segunda-feira, 23 de março de 2009

O Pacto

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 3

A história até agora: Vic e Nic viajam para o sul do Brasil para saborear Testículos bovinos e Chá de Cogumelo. Enquanto Nic limpa aura das pessoas e rouba cerveja, Vic só que escutar Eu te amo. Se você ainda não leu as partes anteriores, procure na barra lateral.

Sugestão de Música: Cat Stevens - Where do the Children Play?

Estava escuro e chuvoso quando chegamos à fazenda. Vitinho, o primo gaúcho de Nicole, foi quem veio nos receber. Os outros estavam dormindo e esperando o grande dia seguinte. A farra do saco do boi. Vitinho era um sujeito alto e de fala eloqüente. Seus cabelos eram negros e curtos e não tinha nenhum traço que lembrasse a Ruiva.

- Priminha! Que bom que vocês vieram... – ele deu um longo abraço na ruiva. Depois veio ao me encontro e me abraçou também: - Primão! Muito bom vocês aqui! Fizeram boa viagem?

- Acho que não tinha como ser melhor. – eu respondi e dei uma olhada para Nicole que riu um pouco sem graça. Depois suspirou e disse:

- Nossa, mas é cansativo. Estou louca para um banho em um chuveiro decente e uma cama bem quente. - Vitinho me ajudava a descarregar a Millenium Falcon.

- Eu acho que posso providenciar tudo para você. Enquanto isso, o primão aqui mata umas cervejas comigo. – eu sorri, puxei a garrafa de Jack Daniel’s que estava no carro e sugeri:

- Que tal começar com classe? – ele fez um sinal de positivo e agradeceu:

- Trilegal, tchê! - seguimos andando em direção a casa.

A fazenda era enorme. Nós estacionamos perto de um grande campo de futebol. A direita do campo estava um lago. Existia um caminho de cimento que atravessava o lago e acaba em um quiosque com teto de sapê. O caminho do quiosque se iniciava ao lado da piscina. Lá tinha as duas saunas e uma grande casa. Essa casa era onde ficava a churrasqueira e uma sala de jogos com sinuca, totó e ping-pong.

A casa grande localizava-se imediatamente acima do campo. Era enorme. Vitinho anunciou que ela tinha dez quartos, mas apenas uma suíte. Gentilmente, ele separou a suíte para nós. Atrás da cozinha, existia uma pequena fonte de água natural com peixes variados. A esquerda do campo de futebol você conseguia ver o pasto. Era o local que daqui a doze horas, vários jovens gaúchos estariam bebendo cerveja, comendo bagos de bois, tomando chá de cogumelo entre outros entorpecentes ilegais.

Enquanto Nicole tomava banho na nossa suíte presidencial eu dividia o uísque e um fino com o meu novo “primo”.

- Então, Vic? Você já comeu testículos de bois antes? – estávamos na varanda. Eu deitado em uma das inúmeras redes espalhadas por lá. Vitinho sentado na cadeira de balanço e nós dois olhando para um dos céus mais estrelados que eu já admirei.

- Posso te garantir, Vitinho, eu nunca estive com uma bola na boca. – ele riu, passou a baga e abriu bem os braços:

- Mas amanhã você vai abocanhar um saco desse tamanho. – eu ri e fiz um pedágio com o venenoso. Era um lance bom. Leve. Gosto de campo. Vitinho não reclamou. Os gaúchos são educados. – E cogumelos? Aposto que tomou vários lá no Rio, mas nada se compara com os nossos daqui. – eu devolvi o baseado para ele e fiquei pensado como eram diferentes as idéias que temos de outro lugares. Assim como os americanos fantasiam o Brasil de uma maneira, nós idealizamos sobre os nossos próprios Estados. Em São Paulo só tem workaholic. Na Bahia todo mundo gosta de axé. Essas baboseiras. Vitinho achava que só porque eu morava em uma cidade grande e namorava a sua prima pirada eu tinha experimentado de tudo. Se fosse assim eu não teria feito o pacto com Nicole. Resolvi quebrar esse paradigma. Deixar de perpetuar a burrice.

- Nada. Lá no Rio não tem muito dessas coisas. – eu disse em tom lacônico. Ele me apresentou a ponta:

- Cogumelo é droga de roceiro! – eu não sabia se aquele comentário era uma lamentação ou um orgulho.

- Imagino que a onda deva ser algo extraordinário. – prendi a ponta do baseado. O finalzinho sempre guarda o melhor veneno. O mais prensado. Ofereci de novo quase uma brasa e ele recusou.

- Cara, nós vamos abrir as portas da sua percepção de uma maneira que você nunca sentiu antes. – nessa hora eu tive que perguntar. Talvez fosse a única chance de saber:

- Vocês têm trombeta por aqui? – ele abriu um sorriso e esticou os braços:

- Aqui é a roça. Tem trombeta em tudo que é lugar. Mas você quer tomar chá de cogumelos e de trombeta? Primão, isso é viagem sem volta! – eu comecei a rir:

- Que isso, Vitinho. Eu sou louco, não imbecil. Era apenas curiosidade mesmo. Dizem que o negócio é do capeta.

- Nem diga. Cogumelo é tranqüilo. Tomo de vez em quando e estou aqui. O pessoal fala que você pode não voltar de uma viagem de cogumelo. O negócio é saber fazer. Você vai ver amanhã. Vai começar com uma brisa e depois você vai estar no paraíso. – essa era a família da minha namorada me edificando para eu me tornar um bom marido.

A chuva caía fina sobre a fazenda e eu só conseguia imaginar um monte de loucos alucinados correndo nu e se jogando naquele lago. Transando com as vacas e comendo merda de boi. Seria um dia genial. O cheiro de mato molhado foi cortado pelo suave perfume de Nicole. A Ruiva tinha saído do banho e agora me chamava para descansar.

– Teremos um dia cheio pela frente amanhã, meu amor. – ela dizia em tom doce querendo dizer “venha para cama agora”. Como seu eu fosse dizer não a uma ruiva linda e cheirosa me chamando para o quarto.

Fui direto para o banho. A água batia quente sobre os meus ombros e o efeito do uísque com maconha me acalmava. Eu era o centro da mansidão do universo. Estava de olhos fechados e me preparando espiritualmente para a viagem de cogumelos. O que minha mãe diria sobre isso? A primeira parte do pacto. Nicole chegou ao banheiro e sentou-se na privada. Estava lixando as unhas e inquieta.

- Vic, sobre amanhã, se você não quiser tomar o chá eu te libero do trato. – Nicole de alguma forma percebia que a minha visão quanto às drogas era muito menos holística que a dela. Por trás da minha máscara de maluco existia um medo irracional. Minha mãe católica com os seus dogmas ortodoxos influenciava mais na minha psicologia do que eu admitia. Eu era um dos poucos malucos que pensava mais nos contras do que nos prós antes de queimar uma erva. Sempre fui inconseqüente sobre tudo, menos quando o papo era alucinógenos. Isso, antes do pacto, é claro. A Ruiva, por sua vez, não dava bola para nada. Ela queria mesmo é viver experiências. Ela era rock e eu estava pop.

- Está querendo dar para traz, McFly? – eu respondi de dentro do chuveiro brincado. Eu não ia arregar. Eu tinha dado a minha palavra e isso ainda é alguma coisa. Mas dentro de mim, um muro de Berlim. Sabia que aquilo era um grande passo em direção ao erro. A vida bandida. Quando fumei maconha, era para matar aquela curiosidade adolescente. Agora iria passar para cogumelos. Eu realmente estava virando O Viciado Carioca. Aonde iria parar? Do outro lado muro, um diabinho assoprava na minha mente que aquilo era viver a vida. Encontrar aquele segredo que as pessoas estão te escondendo. Além disso, eu tinha o sonho de ser escritor e o que tinha de melhor para “abrir as portas da percepção”?

A única coisa que não saía da minha cabeça era a cara de decepção que a minha mãe faria se um dia descobrisse. Talvez fosse os seus conselhos católicos emitidos há mil e quinhentos quilômetros de distância saindo dos lábios carnudos da Ruiva:

- Eu não estou brincando, Vic. Eu sei que você é curioso, mas também tem dúvidas. Fumar um baseadinho quando se esta baixo astral é uma coisa. Cogumelo é um negócio forte e tenho medo de você pegar alguma badtrip. As cartas mostram que você esta muito dividido. – se nesse momento eu caísse fora? E se nesse momento eu concordasse com a Ruiva, com a minha mãe e com toda a sociedade? Quem eu seria hoje? Não posso responder. Ninguém pode.

- Nic, eu topei o pacto, não topei? Pode ficar tranqüila que eu não vou me matar numa badtrip. Afinal, são só duas ou três casas de Smurf. Não pode ser tão ruim assim. Eu estou com vontade e vou seguir em frente. – eu disse um pouco irritado. Buscava uma disposição mental para me convencer que no fundo, aquilo não tinha nada de mais.

- Como você disse, não é um pacto dos mais inteligentes combinar com a sua namorada de tomar juntos todas as drogas possíveis que você possa encontrar. Eu estava olhando as cartas e sei que você está indeciso sobre isso. Eu não quero ser responsável por algo que você se arrependa mais tarde. – desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha. Saí do boxe irritado. Como uma mulher tão bonita e inteligente como Nicole podia guiar sua vida por cartas de Tarot? Como ela acertava quase tudo que via naquele baralho? Imaginei se a minha mãe, católica ortodoxa, descobrisse que a minha namorada, a mulher que eu estava planejando passar o resto da minha vida, era taróloga. Acho que ela iria ficar menos desapontada descobrindo sobre a maconha.

Eu tinha medo sim, mas não queria apoio ou ajuda. Queria uma tranqüilidade mental e um ambiente agradável para proporcionar uma bela viagem. Eu ia seguir em frente e estava decidido. Eu ia buscar nas drogas um nível mental que eu nunca alcançaria careta. A partir daquele momento eu estava com mais medo de comer os colhões de um boi a tomar um caldinho dos fungos que brotam da sua merda.

É analisando bem, como um homem tão bonito e inteligente podia guiar a sua vida por um pensamento idiota como esse?

- Eu não vou me arrepender de nada e você não é responsável por coisa alguma. Vamos cortar esse baixo astral. Estamos viajando. Tivemos um dia ótimo e amanhã será ainda melhor. – ela sorriu um sorriso contrariado. Levantou-se da privada e veio até a cama comigo. Ela me abraçou de forma calma e eu percebia o misto de ternura e preocupação em seus olhos. Talvez fosse o momento ideal para ela me dizer que também me amava. Isso me traria a tranqüilidade e o ambiente agradável que eu buscava:

- Durma bem, Vic. – eu simplesmente a beijei e fiquei abraçado com a minha Ruiva.

- Eu te amo, Nic. – suspirei e complementei. – Amanhã será o primeiro dia do resto de nossas vidas. – continuei abraçado com ela noite adentro. Ansioso com o dia que iria chegar e sem saber que a viagem de cogumelo que me esperava, e as conseqüências, seriam bem maiores do que eu poderia imaginar.

No próximo capítulo: Vic Bolado...


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