segunda-feira, 17 de março de 2008

Entrevista: Viciado Carioca

O Povo contra Vic

Iniciando a primeira parte do "Post Extras" respondo as perguntas dos leitores. Ainda essa semana eu coloco a lista comentada dos melhores contos escolhidos pela galera.

1 - Família e amigos do trabalho sabem sobre o Vic?

Se eu fosse colocar o Vic em um microscópio, essa seria uma pergunta tão abrangente como “Da onde viemos?” “Pra onde vamos” ou “Esse Uísque é falsificado?”. Eu não consigo associar a palavra trabalho com diversão, não consigo desassociar a palavra amigo com diversão, logo, fazer amigos no trabalho é foda.

Mas existem amigos – até do trabalho - que sabem do meu blog. E isso já rendeu algum pano para manga. “Como você me retrata assim nos seus contos?” ou um “Eu nunca disse isso”. Mas tudo pela “licença poética”. Como eu sempre falei, tudo que eu escrevo no “Cotidiano Maldito” é verdade. Aconteceu. Não do jeito que é escrito. Eu tento misturar um pouco de fantasia com realidade e criar algo interessante. Ninguém quer ler “O meu querido diário”. Como um exemplo, eu cito a minha falta de inspiração:

“Mas o que estava faltando mesmo era inspiração. Andei procurando umas gotas de criatividade em tudo que é lugar. Revirei um lixão perto do túnel velho de Copacabana e não encontrei nada. Chutei alguns túmulos no São João Batista em vão. Troquei uns dedos de prosa com os bêbados de Vila Isabel e só consegui uma ressaca cheia de azia.”

Claro que eu não fui ao cemitério chutar tumbas. Mas é uma coisa engraçada de pensar. (Não para os mortos. Mas se um dia vocês quiserem chutar o meu túmulo, eu deixo. Na vou puxar o pé de ninguém. No máximo passar a mão em algumas coxas bonitas).

Qualquer um que escreve tem falta de inspiração. Não consegue levar adiante nada. Nem descrever situações que ele viveu (vide os sete pecados capitais que eu nunca consegui acabar...) E até para descrever a sua falta de inspiração, você tem que ser criativo. Caso contrário, você é sou mais um na multidão.

Quanto a minha família. Basicamente eles utilizam a internet para ler e-mails, entrar no Orkut e baixar filmes e música. Então, eu não tenho muito que me preocupar com alguém lendo o blog do Viciado Carioca.

2 - Já teve vontade de ir a algum programa de TV, se imaginou pensando nisso?

Sim. Claro. A Butman tinha um programa – ainda tem? – muito bom. Cheio de gostosas doidas por sexo. Eu tenho algumas idéias criativas sobre filmes pornôs que eu venderia bem barato. Quase ao custo da produção.

Tirando a sacanagem acho que a pergunta era “se eu sonho falar sobre mim ou sobre o meu filme, meu livro, meu blog no Jô Soares”. E para ser bem sincero, não. Já vi vários desconhecidos irem ao Jô Soares e voltarem a ser meros desconhecidos. Já vi o Angra ir ao Jô Soares – e eu acho o Angra uma banda mediana – e ficar muito puto com o Jô Soares porque ele ficou fazendo perguntas sobre o cabelo dos caras e “batendo pratos” com o CD. Entrevista que é bom, nada. Aquilo é um circo para engrandecer o ego do Jô Soares. Eu tenho uma amiga que trabalha em uma editora e perguntei qual era “O efeito Jô Soares” na venda de um livro. Se o cara for um desconhecido? Quase zero. Então, eu que pergunto, pra que se expor a um ridículo desses?

Gostaria de ser entrevistado pelo Gordo. O Gordo da MTV. Esse sim é um cara sagaz. Ratos do Porão, mas foda-se, vou fazer meu estilo aqui na MTV e faturar uma grana. Eu lembro que no auge da fama do João Gordo na MTV, a mídia querendo mostrar ele como um vendido e ele fazia Show no Garage a preço popular (Garage é um lugar tranqueira, Punk e fudidasso aqui do Rio). Tá certo, Ratos do Porão não é nenhuma maravilha, mas não é nenhuma porcaria. E o Gordo é foda. É engraçado, é escroto, é gordo. O Programa dele tem alma.

Isso não quer dizer que meu ego não balança. Claro que balança e o de todo mundo balança. A Gisele Bundchen mesmo sabendo que é gostosa pra caralho, olha para a revista Times que lista as sei-lá-quantas-pessoas-mais-bonitas-do-mundo e balança quando vê aquilo. Sabe quando eu balanço? Quando eu sei que eu não sou merda nenhuma e um cara dizer que leu um livro só porque eu falei que era bacana. Sabe quando eu balanço? Quando um cara diz que deixou de jogar vídeo-game para ler os meus textos e ainda faz uma ressalva (eu sou viciado em vídeo-game). Sabe quando eu balanço? Quando alguém me manda e-mail e diz que também quer parar de se drogar e me pede dicas. E depois volta o e-mail dizendo (esse fim-de-semana eu não me droguei, valeu mesmo). O que é a internet? Pessoas buscando pessoas! Da mesma forma que as pessoas acham maneiro o que eu escrevo e visitam o blog, compram o dvd, me mandam e-mail, deixam comentários, isso me motiva a tentar sempre ser melhor, sempre inovar e isso alimenta o circulo vicioso.

Não, eu não quero ir numa porra de programa de televisão. Trocaria qualquer entrevista com qualquer entrevistador se eu soubesse que todas as pessoas que se importam de me visitar uma vez por dia – e me visitam diariamente mesmo sabendo que sou adepto a post semanais ou quinzenais – me contassem como estão indo e como eu estou ajudando nessa porra de mundo louco em que vivemos. Somos pessoas, cacete, e vamos lembrar e se importar com isso o tempo todo. Depois que o Big Brother acaba, a maioria deixa de ser Big e vira apenas “Brother”. Então, vamos ser “Brothers”.

3 - A sensação de vê seu passado? Faria tudo de novo?

Só um imbecil pode falar que não se arrepende das coisas que fez e sim das coisas que não fez. Eu me arrependo de várias coisas que eu fiz e peço desculpas sempre que consigo.

O maior erro de todos foram as drogas. Cheirei pra caralho e vi que com isso só perdi, e vi que todos os meus amigos também só perderam e, vi que todos os nossos ídolos também se drogavam pra caralho e também só se fuderam. E mesmo assim, muitos vão achar o meu papo é careta e vão continuar se drogando pra caralho até o dia que notarem que todos nós estamos tentando preencher um vazio que nunca será preenchido. Nós nunca vamos conseguir substituir alguém ou um sentimento, ou uma coisa que não temos, mas gostaríamos de ter. Mesmo assim nos enchemos de álcool, de drogas, de sexo, de escrita, de nada. Temos que tentar aprender com esses sentimentos e lutar com esses demônios da melhor forma possível. E te garanto, o álcool é bem melhor do que se drogar. E escrever é muito mais gratificante que ficar bêbado. Acho que temos que encontrar um caminho, e quando encontrarmos esse caminho, com certeza, seremos felizes.


4 - Dizem que o cigarro e a bebida levam quem está limpo de volta as drogas? Tem alguma razão?

O cigarro não. Eu utilizei um método da substituição. Sempre que eu estava na fissura de cheirar, eu fumava maconha. Fiquei nessa bastante tempo. Acho que um ano. Então, comecei a fazer o mesmo com o cigarro. Eu não fumava (Marlboro) há muito tempo e voltei para tirar a fissura de fumar maconha. No fim do processo estou sem usar maconha e cocaína e estou viciado em uísque e Marlboro como qualquer pai de família normal.

O que leva as pessoas de volta as drogas são as pessoas (outras ou ela mesmo). Acho que mudar de ambiente é fundamental. Pelo menos durante o processo. A vontade também é. Se entrar na onda "só hoje" ou "hoje é um dia especial" você se fode. Eu tenho uns 60 amigos/conhecidos, se eu fosse abrir exceções em todos os aniversários eu me drogaria todos os fins de semanas e alguns dias da semana. Se você quer parar de fazer algo, coloque na cabeça que acabou e não existe “Vale a pena ver de novo”.

A vida é tão escrota que você tem que viver pra caralho para entender que você não precisa entender os grandes filósofos para ser feliz. Esqueça Sartre, Platão, Nietzsche, Espinosa, Kant, Hobbes, Descartes, Calvino, Luthero, Aristóteles, Hegel, Foucault, Schopenhauer ou sei lá mais quem. Viva apenas na filosofia da caixa de sucrilhos. “Não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você”. “Sorria para o mundo que o mundo irá sorrir para você”. “Aqui se faz, aqui se paga”. “Em terra de cego, quem tem olho é rei”. “Não coloque a mão onde o braço não alcança”. Etc, etc, etc.... se você seguir o mais óbvio é um atalho para a felicidade. Os eruditos demoram quase uma vida para entender o que qualquer garçom aprende em dois meses de trabalho. E os drogados demoram quase o mesmo tempo que os eruditos e o pior, depois viram fanáticos religiosos.

5 – Escrever ficou mais fácil, ou mais difícil careta?

Nem um e nem outro. Dizem que doidão você tem mais idéias. Eu lembro de ter visto Matrix muito doido e perdi o interesse antes da primeira hora do filme. Eu imaginei uma outra coisa muito mais foda. Uma história mais complexa e profunda que a do filme. No dia seguinte eu tinha perdido tudo. As idéias fodas sumiram do meu cérebro e foram para o mundo da Matrix. No final eu não curti o filme e nem tinha as idéias. O que eu ganhei?

Por isso que eu falo que a criatividade estimulada pelas drogas, é uma criatividade descartável. E eu não queria que o meu cérebro tivesse prazo de validade. Às vezes eu tenho idéias quando estou bêbado. Não me lembro de tudo, mas consigo guardar boa parte. Escrever bêbado é bom de vez em quando. Eu tenho até um post sobre isso. Mas não é uma regra. Acho que 70% do meu material eu escrevo sóbrio e 30% bêbado. Mas confesso que as idéias são na faixa de 50% bêbado e 50% sóbrio. Mas idéia e texto pronto são coisas tão distintas como um esperma e um neném. E ninguém coloca um esperma no colo e mostra pras pessoas e diz “fui eu que fiz” se não for em um filme pornô.

Mesmo assim, escrever nunca é fácil. Prova disso é eu brigar com teclado a anos e nunca consegui produzir o livro que tanto quero. Não é falta de inspiração ou de idéias, mas é difícil você tirar algo que é bem estruturado na sua cabeça e transformar em um texto interessante. E mesmo assim existem milhares e milhares de livros merdas publicados. Como explicar isso? Sei lá... chama o pessoal do Arquivo X.

De fato, existem textos que nascem mais fáceis que outros. E os filhos da puta ganham vida própria e escolhem o seu próprio destino. Todo escritor sabe que não é o senhor de seus personagens. Os desgraçados escolhem se tornarem vilões, heróis, assassinos, mocinhos. Até escolhem morrer de vez em quando. É foda. É uma luta constante entre sua mente e o teclado. Por isso eu sempre concordo com Douglas Adams que uma vez disse “Odeio escrever e amo ter escrito”.

É a pura verdade. Mais pura que a do Morro do Dendê. E tenho dito.

6 - Quem era você no DVD?

Sério mesmo? Ninguém. Não fiz parte das gravações. Não Apareço no Making Of. Fui um dia lá conhecer os atores e só. Realmente acredito que um filme é do diretor assim como o texto é do escritor. Quando decidi fazer o filme e deixar na mão do pessoal da Presto, aquela história contada no DVD não era mais minha, era do Claudio Lemos e de suas visões sobre o texto. Tentei me manter ausente até para não interferir em um trabalho que o autor é ele. De resto, adorei o resultado do filme e confesso que revejo o DVD diversas vezes.

7 - A resposta do DVD esta sendo boa?

Depende. Como eu disse na pergunta acima, o filme é do diretor e não do escritor. E acredito que ele como filme isolado é um bom filme. A maioria das pessoas que não conheciam o blog teve uma resposta muito positiva para o filme e isso foi visto não só nas sessões teste, mas com amigos de pessoas que compraram o filme.

Dos leitores que compraram o filme eu digo que foi meio a meio. Muitos foram ver o filme como uma produção caseira e provavelmente ruim e se admiraram com a qualidade do DVD (menu, extras, making off) e do filme (direção, som, trilha sonora). Outros ficaram decepcionados de verdade e desses, quase todos porque tinham uma visão do “Vic” já concebida e não aceitaram muito bem a visão do filme.

De forma geral, acho que o filme é bom e eu o teria na minha videoteca mesmo que não fosse um filme sobre um pedaço da minha vida.

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8 - O que você sente falta do Vic que começou a escrever o blog Viciado Carioca?

Nada. Sinceramente nada. Acho que aquele Vic se transformou nesse Vic daqui bem melhorado.

9 - Se você pudesse ser alguém, quem você seria? Vivo ou morto!

Sempre tem um engraçadinho, não é?

10 - Jack Daniel’s need ou on the rocks?

Boa pergunta. Talvez a melhor. Quando eu tinha de 15 a 19 anos sempre bebi a cowboy (até tem uma coisa muito engraçada sobre isso que devo relatar no desenrolar do ANO I).

Mas existe um resultado bem fatal na mistura de Marlboros, maconha, bebida e uma alimentação descontrolada. Gastrite e úlcera. Comecei a ter muita azia e se tornou impossível beber qualquer coisa destilada sem gelo. Então, hoje, JD apenas com gelo.

Existe sempre a exceção para confirmar a regra. (Não existe uma regra sem exceção e se existir, não é regra). É o dia do “Fantástico Mundo de Jack Daniel’s” (inspiração no Fantástico Mundo de Jack). Começou com eu e o Lucas, em um dia que compramos uma garrafa e ficamos dividindo no gargalo e discutindo sobre a vida, o universo e tudo mais enquanto andávamos pela praia de Ipanema até o Leblon. Repetimos a dose no ano seguinte. No quarto ano ganhamos dois seguidores e hoje, o evento no seu sexto ano, são dez pessoas e três garrafas de JD.

A idéia é o dia seguinte virar feriado. Sei lá. O Feriado do dia seguinte do Fantástico Mundo de Jack Daniel’s. Vamos conversar com um vereador e vê se cola. Mas fiquem a vontade de reproduzir o evento em suas cidades. Qualquer dia podemos criar a “marcha a Jack Daniel’s” com motoqueiros, roqueiros e malucos em geral andando e falando merda enquanto bebem JD. Um grande movimento que unirá pessoas de todo país com o único objetivo de ficar jogando papo fora enquanto enchem a cara.

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terça-feira, 11 de março de 2008

Feliz aniversário, envelheço na cidade

Semana passada foi que reparei que em 13 de Fevereiro esse blog fez um ano e eu não disse nada. Trabalho é como um vampiro de alma. Ele suga a sua criatividade e sua atenção até que você se torne uma carcaça morta na frente da Tv. Só assim que alguém consegue rir de uma piada do Zorra Total.

Mas esquecendo isso, vamos nos lembrar de coisas boas. Estou preparando um post especial de aniversário e preciso da sua colaboração. Me envie por e-mail (e por favor, somente para o e-mail viciadocarioca@gmail.com) perguntas que você gostaria que fossem respondidas e, pelo menos, os seus três contos prediletos já publicados (vale do antigo blog).

A minha idéia é fazer uma espécie de post “extras do blog”. Daí você poderá pedir para o seu irmão mais novo gravar as minhas respostas em mp3 para você escutar os meus comentários quando lê o seu conto predileto. Idiota, né? Então me ajuda a fazer um post diferente.

Estou esperando!

Abraços
Vic

quinta-feira, 6 de março de 2008

Juno x Rambo IV

- Está passando Rambo IV no Rio Sul as 16:00. Bora? – Disse ao Lucas enquanto eu olhava o jornal. Do outro lado do telefone, o Gordo entregava um DVD para o cliente.

- Vem cá, você não foi trabalhar de novo? Qualquer dia o seu chefe vai reparar que você fica doente pelo menos oito vezes no ano e sempre na segunda-feira. – Ele me repreendia como se eu precisasse de um pai gordo para me colocar nos eixos.

- Vamos lá, Gordo. Hoje é segunda-feira e decretei feriado! Depois nós podemos tomar umas cervas em um lugar legal. Talvez no Evanildo. – Evanildo é um buteco fuleira que eu e o Lucas gostamos de ir porque o garçom é aficionado por cinema, mas consegue confundir o nome dos filmes, dos atores e das cenas de forma indescritivelmente hilariante.

- Eu vou ter que arrumar alguém para me render, Raulzito. Não sei se a minha irmã está disponível. – A irmã do Lucas é mais gorda do que ele. Ela sempre está “disponível”. Então eu resolvi apelar:

- Fala para ela que é por mim. Ela vai aceitar. Ela me ama. –

- Eu já falei das outras 12 vezes que era para você. Não sei se você já percebeu, mas nós temos que inventar outra desculpa.

- Se vira, gordinho.

- Mas tem um lance. – Não sei por que, mas o meu faro de “tem merda no ar” disparou de uma forma alucinante.

- Qual foi Gordo?

- Poxa, porque ao invés de ver Rambo a gente não vai ver Juno? – Fiquei calado. Estava mais petrificado que o Han Solo no final de O Império Contra-Ataca. Peguei um cigarro. Era o último do maço. Fiz uma bolinha com o maço vazio e acendi um Marlboro. O cigarro é o último resquício de que eu fui um drogado um dia. Sem contar o meu apelido, é claro. E depois que eu já tinha dado umas duas tragadas e que o Gordo teve tempo suficiente para pensar na merda que ele disse, eu respondi:

- Você está querendo me comer?

- Que porra é esse, Vic? É só um filme diferente, alternativo, deu vontade de ver.

- Gordo, esse é o tipo de filme para você ver com a mulher que você está pegando ou que você quer pegar. Não é para dois caras como nós que vamos ver um filme e depois tomar umas cervejas.

- Ah, Vic. Rambo not good. Juno rock’s. – O desgraçado do Lucas só completou porcamente o segundo grau. Se o pai dele não tivesse uma locadora ele seria uma espécie de Bukowski da maconha, mas sem a parte interessante da escrita. Mesmo assim, ele aprendeu inglês vendo os filmes americanos e fica encaixando “expressões” em inglês nas suas falas, com um sotaque horrível. As vezes, ele mesmo inventa as próprias expressões.

- É sobre uma adolescente grávida. Eu fujo de adolescentes grávidas desde os meus quinze anos de idade! Por que agora, depois de velho, eu vou pagar para ver uma adolescente grávida?

- O filme ganhou o Oscar de roteiro original.

- Ele concorreu com uma porra de rato que cozinhava e um cara que se apaixona por uma boneca inflável, meu Deus. Isso é mais fácil do que ganhar uma corrida competindo com o Lars Grael!

- Porra Vic, quem já viu um Rambo já viu todos. Mas esse filme, Juno, esse filme parece ter alma. – As vezes é mais fácil convencer uma mulher na noite de ficar comigo a fazer o Gordo mudar de idéia quando ele cisma com algo.

- Você está aviadando, Gordo. E agora, pensando melhor, não é bom ver esse filme nem com a mulher que você está pegando.

- Why not?

- Imagina. Você assiste Star Wars e saí do filme querendo ser um Jedi. Você vai no Rambo e sai querendo metralhar todo mundo. Você assiste Independence Day e saí do filme querendo ser o presidente dos Estados Unidos e detonar todo alienígena que você vê pela frente...

- Whatever....?

- E sua mulher vai ver Juno e imagina as idéias que ela pode ter quando sair do cinema? Cara, esse filme é uma armadilha para homens. Foi escrito por uma ex-stripper, Lucas. Essa mulher deve ver os homens como animais sem coração que traem suas esposas, tratam as mulheres como objeto e obrigam-nas a tirar a roupa por dinheiro. Essa é a vingança dela contra a raça masculina. Fez um filme com a cara de cordeiro, mas que vai colocar idéias malucas em toda mente feminina desse planeta.

- Você está maluco, Vic. Você está ficando fucking crazy....

- Tudo bem, eu admito. Eu exagerei. Agora levanta seu traseiro gordo e vamos ver Rambo IV. Oscar de roteiro o Stallone também tem um.

- Não. Eu vou ver Juno. Se você quiser, vai no Rambo sozinho.

- Eu não posso ver Rambo sozinho. Eu tenho que ver com você.

- Por que você não pode ver Rambo sozinho? Você tem medo?

- Não, Lucas, por causa da teoria do quarto filme!

- O que? – Ele me perguntou.

- A teoria do quarto filme. Se liga! A gente viu Aliens IV juntos e foi maneiro, nós vimos A Ameaça Fantasma juntos e foi maneiro, vimos Duro de Matar 4.0 juntos e foi maneiro. Nós vimos a droga do quarto filme do Harry Potter juntos e foi maneiro! – Ele ficou calado depois da explicação. Eu podia imaginar o Gordo do outro lado, coçando a cabeça e pensando naquilo tudo. Ele deveria estar procurando uma saída técnica para aquilo, mas não existia. Ele não poderia ir contra a teoria do quarto filme.

- Tecnicamente Ameaça Fantasma é o primeiro episódio.

- Mas foi o quarto a ser feito.

- Seguindo essa linha, isso quer dizer que eu serei obrigado a ver o novo Indiana Jones com você?

- Claro!

- Hum....

- Ué, por que? Você estava pensando em ver Indiana Jones com quem?

- Para ser sincero? Com ninguém. Só queria confirmar. – Disse ele finalmente. Comecei a acreditar na vitória.

- Então? Vamos ver Rambo?

- Você realmente acha que se você for ver Rambo sozinho, o filme vai ser uma droga? – Ele me perguntou. Estava inclinado. Estava no papo.

- Não se pode ir contra a magia do quarto filme.

- Eu só tenho uma coisa para dizer para você.

- O que?

- SESSÃO DUPLA!...Uhu....SESSÃO DUPLA!!!!..... I LOVE IT!

- Ah não, cara.... você lembra da última vez que nós fizemos uma Sessão dupla?

- Não.... a muito tempo que a gente não faz uma sessão dupla. Estou com saudades.

- Você realmente não lembra da última vez que vimos dois filmes no cinema no mesmo dia?

- Porra Vic, eu fumo maconha. Eu não lembro nem da cara do meu avô...

- Mas eu lembro. Foi em 1995. Quer saber quais eram os filmes?

- Acho que já sei....

- Batman Eternamente e Johnny Mnemonic.

- E o trailer de um era mais maneiro que o trailer do outro....

- E quando nós fomos ver... duas bombas.... é a teoria da Sessão Dupla. Você não pode querer tudo ao mesmo tempo. Outro dia nós vamos ver Juno. – Ele parou do outro lado, pensou e finalmente disse.

- Hoje vai ser o dia da exceção que só confirma a regra. Vamos fazer uma Sessão dupla que vai arrasar! Let’s go!

***

- Olha os caras, ai! Quanto tempo vocês não apareciam.... – Evanildo servia as cervejas enquanto eu acendia um cigarro para ver se tirava o aborrecimento da minha cabeça.

- É porque hoje nós fomos ao cinema e resolvemos passar aqui e tomar uma cerva. – Explicou o Lucas para o garçom. Ele arregalou os olhos e ficou animado. Ele sempre faz isso. O desgraçado assiste uma porrada de filme de ação em DVD, mas não vai ao cinema. A última vez foi para ver Doutor Jivago ou coisa parecida. Então, toda vez que falamos que fomos ao cinema, ele fica com aquele brilho nos olhos.

- E vocês foram ver o que? Rambo? Parece ser legal, ele com a metralhadora passando o cerol em todo mundo. Tá tá tá tá tá tá.....

- Pois é. A sua imitação de Silvestre Stallone é o mais perto de Rambo que eu vi hoje. – Disse eu pensando qual era a melhor forma de suicídio: cortar os pulsos ou veneno.

- Nós fomos ver Juno! – Disse o Lucas empolgado.

- Ver o que? Dumbo? Vocês foram ver desenho de elefantinho voador... Que bichonas....

- Não é Dumbo, Evanildo! É Juno! – disse Lucas corrigindo o garçom. Pelo menos aquilo me animava.

- E que filme é esse?

- É de uma adolescente grávida. – Expliquei.

- Ih... já vi que aqueles filmes mela-cueca. A garota fica grávida, o pai da criança foge e engravida outra menina. O pai da garota mete a porrada na filha grávida e a mãe vai arrumar mais um emprego para sustentar a família.... – Eu ria descontroladamente e o Lucas estava se enfezando. O Evanildo continuava - Fala sério... Vocês não precisam ir ao cinema para ver isso. É só ir lá perto de casa. Tá cheio de menina nova e prenha.

- O filme tem uma história maneira, Evanildo. Você só está falando merda. Ele ganhou o Oscar de melhor roteiro original. – Disse o Lucas, mas quem se irritou dessa vez fui eu:

- Para com essa merda de “Ganhou o Oscar de roteiro”. É um filme sobre gravidez. O que pode ter de original nisso? A garota fica grávida então o filme só pode ir em três direções: Ou ela mata o bebê, ou ela doa o bebê ou ela fica com o bebê. O que de original tem nisso? Os dois últimos filmes originais sobre gravidez foram Aliens e Júnior.

- Oscar é Oscar. – Disse ele mostrando a palma da mão e deslizando o braço pelo ar. Eu rebati:

- Assassinato em Gosford Park também ganhou o Oscar de roteiro e está na minha lista dos 10 piores filmes que eu já vi na minha vida. – Lucas coçou a cabeça e soltou apenas um:

- Gosford Park sucks!

- Fala sério. As duas bichonas indo ver o filminho da menina prenha. Por que vocês não foram ver Rambo? – argumentava Evanildo. Lucas respondeu:

- Nós íamos ver. Só que minha irmã me ligou pedindo para eu voltar e ficar até fechar a loja porque ela se empolgou que nós íamos ver Juno e combinou de ir com uma amiga em outra sessão.

- E por que você não foi sozinho ver Rambo? – Perguntou Evanildo para mim.

- Por causa da teoria do quarto filme.

- Teoria do quarto filme? – Indagou o garçom. Eu bati na mesa e falei:

- Eu não vou ficar discutindo isso. – virei para o Gordo e continuei - Amanhã nós vamos ver Rambo e você vai pagar a entrada. – Disse ao Lucas.

- Tudo bem, Vic. Whatever.

- Agora, mais do que nunca, eu preciso ver um brutamonte com uma metralhadora destroçando tudo. – Evanildo olhou para mim e disse:

- Vocês perdem muito tempo indo ao cinema. O outro ali gosta de garotinha buchuda esse daqui quer ver um doidão mandando ra-ta-ta o tempo todo. Estou falando, é só ir lá perto de casa que tem isso tudo. – E finalmente eu e o Gordo concordamos com uma coisa, quando falamos juntos:

- Vai se fuder, Evanildo.

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