quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Os Últimos Durões

Pensei em nomear esse post como “O Último dos Românticos”, mas isso seria aviadar totalmente uma geração – a minha - que precisa e merece ser respeitada como qualquer outra. Nós estamos vivos, nós, os filhos do meio.

Nós somos filhos sem década. Não somos anos 80 e nem totalmente anos 90. Estamos ali, na meiúca. Gostamos de Ultraje A Rigor como de Nirvana. Presenciamos o nascimento do Legião Urbana e do Funk Carioca – pelo menos o funk que ganhou as multidões – gostamos de Caverna do Dragão e de Freakazoid! e curtimos isso, na medida do possível, como deveria ser curtido.

Tomamos nossos porres, caímos na porrada, fizemos várias coisas que talvez não deveriam ser feitas, ou deveriam dependendo do ponto de vista. Entendemos e apreciamos Poison sem nunca passar batom ou dar a bunda. Mas sempre respeitamos quem curtia isso. Dar a bunda. Inclusive, foi na nossa geração, a da meiúca sem viadagens, que nasceu o termo GLS e, naquela época, você poderia ser um S sem ser “suspeito”.

Nós, os filhos do meio, somos uma geração de respeito. E é exatamente disso que eu quero falar. Sobre respeito. Coisa que sumiu com o passar dos anos e hoje é tão rara de se ver que pode ser banida do nosso dicionário como vários acentos e outras coisas que a nova geração intitulou como obsoletas.

Por exemplo, eu que sempre fui e sempre serei rock and roll respeitava o funk. Suas letras, baseadas nos rap’s americanos, sempre foram letras expressivas de uma sociedade marginalizada.

Sem discutir “qualidade técnica” letras dos funks antigos superam de longe várias e várias letras de músicas (do rock ao pop) atuais. “Silva”; “Eu só quero é ser feliz”, e tantas outras tinham uma coisa que é difícil encontrar hoje em dia. Tinham vida. Tinham respeito. Tinham alma.

Hoje o nosso funk – sim nosso porque é uma manifestação cultural da sociedade como qualquer outro ritmo musical – infelizmente seguiu a mesma trilha que seu progenitor, o rap americano, o caminho mesquinho, meramente sexual, comercial e sem vida.

Talvez eu esteja escrevendo essas linhas porque estou velho, gordo - muito gordo - e acabado. Acabado porque fiz tudo que fiz. Mas mesmo que eu tenha feito o que fiz com a minha carcaça de carne, eu nunca - nunca mesmo - maltratei a minha alma, os meus valores, a minha ética, o meu intelecto e meu espírito.

Eu sou o filho do meio. Nós somos. A Minha geração! Entre famílias tradicionais católicas dos anos 80 e famílias marcadas pelo divórcio nos anos 90, nós estávamos ali segurando a bandeira dos antigos valores ao mesmo tempo em que cantavamos “Sociedade Alternativa” do Raul e tudo isso sempre fez sentido.

E ainda faz.

Pelo menos para mim.

Pelo menos para os filhos do meio.

Mas isso morreu.

Hoje os jovens se orgulham de ter a pose de “marginais”. E em uma cidade como o Rio de Janeiro, cercada de favelas por todos os lados e berço da chamada “malandragem carioca” isso está ficando muito perto do insuportável.

É triste ver os plays de Ipanema com a cueca pra fora da calça ou com casacos indecorosamente grandes fazendo pose do “personagem marginal”. Suas gírias, suas atitudes, sua maneira de resolver tudo no braço, no grito, na força e má educação não é só patética. É triste. É lamentável.

O pior é que vocês estão matando tudo de bom que a minha geração construiu.

O nosso S de simpatizante, o cara gente boa e que aceita tudo em um sorriso, virou um “suspeito”. Com aspas maiúsculas se esse novo dicionário permitir. O nosso funk caiu de “Eu só quero ser feliz” para “Dança do Créu”. Meu Deus nós te entreguamos Titãs e vocês devolveram NX0!!!!

E até os nossos ídolos vocês conseguiram deturpar! O nosso Wolverine resolvia as coisas com um charuto entre os lábios e uma piadinha de canto da boca. Só mostrava o seu “SNIKT” quando realmente precisava. O Seu Wolverine resolve as coisas com garras de adamantium e com fator de cura. Ele faz “SNIKT” para qualquer Blob deformado em fim de carreira.

A nossa meta era ser o Ferris Bueller a sua meta é ser o Dadinho. Quer dizer, Dadinho é o caralho, você quer ser o Zé Pequeno!

A maior síntese de tudo que eu quero dizer é que nós éramos “Caçadores de Emoção” você é uma cópia muito deturpada e idiota do que era a nossa geração. Você é um “Velozes e Furiosos”.

É claro que não é toda a sua geração. Até por que não era toda a minha geração que estava certa. Ora porra, nós parimos o pagode e toda aquela “corno music” Culpa nossa. Somos muito bonzinhos. Mas aceitamos na boa. Até pedimos desculpa. Mas nós não entendemos essa idolatria de ser tão bandido. Tão marginal. Por que não caçar emoção? Por que ser tão veloz e furioso o tempo todo? Isso não é ser rebelde! Isso é ser ogro!

Como eu disse, talvez isso seja uma lamúria de um velho que nem é tão velho assim. Talvez eu esteja errado de a cada dia entender mais a frase de George Bernard Shaw “A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.”

Mas quando eu vejo a violência aumentar e não falo de roubos, furtos, balas perdidas. Falo da violência do dia-a-dia, violência na fila do cinema, no trânsito, na mesa do bar, resumindo, no cotidiano. Essa nossa violência de pessoas pseudo educadas. Eu só lembro daquele velho funk – que eu rock and roll sempre respeitei porque usava os ouvidos além dos braços – que tocava nos anos 90. Só que hoje onde se escuta “baile” é na verdade o nosso dia-a-dia:

Diversão hoje em dia, não podemos nem pensar.
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar.
Fica lá na praça que era tudo tão normal,
Agora virou moda a violência no local.
Pessoas inocentes, que não tem nada a ver,
Estão perdendo hoje o seu direito de viver.

Por isso tudo, como eu disse no começo desse post, não quis intitular esse texto como “o último dos românticos”. Talvez a sua geração do “fudi-engravidei-que-se-foda” não entenda os pensamentos da minha geração “fudi-engravidei-vou-assumir” diga. Mas eu preferi seguir com “Os últimos Durões” porque é o que somos.

E como Kirk Douglas e Burt Lancaster muito bem nos ensinaram, até para lutar existem regras. Você não pode fazer isso e isso, mas pode fazer isso e isso. E para saber a diferença entre o que se pode fazer e o que não pode é preciso pensar com a cabeça e não com os punhos.

De resto, fé em Deus Dee Jay!

10 comentários:

  1. Vic,

    sempre leio vc e adoro... os arcos e as histórias que mais parecem roteiros de um filme são sempre foda... mas vc se SUPEROU em "Os últimos Durões"!... caraca, mandou muiiiiiiiiiiito bem. Adorei!

    Abraço

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  2. Misael "Pancho" Gonçalves

    Grande texto cara, parabéns!!!

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  3. Excelente post Vic, reflete o que as pessoas sensatas pensam sobre essa "bandidalização" de hoje em dia.

    Abraço.

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  4. incrível.
    texto simplesmente incrível.

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  5. Grane texto! parabéns!

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  6. Vic...
    sensacional !!!

    é como sempre digo, o bem é a maioria, mas não se percebe porque é silencioso...

    tu é foda !!

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  7. é, eu talvez sendo dessa geração do meio (na pior da pior das hipóteses eu nasci nela), vejo as coisas dessa mesma maneira, e acho que isso naõ se aplica apenas ao RJ mas também a SP... Pena que a molecada prefira viver desse jeito imprudente e desnecessário do que curtindo ela de um jeito mais cabeça

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  8. Muito legal. Um pouco fora do seu estio, mas muito legal.
    Mas não adianta se apegar a nostalgia e saudosismo.
    Daqui a 20 anos, a atual geração irá escrever textos sobre como a geração dela era melhor do que a atual.
    E você nao fez nada além de repetir o que a geração passada disse, e o que disse a geração anterior a ela, e asim por diante ad infinitum...
    O fato é: o novo sempre ganha do velho...
    Mas é claro que como um representante da geração que defende, concordo com voce em genero numero e grau...

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  9. Que isso... vc como cronista é ainda melhor do que como contista... parabéns, cara! Ótimo texto.

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  10. Gosto de me imaginar como um dos últimos durões!
    De ter meus quase 30a e poder dar conselhos com tom de credibilidade para meus primos 15 anos mais novos do que eu!

    Eu sempre vi o Vic como uma inspiração, visitar este blog restaura as baterias da minha imaginação.

    Estou esperando loucamente pelo livro, pela seção de autógrafos e pela cerveja no final!

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