segunda-feira, 22 de junho de 2009

Praticamente Inofensivo

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 6

A História até agora: Preocupado com um pacto suicida de drogado e destemido em conquistar todo o amor de sua namorada bissexual, Vic acabou sendo assombrado pelo fantasma suicida de seu sogro. Mas o que seu melhor amigo tem a dizer sobre essa experiência metafísica? Se você ainda não leu os capítulos anteriores do Arco 3, faça isso agora indo ao menu lateral.

Sugestão de Música: Al Green - Here I Am (Come and Take Me)

- Quando você diz que ele apareceu, você quer dizer tipo o Obi-wan para o Luke Skywalker no Episódio IV? – perguntou o Gordo no único momento que me interrompeu.

Há três dias que eu estava no Rio de Janeiro e há três dias que chovia sem parar. Parecia uma conspiração divina para manter o meu baixo astral. Sem muitas idéias para mudar essa situação, fui tomar uma cerveja com o meu amigo Lucas, o Gordo. Eu precisava exorcizar alguns fantasmas que me atormentavam. Literalmente. Para isso procurei o confidente certo.

Lucas arrumou uma namorada no mesmo dia que eu fiquei com Nicole. Saíamos em casais e, quando estávamos sem as nossas respectivas, íamos sozinhos para debater sobre a vida, o universo e tudo mais. Este acaso acabou fortalecendo a nossa amizade e até hoje posso dizer que ele é o mais próximo que posso chamar de melhor amigo.

- Não, Gordo, continua escutando que você vai entender. - de forma rápida tentei sintetizar tudo que ocorrera durante a viagem dos cogumelos. O Gordo ouvia atentamente. Ele sempre foi um bom ouvinte. Eu não esperava que Lucas dissesse as palavras certas ou desse a solução final para todos os meus conflitos internos. Eu só sabia que precisava desabafar aquela história. O fantasma suicida permanecia vivo na minha mente assombrando cada segundo desde que eu fiquei careta. Eu estava tão assustado que aquela cerveja era a primeira vez que eu chapava desde então. Na vida que estava levando, cinco dias caretas era quase uma eternidade.

O boteco sujo que escolhemos naquela noite era típico de Botafogo. Cervejas de garrafa e petiscos gordurosos. Nada em especial. Mas ele tinha a maior vantagem que eu procurava. Não estava cheio. Parecia que o bar estava no fim do universo e era tudo que eu precisava. Tranqüilidade para vomitar toda a minha angústia. Demorou umas quatro garrafas e dois Marlboros para eu terminar a história. Mas consegui finalizar no mesmo momento que o garçom trouxe a porção de gurjão.

- Obrigado pelos peixes! – Lucas disse simpaticamente ao homem. Fisgou a primeira fritura e apreciou demoradamente. Aquela atraso para um comentário me enervava. Não precisava ser nada muito edificante. Um simples “caramba, cara!” bastaria. Eu dava pequenos goles na cerveja de cinco em cinco segundos esperando que o Gordo dissesse alguma coisa. Mas a última coisa que você pode esperar de um maconheiro convicto é velocidade de pensamento. Finalmente ele soltou um:

- Isso tudo é realmente verdade? – fiquei até surpreso com essa pergunta. Mas era justa. Hoje em dia Lucas não tem mais moral para fazer uma pergunta dessas, pois ele sabe que eu não perderia meu tempo inventando uma história tão maluca. Naquela época era uma pergunta totalmente normal.

- Porra Lucas, essa era a última coisa que eu imaginava que o único cara que eu contei a verdade dissesse. – fiquei balançando a cabeça, incrédulo e com um sorriso no rosto. Ele franziu as suas sobrancelhas grossas em um gesto involuntário de desculpa e surpresa:

- Você está dizendo que não contou isso para ninguém? – comecei a balançar a cabeça concordando. Ele ficou tão surpreso que até parou de comer. – Nem para Nicole?

- Nem para a Nicole. – então ele deu uma suspirada forte e finalmente disse o que eu esperava:

- Caramba, cara! – eu passei a minha mão pelos meus cabelos.

- Eu sei. Desde então eu só tenho fé em uma coisa. Eu vou sofrer um acidente, ficar doente, ou alguma coisa vai me deixar todo ferrado e por fim, eu vou morrer. – com certeza o meu pensamento não impressiona você, leitor. Eu estou vivinho da silva escrevendo essa frase nesse exato momento. Mas acredite, era o que eu achava na época. Eu tinha motivos bem concretos para isso:

- É só ligar os fatos, Lucas. Eu vi a minha lapide. Eu conversei com um morto. Ele me disse que Nicole iria me ensinar tudo sobre morte e sofrimento. Eu vou morrer e isso é inevitável. – aquele assunto me aborrecia. Peguei um Marlboro para me acalmar e percebi que as minhas mãos estavam tremendo apenas por falar daquele assunto.

- Calma ai, Vic. Não me diga que você realmente acha que aquela alucinação era o espírito do pai da Nicole? Você nunca parou para pensar que aquilo era apenas uma criação da sua cabeça. – fazia sentido o que o Gordo dizia. Guilherme, ou o fantasma dele, era cuspido e escarrado a descrição que eu tinha ouvido em relatos ou visto em fotos. Talvez a presença de Guilherme fosse tão assustadora que a minha mente tinha que acreditar nela. Fiquei meio sem graça de admitir que não tinha seguido por essa linha.

- Você pode estar certo. – o Gordo apenas levantou os olhos demonstrando um “Eu sei que estou certo”. – Mas e se for mesmo o espírito do Guilherme que me visitou?

- Nós não podemos cogitar isso. É improvável, surreal e nada científico. A razão diz que você estava muito doido e ele falava tudo que você estava sentindo ou querendo ouvir. De certa forma, você sabia da maioria dos ensinamentos dele. Ele repetiu a sua onda de maconha na minha casa. Ele falou que o amor é lindo, mais pode ser destrutivo. Quem não sabe disso? Ele falou que você vai ensinar coisas para Nicole e ela para você. O que é um relacionamento sem isso? Cara, você está tão apaixonado por Nicole que catalisou um momento que ela nunca viveu com o pai para se sentir especial ao lado dela. No fim, você pegou uma Badtrip, e qualquer uma que se preze têm que ter algum sentimento ligado à morte. Desculpa, Vic. Não quero desmerecer o seu barato, mas tudo isso é mero fruto da sua imaginação. – Lucas em cinco minutos desconstruiu toda uma bela história de terror. Poderia ser tudo fruto da minha mente. Queria acreditar naquela linha de raciocínio porque além de lógica, ela me acalmava.

Eu perseguia o amor da Nicole. Esperava a todo o momento as duas palavrinhas mágicas assoprarem daquela boca carnuda. Se eu dissesse para Ruiva que a minha viagem me colocou em contato com a pessoa que seria a mais importante da sua vida e que ela jamais conheceu, eu certamente me tornaria único. Eu tive um papo aberto com Guilherme, coisa que no fundo da sua alma, ela deve sonhar. Isso era o que eu tinha para oferecer a ela, uma experiência única com o seu pai falecido. Por sua vez, Nicole poderia me dar o amor em retribuição. Como eu concluí na minha viagem, o que é o amor senão um caminho de dor e morte? Tudo fazia sentido. Eu queria realmente acreditar naquilo se não fosse:

- O que é? O que é? – Lucas me fitou com olhar curioso.

- Como?

- O que é? O que é? Como eu poderia saber que essa é a música predileta dele. Não tem como. Ninguém nunca me disse isso. – essa era a falha na teoria. É claro que o Gordo tinha várias explicações:

- Talvez você tenha visto um disco do Gonzaguinha no apartamento. Talvez seja mais uma das suas piadas. Talvez você simplesmente inventou isso. Existem muitas explicações plausíveis, Vic. – o Gordo estava tão convicto em suas palavras que voltara a comer. Degustava freneticamente os gurjões de peixes e começou a suar excessivamente. Seus cabelos longos, encaracolados e oleosos começavam a encebar, mas ele não ligava. Jogava-os para trás e continuava. Não era aquela visão nojenta que me tirava a fome. Desde o meu papinho com o defunto que o apetite me faltava. Era uma dieta bem eficiente. Eu tentava processar todas aquelas teorias e alguma coisa não se encaixava. Eu queria não estar tão convicto que aquilo era o espírito do pai da Nicole.

- Você deu várias explicações e concordo que todas são plausíveis. – o Gordo me apontou uma fritura de peixe querendo dizer “eu estou certo”. – Pena que todas começadas com “talvez”. – a derrota nos olhos do gordo me derrubou. Eu queria acreditar nele. De verdade. Mas algum diabinho detetive dentro da minha mente procurava furos em sua história para ter uma razão para continuar me assombrando.

A chuva ainda continuava inundando o Rio de Janeiro como a dúvida encharcava o meu cérebro. O Gordo acabara de devorar aquele prato de fritura e nós seguíamos calados. Comecei a notar que aquele silêncio era igual ao que fazemos depois que alguém morreu. Aquele constrangedor e respeitoso ao mesmo tempo. Pensei que Lucas estava vivendo sem cogumelos a mesma experiência que eu. Ele estava conversando com um defunto.

Depois da sexta cerveja eu consegui formular uma terceira linha de pensamento. Certamente a mais louca de todas. Não era uma teoria inteligente a qual eu me orgulhasse. Mas qualquer coisa para quebrar aquele silêncio servia. Então, dividi a idéia com o Gordo:

- Tem uma pequena possibilidade, na qual eu não acredito, mas existe. Eu realmente não conversei com o pai da Nicole. Simplesmente pode ter sido um momento de clarividência estimulada pelos cogumelos mágicos. Muita gente diz que eles têm propriedades além da nossa compreensão e eu posso ter acessado uma parte do meu cérebro que desconhecia. Eu posso ser um médium e conversado com um espírito que fingiu ser o Guilherme. – Lucas apenas me observou por alguns segundos e explodiu em uma gargalhada. Eu não consegui me segurar e me juntei a ele. Ninguém resiste a um gordo rindo. São criaturas divinas propriamente feitas para isso. Esse foi o meu primeiro alívio cômico desde que retornei da viagem de cogumelos, então eu me soltei.

Extravasei naquele momento toda a tensão que sentia pela fase delicada que eu estava atravessando. Ri como se não existisse amanhã. Esquecendo momentaneamente quanto tempo eu ainda tinha de vida. Não me importando se a minha namorada louca e bissexual me amava ou não. Sem querer saber o que iria acontecer se seguíssemos com o nosso pacto idiota de doideira. Não ligando com o protecionismo católico da minha matriarca. A única coisa que eu não consegui deixar para lá era o fato que a última risada gostosa que eu tinha dado foi com Guilherme, o meu sogro suicida.

- Vic, você tem que relaxar cara. Acho que você teve uma trip das mais bizarras e eu queria também vivenciar um momento como esse. Você pode estar assustado com o desfecho, mas no meu entendimento, o seu “fantasma” é praticamente inofensivo. – Lucas ainda recuperava a respiração depois do nosso momento bobeira.

- Você não sabe o que está pedindo, Gordo. Eu fui atrás de uma experiência transcendental e o que eu consegui foi uma maldição para me assombrar. – tentei retornar o tom sério da conversa fazendo uma voz mais soturna.

- Dá um tempo, Vic. De tudo que você me contou a única coisa ruim foi essa badtrip que você pegou no final. Se não fosse isso, nós estaríamos aqui escutando as maravilhas do chá. Aposto se nós tomarmos juntos, só vai rolar loucura. Viajaríamos pelas dimensões, pelo universo e pelas galáxias como dois mochileiros descobrindo um novo mundo. – genial. Eu, um dos poucos caras que saí traumatizado com os cogumelos daquele churrasco, estava virando sem querer o garoto-propaganda dos Smurfs. Daqui a pouco o Lucas iria sugerir que nós fizéssemos um guia de como se drogar e viajar pelas dimensões. Mais uma vez argumentei para que Lucas não seguisse com aquela idéia:

- Esquece, Gordo. Eu nunca mais vou tomar esse negócio. Você esta maravilhado porque não sentiu o que eu senti e nem viveu o que eu vivi.

- Você que esta traumatizado com a onda ruim. O seu relato é incrível, é quase mágico. Eu quero sentir isso pelo menos uma vez na minha vida. - o Gordo estava verdadeiramente fascinado. Não estava nos meus planos expor o resto da história, por motivos óbvios. Mas não queria ser o responsável por um amigo meu passar pelo que eu passei. Então, sem alternativa eu soltei:

- Você não está te entendendo, Lucas. Eu só disse metade da história. Se você souber o que aconteceu com a Nicole e depois com nós dois quando nos encontramos durante a onda de cogumelos, talvez você mude de opinião.

- Então, desembucha – suspirei e comecei a contar o que eu jurei que não iria contar a ninguém.

No Próximo Capítulo: Toda a Verdade sobre o "Umiverso"!

13 comentários:

  1. Também estava seguindo a teoria "científica" do Gordo acerca de sua onda e a aparição que vc viu como pai da Nicole, mas esse fim citando a onda da ruiva derruba muito racionalismo (que nem deve existir em viagem alguma, seja de chá ou qq outra substância) e adiciona mais doideira ao caso. Aguardo ansiosamente pela continuação!

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  2. até que enfim! tava com medo que você tivesse sumido pra sempre! a história tá cada vez melhor. bjs

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  3. hummm... intrigante...

    o corpo do texto tem umns errinhos...
    "o amor é lindo mais pode ser destrutivo"
    é mas, não mais

    "dois mochineiros descobrindo um novo mundo. -genial."
    tu mosco na pontuação, tem ponto final, traço...

    mas ai... a historia tá do caralho...

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  4. Sickboy

    Dois erros? Deve ter bem mais...

    Esse negócio de "mas" e "mais" é fogo. Quando eu era criança e a professora dizia que as pessoas erravam isso, eu achava ridículo. Depois de burro velho, sempre me vejo cometendo esse erro por pura falta de atenção.

    Essa sua segunda observação, na verdade onde tem o traço é para sinalizar que ali parou o diálogo e o que vem em seguida é o pensamento. Não está errado, apesar de muita gente quando faz isso, não coloca ponto final na frase do diálogo, mas digo que acho ruim dessa maneira.

    De qualquer forma, as correções sempre são de bom grado. :-)

    Bem, espero que apesar disso tudo, a história esteja agradando. Tem gente que está achando esse arco 3 mais parado (como se pode ver nos comentários do posto passado). Bem, eu não concordo, já tivemos sexo na estrada, roubo de cerveja, viagem de cogumelo e um bate-papo com um Morto. Além é claro do pacto de drogas. Acho que isso é muita coisa.

    O lance é que essa é uma história bem mais complexa do que as outras duas e certas perguntas só serão respondidas mais para frente. Então, continuem firmes e sempre enviem os seus comentários.

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  5. parado?
    acho que não...
    o que eu acho é que vc nao é mais o memso de 5 anos atrás
    ser o criador muda, pq a criatura tbm não!?
    o ritmo tá ótimo
    só que acho que os leitores esperam um texto bem maior se a história for "parada"

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  6. A palavra "extravagar" significa dispersar, sair do assunto. No caso a palavra apropriada - creio que confudistes - é "extravasei", que siginifica que deixastes transbordar, derramou toda aquela tensão.

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  7. Que coincidência ler esse post do cogumelo. Acabei de terminar um relacionamento por causa do chá. Meu ex teve uma bad comigo... mas até que o que ele disse fazia sentido.

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  8. Vic, o post esta excelente! Adoro os diálogos mais do que textos descritivos e as saídas para os seus pensamentos é simplesmente perfeita!
    Me sito vendo um filme...
    Sobre a história e seguiria a linha de raciocínio do Gordo até o ponto da música predileta! Realmente é muita coincidência vc “chutar” inconscientemente a música favorita do Sr. Dead Man!
    Agora o que rolou com a Nicole?
    PS: Me situa no na cronologia da história, Arco I, II e III?
    Abraço!

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  9. É, Mariano. Arco I, II e III.

    Quanto ao texto, sem comentários. Foda.

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  10. Vic,
    sou fã inveterada de doluglas adams e as suas viagens no espaço-tempo-universo-e tudo o mais, e fiquei realmente feliz de ver isso citado no texto de um dos caras, que por meio da internet, super fria e impessoal, consegue incentivar muito a minha curiosidade e o prazer pela leitura. Assim como os dele, começo a ler suas histórias e fico entusiasmada como uma criança à espera do bolo de aniversário, quando vc posta.
    Parabens, e concordo com os comentários de cima, que o arco 3 não está parado como vc mencionou, apesar da demora para postar, que, ao mesmo tempo de ser ruim, gera mais ansiedade e curiosidade.
    resumindo: vc ahaza baby

    beijos

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