segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Os tipos de drogados

Ronald Rios ataca novamente. Com o auxílio de Marianna Gomes, os dois mostram porque você só deve cantar uma mulher quando estiver careta.

E não perca tempo! Aproveite para garantir um dos últimos exemplares do meu novo livro com super desconto promocional. De R$40 por apenas R$17!!!

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Últimos Exemplares


A Pré-venda do meu livro está chegando ao fim, mas ainda existem alguns exemplares com o super desconto promocional. Essa é a chance de quem ainda não comprou e quer economizar uns trocados de aproveitar para garantir o seu livro. Essa é a oportunidade de quem já comprou, comprar mais um exemplar para dar um presente bacana, barato e diferente para aquela pessoa querida.

O Lançamento oficial do livro deve ocorrer em Janeiro. Quando eu souber a data exata eu informo para vocês.

Para o pessoal que possui blogs, frequenta fóruns, participa de lista de e-mails, não deixem de divulgar para os amigos sobre o livro. Com certeza ainda tem muita gente por aí que ainda não faz parte da nossa pequena máfia. Para ajudar na divulgação coloco abaixo o texto da orelha do livro e o release do livro. Lembrando que o link para o site da editora é:


Sexo, drogas e rock and roll. Para inúmeros fiéis e infiéis do mundo inteiro, esta é uma trindade muito mais sagrada, inspiradora e, até mesmo, transcendental do que a sua versão católica apostólica romana. O Viciado Carioca é uma dessas ovelhas desgarradas que não acreditam no destino, no amor e muito menos no destino do amor. Até que uma epifania canábica no carnaval de Minas Gerais muda o rumo do nosso anti-herói.

A partir dessa pequena inconfidência mineira, Vic, o protagonista dessa trama underground, nos conduz por um passeio pela cena musical carioca dos anos 1990 com seus personagens boêmios, loucos e divertidos. Levando-nos, até mesmo, a uma obscura comunidade heavy metal, cheia de regras e princípios e liderada por Luther, um metaleiro veterano que controla e sabe de tudo o que ocorre no velho Casarão do Rock.

A descoberta do amor pela ruiva Nicole, até então namorada de Luther, as importantes amizades que faz no Casarão e os devaneios acerca de uma verdadeira mitologia roqueira, são os fios condutores deste romance, que tem no senso de humor um dos seus pontos fortes.

Viciado Carioca é um desses livros para quem gosta de sexo, drogas e rock and roll, juntos ou separadamente, comedida ou desbragadamente, nesta ou em outra ordem. Ou seja, trata-se de um livro recomendado principalmente para quem ainda não morreu.



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Charlie e a Fantástica Fábrica de Alucinações!

Pré Venda: Viciado Carioca – Amor & Rock and Roll – o livro que reúne os Arcos I e II dessa incrível saga! Pré Venda com um preço super promocional e para um número limitado de livros. Compre agora e garanta o seu!

Em uma tarde ensolarada em uma floresta no interior do Brasil, Charles estava procurando Cogumelos para fazer um chá venenoso quando se depara com algo muito estranho:

- Ave Maria Joana! Se não é um cogumelo dourado!

Charles nunca tinha visto um e no momento ficou na dúvida se levava aquele cogumelo para casa ou não. Resolveu arriscar e com aquele monstrinho cintilante fez um chá mágico.

Não demorou muito tempo para surgir bem na sua frente um homem alto, magro, vestindo um terno espalhafatoso e uma cartola na cabeça. A criatura arregalou os olhos e perguntou para Charles:

- Você sabe quem eu sou?

- Claro. Você é o Visconde de Sabugosa!

A figura abriu um sorriso e Charles também mostrou os seus dentes maltratados pela vida.

- Errado, meu nobre, meu nome é Willy Marofa e você é um dos cinco doidões sorteados para visitar a minha Fantástica Fábrica de Alucinações!

Charles ficou boquiaberto e não conseguia emitir nenhuma palavra. Willy Marofa envergou seu imenso corpo como se fosse uma vara de pescar e estendeu a mão para Charles:

- Vamos rapaz, será uma viagem única.

Charles não conseguia acreditar naquilo. Tinha acabado de jogar fora seus discos do Dixie Dregs e não estava preparado para uma viagem psicodélica. Deveria aceitar o convite de Willy Marofa? Fechou os olhos e desejou sorte a si mesmo. Então estendeu a mão e tocou nos dedos da estranha figura.

Luzes caleidoscópicas explodiram através do quarto. Charles e Willy Marofa voavam ao som do bater de asas de mil e um Borboletofantes cor de rosa. Naturalmente surgiu outro Willy Marofa logo abaixo deles carregando um outro rapaz gorducho. Antes que Charles pudesse entender aquilo, outro Willy Marofa surgiu pelo lado, agora carregando uma garota de vestido violeta. Um Willy Marofa gritou para o outro:

- A comunidade está se formando!

Então eles apontaram para cima e outro Willy Marofa surgiu carregando um rapaz franzino. Charles estava maravilhado com aquela visão. Ele pensou em perguntar para o seu Willy o que estava acontecendo, mas seus pensamentos foram interrompidos por um grito ao seu lado:

- Ei, rapazes, esperem por mim!

Um outro Willy surgiu pela direita carregando mais outra garota. Essa não era tão bonita quanto a primeira, possuía uma horrenda verruga no nariz e mantinha uma cara triste. Charles não entendia como alguém poderia estar triste com uma viagem daquelas, mas resolveu não concentrar os seus pensamentos naquilo. Ficou admirando os borboletofantes cor de rosa durante o restante da viagem. A velocidade deles então foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, até que aterrizaram diante de uma velha fábrica toda colorida. Um dos Willy pousou primeiro no chão e os outros Willy foram um por um descendo dentro do primeiro quando finalmente só tinha um Willy Marofa diante deles:

- Eu a-do-ro esse lance de múltiplas personalidades físicas!

Tirando a menina com a verruga, todos estavam maravilhados com aquela visão dos múltiplos Willys se tornando apenas um. Marofa apontou para a fábrica que jogava sua fumaça verde e laranja no ambiente através de uma chaminé azul e amarela.

- Essa é a minha Fantástica Fábrica de Alucinações e vocês, meus cinco amiguinhos doidões, serão os primeiros a conhecê-la por dentro!

- Que droga! – lamentou a menina da verruga!

- Vou fumar e quebra a porra toda! – anunciou o gordão!

- Que legal! – comemorou Charles!

- Espero que ninguém veja a gente aqui! – disse o rapaz franzino olhando para todos os lados.

- Alguém pode apertar um baseado pra galera? – perguntou a menina de vestido violeta.

Willy Marofa ajeitou o sua cartola e riu dos comentários de seus convidados. Ele andou até a porta da fábrica e notou que todos se entreolhavam, estranhando a situação, então antes mesmo de tocar a maçaneta, ele anunciou:

- Não seria interessante os cabeçudinhos se apresentarem uns aos outros para que nossa pequena viagem seja mais agradável?

A garota da verruga deixou os braços caírem ao lado do corpo e disse em um sussurro arrastado:

- Eu me apresento por última, por que sempre sou a última.

- Faremos melhor ainda, meu poço infinito de tristeza, deixa que eu te apresente e assim não teremos mais o desprazer de ouvir a sua voz por algum tempo! – disse Willy Marofa abrindo seu característico sorriso largo. – Essa aqui é Maria Verruga.

- Olá Maria Verruga! – disseram todos de uma só vez.

Maria olhou com desdém para eles todos, de um muxoxo e ficou olhando como suas unhas eram feias enquanto o gordo se apresentava:

- Meu nome é Augusto, o gordo! Eu encontrei o Cogumelo de Willy Marofa quando eu estava fazendo uma festinha de cogumelos, com maconha, com vodka, com absinto. Eu já estava ficando doidão e o pessoal pedindo para eu parar, foi quando eu quebrei uma televisão velha na cabeça da minha irmã mais nova e quebrei os dentes do namorado dela com um cabo de vassoura.

Os outros ficaram olhando constrangidos com aquele excesso de informação enquanto Augusto batia no peito gordo e anunciava que somente ele sabia se divertir.

- Meu nome é Violeta e eu acho que estou aqui por acaso. Ninguém podia acender um baseadinho para quebrar o gelo dessa apresentação? – houve um silêncio durante alguns segundos e como ninguém se mexeu, Violeta continuou. - Eu fui na casa de uma amiga para ver se ela tinha um fininho para cortar a minha fissura quando eu descubro que ela estava fazendo um chá com um cogumelo estranho que ela encontrou no jardim. Ela mexia na panela e dizia que não ia me dar um gole, mas eu fui lá e filei uma caneca antes de todo mundo e agora estou aqui!

Ela terminou a apresentação abrindo um pequeno sorriso tentando inutilmente conquistar a simpatia dos outros. Charles achou que era a hora certa dele se apresentar:

- Meu nome É Charles e eu estava tomando um chá com esse cogumelo dourado que encontrei por acaso e acabei conhecendo esse homem maravilhoso chamado Willy Marofa. Acho que essa é uma das viagens mais sensacionais que eu já tive!

O rapaz franzino observou Charles terminar sua apresentação com seus olhos arregalados, depois de olhar umas três vezes que não tinha ninguém por perto e de se certificar mais outras cinco que era realmente a sua vez ele disse:

- Meu nome é Mike e se isso for uma pegadinha de algum amigo meu, eu vou me vingar. Isso tá parecendo coisa do Bronha. Vocês conhecem o Bronha? Ele é um amigo meu que fuma pra caramba e de vez em quando faz uns trabalhos de vapor para levantar uma grana. Olha gente, isso fica entre a gente. O Bronha não gosta que ninguém fique falando por aí que ele é vapor. Vocês não conhecem ele, né? Conhecem? Conhecem?

O sujeito estava todo elétrico e mesmo com todos dizendo que não ele olhava para todo mundo com olhos desconfiados. Charles não entendeu porque ele contou sobre o tal do Bronha para depois dizer que era segredo. Resolveu não tentar entender aquelas pessoas neuróticas com quem dividia aquela viagem maravilhosa e decidiu apenas curtir.

- Já chega desse blá, blá, blá e agora vamos ao que interessa.

Willy Marofa tirou uma chave grande e dourada e enfiou uma das pontas na porta e virou a outra ponta que era em formato de folha de cannabis. Eles atravessaram o portal e entraram no mundo mágico da Fantástica Fábrica de Alucinações.

Atravessaram um grande corredor enquanto Violeta insistia para alguém acender um fininho. O Corredor era decorado com quadros de figuras importantes como Bob Marley e Philip K Dick. Augusto não escondia dos seus amigos a ansiedade de experimentar as famosas bolinhas de Willy Marofa enquanto Verruga achava tudo aquilo um saco. Só Charles e Mike pareciam admirados com tudo aquilo, mas enquanto o primeiro demonstrava em um belo sorriso, o segundo tinha olhos preocupados.

Finalmente chegaram ao fim do corredor. Marofa abriu um portão e o grupo chegou em um grande jardim. Arbustos de Sativa misturavam-se com arbustos de Salvia Divinorum entre cogumelos e mescais gigantes.

- Tudo aqui é alucinógeno, inclusive eu. Mas certas pessoas vão sentir dificuldade em me fumar. – disse Willy Marofa entre alguns gritinhos e sorrisos.

- Nós podemos consumir o que quisermos? – perguntou Augusto visivelmente excitado.

- É claro, amiguinho. Só não percam a linha.

Foi o suficiente para Augusto sair como um trator destruindo arbustos e cogumelos. Enquanto engolia alguns, ele destruía outros com socos e ponta pés. Charles resolveu apertar um fininho e dividiu sem problemas o seu cigarro com Violeta. Enquanto Verruga estava indecisa se utilizava maconha ou salvia.

- Eu sei que a maconha vai me deixar com azia, mas com certeza a salvia vai me deixar mais louca do que o gordão. Ah, que saco!

Mike estava puxando um pó escondido atrás de um arbusto quando Augusto apareceu e tomou a droga do coitado.

- É tudo meu! É tudo meu! – disse ele enfiando o pó dentro do nariz enquanto dava um soco na cara de mike.

Mike absorveu a bofetada, mas não pensou duas vezes. Correu em direção de Willy Marofa para denunciar o mal comportamento do amigo. Não precisava, Augusto já estava chamando a atenção de todo mundo. Ele quebrou mas alguns arbustos e enfiou as folhas na boca, arrancou a roupa e pulou no estilo “bomba” dentro do rio de Ayahuasca que passava por ali.

Todos estavam paralisados com o colega perdendo não só a linha, mas o resto do carretel inteiro.

- O que os jacarés coloridos estão olhando? Eu nem comecei ainda o concurso de barrigadas! – disse Augusto para a turma.

O que Augusto não notou é que a atenção do grupo já tinha desviado dele para um grupo estranho de anões que estavam se aproximando da margem do Rio.

- Seu Marofa, o que é aquilo? Eles são tão feios que me deprimem! – perguntou Verruga.

- São da polícia, eu tenho certeza! – disse Mike. Então, ele começou a gritar em direção dos anões enquanto aspirava o resto de pó que ainda tinha nas mãos - Olha eles que estavam fumando, eu não estava usando nada!

- Ora bolas, eles são Songa-mongas! – disse Willy intrigado com a burrice dos seus novos amiguinhos.

- Eles têm dedo de gorila! – observou Charles!

- E perninha de grilo! Você me deixa fumar um? – pediu Violeta.

- Não, não e negativo! – respondeu Willy Marofa. – Foi muito difícil trazer esses Songa-mongas até aqui. Eles são criaturas que gostam de se drogar e de cantar, o que é muito bom porque economiza o custo de um rádio.

- Ah, acho que eles vão começar a cantar. Eu odeio música! – comentou Verruga.

- Sim, eles vão começar a cantar! Vamos ouvir! – mandou Willy.

Songa-monga... onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga... onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

Nesse momento os Songa-mongas tiraram zarabatanas do bolso e começaram a assoprar dardos recheados de heroína em direção de Augusto. Enquanto uns assopravam outros começaram outra música:

Augusto, Augusto seu gordão
Não pensa, mete logo o narigão
Na sua viagem, perde a noção
Deixa todo mundo Boladão!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
Você é mais inútil que uma fimose
Nós ainda temos muito que fumar
E você vai morrer de Overdose!

Augusto, Augusto seu gordão
Não pensa, mete logo o narigão
Na sua viagem, perde a noção
Deixa todo mundo Boladão!

- Seu Willy, ele vai realmente morrer? – perguntou Verruga quase chorando.

- Não só ele, como todos vocês, eu e o planeta. Afinal, a esperança é a ultima que morre, mas ela fatalmente sempre morre!

Verruga começou a chorar com a Bad trip, Violeta decidiu que não iria mais filar nenhum cigarro de Willy Marofa, Mike tinha certeza que ele era um agente da polícia disfarçado. Mas e Charles? O que Charles achava daquilo tudo?

Charles não sabia. Gostava da fábrica e do jeito meio louco de Willy Marofa e no fundo achava que Augusto merecia ser punido por perder a noção. Charles odiava quando estava fumando um tranquilamente e algum amigo ficava doido além da conta e começava a fazer brincadeiras desagradáveis. Mas aquilo não era um pouco além da conta?

Charles refletiu um pouco e pensou que fatalmente aquele seria o destino de Augusto de um jeito ou de outro. Ninguém pode perder a linha sempre e achar que nunca vai sofrer as conseqüências. No fim, o gordo colheu o que sempre plantou. Ao concluir isso um pequeno sorriso se formou no canto da boca de Charles. Ele não deu bola e acompanhou Willy e o resto do grupo até a outra sala.


Willy abriu uma grande porta e todos entraram em uma sala que o chão era feito de terra. No chão existiam quatro buracos onde Willy pediu para que todos se deitarem. Entre alguns estranhamentos por parte de Mike e algumas reclamações por parte de Verruga todos se deitaram. Então Songa-Mongas vieram e os cobriram com terra deixando apenas a cabeça dos quatro visitantes de fora.

- Essa é a sala Castanheda e espero que todos vocês tenham uma experiência cognitiva muito especial. – disse Willy enquanto enfiava alguns capacetes cheios de eletrodos no crânio de todos.

- Ei, o que é isso? De alguma forma você vai denunciar a gente? Se você me entregar eu te entrego também! – ameaçou Mike.

- Sim, meu amiguinho de língua solta. Eu vou denunciar vocês. Irei denunciar vocês a vocês mesmo!

Willy Marofa abriu um sorriso e puxou a alavanca de um estranho aparelho que se encontrava do outro lado da sala. Raios de diversas cores saíram do aparelho em direção aos capacetes. Charles ao ver aquilo fechou os olhos e se preparou para o que ele tinha certeza de ser uma experiência única. Violeta notou com o canto do olho o sorriso de Charles e começou a imaginar que viagem fantástica ele estava tendo e desejou estar dentro da cabeça dele. Mike começou a rezar para que nem seus pais, seu chefe ou a polícia descobrisse que ele estava ali e que no fundo Willy Marofa fosse um bom sujeito. Todos começaram a ter uma viagem fantástica, menos Verruga. Ela surtou.

Quando o terceiro raio atingiu o capacete de Verruga e ela começou a ser transportada para um mundo onde não existia guerra, doenças, fome, pobreza ou morte ela empurrou o seu capacete para longe. Aquilo era tão irreal que não poderia existir nem no mundo das alucinações. Ela tinha certeza que não existia amor sem dor. Não era possível e a felicidade era algo tolo que as pessoas inventavam para fugir da verdadeira crueldade que era o mundo.

- Para com isso, você vai matar todos nós! – disse ela se balançando e batendo com a cabeça na direção do chão tentando destruir o capacete.

- Não faça isso, minha belezinha. Você pode inverter os raios de felicidade cognitiva da minha máquina de...de...como mesmo se chama essa máquina que gera felicidade cognitiva? – perguntou Willy Marofa para um Songa-monga.

- Máquina de felicidade cognitiva, mestre Marofa. – respondeu um Songa-monga.

- Ah, claro! Eu sempre me esqueço dessa parte.

Enquanto Marofa conversava com o Songa-monga Verruga batia mais forte com o capacete até que os raios da máquina pararam de ser coloridos e se tornaram negros.

- Rápido, amigos Songa-Mongas, desliguem a máquina!

Os Songa-mongas começaram a apertar alguns botões mas a máquina de recusava a parar. Então Willy apontou para os quatro que estavam deitados nas covas e os pequenos homens com dedos de gorila e perninhas de grilo entenderam o recado. Pularam em direção ao grupo e trataram de arrancar os capacetes. O primeiro foi de Mike, logo em seguida de Violeta e Charles. Porém a dupla que ficou responsável em tirar o capacete de Verruga não conseguia arranca-lo. A menina tinha o amassado de um jeito que a máquina ficou grudada na sua cabeça.
- O que aconteceu? Em um momento eu estava voando pelas praias da Indonésia e de repente eu comecei a cair e cair. – disse Charles assustado!

- Eu também estava lá. Você estava me levando e de repente virou para mim e disse que não iria mais compartilhar a sua viagem comigo! – Violeta estava espantada!

- Calma, meus miuxos. Vocês estavam tendo uma felicidade cognitiva até a sua amiga começar a ter pensamentos tão ruins que destruiu a minha maquina. – explicou Marofa.

- Mas como ela conseguiu fazer isso? – perguntou Mike.

- Ora, seu tolo. Vocês humanos lêem tantos livros sobre o poder do pensamento positivo mas nunca se preocupam com o poder do pensamento negativo? – Marofa estava cada vez mais intrigado com a burrice daquele grupinho.

Os Songa-mongas desistiram de tentar arrancar o capacete de Verruga ou de desligar a máquina. Qualquer coisa que tentavam era impossível de realizar. Por fim, resolveram acender um do bom e cantar mais uma música:

Songa-monga onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

Enquanto eles colocavam Verruga e a máquina em um suporte com rodas, mudaram o rítimo e cantaram uma música diferente:

Maria Verruga, Maria Verruga
Atrás da sua orelha sempre tem uma pulga
A tristeza você divulga
Para infelicidade, não tem fuga!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
Você não teve muito carinho fraterno
Nós ainda temos muito que fumar
E você vai queimar no inferno!

Maria Verruga, Maria Verruga
Atrás da sua orelha sempre tem uma pulga
A tristeza você sempre divulga
Da infelicidade você não tem Fuga!


Willy Marofa começou a empurrá-los para fora da sala. Mike e Violeta ainda estavam assustados com aquilo. Charles mais uma vez refletia. Augusto mereceu o que teve, mas será que Verruga tinha alguma saída para a sua infelicidade profunda? Tudo bem que ser negativa não é uma coisa muito agradável, mas uma pessoa merece ir para o inferno apenas por isso.

Mais uma vez Charles concluiu que de uma forma ou de outra Verruga já estava no inferno. Qualquer pessoa que só vê o lado negativo das coisas vive em um inferno eterno.

O sorriso de Charles ao concluir isso ficou um pouco mais aberto e até lembrava o sorriso estranho de Willy Marofa.


Entraram em uma outra sala. Estava tinha uma cor verde oliva nas paredes e três confortáveis poltronas onde os convidados de Willy Marofa logo de ajeitaram. A vitrola massageava o ouvido de todos com o leve som de um álbum do The Alan Parsons Project.

- O que vocês vão experimentar aqui é uma erva tão suave e única que foi projetada especialmente para cada um dos meus amiguinhos. – disse Willy Marofa.

Os três pareciam estar bem felizes e despreocupados, parte pela música e parte pela ausência de Verruga no grupo. Nem Mike, sempre preocupado em se livrar de flagrante, estava mais tão estressado. Willy Marofa estava orgulhoso e demosntrou isso durante sua explicação enquanto os Songa-mongas entregavam um diminuto cigarrinho para cada um deles.

- O lance é que para fazer algo tão específico e único os Songa-mongas tiveram que colher mais de vinte tipos diferentes de plantas e fizeram experiências com várias gramaturas para encontrar a mistura perfeita. Eu apresento a vocês o “Phelps”

O cigarro chamado “Phelps” era tão pequeno que quase sumia entre os dedos. Charles calculou que aquilo daria para duas ou três tragadas no máximo.

- Por que tão pequeno? – perguntou Charles.

- Ora, mas isso é lógico. A perfeição está nos mínimos detalhes. – respondeu Marofa que não ficava mais tão impressionado como os seus convidados depois de tantas experiências não conseguiam abrir a mente.

- Por que não juntamos os três e fazemos um beck decente? – sugeriu Mike.

- Não, não e negativo! – respondeu Willy de imediato – cada um desses cigarrinhos foram totalmente planejados para cada um de vocês. Como diria meu amigo Raul, o que eu como a prato pleno, pode ser o seu veneno. – então Marofa completou bem baixinho sem que ninguém pudesse escutar, porém Charles ouviu:

- E eu espero que seja.

Os Songa-mongas trouxeram os isqueiros e eles acenderam os baseados. Charles deu uma pequena tragada e realmente o negócio era muito bom:

- Nossa é maravilhoso! É mágico.

- Sim. É fantástico! – concordou Mike.

Violeta ao ouvir aquilo ficou elétrica. Matou o seu cigarro em três profundas e rápidas tragadas e chegou ao êxtase. Orgasmos múltiplos era uma sensação efêmera perto da maravilha que era aquele baseado. Ela não conseguia se segurar. Arrancou o cigarro na mão de Mike rapidamente:

- Me dá um tapinha do seu!

Ela pegou a maconha especial de Mike e matou em uma só tragada. Mike não teve tempo de reagir. Quando percebeu que seu cigarro estava na mão de Violeta, correu para contar a Willy o ocorrido. Willy fez sinal para que ele ficasse quieto e apontou para que ele observasse a menina.

Os órgãos internos de Violeta começaram a balançar dentro do corpo. Ela podia sentir o pulmão começar a caminhar para frente do seu peito e o seu coração caminhar em direção ao estômago. A dor era indescritível. Na tentativa de abrandar um pouco o sofrimento, roubou a última tragada do cigarro de Charles que estava alheio a tudo, apenas viajando.

Charles afastou-se da garota a tempo que um olho que saltou da cara retorcida de Violeta não lhe acertasse a teste. No meio da fuga, passou pelos Songa-mongas que cantavam alegremente:

Songa-monga onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

A pele de Violeta estava esticada tentando segurar os órgão que dançavam freneticamente sob ele. Violeta gritou de dor quando um rim saiu pela sua boca e caiu em cima da cabeça de um Songa-monga, parecendo uma boina. Ele começou a cantar outra música:

Violeta vem serrotar, Violeta vem serrotar
Nunca compra, ela só sabe filar
Só comparece se for para roubar
Nem a pontinha ela deixa escapar!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
Os dados já foram lançados
Nós ainda temos muito que fumar
Enquanto os seus órgãos serão arrancados e doados!

Violeta vem serrotar, Violeta vem serrotar
Nunca compra, ela só sabe filar
Só comparece se for para roubar
Nem a pontinha ela deixa escapar!


Pâncreas, intestino, útero pulavam como pipoca do corpo de Violeta enquanto os Songa-mongas a tiravam da sala. “Coloquem tudo no gelo rápido, os doadores estão esperando” lembrava Willy Marofa enquanto os anãozinhos corriam com suas perninhas de grilo para frente e para trás para pegar os órgãos da menina antes que encostassem no chão.

Mike se mijou de medo ao ver aquela cena dantesca enquanto Charles nem ponderou muito. A menina que tinha roubado o seu tão maravilhoso cigarro teve o que merecia.

O sorriso de Charles estava cada vez mais parecido com o do Willy Marofa.


- Tomem esses cigarrinhos de maconha para acalmar os ânimos. Não é um cigarro campeão como o Pehlps, mas quebra o galho.

Mike e Charles aceitaram a oferta e começaram a fumar o beck de Willy.

- Nossa, toda essa explosão meu tirou um fôlego. Vamos respirar um ar puro.

Dizendo isso Marofa abriu mais uma porta que dava para o pátio da fábrica. O céu estava amarelo e o sol brilhando de um azul tão intenso enquanto nuvens voavam para o Sul cantando alegremente enquanto atravessavam pássaros fofinhos e volumosos no caminho.

Charles e Mike admiravam tudo enquanto Willy acendia um cigarro para ele próprio. O seu cigarro era branco com listras vermelhas em volta e soltava uma fumaça anil enquanto o esguio homem fumava.

- Nada como dividir um beck com os meus amiguinhos.

Foi nesse momento de tranqüilidade que a polícia invadiu o pátio da fábrica. Homens vestindo coletes e capacetes desciam em cordas do telhado enquanto outros surgiam por todas as janelas e portas da fábrica.

- Todo mundo no chão! Todo mundo no chão!

Os três deitaram com o peito colado no chão ainda com os baseados entre os lábios. Willy Marofa olhou para eles e disse pelo canto da boca:

- Fofinhos, hora de engolir o flagrante.

Marofa sugou seu baseado como se fosse um macarrão e engoliu-o inteiro de uma vez. Charles entendeu o recado e mastigou o seu rapidamente e engolindo aos poucos conforme a saliva ia se juntando dentro da sua boca. Antes que Mike pudesse fazer qualquer coisa, um policial chegou por trás e pegou o seu beck.

- O que nós temos aqui? Esse garoto está fumando tóxico capitão!

Mike se tremia de medo enquanto o policial o colocava de pé. Em sua direção caminhava um homem duas vezes maior do que o policial que o segurava. Ele não conseguia ver o rosto do sujeito por causa do capacete que ele usava, mas Mike podia jurar que o homem era pior do que o próprio demônio.

O sujeito colocou a mão no ombro de Mike e apertou. Antes que pudesse falar alguma coisa, Mike já foi entregando tudo:

- Isso não é meu! É tudo desse homem de cartola. É ele que vocês estão procurando. Ele tem um monte de droga lá dentro! Eu nunca usei nada, eu juro! Se você quiser..blouf..blouf..blouf

Mike não conseguia falar mais nada. O sujeito segurou sua língua enquanto ele estava falando. O homem puxou uma faca afiada da cintura e sem pestanejar cortou a língua de Mike.

A língua ainda pulava no chão como um rabo sem lagartixa enquanto os policiais abriam os seus casacos e retiravam os capacetes revelando-se nada mais do que Songa-mongas um em cima do outro:

Songa-monga onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

Eram quatro Songa-mongas que formavam o capitão. Eles formaram uma rodinha em volta de Mike que apertava a sua mão contra a boca sangrando enquanto a sua língua pulava no pátio da fábrica.

Mike, dedo duro, Mike, dedo duro
não sabe o significado de "eu juro"
Não guarda segredo, sempre dá um furo
Agora você deu de cara contra o muro!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
A galera não vai ficar bolada
Nós ainda temos muito o que fumar
Agora que sua língua foi cortada!

Mike, dedo duro, Mike, dedo duro
não sabe o significado de "eu juro"
Não guarda segredo, sempre dá um furo
Agora você deu de cara contra o muro!

Os Songa-mongas levaram Mike para fora da fábrica enquanto outros ficaram brincando de futebol com a sua língua.

Charles não conseguia mais conter o seu sorriso ao ver todos os outros sofrerem. Se dessem uma cartola ele seria o próprio Willy Marofa em pessoa. Ele só não entendia porque ele ainda estava ali. Por que ele ficou por último?

- Agora só resta eu e você! – disse ele a Willy.

- E nesse exato momento você deve estar se perguntando por que, não é mesmo amiguinho?

Charles começou a pensar sobre a visita na fábrica. Logo depois que Augusto sofreu aquele ataque de dardos dos Songa-mongas eles entraram em uma sala que só tinha quatro buracos. Por que não cinco? Por que os Songa-mongas só fizeram três baseados? Por que Willy Marofa armou com os anões esse lance da polícia se já não soubesse que Mike iria se entregar?

- Você testou todos eles nas suas fraquezas e você sabia que eles não iriam resistir.

- Sim, meu amiguinho.

- E, eu? Também não vou ser testado?

- Mas você foi o mais testado, meu miuxo. Desde o início.

- Só que eu gostei de tudo. Eu concordei com tudo. Eu sorria enquanto as pessoas tinham a língua cortados, os órgãos arrancados ou iam para o inferno. Eu sou igual a você.

- Exatamente...

- Eu poderia ficar no seu lugar e controlar a fábrica caso você desejasse e você teria a certeza que tudo isso ficaria exatamente como você sempre fez. – disse Charles em um salto de excitação.

- Sim. Eu tenho certeza que você seria um grande administrador da minha fábrica. – Disse Willy - mas a pergunta que você quer realmente fazer é....

Charles fitou o fundo dos olhos de Willy e viu uma pequena chama brilhar.

- Quem é você? Quem é Willy Marofa? – perguntou Charles.

- Pense bem, Charles. Como chegou até aqui?

- O Cogumelo dourado.

- Exato. Você acha correto um homem normal tomar um chá de um cogumelo dourado, um negócio quase parecido com um lixo atômico e ainda ficar vivo para ter alucinações?

- Não, obvio que não... isso quer dizer que o tempo todo nós já estávamos mortos. E se nós estamos mortos, o que é esse lugar.

- Onde é o lugar que os miuxos malvados vão para aprender e pagar pelos seus erros?

Marofa estava com um sorriso que Charles teve certeza que por mais que treinasse, ele nunca conseguiria ter igual. O único sorriso que não transmite felicidade e sim desdém. Charles estava tão incrédulo que não conseguia dizer nada.

- Deixa eu te ajudar, é a palavra que começa com I e é quente, ah, me desculpe a redundância, mas é quente para diabo!

Marofa gargalhava enquanto colunas de fogo arrebentavam o chão, as paredes da fábrica, as chaminés e tudo mais. Em poucos segundos o fogo do inferno ardia em volta deles e Willy Marofa já não fazia questão de esconder seus chifres com a cartola ou seu rabo pontudo com o seu terno.

- E você acha, Charles, que eu estou procurando um substituto? Você acha que eu vou abrir mão de todo esse divertimento para um sujeito idiota que ficou me invejando por todo o tempo?

Os braços e pernas de Charles foram presos por correntes e em um piscar de olhos seu corpo estava preso a quatro estacas que saiam do chão.

- Por que você fez isso? Por que? – perguntava Charles com lágrimas nos olhos enquanto pequenos anzóis perfuravam espetavam seu corpo.

- O que você quer que eu responda? Que fiz isso para provar que até mesmo os heróis sofrem de tantos ou mais defeitos que os fazem perseguir os bandidos? Para provar que todo coração bom tem seu lado negro? Eu não fiz isso para provar nada, Charles! Eu já sei disso! Eu fiz isso apenas por que é divertido pacas! Agora sofra!

Com um gesto de Willy Marofa os anzóis espetados pelo corpo de Charles foram puxados cada um em uma direção, arrancando a pele, o tecido muscular e nervoso. Um anzol arrancou o tampão de sua cabeça e seu cérebro escorreu pelo crânio e evaporou antes de tocar o chão em chamas do inferno.


Charles acordou suado de uma das piores Bad trips de sua vida. Em sua mão a caneca vazia do chá de cogumelos dourado. Na televisão um clássico filme infantil terminava. Ele limpou o suor de sua testa e tentava controlar os espasmos musculares que o faziam tremer.

Charles correu até um espelho e ficou procurando as marcas de anzol pelo seu corpo, mas não tinha nada. Fora apenas um sonho, ele pensou.

- A pior Bad trip de todos os tempos! - Comentou em voz alta para si mesmo.

Por fim sorriu aliviado com tudo aquilo. Então congelou novamente. Aquele sorriso não era dele. Aquele era o sorriso exato de Willy Marofa. Charles correu até a janela e gritou em fúria para o mundo lá fora.


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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Speed

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 11

A história até agora: Vic segue com Dez para pegar suas anfetaminas, mas antes tem um encontro inesperado com Luther.

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Sugestão de música: AC/DC - Night Of The Long Knives


- Eu não acredito! Eu consegui tirar Luther do Casarão! O patrono do Rock and Roll carioca abandonou o seu castelo para prestigiar o meu aniversário! - disse Dez com um largo sorriso e agitando o punho fechado em sinal de vitória.

- É o que digo, Dez. Se você tem paciência e fizer a coisa correta, você pode conquistar qualquer coisa. Não é mesmo, Vicky Boy? – Luther perguntou com olhos acirrados e um tom de voz petulante e desafiador.

- É o grande segredo dos vencedores. - eu concordei e disparei num instinto puro de autodefesa – Mas as vezes quem joga sujo também consegue levar o prêmio.

- Nós estamos indo até o quarto para pegar um atalho para a felicidade. Vamos conosco, tem um pouco para todo mundo!

- Muito obrigado, mas acho que vou deixá-los a sós e dá um giro na festa maravilhosa que você proporcionou para nós. – agradeceu Luther mostrando as palmas das mãos.

- Tem certeza? - insistiu Dez.

- Nos esbarramos depois. - ele respondeu. Abriu mais uma vez aquele sorriso cínico e se despediu - Vicky Boy.

- Luther. - eu simplesmente respondi.

Ele deu as costas e voltou para a festa e eu fiquei perdido em meus pensamentos.

Luther era cerebral demais e todas as suas palavras eram cuidadosamente escolhidas. “Conquistar qualquer coisa” era obviamente uma mensagem cifrada para mim. Aquele cara estava me forçando em um péssimo momento da minha vida. Se ele achava que eu iria aturar seus joguinhos mentais por muito tempo, ele estava enganado. Ele não tinha deixado o Casarão em um dia de sábado por um motivo qualquer. Tinha algo por trás daquilo e eu sentia que muito em breve eu descobriria o porquê.

Dez não notou o veneno nas nossas palavras. Seu coração era muito bom para perceber seus amigos aproveitadores ou arquiinimigos velados destilando hipocrisia. Eu não sabia se o melhor era enfrentar Luther e resolver nossas diferenças de uma vez por todas ou continuar deixando ele assombrando o meu namoro com Nicole. Com tanta coisa para me preocupar como o pacto, o meu sogro suicida e sem a confirmação real dos sentimentos de Nicole por mim, achei melhor deixar Luther brincar um pouco e vê no final o que iria acontecer.

Segui o meu anfitrião até o seu quarto certo da minha decisão mas sem conseguir tirar o ex-namorado de Nicole totalmente da minha cabeça.

O quarto de Dez lembrava mais a casa de um pop star dos anos 80 que o dormitório de um típico jovem carioca. Quem tem um Junk Box e um Pinball do Baywatch em um aposento? Eu pergunto e eu respondo. A mesma pessoa que dorme em uma cama com uma brega iluminação azul néon e sob uma bola de espelhos no teto.

- Psicodélico, heim? – eu disse um pouco assustado.

- Maneiro né? As mulheres amam esse covil. – ele soltou no meio de seu sorriso carcateristico.

“Certamente elas deveriam chegar ao orgasmo imaginado a oportunidade de redecorar aquele quarto.” Eu pensei enquanto ele atravessou o tapete mostarda até um armário vermelho de mogno. Eu me sentei em uma cadeira em formato de bolha e fiquei admirando o pôster falso do Exterminador do Futuro 2 com Sylvester Stallone no lugar do Schwarzenegger. O mesmo pôster falso que aparece no filme O Último Grande Herói.

Ele destrancou o cadeado do armário evidenciando um estoque gigantesco de remédios de todas as cores e formatos. Parecia que um caminhão de M&M tinha explodido ali dentro.

- Sobrou alguma coisa na Colômbia depois que você passou por lá?

Ele riu da minha pergunta, mas não disse nada. Pegou um pote bem ornamentado, uma espécie de porta jóias muito caro, e com um canudinho aspirou o pó dali de dentro. Deu uma fungada, fechou os olhos e virou o rosto para o teto.

- Acho que não sobrou muito por lá. – ele disse com outra risada. – Quer uma rapa? Esse daqui é do meu estoque especial. –

A tentação de experimentar foi grande. Se eu seguisse com o pacto de drogas uma hora ou outra teria que dar um teco em uma carrerinha. Poderia começar com um pó com qualidade que dificilmente eu encontraria novamente.

- Acho que vou passar dessa vez.

Dez deu de ombro e fechou a cara. Ele ainda estava balançando negativamente a cabeça enquanto pegava cartela e cortou quatro comprimidos.

- Presta bem atenção, Vic. Um rebite para cada um de vocês. Não vai deixar o Lucas ou a Nicole tomarem mais de um ou um e meio. Essa merda aqui é forte, não é aqueles comprimidinhos que as crianças compram em farmácia.

Eu Peguei a cartela na mão e imaginei escravas chinesas trabalhando nuas na fábrica clandestina de anfetaminas.

- Deixa comigo. – eu concordei em tom sério.

Ele ficou me encarando para provar a seriedade do negócio. Mas ele sentiu que eu era consciente. Afinal, eu acabara de negar um teco em um pó com grau de pureza elevado. Ele retornou ao armário e puxou mais uma carreira de cocaína. Eu fiquei admirando aquelas pílulas todas e então, uma das minhas idéias loucas surgiu na minha mente.

- Dez, sem querer abusar, será que você tem um calmante bom para me arrumar? – ele me olhou estranhando o pedido e eu expliquei – Fiquei pensando, eu sou um cara meio ativo e acho que posso ter uma dificuldade para dormir depois disso aqui.

- Você tá maluco? Se você misturar os dois pode ter uma parada cardíaca! – ele respondeu de forma agitada.

- Não é para hoje. Normalmente eu tenho dificuldade para dormir. Sou um cara muito aceso. Você tem tanta bolinha nessa sua farmácia particular, que eu pensei que você deveria ter algo para me ajudar a pegar no sono. – nem eu engoli aquela mentira deslavada.

Ele ficou me encarando por um tempo. Depois mexeu em uma gaveta e me deu uma cartela de calmante. Quando foi me entregar, ele segurou firme o remédio:

– Estou te avisando, essa bolinha que você tem no bolso é bem forte. Cuidado, não misture ou tome em excesso.

- Pode deixar, Dez. Eu sou mais responsável do que pareço. –

Ele apenas abriu um sorriso e soltou a cartela. Guardei os calmantes no outro bolso enquanto ele trancava o armário.

- It’s Paty time! – ele disse.

- Oh, Yeah baby! – eu respondi.

Ele deveria estar confuso como eu não tinha aceitado aquela cocaína extremamente pura, mas aceitado as anfetaminas. Eu não estava ali para me explicar a ele, mas eu não achei certo. Eu estava ali por conta do pacto. Eu estava ali pelas bolinhas. Não sabia nem o efeito que a anfetamina iria me fazer, misturar aquilo com coca me pareceu um grande convite para um enfarto. Não que fosse fazer muita diferença já que eu ira morrer logo.

Mas ao ver aquele armário foi que eu me toquei que o meu amigo não era uma pessoa normal. Um homem comum não teria tanta coisa assim em sua casa. Meu Deus, uma pessoa normal nem trancaria o seu próprio armário com um cadeado. Dez era um traficante e de repente toda aquela imagem glorificada que eu tinha dissipou-se. Se eu tinha até um pouco de inveja de seu otimismo com tudo, aquilo de alguma forma se transformou em um pouco de pena e desprezo.

Não sei por qual motivo eu me sentia daquele jeito. Eu era um usuário e os traficantes eram as pessoas que proporcionavam o acesso ao meu vício. Mas acho que nós ficamos arrumando desculpas para tudo. Sempre temos uma resposta. Sou viciado porque quero, ou porque gosto ou porque sou fraco. No caso dos traficantes na favela, eu sempre os enxergava como pessoas com poucas opções na vida e até entendia aqueles homens e suas metralhadoras. Mas o Dez? Um rapaz de classe média, simpático e com todas as oportunidades na sua frente. Qual era a sua desculpa?

Mesmo estando na festa de aniversário e até então eu considerar ele o sujeito mais simpático do pessoal, eu não tinha dúvidas na minha mente. Eu deveria me afastar de Dez. Não me sentia mais tão a vontade na sua presença. Tão pouco iria dizer a ele que Lucas e Wendy não iriam tomar as anfetaminas e que aquilo era um pacto entre eu e Nicole. Eu iria guardar os comprimidos excedentes para um outro dia caso eu gostasse da viagem de anfetaminas. Como diz o ditado, bolinha dada não se olha a quantidade.

Saímos do quarto e seguimos de volta em direção a sala. Lucas estava na pista ao lado de Wendy e suas amigas. Apesar de estar cercado de mulheres gostosas, Lucas metralhava com os olhos o Place Stealer que tinha abandonado o melhor lugar da sala e dava sugestões de músicas para o Marcelo.

- Cara, você está apaixonado por esse cara. – eu disse para ele rindo.

- Eu vou ferrar com esse motherfucker. – ele me respondeu.

- Cuidado. Troquei dois dedos de prosa com ele e o cara é durão. – eu o alertei.

- Vamos ver, Vic. Vamos ver.

- Cadê Nicole? Está no banheiro?

- No banheiro? Eu sei lá onde está a Nicole!

- Porra, Lucas, ela estava com você quando eu desci!

- É, mas depois eu desci para encarar o Place Stealer! – eu não acreditava no que ele estava falando.

- Você deixou Nicole lá em cima sozinha sabendo que o Luther está nessa festa?

- Qual é o problema, Vic? Não confia no seu taco, man? –

- Você não entende nada mesmo, Gordo! – praguejei e fui rapidamente para as escadas.

Eu sabia o que iria encontrar e sabia que teria que me controlar para não fazer o show do namorado ciumento e inseguro. Mas era difícil. Cheguei ao terraço e lá estava ele conversando com a Ruiva. Achei que Lucas nunca deixaria Nicole sozinha. Porra, foi ele que me avisou sobre Luther. O gordo não sabia o tamanho da tensão que rolava entre nós, mas é óbvio para qualquer um que não é uma boa idéia dar espaço para o ex-namorado se aproximar da garota do seu amigo.

Qualquer um, menos pro Lucas, é claro.

Luther disse alguma coisa e Nicole riu batendo em seu peito. O vulcão explodiu. Eu iria esperar para colocar meu plano dos calmantes em jogo, mas a raiva fez eu antecipar as coisas. Ao invés de ir à direção dos dois, fui para lado oposto. Na direção do banheiro.

Entrei, tranquei a porta e com raiva arranquei um pouco de papel higiênico do rolo. Coloquei sobre a pia e derramei os calmantes sobre o papel em uma virada só. Embrulhei bem, coloquei no chão e imaginei a cara de Luther.

Então eu pisei com toda a raiva do mundo. Lembrei de Luther soltando uma piada e Nicole rindo e pisei mais forte. Ela batendo de leve no seu peito e eu esmagando aquela merda. Eles dois transando e eu pulando sobre os comprimidos como se fosse o crânio dele sendo destruído e seu cérebro maquiavélico explodindo em mil pedacinhos.

Sentei na privada e tentei me acalmar. Devo ter contado até cem. Peguei então aquele embrulho e delicadamente passei o pó para um outro papel novinho.

- Tenha bons sonhos, Luther. – eu disse rindo.

Levantei-me e me olhei no espelho. Fiquei me admirando. Mandei um beijo para mim mesmo.

– Você é um cara foda, Vic. Ela pode não te amar, mas eu te amo de paixão e vou sentir muito a sua falta quando você morrer.

Saí calmamente do banheiro, peguei a bebida e a batizei. Se eu soubesse assoviar, eu estaria fazendo quando cheguei perto dos dois com as três cervejas na mão.

- Essa para você – entreguei a da Nicole – essa para você – entreguei a de Luther – e essa para mim. Saúde! –

Nós três brindamos e nenhum dos três demonstrava qualquer constrangimento.

- Eu estava fazendo companhia a Nicole enquanto você estava lá embaixo, Vicky Boy.

- Você foi um amigo melhor que Lucas, aquele Gordo ingrato que a abandonou nesse terraço frio. – eu respondi tentando disfarçar o meu nervosismo e segurando a minha risada enquanto ele bebia a sua cerveja.

- Luther estava me contando que eles estão reformando todo o Casarão. Agora eles vão construir um palco semi-profissional! – ela disse mais com o objetivo de mostrar que estavam em um papo inocente do que para me atualizar das novidades.

Aproveitei esse momento para abrir um sorriso largo e aliviar um pouco a ansiedade de ver aquele sujeito bebendo a sua própria condenação.

- A realização de um sonho! – eu anunciei.

Brindamos mais uma vez e ele tomou outro grande gole. Se eu não tivesse agido com raiva, teria levado aquela lata para o banheiro e dado uma pequena mijada lá dentro. Talvez em outra oportunidade.

- Bem, agora que você voltou, eu vou deixá-los namorar. Foi bom conversar com você, Nicole. – ele disse com seu tom simpático.

- Legal te ver também, Luther. – ela respondeu mais alegre do que eu gostaria.

- Vicky Boy.

- Luther.

Ele se afastou e eu continuava o seguindo com os olhos. A cada gole que ele dava na cerveja eu dava uma risada. Ele parou em outro grupo e eu continuava vigiando ele beber a cerveja e rindo.

- O que foi heim, Vic? Algum problema de eu estar conversando com o Luther? – disse Nicole raivosa.

- Não. Eu tô tranqüilo.

- Então porque você nem olha para a minha cara e fica ai dando essas risadinhas debochadas?

Fiquei tão hipnotizado com a queda do meu inimigo que até tinha esquecido de Nicole. Eu não poderia dizer a verdade e a solução mais óbvia era improvisar uma boa explicação. Esses são os dilemas que você enfrenta quando fica alimentando segredos e mais segredos dentro da sua alma.

- As vezes eu me acho muito sortudo de você ter o largado para ficar comigo. Ele é um cara fodão, não é a toa que comanda um dos melhores lugares de Rock and Roll dessa cidade. E mesmo assim, você o deixou para ficar comigo. Era nisso que eu estava pensado e rindo, Nic. – olhei nos seus olhos - De verdade.

Ela ficou um pouco sem graça. Então a peguei e dei um beijo. Passei a mão naqueles cabelos laranjas e a abracei como se a protegesse.

- Afinal, você trouxe ou não trouxe a parada?

- Claro que eu trouxe, senhora.

- Então, me dê a minha droga! – ela disse brincando.

Eu tirei a cartela do bolso e entreguei a ela. Ela ficou admirando os comprimidos por um tempo.

- Fase dois do pacto?

- Fase dois. – eu disse.

Lucas apareceu nesse momento. Ao invés de Wendy, ele tinha Marcelo a tira colo.

- Vic! Eu disse para você, man! O cara é um Place Stealer! – não precisava ser muito esperto para saber onde aquela história iria chegar.

- Se eu soubesse, nunca tinha pedido para o cara tomar conta do som enquanto eu ia ao banheiro! – lamentou Marcelo. Eu e Nicole começamos a rir.

- Eu vou pegar outra rodada para tomarmos essas belezinhas.

Nicole foi até as cervejas e os dois assaltados pelo ladrão de lugares continuavam a sua triste história.

- Quando ele roubou o meu lugar, na verdade ele estava estudando o Marcelo. Ficou calculando pelas cervejas a hora que ele precisaria ir ao banheiro e se aproximou falsamente para fazer amizade. – Lucas despejava a sua teoria da conspiração enquanto Eu ria como uma criança em um parque de diversões:

- Foi só eu sair para o cara mudar de rock para dance. Agora as garotas estão empolgadas dançando e não me deixaram reassumir o controle das pick-ups.

Marcelo estava desolado. Para ele ser o DJ era a resposta por não tocar nenhum instrumento. Agora ele tinha perdido o seu talento especial. Roubar o seu posto de DJ era como entregar kryptonita para o Super-Homem.

- Eu te falei que as mulheres não curtem muito o seu repertório rock junk box. Convenhamos, Marcelo, ninguém consegue dançar “Who Wants to Live Forever”!

- Mas é um clássico nas nossas festas, Vic!- ele se desculpou

- É, mas as mulheres não ficam brigando de higlander com espadas imaginárias na pista, ficam? Elas gostam de Dee-lite e porcarias do tipo. Porra, você é o DJ e eu não deveria estar te falando isso.

- Você está me dizendo para eu deixar de ser rock e ser pop? Eu não acredito que o Viciado Carioca, um dos caras mais rock and roll que eu conheço está me dando esse conselho!

- O que eu estou te dizendo é que você tem que conhecer o seu público. Por mim você colocava o Loco Live do Ramones na vitrola e deixava tocando a noite toda. Mas eu não sou ponto de comparação. Você não me vê muito na pista de dança, vê?

- Não. – ele disse vencido.

- É disso que eu estou te falando. Bicho, toca dois roques e duas dançantes. Não tem erro. – eu sugeri

- Acho que você tem razão. O problema vai se tirar o Place Stealer de lá.

- Pois é. Como nós vamos fazer para roubar o lugar do Place Stealer? Isso é quase tão difícil quanto fazer uma mágica para enganar o David Copperfield! – completou Lucas.

Era um grande problema. Ficamos os três tentando bolar um esquema para vencer o mestre de roubar o lugar dos outros. Estava tão absorto com aquele papo surreal que não percebi Nicole atrás de mim. Ela chegou com os olhos arregalados e falando alto:

- Me mostra quem é esse filho da puta que eu dou uma surra nele!

Em uma de suas mãos ela segurava uma latinha e na outra a cartela de anfetaminas restando apenas um comprimido.

No próximo capítulo: Kate Mahoney

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

5 dicas para esconder drogas

O Genial Ronald Rios com a direção do fantástico Erik Gustavo mostram nesse vídeo promocional do livro "Comédia da Vida Fumada" algumas maneiras de se livrar do flagrante.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Santíssima Trindade


Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 10

A História até agora: Mesmo depois dos conselhos de um fantasma suicida, Vic segue com seu pacto de drogas rumo as anfetaminas ao mesmo tempo que tenta convencer Nicole e Lucas a participarem de um evento nada emocionante. Se você ainda não leu os capítulos anteriores, procures as outras partes na coluna lateral.

Sugestão de Música: The Beatles - Penny Lane

- Desculpa, Vic. Eu sou meio burro você pode explicar isso de novo? – Eu, Lucas e Nicole estávamos na Millenium Falcon. Íamos buscar Wendy, a namorada do Gordo, e de lá partiríamos para casa do nosso amigo Dez, onde a festa rock and roll iria rolar.

Nicole comandava o volante e o som. Escutávamos um Bob Dylan bem leve. Tínhamos acabado de fumar um baseado venenoso e apesar de uma azia desgraçada queimando o meu estômago, eu estava bem animado. Por algum motivo a maconha começara a trazer como conseqüência uma queimação no estômago quase instantânea. A dor era enorme e eu tinha a impressão nítida que estava sendo comido por dentro. De qualquer forma eu procurava não ligar para aquilo e tentava ser feliz. Acredito que todos nós estávamos alegres antes de eu contar a novidade.

Eu não via nada de mais no pedido. Era um favor que os meus dois melhores amigos podiam me fazer. Achei que eles topariam na mesma hora. Mais uma vez eu estava enganado.

- Não é grande coisa. Nós vamos fazer uma reza lá em casa e minha mãe pediu a presença de vocês dois. – na verdade ela exigiu os dois no nosso primeiro encontro. Talvez minha mãe achasse que Nicole iria ficar satisfeita, pois era uma católica fervorosa; Além disso, pensando que catequizando o Lucas, ela me converteria também.

- Isso eu entendi, Vic. O que me escapou foi a parte que a Nicole deve ir vestida de freira e eu de macumbeiro, man! – porque todo mundo acha que espírita é macumbeiro?

- Quer dizer que a sogrona acha que eu sou católica fervorosa? Logo eu que nem sei o Pai Nosso inteiro. – a Ruiva também não estava muito feliz em colaborar.

- Gente, é só um dia. Depois vocês podem seguir a vida esotérica ou ateísta de vocês. É só aparecer lá em casa, participar das rezas, escutar as leituras, fazer uma cara simpática e ganhar uns pontos com a coroa. – na verdade aquilo era um saco. Ninguém quer ir a um culto religioso sem vontade alguma.

- O problema não é apenas ir e sim a interpretação. Como eu vou fingir acreditar em uma coisa que eu desconheço? Agora eu vou ter que colocar um crucifixo no pescoço toda vez que eu for a sua casa? – argumentava Nicole. Como uma garota que fazia viagens astrais, lia a sorte em um baralho de tarô e montava mapas astrológicos não conhecia algo tão básico como um Pai Nosso?

- Eu posso dizer que tenho poderes telepatas? Tipo fingir que sou um mutante? I’m a X-men!– eu não sabia se Lucas estava brincando ou falava a verdade.

Quando eu aceitei convida-los, pensei que não teria problemas e faria a coroa ficar contente. Agora eu mesmo tinha dúvidas se queria que eles aparecessem. O resultado podia ser desastroso. Eles poderiam exagerar na interpretação, ou pior, dizer coisas que soariam ofensivas. Onde eu estava com a cabeça? Comecei a desistir da idéia.

- Olha gente, deixa para lá. Se vocês não quiserem ir eu invento uma desculpa qualquer e ponto final. – tentei encerrar o assunto, mas eu tinha trilhado uma estrada sem volta, como Nicole deixou bem claro:

- Eu não tenho mais escolha, Vic. Uma hora ou outra eu terei que ir a sua casa e sua mãe vai acabar tocando no assunto. Eu vou aparecer lar e serei a maior católica que sua mãe jamais conheceu! Só espero que fingir acreditar em uma religião não me dê um karma muito grande.

Eu não disse nada, mas por dentro eu tentava me matar aos poucos, arrependido de ter me metido naquela encrenca. As vezes, idéias que parecem geniais no momento, transformam-se em arapucas mortais.

- Você quer mesmo que eu minta para a sua mãe? – Disse Lucas. Foi a oportunidade perfeita de me livrar de uma parte do problema.

- Não. Deixa pra lá. – eu disse fingindo desinteresse.

- Mas eu vou. Ou você acha que eu iria perder essa festinha dos Deuses? No mínimo isso vai ser engraçado. – ele respondeu. Eu estava perdido.

- Olha, Gordo, se você vai para lá só de zoeira, esqueça. Será um momento ecumênico e bonito para todos nós.

Pensei que assim iria fazer ele desistir. Ele deu uma balançada no banco de trás, me deu um tapa na cabeça e soltou:

- I'm kidding, man! Eu vou na boa! Eu estou mesmo precisando de uma reza. Ultimamente a cada cinco baseados que eu fumo, pelo menos três me dão onda ruim!

Essa era a fé que movia o nosso estranho trio. Eu iria rezar para agradar a minha mãe. Nicole iria rezar porque não tinha escolha. Lucas iria rezar para poder fumar maconha em paz. Acho que não seríamos os primeiros da lista da salvação no dia do juízo final.

Eu não iria esperar até terça-feira para começar as minhas preces. Comecei a orar desde aquele momento para que nada desse errado no encontro.

Nicole continuou nos guiando pela noite. Primeiro para a casa da Wendy. Depois, para o apartamento do Dez. A festa prometia ser boa. A cobertura era enorme e estava recheada de álcool e drogas ilícitas. Tudo cortesia do nosso anfitrião. Não era a toa que seu apelido era Nota Dez, ou simplesmente Dez.

Marcelo, um dos sujeitos mais sinistros da nossa turma, seria o encarregado pelo som. Eu não o considerava tão cavernoso por ele ter tendências psicopatas ou algo do tipo. Simplesmente por ele sempre andar com caras que eram chamados de Boca, Mettal, Thor e Caveira e ainda conseguir ser conhecido pelo nome, mereceu meu respeito. Ele era o DJ oficial de todas as festinhas da turma. Naquela noite específica, ele tocaria para bastante gente.

Normalmente esse pessoal estaria no Casarão em um sábado como aquele. Um lugar no coração de Santa Tereza onde os roqueiros cariocas se reuniam para escutar metal e se drogarem sem serem incomodados. O lugar funciona como uma comunidade socialista-anarquista em um esquema bem familiar. Somente um evento da magnitude do aniversário do Dez para fazer os pirados deixarem de ir lá.

Eu, por outro lado, evitava aparecer no Casarão a todo custo. O dono e chefe do local, Luther, era o ex-namorado de Nicole. Quando ela contou que estava terminando o relacionamento para ficar comigo, ele maquiavelicamente fingiu aceitar de forma natural e madura. Tudo para continuar perto da Ruiva e tentar reconquista-la na primeira oportunidade. Eu sei disso, porque ele me contou logo depois de transformar a minha cara em purê. Socialmente fingíamos simpatia um pelo outro. Internamente ele apenas aguardava o momento certo para acabar comigo.

Luther era a minha maior insegurança no meu relacionamento com Nicole. Ele era um homem mais velho, estabilizado e teve uma vivência nada convencional, principalmente durante a época da ditadura. Um homem interessante que provavelmente preenchia o espaço deixado pela ausência paterna na vida da Ruiva. Se ele movesse corretamente as peças no tabuleiro, poderia me colocar para fora do jogo.

Além disso, ainda tinha o fato dela curtir garotas. Nicole era uma mulher com sentimentos aflorados. Eu temia que a qualquer momento ela se apaixonaria por outra pessoa e eu fosse colocado para escanteio. Desde que começamos a namorar, Nicole deixou bem claro que quando sentisse vontade, ela ficaria com uma mulher. Nunca tinha acontecido até Anita no fatídico dia do chá de cogumelos. Tudo bem que ela estava em transe e em contato com o Umiverso. Mas nada me garantia que ela começasse a fazer aquilo de forma rotineira e finalmente notasse que seu namorado não passava de um adolescente babaca, sem muito futuro e totalmente inseguro.

Por isso tudo eu estava tão obcecado em ouvir as palavras “eu te amo” daqueles lábios carnudos. Queria ter a certeza que o nosso namoro era sólido e duradouro.

Pelo menos, antes da minha vida chegar à fase de sofrimento e morte como Guilherme me avisou. Eu precisava desesperadamente de diversão. Os efeitos eufóricos das anfetaminas nunca foram tão sedutores.

Finalmente chegamos à cobertura. Meu Deus, aquele era um belo lugar para se morar. A sala era enorme. Eles colocaram os sofás nos cantos e instalaram ali o equipamento de som. Marcelo comandava a dança com sua música e luzes piscando freneticamente.

Em um canto da sala brotava uma escada em caracol que levava para ao terraço do apartamento. Lá de cima tínhamos a visão completa da praia de Botafogo, um pedaço da Urca e o Pão de Açúcar. Se você fosse até o outro lado poderia deslumbrar o resto da Zona Sul e avistar o Corcovado. Somente com muito dinheiro para morar em um lugar como aquele. Isso o Dez tinha de sobra.

- Vou pegar uma cerva e admirar um pouco essa vista maravilhosa. – eu disse a Lucas no terraço.

- Wendy quer curtir o som e eu vou fazer companhia. – respondeu de volta o Gordo e desceu junto com sua companheira.

Fui até um dos isopores espalhados pela casa e peguei duas latinhas. A chuva finalmente tinha dado uma trégua naquela noite. Porém, O vento batia forte lá em cima e afastava a maioria das pessoas. Mas não parecia assustar a Ruiva. Ficamos abraçados admirando o Rio de Janeiro iluminado naquela noite de Sábado. Normalmente, qualquer lugar visto daquela altura parece tranqüilo. Mas a Cidade Maravilhosa é diferente. Ela dança freneticamente ao ritmo contagiante dos cariocas.

- Como um lugar tão bonito pode ser ao mesmo tempo tão inseguro e sujo? Dá até pena e às vezes eu não entendo como conseguimos viver nessa cidade. – filosofou Nicole.

Minha resposta foi automática, quase por instinto.
- Porque temos o Cristo nos protegendo acima de tudo.

Congelei imediatamente assim que terminei a frase. Eram as palavras de Guilherme saindo da minha boca.

- O filinho católico da mamãe e suas crenças divinas. Acho que continuamos aqui porque sabemos que iremos morrer de qualquer jeito, então escolhemos um lugar bonito para passar nossos últimos dias. – ela disse, mas eu nem prestei muita atenção.

Estava ainda perdido e pensando porque tinha recitado as palavras do meu sogro falecido. Independente de qualquer coisa que eu acreditasse que fora aquela experiência, ela de alguma forma tinha me mudado. Uma parte da essência de Guilherme grudou em mim em uma simbiose nada saudável. Até que eu resolvesse aquele assunto, descobrisse o significado daquele encontro e o que realmente o destino me reservava, provavelmente eu não conseguiria ser eu mesmo.

Muito da minha autoconfiança tinha desaparecido desde que eu encasquetei que queria ouvir uma confissão amorosa de Nicole. O pouco que sobrara estava totalmente deficiente pelo fantasma suicida. Talvez se eu contasse para a Ruiva sobre a minha suposta conversa com seu pai, me ajudaria a tirar um pouco daquela angustia do peito. Mas como ela iria reagir? Não me parecia justo faze-la trazer a tona esse sentimento apenas para me sentir bem.

- Terra chamando Vic. Terra chamando Vic. – a Ruiva balançava o meu braço chamando a minha atenção.

Eu mirei em seus olhos, e ela estava naturalmente bonita. Se aqueles eram os últimos momentos da minha vida, de alguma forma eles seriam bons por ter aquele lindo anjo rebelde ao meu lado.

Abracei-a suavemente e dei um beijo apaixonado. Ela não estava na mesma sintonia e tentou escapar, mas se rendeu ao meu carinho e retribui fogosamente. O vento frio deu mais um forte tapa em nossos corpos, mas meu sangue fervilhava.

Por fim, o beijo terminou e ficamos apenas nos admirando. Nicole mantinha um sorriso no rosto tentando entender aquele ato romântico espontâneo. Eu mantinha a fisionomia séria e admirava a minha namorada.

- O que foi isso, afinal? – Ela perguntou.

- Nada. Apenas para te lembrar que seu namorado te ama. – abri um sorriso e apertei sua bochecha.

Ela me deu mais um beijo. Não tão demorado quanto o anterior, mas ainda assim muito carinhoso. Meu coração disparou. O momento tão esperado se aproximava. Quando terminamos, ela repetiu o meu ato e apertou a minha bochecha. Eu sabia o que vinha em seguida. Os momentos de espera tinham terminado. Ela finalmente ira confessar o seu amor:

- Você é muito fofinho. – ela disse. Balançou o meu rosto e me deu mais um beijo, só que dessa vez na face.

Sorri sem graça tentando disfarçar a decepção. Esperava ouvir um romântico “eu te amo”. Engoli a minha insegurança e dei um longo gole na cerveja, esvaziando a lata. Catei um dos meus Marlboros e disse por fim:

- Preciso de mais combustível, Nic.

Ela entornou a sua cerveja goela abaixo, amassou a latinha, deu um sonoro arroto e disse com uma voz máscula:

- Me traga uma latinha, sua puta! – e riu de sua performace.

Eu retribui o sorriso e fui ao encontro do isopor.

Tentava não me abater pela circunstância. Mas estava muito óbvio para não enxergar. Nicole não me amava. Aquele era o momento perfeito e qualquer outra pessoa naquela situação teria se declarado. Quando a conheci, ela também não amava Luther. Talvez nunca tenha se apaixonado por homem algum. Quem sabe a ausência do pai tenha tirado esse sentimento dela. Ficava comigo porque era divertido e certamente gostava de mim, da minha presença. Mas certamente aquilo não era amor.

Eu queria fugir daqueles pensamentos. Não precisava daquilo no momento. Queria me afastar de tudo e simplesmente me divertir. Viver com alegria as minhas últimas horas entre os mortais. Curiosamente, meu anjo da guarda ouviu as minhas preces e realizou o meu desejo com as palavras de Lucas que surgiu atrás de mim:

- Filho da puta! – o Gordo estava irritado.

- Qual foi? – perguntei.

Ele passou a mão pelos seus longos cabelos oleosos e ajeitou o seu rabo de cavalo. Sua testa estava suada e eu não conseguia determinar se sua fala ofegante era por conta da ira ou pelo esforço de subir as escadas.

- Não sei se você notou um sujeito todo arrumadinho, de blusão quadriculado destoando de toda a festa?

- Não, Gordo. Homens assim não fazem muito meu estilo. Prefiro os obesos cabeludos. – eu disse brincando, mas ele nem me deu bola.
- Você vai notar na hora que esbarrar com ele. O desgraçado é um Place Stealer! – eu juro que me esforcei para entender, mas estava difícil.

- O que? – aquilo só irritou mais o Gordo.

- Um Place Stealer, porra! – ele balançou a cabeça e deu um gole na cerveja.

Nicole se cansou de esperar o meu retorno e nos encontrou na frente daquele isopor.

- Não acredito que você trocou uma Ruiva maravilhosa por um homem feio como esse. – ela disse brincando e roubando a latinha em minha mão. Eu fiz um sinal para ela cortar a piadinha. Lucas balançou a cabeça e voltou a falar.

- Wendy foi dançar com as amigas na sala. Eu não sou muito de dança, então peguei uma cerveja e encontrei esse lugar na sala. Ele é perfeito. O melhor da sala. Dava para olhar a pista e sem que o som ficasse incomodando muito. – ele voltou a dar um gole na cerveja e continuou. – Esse cara, estava do outro lado. Sentado em um sofá. Tudo normal. Então, minha cerveja acaba, eu vou até a cozinha buscar outra e quando eu retorno o cara estava no meu lugar. Coisa de um minuto o Place Stealer levantou e pegou o meu lugar! Filho da puta!

Eu e Nicole começamos a rir da situação.

- Deixa de ser criança, Lucas! Vai lá e encontra outro lugar! – Eu argumentei.

- O problema não é esse, o problema é a intenção. Ele fez isso de propósito. Ele estava confortavelmente sentado no sofá, por que iria trocar isso para ficar em pé em uma parede?

- Porque é o melhor lugar da sala! – respondeu Nicole de imediato.

- Não, porque ele é um Place Stealer, motherfucker! Ele está fudido, eu vou ferrar com ele! – O gordo estava enfurecido.

Eu ainda não entendia porque ele se irritava tanto com isso:

- O que você vai fazer? Vai bater nele?

- Não. Eu vou esperar o momento certo e vou roubar o lugar dele. Vou vigiá-lo a noite toda e passarei o resto da festa roubando os seus lugares.

- Isso é insano. Nunca vai acontecer. Esquece isso e vai se divertir, cara. – eu disse.

- É uma questão de honra, Vic. Eu subi aqui para fumar unzinho, abrir a mente e traçar a melhor estratégia para me vingar do Place Stealer. Então, vamos carburar?

- Essa foi a única coisa inteligente que você falou desde que subiu, Lucas. – disse Nicole animada.

- Vocês podem fumar. Eu estou legal. Eu vou procurar o Dez e perguntar sobre as bolinhas. – eu respondi de forma convicta. Ainda não tinha me recuperado da azia que o último baseado deixara corroendo o meu estômago.

- Vocês dois vão mesmo tomar anfetaminas? – perguntou Lucas. Eu olhei para Nicole e ela confirmou na mesma hora:

- Elementar, meu caro Lucas.
- Só não tomo se algum “Drug Stealer” aparecer antes. – eu complementei.

- Há, há, há, Vic! Muito engraçado. – Ele respondeu. Eu apenas sorri em resposta e fui em direção a escada.

Quando eu já tinha me afastado um pouco, o Gordo correu até mim e me alertou:

- Vic! Só uma coisinha. – Nicole estava um pouco distante, mesmo assim o Gordo baixou o tom de voz para que ela não escutasse – Quando eu estava subindo, eu vi que Luther tinha acabado de chegar.

Foi como se um raio me atingisse.

- Luther? O que ele está fazendo aqui? Ele nunca saí do Casarão! Sobretudo em um Sábado. – eu disse resignado.

- Foi o que me perguntei também. Talvez o Dez seja tão maneiro que o tenha tirado da toca. Só quis te avisar para você não tomar um susto quando esbarrar com ele.

- Obrigado, Gordo.

Como sempre o meu alívio cômico foi mais breve do que eu gostaria. Era só o que me faltava. Esbarrar com o ex-namorado de Nicole. Não era a primeira vez desde que ela o largou para ficar comigo. Mas nunca era agradável encontrar com Luther. Para ele sair de seu refúgio, ainda por cima em um Sábado, alguma coisa tinha em mente. Eu deveria ficar atento e cancelar a viagem de anfetaminas. Seria o mais correto a fazer.

Pena que eu nunca fui muito adepto a seguir regras.

Eu tinha problemas o bastante e decidi não me focar muito naquilo. Tentei me convencer que não importava. Eu ia tomar as minhas bolinhas e buscar um pouco de euforia química. Se Luther decidisse finalmente tentar algum movimento, que Deus o ajudasse porque com certeza eu tinha muita frustração para descontar em alguém.

Desci as escadas e tomei um susto quando dei de cara com Wendy e seu grupo de garotas dançando animadamente ao som de Pearl Jam. O problema não era com Wendy e suas amigas, mas sim o cara que estava junto com elas. Por alguns segundos esqueci de Luther, anfetaminas ou do “Place Stealer”. Esqueci de Guilherme e seus conselhos fantasmagóricos e que a minha namorada não me amava. Esqueci até mesmo da minha morte eminente e onde eu estava.

Pedro, o vocalista dos Garotos Radioativos, dançava animadamente com a namorada do Gordo e suas amigas.

Ele era apaixonado por Nicole e pagava uma de amigo dela para sempre estar ao seu lado. Na verdade ele contava os dias para que a Ruiva terminasse com Luther e ele pudesse avançar para cima dela. Era um plano quase que perfeito se eu não tivesse aparecido e estragado a coisa toda.

Com certeza Lucas não sabia que o Radioativo estava urubuzando por ali ou então não deixaria Wendy solta. Pois quando Pedro descobriu que eu estava com Nicole, resolveu me bater. O Gordo interveio e humilhou o líder da pior banda de rock do planeta na frente de todos no Casarão. Desde então os dois se evitam, apesar de se cumprimentarem fingindo educação.

Eu entrei na rodinha e ele puxou uma garota para longe e sumiu entre o resto das pessoas que dançavam na pista. Ele também evitava a minha presença sempre que possível.

- O que aquele babaca queria por aqui? – perguntei a Wendy.

Ela me fitou por uns instantes. Senti alguma coisa estranha no seu olhar. Estava mais seco, quase raivoso. Apesar de sairmos em grupo, eu, Nicole, ela e Lucas, nunca fui muito próximo da magrela. No início achei que era apenas timidez, mas depois que Lucas me contou sobre seu preconceito com Nicole não foi difícil somar dois mais dois.

- Ele está ficando com a Fernanda, a minha melhor amiga. – ela respondeu parecendo irritada por ter que me dar alguma explicação.

Eu não forcei nenhuma gentileza, pelo contrário, fiz questão de deixar claro na minha expressão que não gostei do que ouvi.

- O que ela está fazendo com ele? Você sabe mais do que ninguém que aquele cara é um idiota.

- A única coisa que eu sei é que você e ele brigaram e Lucas se meteu apenas para te salvar de uma surra. – ela disse levantando a sobrancelha.

Fiquei consternado com aquilo. Não era possível que a namorada do meu melhor amigo estava defendendo aquele imbecil.

- Wendy, eu não vou discutir isso. Você estava lá naquele dia e viu tudo.

Ela explodiu de volta.

- Realmente eu vi tudo, vi a covardia que vocês fizeram com o Pedro. Todos juntos batendo no coitado. – ela colocou o dedo no meu peito – Mas eu estou me lixando para a briguinha infantil de vocês.

Sua reação me pegou de surpresa. Eu não estava gostando nem um pouco daquilo. Resolvi tentar acalma-la, até porque eu não tinha nenhuma intenção de brigar com a namorada do meu melhor amigo.

- Não precisa ficar nervosa, Wendy. Lucas sabe disso? – perguntei.

- Olha só “Viciado Carioca”, o mundo não gira em volta do seu umbigo. Se uma amiga minha quer ficar com alguém, eu não preciso alertar você, Lucas ou qualquer outra pessoa. - ela respondeu com uma raiva fora do comum.

Eu apenas sorri e me afastei. Não valia a pena ficar discutindo aquilo. Principalmente naquela hora e lugar. Sabia que ela não aceitava a condição de Nicole, o nosso namoro e a coisa toda. Além disso, eu achava que ainda tinha mais alguma coisa.. No fundo eu acreditava que Wendy com seu jeito calado e introspectivo tivesse notado o que muitos não tinham porque estavam muito ocupados esperando a sua vez de falar. Ela conseguia enxergar o meu lado negro. Conseguia ver todos os meus defeitos que eu tentava esconder entre cigarros e piadinhas infames.

Para mim, ela era a única pessoa entre meus amigos que conseguia ver o quanto babaca, vazio e superficial eu era na verdade. E aquilo me assustava muito.

Segui atravessando a pista e avistei o “Place Stealer”. Não tinha como não reconhece-lo. Ele era normal demais no meio de tanto roqueiro. Roupinha toda engomada, cabelinho louro jogadinho, sapatinho caro. Em uma coisa, Lucas estava certo. Aquele era o melhor lugar da sala.

Fiz uma busca pelo Dez pelo recinto e não o avistei. Deveria estar na cozinha ou em algum dos quartos. Para chegar até lá eu deveria passar pelo arrumadinho e não pude resistir. A idéia de confrontá-lo surgiu como um estalo na minha cabeça e era muito sedutora. Poderia me render algumas piadas e me afastar novamente de qualquer preocupação.

Andei com um olhar meio perdido e um sorriso amigável no rosto. Ele respondeu simpaticamente, então eu disse:

- Você encontrou o melhor lugar da sala. Dá para olhar a pista sem ser muito incomodado pelo som alto. – eu disse de maneira tola.

Ele abriu um sorriso no rosto. Estava satisfeito pela sua conquista:

- Sim, é ótimo. – ele fez uma pausa e desapareceu com o sorriso - Você não esta aqui porque pretende rouba-lo, está? – ele era arisco. Desafiei-o com um olhar profundo e ele não arregou me encarando.

- Não, amigo. Eu odeio Place Stealers. – então eu apertei o olho esperando que ele se denunciasse, mas ele permaneceu calado. Tentei tirar algo a mais – Você não me perguntou isso porque roubou esse lugar de alguém, roubou? – mantive meu olhar cínico e ele também.

- Eu? Nunca. Eu também odeio ladrões de lugares.

O cara era realmente bom. Sujeito durão. Lucas teria que se esforçar para vencê-lo. Por fim, desisti do confronto. Apenas acenei com a cabeça e segui em direção da cozinha.

Não foi difícil reconhecer o Dez no meio dos outros caras vestidos de preto. Mesmo baixinho, com cabelo castanho cortado ao estilo militar e sem nenhum traço marcante em especial, o Dez se destaca. Não existe um sujeito igual. Sua felicidade constante é contagiante. Nunca o vi cabisbaixo ou triste. O que é engraçado, porque isso acaba sendo sua característica principal e de uma forma estranha, o torna fisicamente mais bonito que verdadeiramente é.

- Grande Dez! Dez dias, dez meses, dez anos e dez vidas de felicidades para você, meu chapa. – eu o felicitei pelo seu aniversário.

- Obrigado mesmo Vic. Veio sozinho? Cadê a patroa? – ele disse me abraçando e mostrando um sorriso largo. Eu deveria andar mais com ele. Bastava a sua presença e sua alegria irradiante para aliviar a tensão dos problemas.

- Chegamos mais cedo e não te encontramos. Ela está perdida por aí com o Gordo. Tenho que te dar os parabéns, é um festão.

- Com certeza. Será um dia inesquecível para todos nós. Tenho absoluta certeza disso – ele levantou os olhos e soltou uma longa risada e completou - Hoje não vai faltar nada. Nadinha.

Era a minha deixa. Puxei-o pelo braço, o afastando do resto do pessoal e disse:

- Eu estava atrás daquelas bolinhas que você comentou que arrumaria. – eu estava um pouco sem graça. Sabia que muitas pessoas se aproximavam de Dez por conta do seu dinheiro e viviam se aproveitando do altruísmo do rapaz. Talvez por isso que não éramos tão próximos. Não queria ser visto como oportunista, apesar de estar sendo exatamente isso naquele momento.

- Sem problemas, Vic. Eu te prometi e como eu falei, hoje não falta nada. Vamos até o meu quarto.

Saímos da cozinha e fomos andando para o interior do apartamento. O Dez contava que estava planejando aquela festa há meses e agora que o momento tinha chegado ele estava extremamente contente.

- A vida é curta demais para perdemos tempo não sendo felizes. Não quero estragar nada, mas preparei algumas surpresas para hoje.

Eu até poderia imaginar. O Dez era famoso por isso. Uma vez, ele estava indo ao churrasco de aniversário de um amigo nosso, o Décio, e no meio do caminho se deparou com um carro de uma rádio famosa fazendo promoção. Não pensou duas vezes, foi até o veículo, jogou sua fala mansa e seu sorriso alegre. Ele conseguiu convencer os sujeitos não só a irem ao churrasco, como colocar a galera falando ao vivo no ar, mandando abraços e escolhendo músicas. Tudo isso apenas sendo agradável. O cara descobriu o verdadeiro poder da Força e se tornou um Jedi somente sendo simpático e extremamente feliz. Não preciso nem dizer que foi o aniversário inesquecível do Décio.

Eu deveria aprender mais com o Dez. Realmente a vida é muito curta para perdemos tempo não sendo felizes. A minha naquele momento era mais curta do que de qualquer um. Sei que nem todos têm a vida fácil do Dez com seus abundantes recursos financeiros, mas a todo o momento ouvimos histórias de ricos infelizes. E conhecendo o Dez e suas histórias eu tinha certeza que mesmo que ele fosse pobre, não mudaria o seu jeito alegre de ser. Talvez ele não seria tão excêntrico, mas com certeza continuaria sendo “Nota Dez”.

- Vindo de você eu espero qualquer coisa. – eu respondi.

Estávamos quase chegando ao quarto e eu tinha esquecido completamente qualquer preocupação quando reconheci aquela voz atrás de nós.

- Olá Dez e Vicky Boy. – antes mesmo de me virar conseguia visualizar Luther parado atrás de nós com sua pose e olhar imponente – Uma bela festa que temos aqui e tenho certeza que hoje todos teremos uma noite especial! – e ao visualizar aquele risinho cínico eu tinha certeza que ele estava tramando algo. Todos os planos de ignorar Luther e tentar apenas me divertir foram dissipados com aquela visão. Nem a felicidade contagiante de Dez poderia me salvar e dificilmente aquela festa acabaria bem.

Adoraria saber se o Place Stealer gostaria de trocar de lugar comigo naquele momento.

No próximo capítulo: Bolinhas & Breguice










Compre agora o livro do Viciado Carioca. Trinta contos de humor viciantes que te deixarão de olhos vermelhos de tanto rir.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Sucesso total no lançamento do livro “Comédia da Vida Fumada!”

Quem não foi, perdeu. Entre a chuva que não deu trégua, ruas fechadas e helicóptero pegando fogo, o lançamento do livro no último sábado foi um sucesso total.

A festa planejada para terminar às seis horas da noite foi estendida até as dez, quando o pessoal da Multifoco teve que retirar os últimos doidões a vassouradas!

Para mim, foi a realização de um sonho. Os leitores fiéis mais antigos, que acompanham a minha saga aqui na internet desde o primeiro endereço, sabem que esse sempre foi o objetivo. Lutei bastante, não desanimei com algumas respostas negativas e o resultado está aí.

Foi muito gratificante também conhecer alguns leitores pessoalmente. Era até uma sensação estranha pois ninguém sabia quem estava mais “sem graça”, eles por estarem ali dando uma força ou eu que nem sabia como expressar a minha felicidade por conhece-los. Não quero listar nomes, pois depois de algumas cervejas eu já não lembro o nome de um por um :-) , mas quero registrar o quanto vocês me deixaram contente pela visita.

Algumas ausências foram sentidas, pessoal que confirmou presença mas furou. Mas serão perdoados depois que comprarem cada um três exemplares como desculpa.

Ponto alto da festa foi o doidão gritando no meio da parada: “Lançamento do Comédia da Vida Fumada e ninguém vai me oferecer nem um fininho????”. Hilário.

Quero também registrar o agradecimento ao site co-irmão Hempadão . Cadu, João e toda a equipe. Trocamos um papo aberto e dei a minha primeira entrevista bêbado. Qualquer hora isso vai estar rodando por aí.

Agora, como diria o Capitão Planeta, O Poder é de Vocês! Pessoal que comprou, indique para os amigos, divulgue o livro, spread the word! Pessoal que ainda não comprou, vamos dar uma força aí!

Para finalizar uma boa notícia que vem acoplada com uma má. Estou negociando de maneira intensa a publicação do meu primeiro romance. A história é a mistura do primeiro e segundo arco do ANO I, mas com muitas modificações, novos capítulos e um final totalmente diferente. O projeto que me ofereceram é muito bom, mas como estamos já um pouco avançados nesse acordo, eu me comprometi a retirar os textos do blog até segunda ordem. Quem leu, leu, quem não leu pode ir se divertindo com o Arco III, isso se eu, como um capitalista maldito, não vender os direitos por qualquer Big Mac que me oferecerem.

É isso pessoal. Um forte abraço, obrigado do fundo do coração pela força e vamos agora para a segunda etapa do projeto: Spread the Word!






terça-feira, 13 de outubro de 2009

Respondendo as Perguntas sobre o lançamento de 17/10

1 - O livro será vendido pela internet?

Mas é claro, Padawan. Como eu, um bicho de internet não venderia meus livros por aqui?

Ele estará disponível no site da editora Multifoco em breve. Quando eu tiver o permilink eu passarei para vocês.

2 - Quais são os contos que estarão no livro?

São 30 contos na seguinte ordem: Viva la revolución (Peça em um ato) ; Harvest Of Sorrow ; Sim, por favor ; Homossexualismo latente ; Pelo contrário ; King and Queen ; Ervas na mesa ;
Amigo, estou aqui ; Era uma vez uma flor... ; Mudança de hábito ; Eu nem sei o que eu fumei no verão passado! ; Existem mais coisas entre o céu e a terra ; Adolescentes ; Kurt Vonnegut morreu ; NA ; Tonho , Chico e Mimosa ; Nossa Senhora! ; Amor bandido ; O abominável filho do seu Neves ; Quem tem seda? ; Promoção ; As aventuras de Pedrinho & Puffy : Episódio de hoje: Sexo Selvagem ; Internet ; A doce vingança de Abraham Van Helsing ; 10km/h ; Walk of Life ;
Quem morreu? ; Jogo da Vida ; Onde os fracos não têm vez ; Fã Nº1

3 - Terá bebidas e salgadinhos de graça?

É o mínimo que eu posso oferecer. Uma cervejinha gelada e uns salgados para matar a larica de todos que aparecerem para prestigiar esse mega evento.

4 - E produtos entorpecentes além de álcool?

Claro que não. Afinal, eu sou um escritor de respeito e a Multifoco é uma Casa Editorial de família.

Além disso, minha própria família estará lá e eles acham que eu sou e sempre fui um rapaz comportado.

5 - Posso chamar os amigos?

Deve. Esse é um momento crucial e preciso que todos apareçam. Preciso encher esse evento para garantir as publicações dos meu outros livros.

6- Eu não sei chegar na sede da Editora Multifoco que fica na Av Mem de Sá 126, Lapa - Rio de Janeiro.

Bem, existe o google maps e vários apontadores na internet para traçar a rota. Mas essa rua é muito conhecida na Lapa. É onde tem aquele posto de Gasolina, o Teatro Odisséia, o Brazuca, Bar Brasil, Carioca da Gema, etc etc etc....

7- Quanto irá custar o livro?

Apenas R$35,00. Uma quantia totalmente irrisória. Você estará pagando apenas R$0,23 por página e míseros R$1,16 por cada conto. Levando em conta o trabalho que deu para escrever e quanto eu vou levar nessa brincadeira toda, está praticamente de graça.


8 - É verdade que você contratou um pai de santo para fazer macumba e atrasar a vida de quem não for?

É mentira. Eu contratei duas Mães de Santo, Pretinha Tranca-Rua & Vovó Cagona, porque o preto velho já tinha compromisso de levar a pessoa amada para alguém no Sábado a noite.

9 - Ouvi dizer que você fez um site todo bonitinho para tentar parecer que seu livro é um produto literário de qualidade e não uma porcaria que reúne vários posts de um blog de qualidade questionável.

É verdade. A url é www.comediadavidafumada.com.br


10 - Fala sério, depois do lançamento do seu livro você se tornará mais uma dessas estrelinhas babacas que nem tem saco para responder as perguntas dos leitores, não é verdade?



...




segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lançamento do livro "Comédia da Vida Fumada" 17/10




Criado em 2005, o blog 'Viciado Carioca' conquistou leitores fiéis e causou muita polêmica. Agora o autor lança pela Editora Multifoco o livro 'Comédia da Vida Fumada', uma coletânea de 30 contos de humor, com a mesma temática que popularizou seu blog. Nos textos, personagens comuns vivem situações insólitas, como o pai maconheiro que não aceita que a filha tenha um namorado careta, ou o usuário que ganha um anão de brinde em uma promoção na boca de fumo.

Textos como 'Viva la Revolución', 'Adolescentes', 'Promoção' e 'Walk of Life' (que até virou um curta-metragem que pode ser visto aqui) são apontados pelo autor como os que tiveram maior repercussão em seu blog, e estão no livro. Mas os leitores do 'Viciado Carioca' não precisam se preocupar: 'Comédia da Vida Fumada' apresenta também textos inéditos, escritos especialmente para o livro.

O autor conta que fazer humor com esta questão delicada o fascina: "humor bom é o que mexe com algo 'proibido', algo que é um 'tabu'. É um campo minado você querer tratar as drogas de um jeito 'light', de um jeito 'cômico'. Eu adoro campos minados."

A abordagem bem humorada sobre drogas já deu muita dor de cabeça ao autor. O blog 'Viciado Carioca' chegou a ser tirado do ar devido a uma denúncia de apologia feita ao Ministério Público. Mas ele não se deu por vencido: reabriu o blog em outro domínio, agora com um aviso de que o conteúdo é literário e destinado a maiores de 18 anos, e alertando para os perigos das drogas. Ele refuta as acusações: "não vejo apologia em nenhum dos meus textos. Até porque eles não devem ser levados a sério. Dizer que ficou compelido a fumar maconha porque leu um conto sobre um camarada que ganhou um anão como 'brinde' na boca de fumo, para mim é o mesmo que dizer que alguém virou homossexual porque assistiu o 'Seu Peru' na Escolinha do Professor Raimundo."

O livro 'Comédia da Vida Fumada' será lançado dia 17 de outubro, às 15h, na Editora Multifoco (Rua Mem de Sá, 126 - Lapa - RJ), em tarde de autógrafos do autor. Informações pelo telefone 21 2222-3034.