sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Cry, Cry, Empty Gril

Ela estava freqüentando o mesmo bar que eu fazia uns dois meses. Não por mim, óbvio. Ela é aquele tipo de mulher que não se apega a caras tipo o meu ou a tipo nenhum. Enquanto eu ficava no balcão bebericando uma cerveja, ela estava na mesa do fundo. Sozinha. Vazia.

Fumava alguma marca de filtro branco que eu não conseguia decifrar. Deveria ser barata. Toda vez que o garçom vinha trocar a sua cerveja, ela disparava três dedos de prosa. Estava dando mole para o garçom, qualquer um podia dizer isso. Nunca sairia com ele, qualquer um também podia dizer isso. Menos o garçom que nutre uma esperança de levá-la a algum motel barato.

Vira e mexe tinha algum homem em sua mesa. Um DJ fracassado, um advogado em começo de carreira ou um analista de sistemas cansado. Enquanto eu volto para a minha cama sozinho, ela garantia a sua carona. Não sei dizer a que preço. Não sei dizer se aqueles caras simplesmente a levavam para casa ou tinha algo mais. Aqueles olhos não diziam muita coisa. Eram vazios como as suas noites.

Certamente não é bonita, mas não chega a ser feia. Vendo ela dando mole até para o garçom, qualquer garota diria que ela é horrível. O cabelo não ajuda muito. De farmácia e alisado. Até que tem umas belas coxas, mas usa calças e saias longas. Um amigo meu descreveria como MMM. “Mulher mais ou menos”. Acho que ele tem razão. O foda é que as MMM tendem a “uma boa mulher” em uma terça chuvosa ou no dia que você ultrapassa as suas duas cervejas para cinco. Se eu estivesse bebendo com o velho Jimmy – do Matanza – ele diria que ela fica a cada drink mais bonita. Mas a cada noite, ela me parece mais vazia.

E começa uma situação bizarra. Ela nunca me olha. Nunca mesmo. Comecei olhando discretamente, mas a vazia nunca me notava. E isso me deixava puto. Na minha cabeça seria como o Steve Buscemi não respondendo os olhares da Angelina Jolie. Eu sabia que podia mais do que a vazia e naquele nosso mircrouniversso ela deveria me dar mole. Mas não dava. Comecei a olhar direto, mas isso também não ajudou. Eu era o homem invisível. Reparei que ela nunca levava o seu próprio isqueiro e comecei a manter meu Marlboro e meu isqueiro em cima do balcão. Ela virá aqui pedir emprestado, eu dizia a mim mesmo. Nada. Ela atravessava todo o bar e queimava seu cigarro barato com o isqueiro preso a correntinha no início do balcão. Aquilo começou a virar uma disputa pessoal. Não era possível.

E o desfile de amigos malucos continuava. Tinha um mulato, que saía da casa da namorada e todas as noites parava no bar para beber duas Antárticas. Era um coadjuvante fixo em nosso pequeno seriado. Ele levou a vazia para casa uma noite. No dia seguinte, o mulato estava no bar, mas a Vazia não. O garçom, acho que até por ciúmes, começou a interrogá-lo. E, no final da segunda cerveja, o mulato confessou que trocou alguns beijos com a Vazia, mas na hora final ele “o deixou com o pau na mão”. Qual é dessa mulher?, ele perguntava. Mas acho que ninguém do bar tinha a resposta.

Alguns dias ela realmente não aparecia. Outros, ela chegava ao fim da noite, bebia duas cervejas sozinha e saía. Outros, ela já chegava com um cara. Em tantos outros, ela sentava sozinha e os seus “amigos” iam aparecendo. E, em alguns, ela chegava cedo, falava muito no celular e acabava indo embora. Em todos eles, aquele mesmo olhar que não dizia nada, aquela velha rotina de dar mole para o garçom, e aquelas cervejas sem significado. Vazia.

Um dia, cheguei ao bar pelo outro lado da rua. Tinha ido ao posto comprar alguns maços de cigarro de reserva. Passei por outro bar, quando a vi. Tipicamente sentada na mesa com algum cara frustrado. Então percebi que em todas as noites que ela não estava no meu bar, estava em outro. Todas as noites que ela escapava do nosso seriado, ela estava fazendo alguma participação especial em outro seriado. Pensei em invadir aquele bar, mas deixei pra lá. Naquele dia notei que eu não estava no “nosso” seriado. Eu era o coadjuvante no seriado dela. Empty Woman. Que qualquer dia o SBT irá comprar e traduzi-lo para algum nome bizarro do tipo: “Uma mulher de bar em bar”. Tanto faz.

Continuei bebendo a minha cerveja no balcão e ela continuou o seu rodízio bizarro de amizades. Um taxista em fim de noite, um bancário em acessão, um jornalista que trabalhava como gerente financeiro numa microempresa. Quase nenhum deles voltava ao bar, e quando retornavam, nenhum dizia em todas as letras que tinham chegado ao finalmente na mulher que parecia ser a mais fácil que qualquer buteco já viu. Ela começou a ser aquele enigma irritante. Um “o que é o que é” chato, que você já sabe a resposta mas não lembra e tem que pedir para te dizerem a resposta. Ela é a piada sem graça que o locutor da rádio AM sempre conta mas você não resiste até escutar o final.

Foi em uma segunda-feira que ela pediu para sentar ao meu lado. Eu estava queimando o segundo cigarro decidindo o filme que eu veria quando chegasse em casa. O bar estava vazio e eu era o único cliente quando ela invadiu com o seu perfume adocicado. Olhou tudo, e finalmente virou para mim apontando para o banquinho ao meu lado e perguntou:

- Você se importa se eu sentar aqui?

Apenas consenti com a cabeça. Ela pediu a sua Skol defult e eu continuava na minha Brahma. Ela sacou um de seus filtros brancos de dentro da bolsa e perguntou se podia usar meu isqueiro.

- Claro. – E acendi outro, sem mesmo estar com vontade. Ficamos trocando algumas tragadas em silêncio e então ela soltou a armadilha:

- Desculpa, mas hoje eu não queria ficar sozinha.

- É?

- Estou muito carente. Tomei um fora. – Fiquei surpreso pela obviedade. Eu nem deveria fingir que sou um escritor se não conhecesse essa. A primeira vez que usei essa foi na Oitava Série. Sempre funcionava, principalmente usada por mulheres. Uma mulher dizer em todas as letras que está carente e você não finalizar é como você ser um Jedi e não conseguir matar um Storm Trooper. Impossível. Ela usava uma tática retrô. Era quase uma cantada anos 80. Eu quase ri na sua cara, mas sou curioso por natureza e ia levar aquilo até o fim.

- Você tomou um fora? – Disse utilizando todas as técnicas de interpretação que eu aprendi vendo filmes do Ben Affleck. E a desgraçada como se estivesse escrevendo um roteiro de um filme que só a Band tem coragem de passar me responde:

- Pois é. Eu me sinto feia. Você me acha feia? – Porra, essa é a hora que ela vai avaliar onde a noite vai chegar. Se eu der uma resposta espiritual do tipo “Não existe isso de bonito ou feio” ou “Se você se achar feia todo mundo vai te achar feia” ela já vai saber que eu não estou pra jogo, mas se eu der uma resposta acalorada como eu dei, ela vai saber que tudo está correndo segundo o seu plano:

- Você feia? Você só pode estar de sacanagem.... – E ela riu. Por alguns segundos. E daí, ela me mostrou que se eu tive aulas de interpretação com Ben Affleck, ela teve Thomas Jane. E começou um choro fake:

- É porque... porque.. ele não gosta de mim.... – E se jogou no meu peito. Pois é. Idiota assim. Em menos de 2 minutos nos já éramos tão amigos que ela já estava chorando no meu ombro. Aquilo era mais óbvio do que o roteiro de Trapalhões. Vamos lá, baby. Eu realmente quero saber como isso acaba, apesar de já ter visto esse filme mais de mil vezes e não acaba no motel.

Fiz carinho em sua cabeça vazia. Meu cabelo prendia as vezes na chapinha. Eu me olhava através de um espelho na parede e fazia caretas para mim mesmo do tipo: se esse é o episódio de final de temporada, esse seriado é uma merda.

- É tão feio ver uma mulher tão linda chorando. – Se eu sou o Ben Affleck com certeza Lucas, o gordo, seria Matt Damon e nós teríamos um Oscar por roteiro. Pois é, esse mundo é bizarro. Alfred Hitchcock não ganhou um Oscar mas Ben Affleck tem. E eu estava com aquela mulher nos meus braços e a única coisa óbvia que pude fazer foi emendar um beijo.

Se eu dissesse que o beijo foi vazio eu seria tão óbvio como aquela noite. O beijo foi louco. Aquela língua balançando dentro da minha boca procurando alguma emoção que não existia e na minha cabeça rodando aquele bicho japonês do Gênio Maluco perguntando “O que está acontecendo?”. Passei a minha mão pelas as suas costas e ela evidentemente reagiu com emoção. Um filme da Sexta Sexy é muito mais erótico.

- Eu não esperava isso. – Ela até tentou emitir alguma emoção dando um olhar de cima para baixo como um cão mendigando comida. Eu continuei com aquele Balet escroto e só pensava no filme do Hitchcock lá em casa.

- Acho que essa pode ser uma daquelas noites loucas, vamos sair daqui baby? – Ela concordou e eu pensei que não era nenhum Neil Armstrong e que a qualquer momento iria conhecer um lugar onde muitos homens já estiveram.

Saímos do bar e ela olhou para um lado e para o outro e perguntou:

- Onde você estacionou? – E nessa hora o Ben Affleck foi embora e deixou o lugar para o bom e velho Vic.

- Em você, baby... – Ela me olhou curiosa, e foi a primeira vez que vi emoções naqueles olhos.

- Você está a pé? – Eu ri e respondi.

- Engraçado, eu iria perguntar o mesmo para você.

- Você só pode estar de sacanagem. – bem, essa era uma frase que eu ouvia o tempo todo.

- Algum problema, meu amor? Você está carente e eu estou... estou.... realmente atraído por você. – Eu disse com toda sinceridade que duas Brahmas permite. Ela queria dar de ombros, mas se segurou. Ela era boa em sua personagem. Nos abraçamos e seguimos pelas ruas do Rio.

Andamos alguns quarteirões e eu finalmente disse:

- Acho melhor pegarmos um táxi. – Ela concordou e paramos. Ali perto tem um motel daqueles que eu posso pagar. Não pestanejei. Quando entramos no carro soltei:

- O senhor conhece o Te Adoro? – Romântico, não? O taxista logo concordou e ela não disse nada. Agarrei mais uma vez a vazia, quando notei que não tínhamos nem trocado nomes. De qualquer jeito o taxímetro estava rodando e eu pensado que no final das contas aquela seria uma segunda-feira das boas. Quando chegamos na final da 28 boulevard ela disse.

- O senhor pode me deixar na praça. – Eu não disse nada. Táxi parou eu paguei e soltamos.

- Eu moro ali. – Ela apontou para algum lugar que eu realmente não me importei.

- É assim?

- Assim, o que?

- Pensei que estávamos tendo uma boa noite.

- E estamos. Eu só não quero estragar tudo com sexo sem razão para amanhã você cagar para mim. Seu beijo é realmente gostoso. – Pois é, eu realmente estava falando com um robô. Ela já tinha todas as desculpas programadas, todas as respostas feitas. Era um computador e eu sabia que por mais genial que eu tentasse ser, não conseguira vence-la. Investi no contra-ataque:

- Você está certa, eu nem sei seu nome.

- Bruna.

- Legal.

- E o seu?

- Me chame de Vic.

- Vic?

- Vic.

- Legal.

- Você está bem? Não vai cortar os pulsos ou algo assim? – Tentei a última piada.

- Você me deixou bem.

- Ok.

E nos beijamos mais uma vez. Nem sei porque. Voltei puto para casa. Tenho quase certeza que estraguei uma bela noite no bar por conta de alguns beijos, um táxi e uma noite sem emoção. Um coadjuvante de uma série sem sentido. Um Jimmy Olsen, um Robin, um Vic no “Uma mulher de bar em bar”.