terça-feira, 3 de novembro de 2009

Santíssima Trindade


Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 10

A História até agora: Mesmo depois dos conselhos de um fantasma suicida, Vic segue com seu pacto de drogas rumo as anfetaminas ao mesmo tempo que tenta convencer Nicole e Lucas a participarem de um evento nada emocionante. Se você ainda não leu os capítulos anteriores, procures as outras partes na coluna lateral.

Sugestão de Música: The Beatles - Penny Lane

- Desculpa, Vic. Eu sou meio burro você pode explicar isso de novo? – Eu, Lucas e Nicole estávamos na Millenium Falcon. Íamos buscar Wendy, a namorada do Gordo, e de lá partiríamos para casa do nosso amigo Dez, onde a festa rock and roll iria rolar.

Nicole comandava o volante e o som. Escutávamos um Bob Dylan bem leve. Tínhamos acabado de fumar um baseado venenoso e apesar de uma azia desgraçada queimando o meu estômago, eu estava bem animado. Por algum motivo a maconha começara a trazer como conseqüência uma queimação no estômago quase instantânea. A dor era enorme e eu tinha a impressão nítida que estava sendo comido por dentro. De qualquer forma eu procurava não ligar para aquilo e tentava ser feliz. Acredito que todos nós estávamos alegres antes de eu contar a novidade.

Eu não via nada de mais no pedido. Era um favor que os meus dois melhores amigos podiam me fazer. Achei que eles topariam na mesma hora. Mais uma vez eu estava enganado.

- Não é grande coisa. Nós vamos fazer uma reza lá em casa e minha mãe pediu a presença de vocês dois. – na verdade ela exigiu os dois no nosso primeiro encontro. Talvez minha mãe achasse que Nicole iria ficar satisfeita, pois era uma católica fervorosa; Além disso, pensando que catequizando o Lucas, ela me converteria também.

- Isso eu entendi, Vic. O que me escapou foi a parte que a Nicole deve ir vestida de freira e eu de macumbeiro, man! – porque todo mundo acha que espírita é macumbeiro?

- Quer dizer que a sogrona acha que eu sou católica fervorosa? Logo eu que nem sei o Pai Nosso inteiro. – a Ruiva também não estava muito feliz em colaborar.

- Gente, é só um dia. Depois vocês podem seguir a vida esotérica ou ateísta de vocês. É só aparecer lá em casa, participar das rezas, escutar as leituras, fazer uma cara simpática e ganhar uns pontos com a coroa. – na verdade aquilo era um saco. Ninguém quer ir a um culto religioso sem vontade alguma.

- O problema não é apenas ir e sim a interpretação. Como eu vou fingir acreditar em uma coisa que eu desconheço? Agora eu vou ter que colocar um crucifixo no pescoço toda vez que eu for a sua casa? – argumentava Nicole. Como uma garota que fazia viagens astrais, lia a sorte em um baralho de tarô e montava mapas astrológicos não conhecia algo tão básico como um Pai Nosso?

- Eu posso dizer que tenho poderes telepatas? Tipo fingir que sou um mutante? I’m a X-men!– eu não sabia se Lucas estava brincando ou falava a verdade.

Quando eu aceitei convida-los, pensei que não teria problemas e faria a coroa ficar contente. Agora eu mesmo tinha dúvidas se queria que eles aparecessem. O resultado podia ser desastroso. Eles poderiam exagerar na interpretação, ou pior, dizer coisas que soariam ofensivas. Onde eu estava com a cabeça? Comecei a desistir da idéia.

- Olha gente, deixa para lá. Se vocês não quiserem ir eu invento uma desculpa qualquer e ponto final. – tentei encerrar o assunto, mas eu tinha trilhado uma estrada sem volta, como Nicole deixou bem claro:

- Eu não tenho mais escolha, Vic. Uma hora ou outra eu terei que ir a sua casa e sua mãe vai acabar tocando no assunto. Eu vou aparecer lar e serei a maior católica que sua mãe jamais conheceu! Só espero que fingir acreditar em uma religião não me dê um karma muito grande.

Eu não disse nada, mas por dentro eu tentava me matar aos poucos, arrependido de ter me metido naquela encrenca. As vezes, idéias que parecem geniais no momento, transformam-se em arapucas mortais.

- Você quer mesmo que eu minta para a sua mãe? – Disse Lucas. Foi a oportunidade perfeita de me livrar de uma parte do problema.

- Não. Deixa pra lá. – eu disse fingindo desinteresse.

- Mas eu vou. Ou você acha que eu iria perder essa festinha dos Deuses? No mínimo isso vai ser engraçado. – ele respondeu. Eu estava perdido.

- Olha, Gordo, se você vai para lá só de zoeira, esqueça. Será um momento ecumênico e bonito para todos nós.

Pensei que assim iria fazer ele desistir. Ele deu uma balançada no banco de trás, me deu um tapa na cabeça e soltou:

- I'm kidding, man! Eu vou na boa! Eu estou mesmo precisando de uma reza. Ultimamente a cada cinco baseados que eu fumo, pelo menos três me dão onda ruim!

Essa era a fé que movia o nosso estranho trio. Eu iria rezar para agradar a minha mãe. Nicole iria rezar porque não tinha escolha. Lucas iria rezar para poder fumar maconha em paz. Acho que não seríamos os primeiros da lista da salvação no dia do juízo final.

Eu não iria esperar até terça-feira para começar as minhas preces. Comecei a orar desde aquele momento para que nada desse errado no encontro.

Nicole continuou nos guiando pela noite. Primeiro para a casa da Wendy. Depois, para o apartamento do Dez. A festa prometia ser boa. A cobertura era enorme e estava recheada de álcool e drogas ilícitas. Tudo cortesia do nosso anfitrião. Não era a toa que seu apelido era Nota Dez, ou simplesmente Dez.

Marcelo, um dos sujeitos mais sinistros da nossa turma, seria o encarregado pelo som. Eu não o considerava tão cavernoso por ele ter tendências psicopatas ou algo do tipo. Simplesmente por ele sempre andar com caras que eram chamados de Boca, Mettal, Thor e Caveira e ainda conseguir ser conhecido pelo nome, mereceu meu respeito. Ele era o DJ oficial de todas as festinhas da turma. Naquela noite específica, ele tocaria para bastante gente.

Normalmente esse pessoal estaria no Casarão em um sábado como aquele. Um lugar no coração de Santa Tereza onde os roqueiros cariocas se reuniam para escutar metal e se drogarem sem serem incomodados. O lugar funciona como uma comunidade socialista-anarquista em um esquema bem familiar. Somente um evento da magnitude do aniversário do Dez para fazer os pirados deixarem de ir lá.

Eu, por outro lado, evitava aparecer no Casarão a todo custo. O dono e chefe do local, Luther, era o ex-namorado de Nicole. Quando ela contou que estava terminando o relacionamento para ficar comigo, ele maquiavelicamente fingiu aceitar de forma natural e madura. Tudo para continuar perto da Ruiva e tentar reconquista-la na primeira oportunidade. Eu sei disso, porque ele me contou logo depois de transformar a minha cara em purê. Socialmente fingíamos simpatia um pelo outro. Internamente ele apenas aguardava o momento certo para acabar comigo.

Luther era a minha maior insegurança no meu relacionamento com Nicole. Ele era um homem mais velho, estabilizado e teve uma vivência nada convencional, principalmente durante a época da ditadura. Um homem interessante que provavelmente preenchia o espaço deixado pela ausência paterna na vida da Ruiva. Se ele movesse corretamente as peças no tabuleiro, poderia me colocar para fora do jogo.

Além disso, ainda tinha o fato dela curtir garotas. Nicole era uma mulher com sentimentos aflorados. Eu temia que a qualquer momento ela se apaixonaria por outra pessoa e eu fosse colocado para escanteio. Desde que começamos a namorar, Nicole deixou bem claro que quando sentisse vontade, ela ficaria com uma mulher. Nunca tinha acontecido até Anita no fatídico dia do chá de cogumelos. Tudo bem que ela estava em transe e em contato com o Umiverso. Mas nada me garantia que ela começasse a fazer aquilo de forma rotineira e finalmente notasse que seu namorado não passava de um adolescente babaca, sem muito futuro e totalmente inseguro.

Por isso tudo eu estava tão obcecado em ouvir as palavras “eu te amo” daqueles lábios carnudos. Queria ter a certeza que o nosso namoro era sólido e duradouro.

Pelo menos, antes da minha vida chegar à fase de sofrimento e morte como Guilherme me avisou. Eu precisava desesperadamente de diversão. Os efeitos eufóricos das anfetaminas nunca foram tão sedutores.

Finalmente chegamos à cobertura. Meu Deus, aquele era um belo lugar para se morar. A sala era enorme. Eles colocaram os sofás nos cantos e instalaram ali o equipamento de som. Marcelo comandava a dança com sua música e luzes piscando freneticamente.

Em um canto da sala brotava uma escada em caracol que levava para ao terraço do apartamento. Lá de cima tínhamos a visão completa da praia de Botafogo, um pedaço da Urca e o Pão de Açúcar. Se você fosse até o outro lado poderia deslumbrar o resto da Zona Sul e avistar o Corcovado. Somente com muito dinheiro para morar em um lugar como aquele. Isso o Dez tinha de sobra.

- Vou pegar uma cerva e admirar um pouco essa vista maravilhosa. – eu disse a Lucas no terraço.

- Wendy quer curtir o som e eu vou fazer companhia. – respondeu de volta o Gordo e desceu junto com sua companheira.

Fui até um dos isopores espalhados pela casa e peguei duas latinhas. A chuva finalmente tinha dado uma trégua naquela noite. Porém, O vento batia forte lá em cima e afastava a maioria das pessoas. Mas não parecia assustar a Ruiva. Ficamos abraçados admirando o Rio de Janeiro iluminado naquela noite de Sábado. Normalmente, qualquer lugar visto daquela altura parece tranqüilo. Mas a Cidade Maravilhosa é diferente. Ela dança freneticamente ao ritmo contagiante dos cariocas.

- Como um lugar tão bonito pode ser ao mesmo tempo tão inseguro e sujo? Dá até pena e às vezes eu não entendo como conseguimos viver nessa cidade. – filosofou Nicole.

Minha resposta foi automática, quase por instinto.
- Porque temos o Cristo nos protegendo acima de tudo.

Congelei imediatamente assim que terminei a frase. Eram as palavras de Guilherme saindo da minha boca.

- O filinho católico da mamãe e suas crenças divinas. Acho que continuamos aqui porque sabemos que iremos morrer de qualquer jeito, então escolhemos um lugar bonito para passar nossos últimos dias. – ela disse, mas eu nem prestei muita atenção.

Estava ainda perdido e pensando porque tinha recitado as palavras do meu sogro falecido. Independente de qualquer coisa que eu acreditasse que fora aquela experiência, ela de alguma forma tinha me mudado. Uma parte da essência de Guilherme grudou em mim em uma simbiose nada saudável. Até que eu resolvesse aquele assunto, descobrisse o significado daquele encontro e o que realmente o destino me reservava, provavelmente eu não conseguiria ser eu mesmo.

Muito da minha autoconfiança tinha desaparecido desde que eu encasquetei que queria ouvir uma confissão amorosa de Nicole. O pouco que sobrara estava totalmente deficiente pelo fantasma suicida. Talvez se eu contasse para a Ruiva sobre a minha suposta conversa com seu pai, me ajudaria a tirar um pouco daquela angustia do peito. Mas como ela iria reagir? Não me parecia justo faze-la trazer a tona esse sentimento apenas para me sentir bem.

- Terra chamando Vic. Terra chamando Vic. – a Ruiva balançava o meu braço chamando a minha atenção.

Eu mirei em seus olhos, e ela estava naturalmente bonita. Se aqueles eram os últimos momentos da minha vida, de alguma forma eles seriam bons por ter aquele lindo anjo rebelde ao meu lado.

Abracei-a suavemente e dei um beijo apaixonado. Ela não estava na mesma sintonia e tentou escapar, mas se rendeu ao meu carinho e retribui fogosamente. O vento frio deu mais um forte tapa em nossos corpos, mas meu sangue fervilhava.

Por fim, o beijo terminou e ficamos apenas nos admirando. Nicole mantinha um sorriso no rosto tentando entender aquele ato romântico espontâneo. Eu mantinha a fisionomia séria e admirava a minha namorada.

- O que foi isso, afinal? – Ela perguntou.

- Nada. Apenas para te lembrar que seu namorado te ama. – abri um sorriso e apertei sua bochecha.

Ela me deu mais um beijo. Não tão demorado quanto o anterior, mas ainda assim muito carinhoso. Meu coração disparou. O momento tão esperado se aproximava. Quando terminamos, ela repetiu o meu ato e apertou a minha bochecha. Eu sabia o que vinha em seguida. Os momentos de espera tinham terminado. Ela finalmente ira confessar o seu amor:

- Você é muito fofinho. – ela disse. Balançou o meu rosto e me deu mais um beijo, só que dessa vez na face.

Sorri sem graça tentando disfarçar a decepção. Esperava ouvir um romântico “eu te amo”. Engoli a minha insegurança e dei um longo gole na cerveja, esvaziando a lata. Catei um dos meus Marlboros e disse por fim:

- Preciso de mais combustível, Nic.

Ela entornou a sua cerveja goela abaixo, amassou a latinha, deu um sonoro arroto e disse com uma voz máscula:

- Me traga uma latinha, sua puta! – e riu de sua performace.

Eu retribui o sorriso e fui ao encontro do isopor.

Tentava não me abater pela circunstância. Mas estava muito óbvio para não enxergar. Nicole não me amava. Aquele era o momento perfeito e qualquer outra pessoa naquela situação teria se declarado. Quando a conheci, ela também não amava Luther. Talvez nunca tenha se apaixonado por homem algum. Quem sabe a ausência do pai tenha tirado esse sentimento dela. Ficava comigo porque era divertido e certamente gostava de mim, da minha presença. Mas certamente aquilo não era amor.

Eu queria fugir daqueles pensamentos. Não precisava daquilo no momento. Queria me afastar de tudo e simplesmente me divertir. Viver com alegria as minhas últimas horas entre os mortais. Curiosamente, meu anjo da guarda ouviu as minhas preces e realizou o meu desejo com as palavras de Lucas que surgiu atrás de mim:

- Filho da puta! – o Gordo estava irritado.

- Qual foi? – perguntei.

Ele passou a mão pelos seus longos cabelos oleosos e ajeitou o seu rabo de cavalo. Sua testa estava suada e eu não conseguia determinar se sua fala ofegante era por conta da ira ou pelo esforço de subir as escadas.

- Não sei se você notou um sujeito todo arrumadinho, de blusão quadriculado destoando de toda a festa?

- Não, Gordo. Homens assim não fazem muito meu estilo. Prefiro os obesos cabeludos. – eu disse brincando, mas ele nem me deu bola.
- Você vai notar na hora que esbarrar com ele. O desgraçado é um Place Stealer! – eu juro que me esforcei para entender, mas estava difícil.

- O que? – aquilo só irritou mais o Gordo.

- Um Place Stealer, porra! – ele balançou a cabeça e deu um gole na cerveja.

Nicole se cansou de esperar o meu retorno e nos encontrou na frente daquele isopor.

- Não acredito que você trocou uma Ruiva maravilhosa por um homem feio como esse. – ela disse brincando e roubando a latinha em minha mão. Eu fiz um sinal para ela cortar a piadinha. Lucas balançou a cabeça e voltou a falar.

- Wendy foi dançar com as amigas na sala. Eu não sou muito de dança, então peguei uma cerveja e encontrei esse lugar na sala. Ele é perfeito. O melhor da sala. Dava para olhar a pista e sem que o som ficasse incomodando muito. – ele voltou a dar um gole na cerveja e continuou. – Esse cara, estava do outro lado. Sentado em um sofá. Tudo normal. Então, minha cerveja acaba, eu vou até a cozinha buscar outra e quando eu retorno o cara estava no meu lugar. Coisa de um minuto o Place Stealer levantou e pegou o meu lugar! Filho da puta!

Eu e Nicole começamos a rir da situação.

- Deixa de ser criança, Lucas! Vai lá e encontra outro lugar! – Eu argumentei.

- O problema não é esse, o problema é a intenção. Ele fez isso de propósito. Ele estava confortavelmente sentado no sofá, por que iria trocar isso para ficar em pé em uma parede?

- Porque é o melhor lugar da sala! – respondeu Nicole de imediato.

- Não, porque ele é um Place Stealer, motherfucker! Ele está fudido, eu vou ferrar com ele! – O gordo estava enfurecido.

Eu ainda não entendia porque ele se irritava tanto com isso:

- O que você vai fazer? Vai bater nele?

- Não. Eu vou esperar o momento certo e vou roubar o lugar dele. Vou vigiá-lo a noite toda e passarei o resto da festa roubando os seus lugares.

- Isso é insano. Nunca vai acontecer. Esquece isso e vai se divertir, cara. – eu disse.

- É uma questão de honra, Vic. Eu subi aqui para fumar unzinho, abrir a mente e traçar a melhor estratégia para me vingar do Place Stealer. Então, vamos carburar?

- Essa foi a única coisa inteligente que você falou desde que subiu, Lucas. – disse Nicole animada.

- Vocês podem fumar. Eu estou legal. Eu vou procurar o Dez e perguntar sobre as bolinhas. – eu respondi de forma convicta. Ainda não tinha me recuperado da azia que o último baseado deixara corroendo o meu estômago.

- Vocês dois vão mesmo tomar anfetaminas? – perguntou Lucas. Eu olhei para Nicole e ela confirmou na mesma hora:

- Elementar, meu caro Lucas.
- Só não tomo se algum “Drug Stealer” aparecer antes. – eu complementei.

- Há, há, há, Vic! Muito engraçado. – Ele respondeu. Eu apenas sorri em resposta e fui em direção a escada.

Quando eu já tinha me afastado um pouco, o Gordo correu até mim e me alertou:

- Vic! Só uma coisinha. – Nicole estava um pouco distante, mesmo assim o Gordo baixou o tom de voz para que ela não escutasse – Quando eu estava subindo, eu vi que Luther tinha acabado de chegar.

Foi como se um raio me atingisse.

- Luther? O que ele está fazendo aqui? Ele nunca saí do Casarão! Sobretudo em um Sábado. – eu disse resignado.

- Foi o que me perguntei também. Talvez o Dez seja tão maneiro que o tenha tirado da toca. Só quis te avisar para você não tomar um susto quando esbarrar com ele.

- Obrigado, Gordo.

Como sempre o meu alívio cômico foi mais breve do que eu gostaria. Era só o que me faltava. Esbarrar com o ex-namorado de Nicole. Não era a primeira vez desde que ela o largou para ficar comigo. Mas nunca era agradável encontrar com Luther. Para ele sair de seu refúgio, ainda por cima em um Sábado, alguma coisa tinha em mente. Eu deveria ficar atento e cancelar a viagem de anfetaminas. Seria o mais correto a fazer.

Pena que eu nunca fui muito adepto a seguir regras.

Eu tinha problemas o bastante e decidi não me focar muito naquilo. Tentei me convencer que não importava. Eu ia tomar as minhas bolinhas e buscar um pouco de euforia química. Se Luther decidisse finalmente tentar algum movimento, que Deus o ajudasse porque com certeza eu tinha muita frustração para descontar em alguém.

Desci as escadas e tomei um susto quando dei de cara com Wendy e seu grupo de garotas dançando animadamente ao som de Pearl Jam. O problema não era com Wendy e suas amigas, mas sim o cara que estava junto com elas. Por alguns segundos esqueci de Luther, anfetaminas ou do “Place Stealer”. Esqueci de Guilherme e seus conselhos fantasmagóricos e que a minha namorada não me amava. Esqueci até mesmo da minha morte eminente e onde eu estava.

Pedro, o vocalista dos Garotos Radioativos, dançava animadamente com a namorada do Gordo e suas amigas.

Ele era apaixonado por Nicole e pagava uma de amigo dela para sempre estar ao seu lado. Na verdade ele contava os dias para que a Ruiva terminasse com Luther e ele pudesse avançar para cima dela. Era um plano quase que perfeito se eu não tivesse aparecido e estragado a coisa toda.

Com certeza Lucas não sabia que o Radioativo estava urubuzando por ali ou então não deixaria Wendy solta. Pois quando Pedro descobriu que eu estava com Nicole, resolveu me bater. O Gordo interveio e humilhou o líder da pior banda de rock do planeta na frente de todos no Casarão. Desde então os dois se evitam, apesar de se cumprimentarem fingindo educação.

Eu entrei na rodinha e ele puxou uma garota para longe e sumiu entre o resto das pessoas que dançavam na pista. Ele também evitava a minha presença sempre que possível.

- O que aquele babaca queria por aqui? – perguntei a Wendy.

Ela me fitou por uns instantes. Senti alguma coisa estranha no seu olhar. Estava mais seco, quase raivoso. Apesar de sairmos em grupo, eu, Nicole, ela e Lucas, nunca fui muito próximo da magrela. No início achei que era apenas timidez, mas depois que Lucas me contou sobre seu preconceito com Nicole não foi difícil somar dois mais dois.

- Ele está ficando com a Fernanda, a minha melhor amiga. – ela respondeu parecendo irritada por ter que me dar alguma explicação.

Eu não forcei nenhuma gentileza, pelo contrário, fiz questão de deixar claro na minha expressão que não gostei do que ouvi.

- O que ela está fazendo com ele? Você sabe mais do que ninguém que aquele cara é um idiota.

- A única coisa que eu sei é que você e ele brigaram e Lucas se meteu apenas para te salvar de uma surra. – ela disse levantando a sobrancelha.

Fiquei consternado com aquilo. Não era possível que a namorada do meu melhor amigo estava defendendo aquele imbecil.

- Wendy, eu não vou discutir isso. Você estava lá naquele dia e viu tudo.

Ela explodiu de volta.

- Realmente eu vi tudo, vi a covardia que vocês fizeram com o Pedro. Todos juntos batendo no coitado. – ela colocou o dedo no meu peito – Mas eu estou me lixando para a briguinha infantil de vocês.

Sua reação me pegou de surpresa. Eu não estava gostando nem um pouco daquilo. Resolvi tentar acalma-la, até porque eu não tinha nenhuma intenção de brigar com a namorada do meu melhor amigo.

- Não precisa ficar nervosa, Wendy. Lucas sabe disso? – perguntei.

- Olha só “Viciado Carioca”, o mundo não gira em volta do seu umbigo. Se uma amiga minha quer ficar com alguém, eu não preciso alertar você, Lucas ou qualquer outra pessoa. - ela respondeu com uma raiva fora do comum.

Eu apenas sorri e me afastei. Não valia a pena ficar discutindo aquilo. Principalmente naquela hora e lugar. Sabia que ela não aceitava a condição de Nicole, o nosso namoro e a coisa toda. Além disso, eu achava que ainda tinha mais alguma coisa.. No fundo eu acreditava que Wendy com seu jeito calado e introspectivo tivesse notado o que muitos não tinham porque estavam muito ocupados esperando a sua vez de falar. Ela conseguia enxergar o meu lado negro. Conseguia ver todos os meus defeitos que eu tentava esconder entre cigarros e piadinhas infames.

Para mim, ela era a única pessoa entre meus amigos que conseguia ver o quanto babaca, vazio e superficial eu era na verdade. E aquilo me assustava muito.

Segui atravessando a pista e avistei o “Place Stealer”. Não tinha como não reconhece-lo. Ele era normal demais no meio de tanto roqueiro. Roupinha toda engomada, cabelinho louro jogadinho, sapatinho caro. Em uma coisa, Lucas estava certo. Aquele era o melhor lugar da sala.

Fiz uma busca pelo Dez pelo recinto e não o avistei. Deveria estar na cozinha ou em algum dos quartos. Para chegar até lá eu deveria passar pelo arrumadinho e não pude resistir. A idéia de confrontá-lo surgiu como um estalo na minha cabeça e era muito sedutora. Poderia me render algumas piadas e me afastar novamente de qualquer preocupação.

Andei com um olhar meio perdido e um sorriso amigável no rosto. Ele respondeu simpaticamente, então eu disse:

- Você encontrou o melhor lugar da sala. Dá para olhar a pista sem ser muito incomodado pelo som alto. – eu disse de maneira tola.

Ele abriu um sorriso no rosto. Estava satisfeito pela sua conquista:

- Sim, é ótimo. – ele fez uma pausa e desapareceu com o sorriso - Você não esta aqui porque pretende rouba-lo, está? – ele era arisco. Desafiei-o com um olhar profundo e ele não arregou me encarando.

- Não, amigo. Eu odeio Place Stealers. – então eu apertei o olho esperando que ele se denunciasse, mas ele permaneceu calado. Tentei tirar algo a mais – Você não me perguntou isso porque roubou esse lugar de alguém, roubou? – mantive meu olhar cínico e ele também.

- Eu? Nunca. Eu também odeio ladrões de lugares.

O cara era realmente bom. Sujeito durão. Lucas teria que se esforçar para vencê-lo. Por fim, desisti do confronto. Apenas acenei com a cabeça e segui em direção da cozinha.

Não foi difícil reconhecer o Dez no meio dos outros caras vestidos de preto. Mesmo baixinho, com cabelo castanho cortado ao estilo militar e sem nenhum traço marcante em especial, o Dez se destaca. Não existe um sujeito igual. Sua felicidade constante é contagiante. Nunca o vi cabisbaixo ou triste. O que é engraçado, porque isso acaba sendo sua característica principal e de uma forma estranha, o torna fisicamente mais bonito que verdadeiramente é.

- Grande Dez! Dez dias, dez meses, dez anos e dez vidas de felicidades para você, meu chapa. – eu o felicitei pelo seu aniversário.

- Obrigado mesmo Vic. Veio sozinho? Cadê a patroa? – ele disse me abraçando e mostrando um sorriso largo. Eu deveria andar mais com ele. Bastava a sua presença e sua alegria irradiante para aliviar a tensão dos problemas.

- Chegamos mais cedo e não te encontramos. Ela está perdida por aí com o Gordo. Tenho que te dar os parabéns, é um festão.

- Com certeza. Será um dia inesquecível para todos nós. Tenho absoluta certeza disso – ele levantou os olhos e soltou uma longa risada e completou - Hoje não vai faltar nada. Nadinha.

Era a minha deixa. Puxei-o pelo braço, o afastando do resto do pessoal e disse:

- Eu estava atrás daquelas bolinhas que você comentou que arrumaria. – eu estava um pouco sem graça. Sabia que muitas pessoas se aproximavam de Dez por conta do seu dinheiro e viviam se aproveitando do altruísmo do rapaz. Talvez por isso que não éramos tão próximos. Não queria ser visto como oportunista, apesar de estar sendo exatamente isso naquele momento.

- Sem problemas, Vic. Eu te prometi e como eu falei, hoje não falta nada. Vamos até o meu quarto.

Saímos da cozinha e fomos andando para o interior do apartamento. O Dez contava que estava planejando aquela festa há meses e agora que o momento tinha chegado ele estava extremamente contente.

- A vida é curta demais para perdemos tempo não sendo felizes. Não quero estragar nada, mas preparei algumas surpresas para hoje.

Eu até poderia imaginar. O Dez era famoso por isso. Uma vez, ele estava indo ao churrasco de aniversário de um amigo nosso, o Décio, e no meio do caminho se deparou com um carro de uma rádio famosa fazendo promoção. Não pensou duas vezes, foi até o veículo, jogou sua fala mansa e seu sorriso alegre. Ele conseguiu convencer os sujeitos não só a irem ao churrasco, como colocar a galera falando ao vivo no ar, mandando abraços e escolhendo músicas. Tudo isso apenas sendo agradável. O cara descobriu o verdadeiro poder da Força e se tornou um Jedi somente sendo simpático e extremamente feliz. Não preciso nem dizer que foi o aniversário inesquecível do Décio.

Eu deveria aprender mais com o Dez. Realmente a vida é muito curta para perdemos tempo não sendo felizes. A minha naquele momento era mais curta do que de qualquer um. Sei que nem todos têm a vida fácil do Dez com seus abundantes recursos financeiros, mas a todo o momento ouvimos histórias de ricos infelizes. E conhecendo o Dez e suas histórias eu tinha certeza que mesmo que ele fosse pobre, não mudaria o seu jeito alegre de ser. Talvez ele não seria tão excêntrico, mas com certeza continuaria sendo “Nota Dez”.

- Vindo de você eu espero qualquer coisa. – eu respondi.

Estávamos quase chegando ao quarto e eu tinha esquecido completamente qualquer preocupação quando reconheci aquela voz atrás de nós.

- Olá Dez e Vicky Boy. – antes mesmo de me virar conseguia visualizar Luther parado atrás de nós com sua pose e olhar imponente – Uma bela festa que temos aqui e tenho certeza que hoje todos teremos uma noite especial! – e ao visualizar aquele risinho cínico eu tinha certeza que ele estava tramando algo. Todos os planos de ignorar Luther e tentar apenas me divertir foram dissipados com aquela visão. Nem a felicidade contagiante de Dez poderia me salvar e dificilmente aquela festa acabaria bem.

Adoraria saber se o Place Stealer gostaria de trocar de lugar comigo naquele momento.

No próximo capítulo: Bolinhas & Breguice










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6 comentários:

  1. hahahahahaa
    Vou ter que ler novamente o que aconteceu com na briga com o Pedro!!!! Show de bola, Vic!
    PS: Chegou hoje meu livro! \0/

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  2. C A R A L H O!!!!
    Como sempre essas histórias massa demais!!!!!
    Vou ficar na fissura pra ver quais foram os resultados das anfetaminas!!!!rss...
    Vic vc é Massa!!!!
    bjs

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  3. brother, nao aguento esse ar de suspense... aposto que você ja esvcreveu essa poha toda e fica se divertindo com o sofrimento das pessoas por mais e mais! hahahaa zueria! ta muito foda cara... abração!

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  4. Olha, é a primeira vez que me ponho a ler um texto aqui no blog (digo, já haviam me mostrado e comentado a cerca dele, mas ainda não tinha lido por mim mesmo) e assumo que gostei bastante. Flui bem. E prende. E hei de ler mais para poder dizer mais. Mas, de fato, gostei.

    Abraço.

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  5. Caralho, eu sabia que esse Luther ainda voltaria pra te assombrar cara...puta merda.

    Abração!

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