segunda-feira, 27 de julho de 2009

O Universo é Um

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 7

A História até agora: Depois de uma viagem metafísica de cogumelos, Vic tenta dissuadir Lucas de experimentar o chá mágico contando a experiência de Nicole. Se você ainda não leu os capítulos anteriores do Arco 3, faça isso agora indo ao menu lateral.

Sugestão de Música: Mozart - Sinfonia nº 40

O som que o vento fazia ao bater nas árvores atrás da casa da fazenda tentava se esconder com o canto de alguns passarinhos que voavam suave naquela tarde e pela música constante e hipnótica da fonte que servia como aquário natural. Nicole poderia descrever aquela situação com uma só palavra:

- Mozart. – com um sorriso tolo e generoso, ela complementaria. - Isso é o mais puro e simples Mozart.

Sentou-se a fonte e fechou os olhos. Seu coração lentamente foi regulando as batidas em sincronia com a natureza ao seu lado. Um túnel calidoscópio se abriu. Ele era formado por pequenos triângulos de todas as cores. Nicole percebeu cores que sequer sabia que existia. Começou a ficar tensa e agitada com o giro intenso do túnel. Queria abrir os olhos, mas não conseguia.

Começou a sentir o seu corpo ficar gelatinoso. Sentia seus braços, suas pernas, depois seu tronco não simplesmente derretendo, mas mesclando-se um com o outro como se fosse farinha e ovo virando um bolo dentro de uma batedeira. Desesperou achando que aquilo não teria mais fim. Mas a náusea aumentou de uma maneira que ela não poderia mais sustentar, então vomitou.

E chorou.

O alívio foi imediato. Conseguira abrir os olhos e perceber que estava bem. Achou que a onda de cogumelos tinha sido forte e passageira. Limpou o suor em sua testa e alegrou-se que não tinha acertado a fonte. Entretanto, a grama ao seu lado estava nojenta. Do choro chegou ao riso em milésimos de segundo e levantou-se para sentar na outra ponta da fonte. Naquele momento, começou a sentir uma enorme vontade de se tocar. Queria sentir a sua pele e ter certeza que ainda estava ali.

O contato dos dedos com a face era um experimento entorpecente. Estava hipnotizada com a sensação de alívio e alegre em saber que ainda estava ali. Olhou procurando outras pessoas, mas só via vultos ao longe. Mirou no seu reflexo na fonte. Era lindo. Molhou as pontas dos dedos na água gelada e começou a passar a mão levemente pelos seus longos cabelos alaranjados. Sentiu a força da cor laranja. Notou que aquilo era a infinita energia que emanava da sua alma e levava vida a eles. Então, a existência não tinha mais segredos para ela.

Contemplou os peixes dentro do lago por bastante tempo. Enxergo-os desde a sua criação até aquele momento. Eram seres de carbono, como ela, como os pássaros e as árvores. O universo era uma grande cadeia de carbono onde apenas um pequeno detalhe trazia a diversidade:

- Estamos todos ligados. O universo é um. O universo é um. É o “Umiverso!!!”.

Era uma descoberta e tanto. Compreendeu algo que a mãe natureza mostrava de forma velada. Um novo conceito para enxergar toda a existência. O Umiverso. Gritou em êxtase:

- O Umiverso é lindo! – riu descontroladamente.

Os peixes no lago agora tinham todos a mesma tonalidade violeta. A mesma cor da borboleta que pousou suavemente em uma outra ponta da fonte. Decidiu agradecer aquela visão linda.

- Obrigada, mãe terra!

Entrou na fonte. Queria se conectar com aquela sensação de paz e união. Descobriu que a paz não era branca e sim violeta. Quase azul. A água gelada tocava as suas pernas pálidas, deixando-as prateadas. Caminhou lentamente até as pedras no meio da fonte e tocou-as uma a uma. Elas foram ficando mais brilhantes e vivas ao seu toque. A sensação de serenidade aumentou, então abraçou o grande monte de pedras e fechou os olhos. Simplesmente começou a flutuar.

Enxergava seu corpo abraçando a pedra a metros de distância. Depois por quilômetros até ela e a fonte virarem apenas um pequeno ponto. Depois a fazenda, o país, o mundo. Tudo era um pequeno pontinho vagando no espaço. Uma pequena partícula de carbono que decidiu rumar em direção ao infinito. Quem era Nicole? Aquele corpo na Terra ou aquele espírito que vagava pelo cosmos? Todos os problemas que atormentavam haviam desaparecido. Nada importava. Éramos apenas um. O Umiverso. Ficou curtindo aquela sensação de onisciência sem preocupação, como um matuto que descansa sobre uma rede.

Quando decidiu abrir novamente os olhos, o sol se fora. Estava sentada dentro da fonte e começou a sentir frio. Levantou-se bem devagar e percebeu que não apenas ela sentia frio. As árvores atrás da casa tremiam com o vento gelado. Todo o tapete de grama aguardava ansioso o retorno do sol no dia seguinte. Até os peixes dentro da água sentiam frio. Achou aquilo maravilhoso. Era uma maneira da natureza valorizar cada momento.

- Só existe dia com noite, calor com frio e doce com amargo. – ela disse acreditando ser mais um conceito para enxergar toda a existência.

Conseguiu escapar da fonte e percebeu um vulto em sua direção. Seu coração acelerou, pois não conseguia definir o que se aproximava. Queria correr, mas as suas pernas estavam enraizadas no chão. Tentava desviar o olhar, mas ficou focada no vulto que foi tomando forma. Era uma das meninas. Era Anita.

A pele morena de Anita ganhou um brilho especial sob a luz do luar. Seus cabelos negros confundiam-se com a noite, dando um aspecto sobrenatural a menina. Seu sorriso infinito iluminava o seu rosto bem feito. Ela ainda estava apenas de biquíni e suas coxas torneadas tremiam com o vento. Sobre seu ombro, Anita me carregava cambaleante.

- Eu o encontrei rastejando perto da piscina, acho melhor levarmos-lo para o quarto.

Nicole passou a mão sob a minha cabeça e disse:

- Você vai ficar bem, Vic. O Universo é um. – ela pegou o meu outro braço, passou sobre seus ombros e ajudou a falante Anita a me carregar.

- Quando toquei a sua pele, percebi que ele não estava bem. Algo estava errado. Muito errado. Ele é tão bonito e agora parece um monstro.

Nicole riu com as palavras da menina.

- Ele não é um monstro. Ele é um ser de carbono, como eu, como você ou como os peixes. Somos todos lindos. Somos o universo e o universo é um. O Umiverso.

A garota sorriu. Levantava a minha cabeça gentilmente e dizia:

- A pele dele esta tão fria e seu rosto tão mudado. Estou tentado passar muita energia para ele.

Passamos pela cozinha e pelo o corredor sem muitos problemas. Chegamos ao quarto. Então, elas me despiram e me colocaram no chuveiro tentando me animar enquanto eu balbuciava palavras sem sentido. Nicole abraçou Anita carinhosamente e agradeceu o seu ato de solidariedade:

- Obrigada. Você é linda.

Anita não fugiu do abraço e seguiu agarrando firme a Ruiva.

- Isso é tão bom. Posso sentir a paz em você. Ninguém ama Anita. Ninguém ama Anita.

- Não diga isso. O Universo ama Anita. Eu amo Anita. – Nicole a beijava e repetia: - O Universo ama Anita. Eu amo Anita.

As duas tiraram a roupa e entraram no chuveiro tentando me envolver naquela corrente de amor e paz. Elas me encontraram sem nenhum estímulo e nada que fizessem surgia efeito. Quando tentaram falar alguma coisa mais quente a única coisa compreensível que eu disse foi:

- Morte e sofrimento.

Então, eu simplesmente fui expulso do Umiverso do amor lésbico.


No próximo capítulo: Conversa mole!

5 comentários:

  1. A música terminou bem quando eu acabei de ler. Sinistro... Então, como sempre tá foda. E como sempre esperar mais um mês vai ser foda. Mas fazer o que, né? Abraço!

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  2. Era o seu momento de ménage a trois e você balbuciou: "morte e sofrimento"...

    maldito chá...

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  3. putz...
    crente que ia rolar algo do tipo: "Dear Penthouse"...

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  4. Hahahahha,nego não perdoa!(comentário acima)
    Mas enfim, que droga heim!
    Se o Universo amasse o Vic tb, Morte e Sofrimento teriam sido superados e hoje seria assunto do passado.Vic estaria feliz com uma bela experiência no bolso, assim como as meninas.
    Como o amor lésbico foi egoísta nesse momento...tsc.

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  5. Muito bom :)
    ah, no menu lateral no "VIC - ANO I - 3° Arco", tem dois PARTE 6.

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