quarta-feira, 7 de maio de 2008

Qual é a sua história?

Minha mãe sempre dizia depois de um esporro: “Engole o choro”. Hoje meu chefe fala para a minha equipe. “Engole o riso”. Claro que ele não verbaliza isso. É uma comunicação subliminar, velada. Silenciosos, nós trabalhamos e sonhamos com dias melhores. Mas a cada tabela de excel, a cada carimbo em memorandos burocratas inúteis, eu percebo que de tão cansado, o corpo não tem força de fantasiar.

Eu invento umas seis maneiras de deixar o trabalho mais interessante mas não digo nenhuma. Eu não sou pago para ter idéias e ele é pago para que ninguém tenha idéias. Idéias cristãs de tornar o ambiente mais amigável, idéias pagãs de transformar tudo em um puteiro, ideias xiitas de pegar uma bomba e explodir aquela merda toda. Todas elas acabam virando idéias judias em um campo de concentração trabalhista. Ele, o Jochef Mengele, aplica suas práticas obscuras processuais nazistas que carbonizam as nossas idéias.

Eu luto bravamente entre a tela azulada do monitor e o ar que me condiciona a morte pela sobrevivência da minha imaginação. Sou a última esperança da minha geração. Sou o escolhido. O arauto de uma nova era que nem eu mesmo acredito. Tento de todas as maneiras manter a mente funcionando e com o a faísca da liberdade queimando no meu coração. Penso em falar tudo isso para aquela garota que está sentada a minha frente no bar, mas não tenho coragem.

- Não vai funcionar. – digo a mim mesmo quando mais um Marlboro queima entre os meus lábios. A noite está monótona. Estava seco por uma cerveja mas todos os meus amigos usuais estavam ocupados. Decidi partir sozinho e apostar as minhas fichas no destino. Não era um bom plano, mas tirando passar a noite em um motel com três travecos, eu iria fazer de tudo para não ir mais uma vez para casa depois do trabalho, tomar banho, jantar e dormir para no dia seguinte fazer tudo de novo. E de novo. E mais uma vez.

Pedi mais um chope. O garçom tenta puxar outro papo. Já falou do Flamengo campeão, já falou da merda que está o trânsito na cidade maravilhosa. A qualquer momento ele vai voltar com o caso Isabela. Enquanto eu, em um guardanapo, vou escrevendo a história de todos que estão no bar.

O coroa barrigudo com a mulher cafona sentados perto da porta, estão naquela fase estranha do casamento. Já passou a paixão. A filha mais velha já esta casada e o mais novo, que está se formando na faculdade de direito, passa mais tempo no computador e em micaretas do que com a família. Ele agora só sonha em pegar o dinheiro da aposentadoria e morar em Saquarema. Ela só pensa no primeiro neto e, quem sabe, uma aventura extra conjugal. Os dois adoram o Lobichomem do Zorra Total.

E por falar em aventura extra conjugal é exatamente o que aquele sujeito com cara de almofadinha está tendo no momento. Está saindo com a estagiária do escritório mais ninguém sabe. Ela tem canelas finas e admira mais o sucesso do almofadinha no trabalho do que sua personalidade. Aquele é o primeiro encontro e ele só vai conseguir dá uma amasso nos peitos da garota. Daqui a 7 meses ela estará grávida.

Gravidez é uma coisa que não passa na cabeça do casal no canto do bar. Na verdade eles não fazem muitos planos para o futuro. Ele é músico e dá aulas de guitarra. O maior sonho dela é ver o sucesso do rapaz, mas no fundo os dois sabem que uma banda de Glan Metal não vai levar ninguém a lugar algum. Mas enquanto a maconha estiver rolando solta, tudo bem.

Tudo bem está com aquele grupo de velinhas. Elas sabem curtir a vida sem bingos, sem cartas ou novelas. Encontram-se todas as quartas em bares diferentes da cidade experimentando petiscos e peidando enquanto falam dos bons e velhos tempos. Ninguém sabe, mas a mais alta e com o cabelo amarelo-cigarro esconde um estranho segredo do seu passado.

Então chegamos nela. Quem é ela? Eu não sei. Eu já sei a história da sua amiga. Está de saco cheio da sua casa e quer morar com o namorado. Mas está puta porque o cara está acomodado no namoro. Mas a história dela eu realmente não sei. Essa deve ser a sexta ou a sétima vez que os nossos olhares se encontram e eu sei que se eu deixar essa contagem chegar em 15 ou 16, eu vou deixar de ser o cara interessante do bar, pro maluco que bebe sozinho e fica escrevendo obscenidades no guardanapo.

De repente o destino me faz agir por instinto. A maluca casamenteira vai ao banheiro e mais uma vez nossos olhares se cruzam. Dessa vez, ao invés de eu fugir o olhar para um ponto mais distante eu abro os braços e mando um sorriso. Ela aperta as sobrancelhas tentando compreender eu falo:

- É incrível, eu estou cheio de coisas interessantes para dizer e não tenho a oportunidade. Ela esta com um papo chato pra caramba e tem a oportunidade de te alugar a noite toda. – Ela solta um risinho e fala:

- Você estava escutando o nosso papo?

- Eu tive que escutar. Eu ainda não consegui escrever a sua história e precisava de alguma dica.

- Escrever a minha história? – Eu mostro os guardanapos rabiscados.

- Eu já tenho a história de metade desse bar escrita. Você nem vai querer saber a daquelas velinhas. – Ela ri outra vez.

- Agora eu vou querer saber.....

- Me dá uma dica....

- Gisele. – A amiga volta e fica me olhando tentando me reconhecer. Eu mando aquele olhar simpático de “oi” ela responde com um sorriso rápido e senta de costas para mim. Eu simulo em enforcamento e faço uma careta quando digo com as mãos que a falastrona voltou e Gisele ri mais uma vez. As duas começam a conversar e Gisele deve estar explicando o que aconteceu enquanto eu escrevo seu nome em um guardanapo em branco.

Tento encaixar uma profissão mas não encontro. Ela deve trabalhar com telefonia. Metade das pessoas que eu conheço no Rio de Janeiro trabalham com telefonia hoje em dia. Assistente de Marketing da Vivo. Ela deve ficar dando idéias bizarras do que fazer com aquele bonequinho. Sei lá. Babaca de mais.

Ela deve ser a única mulher torneira mecânica e desenhar peças de avião. Tá foda. Desce mais um chope.

Ela tem uma clínica de tratamento holístico. Ela é a mulher da acupuntura. Além disso é uma das poucas mulheres que adora vídeo-game. Ganhou o último campeonato de Win Eleven do condomínio. Mais ralo do que personagem da Malhação.

Eu não consigo. Gisele é uma mulher sem história. Ela foi clonada da Gisele original e a envelheceram artificialmente até os trinta anos. Agora ela está conhecendo o mundo e descobrindo como a sociedade funciona. Eca, parece um Isaac Asimov de pobre.

Eu desisto. Além de tudo, agora sou eu que preciso dar uma mijada. Chamo o garçom e peço que ele dê uma olhada na mesa. Essa é a pior coisa de ir a um bar sozinho. Gisele entende errado e pensa que eu estou indo embora. Ela vem até mim:

- Não vá. Ela esta indo embora e eu não quero ficar aqui sozinha.

- Mas eu só estava indo ao banheiro.... – Ela coloca a mão no rosto de forma envergonhada. Eu a salvo – E eu não poderia ir embora sem saber quem é Gisele. – Pego os papeis na minha mesa e entrego a ela – Cada idéia está pior do que a outra. – Ela lê a primeira e ri

- Eu não gosto de vídeo-games. – Ela me entrega os papeis de volta e diz. – Mais dez minutos.

Na verdade foram vinte, mas finalmente Gisele tinha migrado para a minha mesa. Sua amiga, que eu esqueci o nome, partiu. E eu finalmente descobria quem era a verdadeira Gisele.

- Estudando para concurso público? Eu poderia ter pensado nisso. Melhor dizendo, agora me parece óbvio.

- Sério?

- Você não tem aquela vista cansada e aqueles ombros carregados de quem tem um trabalho enfadonho. Você ri com naturalidade e não com quem está ávido por um pouco de diversão. Sua fala é mansa, calma, quase melódica e não aquela autoritária de alguém que quer demonstrar um pouco de poder depois de ser dominado por 8, 10, 12 horas de trabalho.

- Nossa, você realmente odeia trabalhar, hein?

- Com todo ódio que um homem pode ter. Se todos fossem serenos como você, essa sociedade seria harmônica.

- E viveríamos nas cavernas.

- É quase um fetiche imaginar você vestida apenas com pele de onça. – Ela sorri mas desvia o assunto e logo percebo que Gisele não é safada. E, não quero dizer que ela não é vagabunda. As vezes, as pessoas acham que uma mulher safada é uma vagabunda. Safada é a que gosta de uma sacanagem. De uma transa proibida, de uns afagos clandestinos.... bem, vocês sabem.

Continuamos nos conhecendo. Aparentemente o convívio social de Gisele está bem restrito. Estuda muito, sai pouco. Essas coisas. Trocamos telefones e alguns beijos. Gisela é como um texto de jornal. Tem um limite de toques. Gisele é cheirosa e já tem companhia para ver Homem de Ferro no Sábado. Isso, se meu chefe não acabar com o meu cérebro até lá. A conferir.


Continua...

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Um comentário:

  1. Genial, como sempre. Não demora tanto como no último post, fico sedento esperando os próxmos.
    Li novamente praticamente todo o blog. Sem contar no dvd, que assist no mínimo uma vez por semana e rolo de rir.
    Saudações.

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