segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Que É? O Que É?

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 5

A História até agora: Vic entra em contato com o Universo através do chá de cogumelos. Tudo seria maravilhoso, se o morto não aparecesse para bater papo. Se você ainda não leu os capítulos anteriores, procure na coluna ao lado.

Sugestão de Música: Ramones - Pet Cemetery

Quando Guilherme saiu do sul do Brasil para tentar a vida no Rio de Janeiro muitos disseram que ele era louco. Na verdade ele era apenas um jovem ambicioso e muito obstinado no seu sonho: ser rico. Tinha certeza que na sua cidade ele até poderia conseguir, mas o Rio era a cidade das oportunidades, da beleza e dos artistas da tevê. Uma cidade maravilhosa.

Logo o rapaz conseguiu um emprego em uma padaria. O trabalho era pesado, o patrão era severo, mas toda a semana ele recebia o seu dinheiro. Guilherme sabia onde queria chegar e investia todo o dinheiro que sobrava em livros.

Não demorou muito para o trabalho duro do rapaz chamar a atenção de outro comerciante. Ele viu na fala mansa e na educação de Guilherme um vendedor em potencial e o convidou para trabalhar em sua loja de calçados. Em um ano Guilherme se tornou o melhor vendedor e o gerente da loja. O dinheiro sobrava com certa facilidade e ele poderia empregá-lo um pouco em lazer. Foi num samba qualquer da Lapa que ele conheceu Francisca, a mulher que ira se tornar sua esposa.

Por influencia de Francisca que Guilherme começou a estudar para a prova do Banco do Brasil. Os funcionários do banco não eram apenas famosos pelo mau humor e trabalho burocrático, mas na época, também pelos altos salários. O rapaz se dedicou ao máximo e passou fácil no certame.

A vida melhorou bastante. Casou-se com Francisca e trabalhava duro no banco. Pretendia logo ser gerente e ganhar ainda mais. O seu sonho estava se tornando realidade. Era trabalhador, atencioso, bem humorado, bem informado e começou a se tornar uma referência de funcionário dentro da instituição. O seu cargo de gerente estava próximo.

Mudou-se finalmente para a Zona Sul do Rio. Com bastante trabalho e economia conseguiu financiar um apartamento em Ipanema. Morava apenas três quadras da praia e os familiares do Sul estavam felizes que Guilherme vivia no bairro dos artistas.

Mais ou menos quando a sua única filha nasceu ele foi nomeado gerente de agência. Era um caso único dentro da instituição que historicamente só promovia funcionário por antiguidade. Seguiu trabalhando e juntando as suas economias. Sapecava de uma agência a outra tentando impor o seu estilo de trabalho e mudar a cara do Banco.

A vida seguiu e Guilherme olhava orgulhoso o que tinha construído. Tinha um apartamento no melhor bairro do Rio, um bom emprego, uma esposa e a sua filha acabara de completar cinco anos. Mas sentia que algo faltava. Apesar de uma poupança cheia, ele não era tão rico como gostaria. Às vezes ele sentava-se a beira da praia no fim de semana e observava os ricos morando em coberturas na Vieira Solto e desfilando em carrões caros. Foi para isso que ele veio ao Rio de Janeiro. Quando comentava que queria mais, Francisca apenas agradecia a Deus o que eles tinham. Ela afirmava que não precisavam de mais, que eles já tinham uma casa, uma bela filha e muita saúde.

Para Guilherme aquilo não bastava. Mesmo trabalhando no banco, conhecia pouco sobre mercado de ações. Não era uma coisa que muitos clientes procuravam naquela época. Via seus amigos investindo e ganhando o dinheiro “fácil” do mercado. Sabia que a sua chance estava ali. Queria descobrir como. Então, voltou a estudar.

Começou operando pequenos valores e sentindo como aquilo funcionava. Gostou da brincadeira e logo estava operando somas mais altas. O dinheiro estava entrando e finalmente ele começou a se sentir vivo. Sabia que o sonho estava mais próximo a cada operação. Porém, drasticamente em uma ironia do destino, acabou perdendo todas as suas economias em uma série de operações erradas. Em poucas semanas todo o trabalho de uma vida virou pó.

Então, o homem ambicioso, trabalhador, corajoso e obstinado que foi para o Rio de Janeiro e enfrentou as mais diversas dificuldades em busca do seu sonho, fez o maior ato de covardia de sua vida. Com um revólver na boca explodiu os seus miolos dentro do banheiro de casa. Deixou Francisca sozinha para cuidar de sua filha de sete anos, Nicole.

Eu conhecia a história não porque ele estava sentado ao meu lado naquele quiosque. Primeiro fiquei sabendo pelos amigos. Depois, Francisca me contou mais alguma coisa. Finalmente, em uma noite de choro, a Ruiva me contou o resto.

- É muito bonito isso aqui. – ele dizia fitando o lago. Usava a mesma camisa quadriculada da foto que Francisca me mostrara. Lembro que fiquei impressionado com a semelhança das feições de Nicole com as do pai e mais admirado com os olhos daquele sujeito. Não sabia se estava chocado com a história, mas os olhos de Guilherme eram verdadeiramente de um sonhador. Brilhantes e sorridentes. Impossível você dizer que eram olhos de um suicida.

- Esse lugar é incrível. – eu respondi de uma forma calma. Eu não estava assustado com a presença de Guilherme ao meu lado. Ou surpreso. Na verdade, nem percebia como aquilo era irreal. Estava apenas acontecendo.

- Mesmo nos melhores dias no Rio de Janeiro, dentro de mim eu sentia saudades daqui. O cheiro do mato, o clima, as pessoas. No final, percebe que você é também o seu lugar e que o lugar é você. Mesmo morando a quilômetros de distância. – aquilo me fez lembrar do primeiro baseado que fumei com Lucas. Foi em sua casa. Eu estava seduzido pelas luzes da cidade e acabei tendo o mesmo pensamento. Eu não apenas vivia no Rio:

- Eu sou o Rio de Janeiro. Eu sou sujo, debochado e inseguro.

- E maravilhoso. O Rio é a cidade Maravilhosa e você também é. – ele complementou com a tal fala mansa que Francisca descrevera muito bem. Era estranho, mas eu podia literalmente ver a sua voz macia como um suave veludo que acariciava a minha orelha quando o som chegava. Tudo que ele dizia ecoava na minha mente por muito tempo. Eu não me sentia digno de estar com uma companhia tão bela e única:

- Eu sou o Rio de Janeiro. Eu sou bandido, obsceno e lascivo.

- Mas tem o Cristo te protegendo acima de tudo. - no meio daquela sinestesia lembrei-me de minha mãe e seus conceitos católicos ortodoxos. Dizendo que me amava antes de eu fazer tudo que ela sempre me educou que era errado. Praticamente voltei a se criança e o conforto do carinho materno era algo que eu não queria perder. Será que se no dia que ela descobrisse me perdoaria também de braços abertos? Guilherme continuou com a vibração gostosa de sua voz. Parecia uma música suave. – Você é um carente convicto e por isso sente esse amor incondicional pelas mulheres. Nem você percebe isso, mas é do que você é feito. É como o Rio de Janeiro e suas garotas de Ipanema.

- Eu amo aquela garota mais do que gosto de admitir. Nicole é o meu amor. Nicole, a louca – eu coçava o meu bolso em busca de um Marlboro. De uma forma estranha, nós raramente trocávamos olhares. Continuávamos fitando o lago e as montanhas ao fundo. Era uma linda área agrícola cercada de grandes pastos. Todas as cores eram profundamente bem definidas e eu podia notar vários tons de verde diferentes. Peguei um Marlboro e entreguei a Guilherme. Fiquei com o meu na boca e o isqueiro parado na outra mão. Queria acender o cigarro, mas estava mais atento ao doce som da sua voz:

- Vocês têm muito para crescer juntos. Podem viver uma linda história. Mas como todo amor, tem os ingredientes para se tornar uma grande bomba e destruir a vida dos dois de forma irreparável. – eu pensava sobre aquilo. O amor. Uma coisa que todo mundo perseguia podia deixar uma cicatriz aberta na alma. Eu podia “ver” o doce ficando amargo. Por que então desejamos tanto? O amor era como o sonho do Guilherme. Algo que te impulsiona a fazer coisas incríveis, a conquistar grandes batalhas e quando ele se acaba pode te levar incondicionalmente a morte. Tentava fugir daquele pensamento macabro, mas quando fechei os olhos consegui ver a minha sepultura. Na lápide estava escrito “A última morada de Vic”. As letras saltavam da pedra em luzes brilhantes. Abri os olhos rapidamente. Tentei me concentrar em um ponto fixo no lago. Mas eu precisava saber se algo de ruim me esperava:

- No final, o que vai acontecer comigo e com a Nicole?

- Como eu vou saber? Eu não jogo tarô!– então rimos de maneira nervosa. Gostaria de saber se Nicole me amava ou aquele sentimento era unilateral. Gostaria de saber quais decisões eu deveria tomar para nunca perdê-la. Gostaria de saber se o amor que eu sentia um dia iria acabar e no final, tudo iria ficar vazio e sem sentido. Ou pior, se um dia ficaríamos normais, apenas convivendo como amigos. Gostaria de saber a data da minha morte. Gostaria de saber tudo.

- Se eu te contar uma coisa, você jura que não vai rir? – enquanto ele perguntava, eu buscava outro Marlboro no maço. Então percebi que o primeiro ainda estava na minha boca apagado. Decidi acende-lo, mas os meus braços se moviam vagarosamente. Demorou para eu conseguir queimar aquele pequeno diabinho, e Guilherme me esperava pacientemente. Finalmente eu consegui balbuciar um tímido:

- Manda.

- A minha música predileta era “O que é, O que é?” do Gonzaguinha. – explodi em uma risada gostosa. Não tinha como não rir escutando aquilo da boca de um suicida. Ele riu também. Em pouco tempo estávamos gargalhando até as lágrimas rolar pelos nossos olhos. Eu engasgava com a fumaça e aquilo me fazia lacrimejar ainda mais.

- Poderia jurar que você era fã de Suicidal Tendencies! – eu disse gargalhando e nós dois rolávamos no chão. Só consegui voltar a respirar depois de muito tempo. Ficamos calados por uma eternidade. Não tinha o que ser dito enquanto admirávamos aquele lindo lago brilhante. Parecia que centenas de minúsculas fadas sobrevoavam a sua superfície enquanto tocavam de leve a sua varinha sobre ele. O vento soprava sobre água de forma tão suave quanto o beijo de dois amantes. Era a mãe natureza mostrando que estava apaixonada. Dei outro Marlboro para o meu companheiro e ficamos ali fitando a criação divina. Eu vibrava junto com o lago. Eu estava conectado com o mundo de diversas formas. Nada daquilo poderia ser real e da mesma forma tudo fazia sentido. Eu, o lago, o quiosque, a fazenda, Guilherme e o resto do mundo fazíamos parte de um todo. Era algo revelador sobre o universo. E mais ou menos quando o sol caía cansado por trás de alguma montanha é que Guilherme explicou o que estava fazendo sentado ao meu lado:

- Você vai ajudar a Nicole e ela vai te ajudar. Enquanto você vai fazê-la entender algo que ela não compreende e você tem de sobra, ela vai fazer o mesmo com você. – o que exatamente aquilo queria dizer, eu não sabia. Mas gostava de como soava. Guilherme seria um belo sogro se não tivesse estourado os miolos antes de eu conhecer a Ruiva. Podia enxergar nós dois bebericando algumas latas de cerveja na varanda de seu apartamento enquanto eu esperava Nicole para sair. Conseguia até sentir a cerveja gelada na minha boca e era uma explosão de sabores.

- O que eu tenho de tão valioso além do meu amor para oferecer a Nicole? – Então olhei para ele e seu aspecto tinha mudado totalmente. As sombras da noite que nascia caiam sobre o seu rosto de forma cavernosa. As linhas de suas faces deixaram de ser suaves e se tornaram grossas. Sua pele tinha uma tonalidade cinzenta, sem vida. O meu coração acelerava. Ele continuava fitando o lago que agora estava escuro e sem todas as fadas. Eu começava a me perguntar que tipo de criatura viveria submersa. Por mais assustador que fosse, eu não conseguia desgrudar os olhos da figura assombrosa que Guilherme havia se tornado. Eu estava em êxtase. Deslumbrado e hipnotizado por aquela visão fantasmagórica.

- Nada. – ele respondeu laconicamente ainda sem me olhar. Minhas mãos estavam geladas e comecei a perceber que tudo estava ficando muito frio. Em poucos segundos o meu corpo todo tremia e eu começava a sentir músculos que eu sequer conhecia. Eram disparos frenéticos no meu peito, nas minhas costas, na minha perna. Minha coluna começava a pesar absurdamente. Com as costas duras e o resto do corpo tendo espasmos, aquilo causava uma dor indescritível.

- E o q-que ela te-tem a me em-ensinar? – a minha voz correspondia ao meu estado de espírito e o que eu mais queria era estar careta. Queria voltar para o quarto e ficar embaixo de um grosso edredom dormindo um sono sem sonhos. Toquei a minha pele e ela parecia ser feita de papel de pão. Achei que facilmente iria rasgar em mil pedacinhos e ser espalhado pelo vento. Então, ele virou seu rosto para mim, e pude ver seu crânio aberto, com o seu cérebro exposto ainda pulsando e o sangue do mais brilhante vermelho correndo pelo canto de sua face dura. Sua boca era roxa e caída e as sombras no pouco que restou de sua testa contrastavam com seus olhos ainda brilhantes de sonhador. Naquela voz macia ele sussurrou:

- O que mais além de morte e sofrimento?


No próximo capítulo: Gordura, teorias e cerveja no Rio

12 comentários:

  1. "O que mais além de morte e sofrimento?" - Porra Vic, você sabe mesmo como terminar um capítulo.
    Essa frase dá muito o que pensar.
    Abraço

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  2. legal! começou lindo e bonito e terminou feio e aterrorizande! como a vida do seu ex-sogro!
    mas enfim...
    engraçado esse negócio de ser a cidade... várias vezes em que eu andava chapado pelo RJ, tinha a mesma sensação!

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  3. Eu sou o Rio de Janeiro. Nunca parei pra pensar nisso, mas é verdade...
    E puta merda! Isso é o que eu chamo de um grande Bad Trip. Ia morrer se encontrasse um morto.

    =)

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  4. Doido demais o texto.

    E o livro, quando sai ?

    Abraços.

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  5. "você é um carente convicto e por isso sente amor incondicional pelas mulheres. Você nem percebe isso, mas é do que você é feito."

    Simplesmente fiquei sem palavras...

    logo após sair d'um casamento, venho aqui e leio isso...

    Vic, nem o tal do Cury conseguiu me ajudar... já sei do que sou feito.


    E no tocante ao texto, como já é de praxe, perfeito!

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  6. Ótimo texto como sempre... aguardando o próxmo capítulo...

    Só um comentário... anos-luz não é unidade de medida de tempo, mas sim de distância...

    Vlws

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  7. caiu muito a qualidade no arco 3
    menos menos

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  8. A história dos ancestrais se imprime na gente.
    Haverá outra saida pra Ruiva?
    Espero que sim.

    Beijos.

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  9. Muito bom o texto e muito louco também!

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  10. Muito bom texto VIC

    Bom concordo que o arco três caiu um poco
    na verdade não caiu o rendimento mais tá mais "calmo"
    Como todo seguimento não teria graça se não tivesse momentos de altos e baixos, adrenalina e calmaria...
    Bom chega de lero lero
    Muito bom Vic
    no aguardo do prox cap...

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  11. Que fôlego!
    Delícia de texto e o tesão de ler mais perdura e não arrefece.Não consegui ,por motivos técnicos do blog,ser sua seguidora .
    Passe para uma visita:
    www.cristinasiqueira.blogspot.com

    Até mais,

    Cris

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