quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Os Duendes de Marte

Felipe estava dirigindo sozinho na madrugada pela estrada deserta e empoeirada a caminho de Visconde de Mauá. Não gostava de nada daquela situação. Odiava enfiar o carro naquela terra, odiava dirigir a noite e ainda por cima no escuro. Mas não tinha muita alternativa. Havia uma coisa que ele odiava mais do que tudo isso: perder a oportunidade de experimentar a Fumaça Louca de Maromba.

A primeira vez que ouviu falar da erva poderosa ainda foi no 2º grau. Diziam que era do outro mundo. Um amigo de um amigo que era tido como “o maior cabeçudo” da galera teve um teto-preto depois de uns dois cigarros da famosa Fumaça Louca de Maromba. Dizem que o cara ficou um tão pancado que jurava que um caveirão comeu um pedaço do seu cérebro.

Quando chegou a faculdade a mesma história. A Fumaça Louca de Maromba era a melhor erva de 8 entre 10 maconheiros universitários. Ninguém nunca conseguia trazer nem um pouco dela para o Rio, pois a fissura de fumar era tão grande que nenhum maluco conseguia guardar um pouco. Devido a uma série de contra-tempos, todas as viagens que Felipe agendou, furaram e ele nunca conseguiu experimentar o capim famoso.

Hoje ele pretendia quebrar essa sina. Uns amigos do trabalho alugaram uma casa em Mauá com intuito de queimar toda Fumaça Louca que conseguissem agüentar. E Felipe teria conseguido realizar seu sonho se não fosse abduzido no meio da estrada.

Tinha ficado intrigado com aquela luz que o acompanhava pela estrada escura. Por um momento, achou que era o efeito dos ares da Fumaça Louca de Maromba. Só percebeu que estava participando de uma clássica abdução quando já estava dentro da nave espacial. E quando viu os Duendes de Marte por cima de seu carro e batendo no vidro só conseguiu pensar em uma coisa:

- Filhos da Puta! Tanta hora boa para ser abduzido e esses desgraçados escolhem logo agora! - Mas não tinha jeito. O lance era aproveitar o momento e tirar tudo de bom que só uma abdução pode trazer.

- Salve, salve Terráqueo! Nós somos os Duendes de Marte! – Felipe ficou realmente encafifado como os pequenos homens verdes e de olhos largos sabiam falar português e porque eles falavam como o Pedro Bial. Decidiu não contrariar e responder na mesma língua:

- Salva, salve integrantes dessa nave louca que é....que é... essa nave louca! – Os Duendes se entreolharam curiosos pois nunca tinham visto um terráqueo reagir tão bem a uma abdução. Geralmente eles ficam paralisados como idiotas ou choram como crianças. Concluíram que Felipe era o terráqueo mais corajoso que conheceram. Ou o mais idiota. Não sabiam que ele estava mesmo é com o pensamento na Fumaça Louca de Maromba e queria acabar logo com aquela babaquice de abdução e voltar para a estrada o mais rápido possível.

- Podemos começar logos os testes? O que vai ser? Vão pedir para eu transar com uma Marciana? Vão enfiar agulhas no meu corpo? Por favor, nada de sondas anais! - Um dos Duendes ouviu atentamente o terráqueo e se aproximou:

- Você parece muito calmo para uma abdução. Estou olhando os seus batimentos cardíacos e estão mais baixos do que dos paredões do último BBB. Essa é a sua primeira vez?

- Sim.

- Então de onde você tira tamanha tranqüilidade?

- É porque eu comprei recentemente todos os DVD’s do Arquivo X em uma bela promoção. Estou bem descolado com esses lances de abdução. – Explicou Felipe ao Duende Bial.

- Não sabemos o que é Arquivo X. A nossa nave só sintoniza a Rede Globo. De qualquer forma devo explicá-lo que evoluímos bastante na área da abdução desde a década de cinqüenta.

- Não diga?

- Pois é. Já fizemos todos os tipos de testes físicos loucos. Você nem imagina o que um duende de Marte pode fazer com uma sonda na mão e uma idéia na cabeça. Não me leve a mal, se tivéssemos tantos ratos em Marte como vocês têm na Terra, não precisaríamos incomodá-los.

- Não esquenta. Mas podemos ir logo com isso? Estou meio atrasado...qual é o motivo da abdução?

- Como eu estava explicando, estamos na fase de testes psicológicos, comportamentais e de pesquisa de mercado. Outro dia mesmo abduzimos um sujeito para testar um barbeador laser muito mais macio.

- Sei, sei... olha eu não estou interessado em comprar nenhuma porcaria marciana e estou realmente com pressa. Poderíamos corta a ladainha e ir logo aos finalmente?

- Por favor, siga até aquela porta. – Felipe andou pela nave até uma de suas portas de metal e chegou até uma sala. Não parecia nada de outro planeta e sim uma simples sala de espera de um consultório. Um sofá nada confortável, Revistas Veja de 1995 e uma planta de plástico. Do lado oposto do sofá, um balcão onde supostamente deveria ter uma secretária meia-boca lixando as unhas.

- E? – Perguntou para o duende. O homenzinho verde o encarou com aqueles gigantescos olhos e respondeu:

- Nada. Somente aguarde ser chamado. – E bateu a porta. Felipe deu uma outra olhada no ambiente e pensou o tamanho daquela babaquice. Resolveu esperar. Sentou e começou a folhear uma revista antiga:

O ator e comediante Lírio Mário da Costa, ou Costinha morreu...

Ficou impressionado como o tempo passava rápido. Achava que não fazia muito tempo que o Costinha fazia o maior sucesso na Escolinha do Professor Raimundo. Daquela matéria em diante ele leu a revista inteira.

E nada aconteceu.

Levantou-se e foi examinar o balcão. Não tinha nada ali. Sem telefone, agendas ou fax. Não tinha arquivo, fichas ou uma lixa de unha sobre o balcão. Absolutamente nada. E não existia nenhuma porta além daquela que ele havia entrado. Deu de ombros e deitou no sofá esperando a próxima instrução do Duende Bial.

E nada aconteceu.

Levantou depois de uma hora de tédio e começou a folhear outra Veja.

Eduardo Brandão de Azeredo assume o governo de Minas Gerais
Brasil Mário Covas assume o governo de São Paulo
Marcello Nunes de Alencar assume o governo do Rio de Janeiro

Lembrou de Marcello Alencar e como era tosco ser governado por um alcoólatra. Lembrava de algumas declarações do Governador totalmente mamado. Aquilo que era época boa. Daquela matéria em diante ele leu a revista inteira.

E nada aconteceu.

Resolveu tirar um cochilo no meio do chão do consultório. Acordou nove horas depois. No mesmo lugar. Nada de mais. Começou a ficar intrigado com aquela situação. Foi até a porta e bateu:

- Ei? Acho que me esqueceram aqui. – Nenhuma resposta. Começou a esmurrar a porta e nada. Gritou até ficar sem voz e acabou desmaiando sem forças. Acordou algumas horas depois encarando o lustre no teto. Levantou-se e começou a andar para um lado e para o outro. Pensava que tipo de teste era aquele. Seria um teste de paciência? Um teste de observação? Ou seria um teste de inteligência? Começou a vasculhar por toda a sala. Tirou a planta de plástico do lugar, olhou por de baixo das almofadas do sofá, dentro das revistas.

E nada aconteceu.

Tinha que ser um teste de inteligência. Lembrava que o marciano disse alguma coisa sobre ratos e aquilo deveria ser uma espécie de labirinto de ratos para humanos. Começou a achar que a resposta estava nas revistas. Por que revistas de 1995? Havia algo ali.

O juiz de futebol Jorge Emiliano dos Santos, o Margarida, morreu....
Os dez livros mais vendidos da semana...
Entrevista com Romário....

E nada aconteceu.

No final do segundo dia já estava pirando. Se masturbou em cima da planta de plástico e começou a rir. Cantava antigas músicas do Cartola e corria nu em círculos pela sala. Gritava o obituário da revista Veja:

Morte do compositor, cantor e humorista Ivan Curi
Morte do ator Paulo Gracindo

E nada aconteceu.

Durante todo o quarto dia, rasgou a revista Veja e começou a escrever uma mensagem para os próximos que entrariam naquela sala. Escreveu sobre a Fumaça Louca de Maromba e sua decepção de jamais ter experimentado. Escreveu como amava sua ex-namorada Neiva e se desculpou por não ser mais atencioso. Reservou um espaço para mandar a merda seu chefe e todos aqueles que odiava. E Bem no cantinho, fez um pequeno poema sobre seu amor pelo Botafogo.

E nada aconteceu.

Foi mais ou menos no meio do quinto dia que resolveu se matar. Havia passado a madrugada do dia anterior e a manhã daquele dia implorando por alguma intervenção divina que lhe tirasse daquela situação. Como não obteve resposta, decidiu rasgar sua camisa e com aqueles trapos fazer uma forca. Amarrou-a no lustre e subiu no balcão. Fechou os olhos e decidiu dar a última chance para qualquer um salvá-lo daquela situação enervante.

E nada aconteceu.

Contou até dez.

1

2

3

Nada.

4

5

6

Absolutamente nada.

7

8

9

Ameaçou:

- Eu vou me matar de verdade! – E nada aconteceu.

10

E começou a se jogar. Foi nessa hora que uma freira abriu a porta, e o mandou tomar no cu. Tentou voltar com os pés no balcão, mas já era tarde. Morreu em menos de cinco minutos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Contos Eróticos

Fui conhecer essa mulher, sem muita expectativa e nenhum truque no bolso. Conhecida de uma conhecida que queria me conhecer. Essas coisas de gente desesperada, solteira e que já passou dos trinta. Tenho medo desse tipo de pessoa. Na verdade, tenho medo de qualquer um que já passou dos trinta, ainda é solteiro e não tem nenhuma desculpa convincente para esse fato. Se eu conheço uma mulher e ela fala que namorou uns 10 anos e depois não deu certo, tudo bem. Isso é uma bela desculpa. Agora se eu conheço uma mulher e ela fala que estava se dedicando a sua carreira ou não encontrou ninguém, meu alerta acende na hora. Estou diante de alguma maluca cheia de manias. Ou possessiva, ou carente, ou os dois.

- Oi, eu sou Marta. A Rita sempre fala muito bem de você. – Estávamos em um bar. Ela não era muito bonita, mas tinha seu charme. Eu estava meio sem graça, sendo um pouco a atração da noite. Afinal, ela era que queria me conhecer.

- Prazer, Marta. Eu sou Vic e creio que a Rita é uma mentirosa, porque não tem muita coisa boa para falar de mim. – Ela riu e eu procurei logo o garçom para pedir um chope. E agora? O que eu deveria fazer? Dá um autógrafo? Colocar meu pau em cima da mesa e perguntar se ela gostou? Odeio esses encontros arranjados. Nunca sei como agir.

Eu sou preconceituoso. Admito. Eu também não tenho nenhuma desculpa convincente para estar solteiro depois dos trinta. Isso é fato. Eu podia falar que estava cheirando enquanto estava na idade de conhecer alguém legal. É a pura verdade. Porque apesar de eu ter arrumado umas mulheres aqui e ali nenhuma maluca iria colar em um cara com nariz de farinha. Mas agora que estou limpo há mais de um ano, eu quero enterrar esse passado. Imagina chegar numa mulher e falar que é um ex-viciado em cocaína. É melhor falar que tem herpes, ou coisa parecida.

- Então você é amigo de trabalho da Rita? – Tudo bem, Marta, vamos nos esforçar para tirar alguma água daqui.

- É. Ela é gente boa e uma das poucas que entende as minhas piadas. – Sério, Marta? Eu não consigo imaginar uma criança de três anos chamada Marta. Aposto que essa mulher já nasceu com uns 28. A mãe dessa mulher deve ter muito mal gosto. Espero que já esteja morta.

- Ela falou que você é engraçado. O que é bom, porque eu adoro homens engraçados. – Ok, meu bem. Eu conto as piadas e você paga o chope e assim todo mundo saí feliz, que tal?

Existe um fato assustador de você ficar solteiro e envelhecendo. A cada dia você adquire uma nova mania que você não vai querer abrir mão depois de casado. Eu, por exemplo, passo umas três ou quatro horas no computador escrevendo. Posso até reduzir esse tempo para duas horas. Mas imaginem, eu chego do trabalho, tomo um banho, janto com a minha esposa e vou para o computador e só saio de lá meia-noite. Como um relacionamento desses pode dar certo? Ai, vocês vão dizer: porra, larga a escrita e vai dar atenção a sua mulher! Eu respondo: Mas eu não sou muito bonito, o que me faz ganhar as mulheres é a criatividade. Se eu parar de escrever, que é uma coisa que me diferencia dos outros machos provavelmente em uns dois anos ela vai dar para um cara mais bonito ou mais interessante do que eu. Final da história: eu vou ser um feio, desinteressante e corno. Esse negócio de relacionamento é muito complicado.

- Ela me disse que você escreve. Eu acho isso o máximo! Eu queria ser escritora! – A Rita é uma das poucas do meu trabalho que eu mostrei alguns contos meus. Ela adorou e me chamou para fumar um baseado com ela. Tinha que ver a cara de decepção da mulher quando eu falei que agora eu era careta.

- É. Eu bato umas teclas aqui e ali. – Eu já sabia qual era a próxima pergunta dela, só não sabia ainda a resposta que ia dar.

- Você escreve sobre o que? – Foi nessa hora que eu resolvi aloprar. Só tinha uma jeito de deixar aquela noite interessante.

- Eu escrevo contos eróticos.

Outra coisa me complica na hora de eu arrumar uma mulher para um relacionamento mais sério. O Sexo. Eu não sou nenhum Don Juan, mas eu tive a minha parcela de mulheres. Umas beijavam bem, outras eram lindas, outras tinham ótimo papo, outras transavam como loucas, outras possuíam a garganta mais profunda. Eu não sou nenhum Dr. Frankenstein tentando juntar tudo isso em uma mulher, mas gostaria que ela tivesse pelo menos três de várias qualidades que eu posso imaginar. Eu não quero me juntar com uma ninfomaníaca que não consegue abrir a boca a não ser para pagar boquete (bem, não por mais de 6 meses!). Também não vou ficar com nenhuma mocréia só porque ela sabe discursar sobre Feuerbach como ninguém.

- Agora eu fiquei curiosa. Fale-me sobre os seus contos. – Sabia! Essas balzaquianas adoram uma sacanagem. Ficam excitadas com o sexo verbal.

- Sobre eles? Eu tenho mais de 100 contos eróticos escritos! – Mais uma vez eu ganhando tempo.

- Me diga um que te marcou. – Eu iria falar um engraçado, pra depois passar para toscaria. Não era um plano perfeito, mas pelo menos eu tinha algum. Se ela ficasse puta, eu ainda podia cair fora, dar um pulo no Empório em Ipanema e tentar arrumar alguém.

- Bem, tinha esse de uma mulher que ela ia na casa dos amigos para se masturbar com a escova de dentes deles. – Eu estudava a reação dela. Não é que a desgraçada sem perceber, passava a sua mão para cima e para baixo na tulipa? Ela estava masturbando o copo de chope! Devia estar desesperada.

- Nossa! E como acaba?

- Ela casa com um amigo que tinha uma escova elétrica. – E fiz uma cara de babaca. Ela riu como uma louca:

- Perfeito! Você é demais. Fala outro! – Isso. Fisgou a isca.

- Tem esse outro que eu estou escrevendo. É sobre um cara, trinta e poucos anos, ainda solteiro. As mulheres o acham interessante e vez ou outra uma aparece querendo conhecê-lo. – Bem, ela não era muito bonita, mas eu também não sou e já faz um tempinho que eu não coloco o pequeno Vic para trabalhar.

- Hum... E aí?

- E daí que sempre rola um papo legal, eles tomam chope, papo vai, papo vem, vão para cama. – Solto um sorriso e ela responde de volta. Inclina o corpo para ouvir melhor. Essa mulher deve estar a mais tempo sem sexo do que o pequeno Vic.


- E?

- O cara se transforma. Usa a língua de maneiras que as mulheres não imaginam, acelera e reduz a velocidade do sexo deixando elas loucas. Trata como cachorra e depois fica delicado. As mulheres vão ficando malucas até...

Mas a verdade é que eu estou escrevendo sobre isso, mas não estou muito preocupado em arrumar um relacionamento sério. Não mesmo. Eu sei que mais dias ou menos dias eu vou acabar achando alguma maluca que vai saber ligar os botões certos. E aposto que vai ser quando eu menos esperar. Enquanto isso, vou buscando essa maluca por aí. No trabalho, no emprego ou nesses encontros malucos. Afinal, viver não é isso?

- Até que? – Eu aproximo o meu rosto e falo com um tom mais baixo, meio sacana.

- Ele saca esse tubo gigantesco de KY e começa a passar nelas. Nessa hora, todas ficam irritadas, param a relação e vão embora.

- Por quê?

- Sabe como é, sexo anal não é uma coisa muito difundida entre as mulheres ainda.

- Sério? Eu não acho....

- Não diga? Que máximo! Acho que finalmente eu encontrei o final do meu conto!

- Ah, seu sacana! – E antes que ela pudesse falar mais uma coisa, eu a peguei pela nuca e a beijei. Não nos entendemos de início, mas ao longo da noite o negócio foi se acertando. Levou menos tempo do que eu pensava para pedirmos a conta e chegamos mais rápido do que eu achava naquela cama de motel. Tudo bem, não rolou KY, mas também eu não sou nenhum escritor de contos eróticos. De qualquer maneira, consegui escrever um final feliz para o pequeno Vic. Afinal, viver não é isso?


segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Búzios: Uma história que conta tudo, mas não diz nada

Está publicado no blog Chamberlaws o texto "Búzios: Uma história que conta tudo, mas não diz nada". Postado originalmente em Dez de Maio de 2005, esse pequeno relato de um fim de semana na endinherada cidade da Região dos Lagos é um dos mais lembrados pelos leitores mais antigos.

Curiosidades:

1 - Esse texto ainda é da época que o meu nariz comandava algumas decisões da minha vida.

2 - Alguns dias que eu retornei desse churrasco, escrevi o conto "Amigo estou aqui" que foi publicado esse ano aqui no Blog. Nesse conto, eu faço uma singela homenagem ao Seu Leopoldo original.

3 - killer Klowns from Outer Space continua um clássico dos filmes B.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Sutilezas

O bar na sexta-feira sempre está mais animado. Geralmente na sexta o pessoal está com disposição para beber, o que já não acontece no Sábado onde muitos acreditam que é uma obrigação. A diferença é sutil, nem todos percebem, mas eu consigo perceber isso até no cheiro.

Lucas, meu amigo gordo, marcou de tomar umas geladas comigo. Parti direto do trabalho. Gravata afrouxada, barba por fazer e calça social. Se existe uma coisa que eu odeio no meu trabalho é o diabo da calça social. Ela é uma espécie de Miss Universo das calças. Ela é mais leve que um jeans, mais bonita que um jeans mas não é uma boa calça. Assim como a Miss Brasil, Universo ou qualquer outra Miss. É bonita, educada e coisa e tal, mas parece que falta alguma coisa para ser uma mulher de verdade. A diferença é sutil, nem todos concordam, mas eu não trocaria uma mulher de bar, com risos altos e gostosos e um cigarro no canto da boca por uma Miss.

Então eu estava solitário nesse bar, tomando chope no balcão e matando tempo para o Lucas chegar. Ele estava esperando dar umas nove horas para fechar a locadora. Na calçada uma grande mesa. Universitários, eu chutei. Mas tinham um ou dois sujeitos com sotaque. Tinham umas mulheres no canto conversando e os homens estavam em pé, rindo bastante. Pedi um sanduíche de pernil com abacaxi. Um dos meus prediletos em botecos. Existe uma coisa no sanduíche de pernil com abacaxi desses pés sujos que me atrai. Eu não sei dizer o que é. Já fiz várias vezes o mesmo sanduíche, com os mesmo ingredientes em casa e não rolou. O caseiro fica gostoso, mas o do bar tem um gostinho de mal feito. A diferença é sutil, uns atribuem a chapa engordurada, dizem que o abacaxi absorve aquela gordura o que em casa não acontece. Eu acredito que seja verdade.

Comi meu sanduíche observando o papo das meninas. Falavam de cabelo. Sabiam tudo do assunto. Como o cabelo se comporta no vento, na chuva, no calor, no frio, em ambientes fechados e toda essa porcaria. Não sei por que, mas comecei a reparar nessa loira nariguda. Eu nunca fui fã das narigudas, mas aquela tinha uma beleza peculiar. Uma diferença sutil, que um sujeito que estava em pé notou muito antes de mim, e isso explicava porque os dois estavam namorando. Desisti da loira e comecei a oferecer os meus olhares a uma baixinha.

Pedi outro chope e decidi dá uma reparada na rapaziada para ver se alguém estava com a baixinha. Em pé os homens falavam de futebol. Sabiam tudo do assunto. Como o Joel deveria escalar o Flamengo, o que o Botafogo deveria fazer para se manter na liderança e a invencibilidade quase sobrenatural do Vasco nos jogos em casa. Eu tinha acertado, tinham dois paulistas naquele grupo. Um era Palmeirense e o outro São Paulino. Eles usavam calças sociais e o resto do grupo jeans. Uma diferença sutil.

A baixinha se desgarrou do rebanho e veio em minha direção. Fiquei estático. Não tinha notado ela me olhando. Ela passou por mim, trocamos olhares e ela seguiu até o banheiro. Fiquei na dúvida se olhar dela era me dando condição ou se era um olhar de “por que esse psicopata está me encarando”. Parece que não, mas a diferença do olhar de uma mulher é sutil. Bem sutil e muitos não entendem muito bem o que quer dizer. Eu faço parte desse nada seleto grupo.

Decidi eu mesmo dar uma mijada. Já estava no quarto chope e nada de Lucas. Fui até o banheiro e fiquei vigiando se a minha calça social não ia fazer nenhuma gracinha. Sei lá, desejar a paz mundial ou qualquer coisa estúpida parecida. Fiz tudo muito rápido porque não queria perder a volta da baixinha. Encostei no balcão e fiquei na marcação. Tentava mostrar tranqüilidade e desinteresse enquanto aguardava. Essa diferença sutil na hora de chegar numa mulher pode ser vital.

Ela saiu do banheiro e eu ainda não tinha decidido se chegava ou não. Nem tive tempo para decidir. Ela veio ao meu encontro e perguntou se a gente não se conhecia, eu respondi que possivelmente sim porque não esquecia facilmente um sorriso bonito. Ela agradeceu e perguntou de onde era. Eu respondi que não sabia e quis saber onde ela morava, o que ela fazia. Ela respondeu que morava na Tijuca mas que estudava ali em Botafogo. Eu disse que provavelmente a gente se conhecia de alguma festinha maluca da vida. Ela concordou e começou a olhar para as amigas. Eu convidei para tomar um chope comigo e ela disse que não dava. Eu insisti dizendo que não era nada de mais só para descobrirmos onde já tínhamos nos esbarrados e ela falou que provavelmente na próxima vez e disse para eu tomar mais cuidado quando eu fosse ao banheiro. Eu não entendi nada e ela se foi. Tomei mais um chope e o gordo chegou. Paguei a conta e seguimos para um outro bar. Antes de ir, mandei um tchau para ela e ela me respondeu com outro e riu junto com as amigas. Lucas me perguntou o que aconteceu e eu contei tudo que tinha rolado. Como estava ali paquerando a baixinha, como ela tinha sido simpática, como ela tinha ido embora e como ela tinha falado para eu tomar cuidado quando fosse ao banheiro. Lucas de uma boa olhada em mim e me mostrou a diferença sutil entre um homem interessante e um completo idiota: os pingos de mijo marcando a calça.