quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Café-da-manhã dos perdedores

Sentados no meio-fio na frente daquela padaria, eu, Kid e João Mariano desfrutávamos de um pão com presunto e uma latinha de cerveja. O sol começava a nascer preguiçoso e os católicos iam procurar a salvação na Igreja. Olhando para aquilo pensei que se eu tivesse que resumir tudo que aconteceu naquela noitada em uma só palavra ela seria: sincronia.

Nós continuávamos com o nosso café porque sabíamos que não tínhamos salvação. Kid tentava assassinar a sua larica a dentadas e nem olhou para o JM quando ele soltou:

- Aquela atendente até que tem pernas bonitas. – eu também não desviei o meu olhar do vazio. Simplesmente respondi:

- Desiste. A noite acabou. Você tá doidão. – Eu olhava para as minhas roupas e sabia que ali estava o erro. Não se pode tentar ser outra pessoa. É uma besteira. E por falar em besteira, do infinito da sua sabedoria etílica misturada com maconha, JM solta a teoria que iria redefinir o universo:

- E você está paranóico. A noite só acaba quando termina. Ela está me dando mole, eu vou mandar uma cantada. – Se o cara não consegue ser genial de cara limpa e às oito da noite, imagina depois de uma noite de excessos. Eu deveria fazer algum comentário sobre isso, mas seria mais engraçado vê-lo tomar um toco da funcionária da padaria antes do sino da igreja tocar. Meu Deus, nem eram sete da manhã ainda.

Eu tenho um faro bem apurado para furadas. Pena que eu tendo a ignorá-lo quando me dizem que vai ter bebidas grátis. É a minha kriptonita. Foi por isso que topei ir aquela festa de casamento da família do João. Deveria ter negado. E ainda tem gente que diz que não se arrepende das coisas que fez.

Eu me arrependo de muitas coisas. Principalmente dessa época. Ao meu favor eu posso alegar que não raciocinava muito bem com tanto pó enfiado no nariz e tanto álcool no cérebro. Dizem que só se vive uma vez e eu tentava de todas as maneiras que essa vez fosse bem rápida como a transa de um moleque de 16 anos. Eu relembrava a noite que insistia em não morrer e já me arrependia da minha cantada enquanto o JM começava a planejar a dele. Como fui chamá-la para uma suruba no motel?

Calma, eu estou acelerando um pouco a história. Acho que devo começar pela a minha primeira reação ao telefone quando JM convidou-me:

- Eu não vou me meter em uma festa careta com você e o Kid. – Eu disse sem muita emoção. Já planejava um sábado natural com uma ronda aos bares, uns tecos em banheiros sujos e adrenalina queimando o corpo. A noite logo iria começar e todas as minhas fibras clamavam para que eu ficasse doidão. Queria me sentir especial. Eu era um imbecil. Como diria o Mestre Yoda, o lado negro não é mais poderoso, apenas mais rápido, mais fácil e mais sedutor.

- Você é o único idiota que eu conheço de negar uma festa com bebida liberada. E o único idiota do mundo de chamar uma festa de bebida liberada de “festa careta”. – Como eu disse, João Mariano raramente é genial. Ele só chegava às conclusões óbvias como essa. Eu não podia negar sabendo que teria bebida liberada. Ainda mais que o meu dinheiro estava tão curto quanto às carreiras que entravam no meu nariz. Bebida Liberada, meu calcanhar de Aquiles.

Se antes eu tinha acelerado, agora eu estou me repetindo. Você já sabe disso como eu sabia que era uma péssima idéia o JM acender uma ponta na frente da padaria. Mas ele disse que eram só dois tapinhas para “abrir a mente”. Se depois de tanto álcool a mente dele ainda não estava aberta, certamente alguém trancou aquela porcaria e jogou a chave fora. Ele e o Kid foram para trás de uma árvore e eu continuei sentado na sarjeta com a cara inchada. Aquele era o meu lugar. Era o que eu merecia. E olha que eu estava bem arrumadinho no começo da noite.

- Eu não sei por que todos têm que se vestir como bancários para uma festa de casamento. – Eu disse quando entrávamos no salão. O Kid com uma camisa branca, uma gravata preta e seus olhos puxados parecia a versão menor de um “Bruce Lee garçom”. João estava de terno sob aquela barriga e parecia o clássico “capanga-idiota-quebra-ossos-da-máfia”. E eu parecia....nós nunca achamos que parecemos com alguém...como eu vou descrever?...bem...eu parecia um babaca. Aquela gravata verde apertando o meu pescoço, aquela camisa sufocando os meus braços e meus pés rezando por um tênis.

- Sorria, seja simpático, não vá cheirar porra nenhuma no banheiro e detone os uísques! – JM ditou as regras e começou a se misturar. Eu e Kid nos colocamos estrategicamente na saída da cozinha e fazíamos uma blitz em cada garçom com tulipas de chope.

- Talvez seja até legal. Tem umas mulheres soltas pela festa. – Kid tentava me animar. Mas eu balançava meu rosto de um lado para o outro e só conseguia perceber gente chata e feia muito feliz. Esse é o cenário típico de um desastre. Eu tentava não pensar nas graminhas brancas da perdição guardadas em meu bolso, mas quando o JM retornou com dois copos de uísque e largou um na minha mão eu decidi que era idiotice brigar contra os meus instintos.

O primeiro tiro foi bem rápido. Entrei no banheiro, fiz e saí como um profissional. Assim como foi o teco que o Kid e o João deram atrás da árvore naquela padaria. Os dois voltaram se vangloriando como eram “ninjas” na arte de fumar. Eu comecei a rir não acreditando que aqueles pirados tinham realmente fumado uma ponta de maconha na frente de uma padaria às sete horas da manhã de um Domingo.

- Vou chegar de boa. Vou elogiar o cabelo dela e chama-la para um cinema esperto. – JM traçava seu plano de ação. Comecei a rir mais forte. Aquela era uma derrota certa. JM havia perdido toda a noção. Só uma mistura bem forte de cerveja, uísque e maconha para levar alguém a crer que é uma boa idéia você chegar na atendente da padaria naquele estado. Mas quem era eu para falar sobre pessoas sem noção?

Quando saí do banheiro a festa parecia estar mais animada. Comecei a me motivar e antes de terminar o segundo uísque eu já estava dançando. Isso deveria ser um alerta. Eu nunca danço. É o som contagiante de Deee-Lite.

- Groove is in the heaaaaaaaaaaart! – Eu cantava para o Kid que sorria de volta. Aquilo me dava mais confiança e comecei arriscar uns passinhos típicos dos anos 80. E claro que no meio de tanta alegria você sempre acha que está arrebentando.

Aquela menina também colaborou para a minha empolgação. Ela começou a sorrir e dançar perto do nosso seleto e animado grupo. Kid apontou para mim e continuamos naquele joguinho de sedução. Não pretendia chegar naquela menina. Ela parecia um pouco nova, mas era muito sexy. Óbvio que depois do terceiro teco e a quarta dose dupla de uísque esse pensamento se perdeu no meu cérebro como o JM quase perdeu a sua vida ao entrar naquela padaria.

Seria uma das mortes mais idiotas já registradas no mundo. Imagina, eu tentando explicar para os pais dele que a última coisa que eu disse ao seu filho foi:

- Me traz um toddynho. – Eles nunca iriam aceitar isso. Como um homem depois de cheirar a sua vida, beber como um demônio, fazer o que fez em uma festa familiar ainda ter estômago para beber um toddynho? Inacreditável. Eles iriam chorar, espernear, me pegariam pela gola da camisa e bradariam com lágrimas de sangue:

- Por que nenhum de vocês não tentou impedi-lo? – É o que sempre perguntamos depois de uma tragédia. Eu não posso dizer a mesma coisa. Depois de analisar o que aconteceu, eu sei que essa era a intenção daquela coroa quando se aproximou de mim.

O perfume dela era delicioso. Estava bem vestida, como se espera de alguém em uma festa de casamento. Homens vestidos de bancários e mulheres achando que estão na premiação do Oscar. Eu estava dançando com a ninfeta sexy quando ela chegou a mim e disse algo no meu ouvido. Não entendi coisa alguma. Eu doidão e aquela música alta não eram os elementos corretos para travar um dialogo. Mas respondi com um sorriso e me aproximei no melhor estilo Tony Manero:

- Eu sei. Mas é tudo muito lindo e a energia daqui é muito boa. – Não sei por que decidi entrar em uma onda de guru. Acho que por um momento eu acreditei que fazendo o papel do jovem esquisito e esotérico poderia convencer aquela coroa de terminar a noite na cama comigo. – Você está sentindo isso? Essa energia? Cadê o seu marido? Quer dançar? – Eu metralhava a coroa com várias perguntas ao mesmo tempo sem deixá-la respirar como se fosse uma metáfora com o que eu pretendia fazer com ela em um motel. Não tente entender a minha linha de pensamento. Eu não consigo. Só sei que ela respondeu o que não deveria:

- Eu sou desquitada. – E num ato que eu acreditei que era uma coisa, mas era apenas simpatia, ela me abraçou para dançarmos juntos.

Nesse momento eu poderia ser covarde como todos os idiotas machistas e dizer que tudo é culpa das mulheres. São muito educadas e sempre tentam sair de situações constrangedoras com classe. Talvez se fossem mais energéticas em certos casos, as confusões não aconteceriam. Porém, a verdade é que os homens ou são idiotas de pensar apenas com o pênis, burros o bastante para não perceber o que está acontecendo ou estão muitos doidos. No caso do João Mariano as três hipóteses juntas. Ele acreditou que a simpatia daquela atendente de padaria era na verdade uma resposta positiva a sua cantada. Continuou molestando a pobre coitada e descendo o nível de seus adjetivos. Patético, inconveniente, chato, insuportável, inimigo número 1. Não posso culpá-lo, porque eu tinha feito a mesma coisa horas atrás na festa de casamento.

Sincronia é uma palavra engraçada porque sua pronúncia não parece seu significado. Ela soa como uma doença crônica de alguém que sempre diz sim. Mas na verdade quer dizer simultaneidade, contemporaneidade ou concomitância. Vem do grego “syn+kronos” (syn = juntamente; kronos = tempo). E quando você sabe disso, sincronia começa a virar quase sinônimo de perfeição. Por exemplo, não podemos dizer que a minha dança naquela festa estava em sincronia com a música. Totalmente imperfeito. Diferente da dança daquela ninfeta que balançava perfeitamente seu corpo pelo salão e esbarrava em mim e na coroa apenas de propósito. Totalmente sincrônico logo, totalmente perfeito.

E o mais louco dessa história é que tudo que aconteceu depois de eu sugerir para a coroa que fossemos eu, ela e aquela ninfeta para um motel foi sincrônico. Contudo eu não posso falar que foi uma noite perfeita. Nem de perto.

Assim como tudo que aconteceu depois do JM sugerir de ele e aquela atendente da padaria fossem ao motel foi sincrônico. Contudo eu não posso falar que foi uma manhã de Domingo perfeita. Nem de perto.

Também, como eu iria saber que a ninfeta era filha da coroa e no exato momento que a velha soltou o grito: “Esse idiota quer levar eu e a minha filha pro motel” o desgraçado do DJ iria parar a música?

E como JM iria saber que no exato momento que a atendente soltou o grito: “Esse idiota tá querendo me agarrar” o segurança da padaria estava acabando de ouvir a reclamação sobre os vagabundos fumando maconha?

Não tinha como nós sabermos disso. Assim como os dois marmanjos que socaram as nossas caras, no meu caso um convidado grandão e no do JM o segurança da padaria, não tinham como saber que estávamos bem doidos para absorver aquele golpe forte no rosto, mas ainda bem espertos para corrermos como nunca corrermos em nossas vidas.

E como nos dois casos o Kid teve a reação de correr para o carro e arrumar a melhor fuga possível, eu não vou parar de dizer que perfeição pode ser usada como sinônimo de sincronia. Não mesmo.

7 comentários:

  1. Olá Amigo!!

    Obrigada por ser meu seguidor. Vim visitar seu blog e adorei seu estilo, seus textos são muito criativos. Vou visitá-lo sempre agora!
    Qual é seu nome?
    Abraços
    Cris

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  2. Eu não consegui entender se tu é um genio ou um louco. Talvez a união dos dois com algumas doses de uisque e algumas gramas de maconha e cocaina, mas teus textos realmente são viciantes... Parabens!!

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  3. olá,
    a princípio, assustador.

    mas aí descubro, que seu trabalho é encantador!

    prazer,
    teresa

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. cara, muito bom seu blog. adorei seu texto... criatividade mil... me vi em algumas cenas descritas.
    depois dá uma passadinha no meu blog: odonodotempo.blogspot.com
    abraço!

    a primeira postagem não postou!!!

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  6. Olá!
    Fiquei "deveras" curiosa ao perceber mais um "seguidor" em meu blog, que, de princípio, foi feito apenas pra "afogar" algumas mágoas...
    Da curiosidade à ação, foi questãod e segundos e, aqui estou eu, me deliciando em seus escritos!
    Sou simplesmente VICIADA em leituras e seus textos são VICIANTES!
    Parabéns e seja bem-vindo!
    Manteremos contato.
    bjokinhas,
    Katita

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  7. Vic, adorei... não fica tanto tempo sem postar!

    Até!

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