quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nosso Lar

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 9

A História até agora: Depois de uma orgia de drogas, Vic reencontra a familia. O que parecia ser mais uma conversa familiar se transforma em uma grande armadilha. Se você não leu os outros capítulos, por favor procure a barra lateral para se atualizar.

Sugestão de Música: Kiss - God Gave Rock ’n’ Roll To You

Minha mãe ficou mais possessiva depois do casamento do meu irmão. Quando o primogênito ainda morava sob o nosso teto, raramente fazíamos as refeições juntos. Após o casamento, o almoço em família de sábado tornou-se uma religião sagrada. Se eu faltasse por algum motivo, aquilo era assunto para toda a semana. O almoço de sábado virou mais importante que a Missa de Domingo. Inclusive, era a minha ausência dominical na Igreja que estávamos discutindo enquanto saboreávamos um simples, mas delicioso bife a cavalo com fritas.

Acho que foi a minha viagem no Sábado anterior que obrigou a minha mãe a cozinhar um dos meus pratos prediletos. Possivelmente, enquanto eu tomava o chá de cogumelos e conversava com um defunto, minha mãe planejava aquele almoço. Quando acordei e senti o cheiro de feijão fresco misturado com a da farofa de alho, eu sabia que ela iria me fisgar. Só não imaginava que iria rolar uma sabatina religiosa.

- Filho, eu e seu pai gostaríamos muito que você voltasse a freqüentar a Missa aos Domingos conosco. – sempre que ela dizia “eu e seu pai” na verdade era “Eu acho isso e ai dele de discordar”. Até porque meu pai é uma pessoa que dificilmente faz questão de alguma coisa, portanto que ninguém incomode quando está de porre. Eu não respondi. Simplesmente continuei comendo e a fitando seriamente, mas sem parecer desafiador. Não sabia o que dizer.

Desde os dezesseis anos que eu raramente ia a Igreja. Começou por conta dos meus porres homéricos aos Sábados. Nunca conseguia acordar no Domingo pela manhã. Comecei a freqüentar sozinho a Missa de Domingo a noite.

Mas aquilo me entediava e o questionamento começou a ser mais freqüente. Quanto mais eu freqüentava a Igreja, mais os seus dogmas irracionais e seus contos de fadas me pareciam enfadonhos. O que mais me incomodava era perceber que o pilar do catolicismo não é o amor, é a culpa. Ela é o grande motivo para aquelas pessoas se comportarem como cachorros adestrados durante uma hora da semana. Sentavam, levantavam, ajoelhavam e levantavam mais uma vez. Se fizessem tudo certo, poderiam voltar a se comportar como selvagens durante o resto da semana. Até porque no Domingo seguinte eles sentam, levantam, ajoelham e levantam outra vez. Tudo movido a culpa, a nossa tão grande culpa.

Uma semana simplesmente não fui. Não me senti culpado ou qualquer coisa do tipo. Para não ficar mal com a coroa, comecei a mentir. Eu não ia mais a Missa e dizia que ia. Às vezes, eu passava na Igreja e pegava o folheto e esquecia dobrado dentro da calça. Assim, quando ela encontrava tinha certeza que eu estava em dia com os meus compromissos católicos. Com o tempo eu parei com isso e finalmente, parei de mentir. Ela torceu um pouco o nariz mais engoliu.

Acredito que o maior medo dela era perder totalmente os filhos. Um estava casado e freqüentava a nossa casa moderadamente. O caçula arrumou uma namorada e ficava mais tempo na rua que outra coisa. Aquele pedido podia até ter motivação religiosa, mas no fundo era criar mais um pretexto para estarmos juntos. Eu entendia isso, e com a morte iminente batendo a minha porta, talvez ir a Igreja e ficar um pouco mais de tempo com os meus pais não era uma má idéia. Mas esse era o mesmo motivo que eu não queria retornar a Igreja. Não queria passar o pouco tempo que me sobrava sentando, levantando, ajoelhando e levantando de novo. Não acreditava que a culpa era o motivador para as pessoas serem bondosas. Percebi que faltava filosofia nos dogmas inflexíveis da Igreja e não queria fazer parte daquilo. Por isso tudo, me mantive calado. Queria encontrar uma solução para não voltar a Igreja sem magoar a minha mãe.

- Você não pode ficar sem religião. Isso é muito ruim para qualquer um. Será que é muito sacrifício perder uma hora da sua semana para dedicar a Deus? – enquanto o forte do meu pai era comédia, o da minha mãe sempre foi drama. Os dois juntos, às vezes, davam um filme de terror bem assustador.

Existia uma maneira de eu escapar daquela obrigação. Eu ia escutar um pouco, mas podia dar certo. O que é uma conquista sem sacrifícios? Resolvi arriscar:

- Mãe, o lance é que eu tenho religião. Agora eu tenho outra religião. Eu sou espírita. – eu não era espírita. Mas gostaria de ser. Só não freqüentava as reuniões por pura preguiça. No momento estava vivendo a religião “Fé em Deus, Dee Jay” enquanto Nicole limpava a minha aura e me dava alguns passes de Reiki de vez em quando. Mas se eu fosse obrigado a escolher uma, essa seria a mais provável.

Minha mãe, é claro, pulou da cadeira e fechou a cara. Não era o que ela esperava. Eu sabia que ela iria argumentar, mas no final ela ia acabar respeitando. Ela até tinha alguns livros do Chico Xavier. Obvio que eles estavam escondidos dentro do armário para que nenhuma amiga beata encontrasse e questionasse a fé da mamãe nos irrefutáveis dogmas ortodoxos da Igreja Católica.

- Escutou isso? – ela virou para o meu pai que estava me fitando com um olhar do tipo “que merda você foi arrumar?”. Para ele, mesmo que eu fosse espírita o correto seria eu concordar com ela e ir para a Missa aos domingos só para não criar confusão. – Você está indo para macumba?

- Não, mãe. É claro que não. – ela sabia que não era macumba, mas queria confirmar. Ela apenas balançou a cabeça processando aquela nova informação.

- Desde quando você é Espírita? - Eu esperava por isso, então respondi sem pestanejar:

- Uns três meses. Acho legal. Tem palestras e eles unem as suas crenças com filosofia. – ela continuava ponderando aquilo.

A comida havia perdido o sabor e ela apenas fingia que estava almoçando. Ficou com um aspecto mais envelhecido. Seus cabelos loiros encaracolados tinham perdido um pouco de vida e seu rosto magro, estava mais fino. Até sua sobrancelha pintada, agora estava mais caída. Eu iria levar aquilo até o final, mesmo achando que meu pai estava certo. Segundo a filosofia paternal, eu deveria concordar e dar um pouco de felicidade para a minha mãe.

- Foi a Nicole que te levou a isso, não foi? – ela disse em um tom baixo como se não quisesse fazer aquela pergunta.

Ela tratava a Ruiva muito bem, mas mantinha aquele ciúme materno. Eu não esperava aquela pergunta, mas deveria. Toda inquisição deve ter a sua bruxa. Eu não queria estragar o relacionamento da Nicole com a minha família. Se dissesse que foi a Ruiva que me converteu ao espiritismo, ela passaria a ser persona non grata por lá. Então, respondi por puro instinto:

- Nicole? Tá maluca! Nic é católica fervorosa. Ela nem gosta muito que eu vá para os encontros. – no mesmo momento que eu disse isso eu me arrependi.

Eu deveria ter dito apenas não. Que a Ruiva não tinha nada a ver com aquilo. Mas na minha ânsia de fazer a minha mãe aceita-la, acabei exagerando. Mamãe abriu um sorriso nesse momento. Visualizava uma futura aliada para me catequizar outra vez. Fiz uma anotação mental para lembrar Nicole de não comentar sobre os chakras da coroa na próxima visita a minha casa.

- Foi quem então? – ela me perguntou e eu respondi o primeiro nome que me veio a cabeça.

- Foi o Lucas! – eu não poderia ter feito pior.

Esqueci que minha mãe não via com bons olhos a minha amizade com o Gordo. Devia ser um pouco do seu instinto materno cheirando a marola da maconha empestada nos cabelos mal lavados de Lucas. Ela o tratava de forma educada nas poucas vezes que ele me visitou. Mas logicamente, não morria de amores por aquele gordo, de cabelo encaracolado, olhos vermelhos e com um vocabulário recheado de palavrões. De qualquer forma ele apenas subiu de nível no rank de desafetos. Foi de desagradável para inimigo número um.

- Ai, meu filho, você tem certeza disso? – comecei a ter muita pena da minha mãe.

Não pela situação que criei, mas por ela se magoar com aquilo. Seus pais te ensinam a respeitar as diferenças raciais, sexuais, políticas, religiosas, esportivas e tudo mais, só que nunca aprenderam a tolerar isso sob seu teto. É triste.

Ficamos os três calados e constrangidos. Não era o clima que eu precisava naquele momento delicado da minha vida. Eu possuía muita angústia para lidar. Também era contraditório eu bradar pelo amor da minha namorada e não semear esse mesmo amor dentro da minha casa. Para complementar, ia de contra a regra de ouro. Eu sempre me esforcei para andar o mais correto possível dentro de casa para não levantar nenhuma suspeita sobre a maconha. Tentava ser o filho perfeito. Era o meu Modus Operandi. Olhando a minha mãe abatida, comecei a me sentir um pouco mais católico, porque o meu peito estava cheio de culpa.

Acreditava que a motivação da minha mãe era mais me ter por perto do que religiosa. No fim, um pouco de reza não seria ruim para minha aura. Pouparia um pouco o trabalho da Nicole e suas limpezas rotineiras. Cortei o silêncio e fiz a minha proposta:

- Mãe, meu problema não é com Deus e sim com a Igreja. Respeito a escolha de vocês, mas no momento não me vejo indo a Missa. Então, porque não separamos uma hora, toda a terça-feira, e nos reunimos aqui, nessa mesa, e fazemos as nossas orações? Podemos rezar, ler alguns trechos da Bíblia e debate-los. – seus lábios caídos se transformaram em um sorriso em um piscar de olhos. Seus cabelos voltaram a brilhar e seus grandes olhos castanhos ganharam vida. Sua cara fina pareceu mais rechonchuda e suas sobrancelhas pintadas pareciam reais.

- Perfeito. Eu posso chamar o seu irmão e você pode trazer a Nicole. Adorei. Vai ser ótimo! – Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.

Saí revitalizado daquele almoço. Gostaria que todos os meus outros problemas também fossem resolvidos dessa forma. Minha mãe seguiu o resto da tarde fazendo planos para o primeiro encontro de terça-feira. Meu pai foi beber para comemorar a volta da harmonia no lar. Eu fiquei descansando para a noite das anfetaminas que se aproximava.

Depois de todos os probelmas caseiros resolvidos, eu só podia esperar uma noite de alegria. Infelizmente, eu nunca poderia imaginar tudo o que aconteceu naquela festa.

No próximo capítulo: Place Stealer!

7 comentários:

  1. Excelente, como sempre!

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  2. Vic,

    tudo de melhor... acho que vc devia seguir o ritmo dos últimos post's, nada de um por mês...rs

    FODA!!!

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  3. "Se fizessem tudo certo, poderiam voltar a se comportar como selvagens durante o resto da semana" essa frase foi profunda, Vic! Muito boa.
    Eu sei que enchemos o saco em ficar apressando a regularidade dos posts, mas, esse é o preço de escrever bem.
    Abraço!

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  4. ta muito maneiro cara...
    parece a minha família tbm
    so que no meu caso, pra piorar a situação, tenho um tio que é pastor de igreja evangélica pentecostal

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  5. Cara, vc tem uma escrita fenomenal e um enredo envolvente.
    Ainda estou digerindo tudo isso.
    MUITO BOM!


    abraço

    obs: espero que o livro esteja a venda na internet tbm.
    ;)

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  6. "Comecei a me sentir um pouco mais católoco, porque meu peito estava cheio de culpa."

    Caralho essa parte, e a que o Hugo posto, ficaram muito fodas.

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  7. C A R A L H O!!!!!!!
    Você escreve muito bem Vic.
    eu sempre odiei ler as coisas no computador....mas essas histórias me prenderam pra caramba!!!!!
    Adorei.....
    Vou esperar ansiosa o proximo post!!!
    Vlws!!!!

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