera que sempre me apoiou, me deu força, me oferece ajuda. Mas eu não posso mostrar pra eles um filme que eles sabem de toda a história, eu quero dá uma olhada nesse roteiro e incluir uma coisinha ou duas.

- Você tem que participar em todas as etapas da produção. Nós queremos até filmar uma entrevista com você para colocar no Dvd. – Disse o Lemos. Eu recuei:

- Cara, eu sou o oposto do Hitchcock. Eu faço questão de não aparecer.

- Que isso, bicho. O filme é baseado em um texto seu, em uma parte da sua vida, com você no papel principal. Não é uma questão de escolha, você TEM que aparecer! – Simões Sobressaltou-se , até deixando escapar alguns perdigotos na minha blusa. E ai, eu achei o momento certo para usar uma frase que eu sempre quis usar, mas não tive a oportunidade certa:

- Sem aparições minhas. Essa é a minha condição e ela não é negociável. – O Simões riu e respondeu:

- Ok. Eu sei que consigo fazer você mudar de idéia até o fim do projeto.

- Beleza. Vocês estão certos disso? Não vão desistir, sumir, mudar de idéia mesmo?

- Com certeza, não. Já nos dedicamos algum tempo roterizando o Walk Of Life e agora você deu seu aval, não tem como voltar atrás. – Disse o Lemos me entregando o roteiro. Eu peguei, fiz um tubo com ele e apontei para os dois:

- Nessa segunda eu vou escrever toda essa conversa no blog. Caso vocês desistam, eu não vou pensar duas vezes, publico o e-mail dos dois por lá e peço para que os meus leitores torrem o saco de vocês até o inferno congelar. – Eu sei que eles não vão desistir, como eu disse antes, eles são gente boa. Mas eu sempre quis usar também a expressão “até o inferno congelar”.

- Pode ficar tranqüilo, Vic. – Respondeu o Simões tranqüilo.

- Dá uma olhada no roteiro e nos mande as mudanças que você quer. – completou o Lemos.

- Pode deixar. I got the action, I got the motion.

E ficamos lá bebendo e debatendo um pouco mais sobre o roteiro, sobre a vida, o universo e tudo mais. O que posso dizer para vocês que acredito que em Maio, quando completaremos dois anos juntos aqui nessa bagaça, finalmente terei alguma coisa de qualidade para oferecer a vocês.