terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Charlie e a Fantástica Fábrica de Alucinações!

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Em uma tarde ensolarada em uma floresta no interior do Brasil, Charles estava procurando Cogumelos para fazer um chá venenoso quando se depara com algo muito estranho:

- Ave Maria Joana! Se não é um cogumelo dourado!

Charles nunca tinha visto um e no momento ficou na dúvida se levava aquele cogumelo para casa ou não. Resolveu arriscar e com aquele monstrinho cintilante fez um chá mágico.

Não demorou muito tempo para surgir bem na sua frente um homem alto, magro, vestindo um terno espalhafatoso e uma cartola na cabeça. A criatura arregalou os olhos e perguntou para Charles:

- Você sabe quem eu sou?

- Claro. Você é o Visconde de Sabugosa!

A figura abriu um sorriso e Charles também mostrou os seus dentes maltratados pela vida.

- Errado, meu nobre, meu nome é Willy Marofa e você é um dos cinco doidões sorteados para visitar a minha Fantástica Fábrica de Alucinações!

Charles ficou boquiaberto e não conseguia emitir nenhuma palavra. Willy Marofa envergou seu imenso corpo como se fosse uma vara de pescar e estendeu a mão para Charles:

- Vamos rapaz, será uma viagem única.

Charles não conseguia acreditar naquilo. Tinha acabado de jogar fora seus discos do Dixie Dregs e não estava preparado para uma viagem psicodélica. Deveria aceitar o convite de Willy Marofa? Fechou os olhos e desejou sorte a si mesmo. Então estendeu a mão e tocou nos dedos da estranha figura.

Luzes caleidoscópicas explodiram através do quarto. Charles e Willy Marofa voavam ao som do bater de asas de mil e um Borboletofantes cor de rosa. Naturalmente surgiu outro Willy Marofa logo abaixo deles carregando um outro rapaz gorducho. Antes que Charles pudesse entender aquilo, outro Willy Marofa surgiu pelo lado, agora carregando uma garota de vestido violeta. Um Willy Marofa gritou para o outro:

- A comunidade está se formando!

Então eles apontaram para cima e outro Willy Marofa surgiu carregando um rapaz franzino. Charles estava maravilhado com aquela visão. Ele pensou em perguntar para o seu Willy o que estava acontecendo, mas seus pensamentos foram interrompidos por um grito ao seu lado:

- Ei, rapazes, esperem por mim!

Um outro Willy surgiu pela direita carregando mais outra garota. Essa não era tão bonita quanto a primeira, possuía uma horrenda verruga no nariz e mantinha uma cara triste. Charles não entendia como alguém poderia estar triste com uma viagem daquelas, mas resolveu não concentrar os seus pensamentos naquilo. Ficou admirando os borboletofantes cor de rosa durante o restante da viagem. A velocidade deles então foi diminuindo, diminuindo, diminuindo, até que aterrizaram diante de uma velha fábrica toda colorida. Um dos Willy pousou primeiro no chão e os outros Willy foram um por um descendo dentro do primeiro quando finalmente só tinha um Willy Marofa diante deles:

- Eu a-do-ro esse lance de múltiplas personalidades físicas!

Tirando a menina com a verruga, todos estavam maravilhados com aquela visão dos múltiplos Willys se tornando apenas um. Marofa apontou para a fábrica que jogava sua fumaça verde e laranja no ambiente através de uma chaminé azul e amarela.

- Essa é a minha Fantástica Fábrica de Alucinações e vocês, meus cinco amiguinhos doidões, serão os primeiros a conhecê-la por dentro!

- Que droga! – lamentou a menina da verruga!

- Vou fumar e quebra a porra toda! – anunciou o gordão!

- Que legal! – comemorou Charles!

- Espero que ninguém veja a gente aqui! – disse o rapaz franzino olhando para todos os lados.

- Alguém pode apertar um baseado pra galera? – perguntou a menina de vestido violeta.

Willy Marofa ajeitou o sua cartola e riu dos comentários de seus convidados. Ele andou até a porta da fábrica e notou que todos se entreolhavam, estranhando a situação, então antes mesmo de tocar a maçaneta, ele anunciou:

- Não seria interessante os cabeçudinhos se apresentarem uns aos outros para que nossa pequena viagem seja mais agradável?

A garota da verruga deixou os braços caírem ao lado do corpo e disse em um sussurro arrastado:

- Eu me apresento por última, por que sempre sou a última.

- Faremos melhor ainda, meu poço infinito de tristeza, deixa que eu te apresente e assim não teremos mais o desprazer de ouvir a sua voz por algum tempo! – disse Willy Marofa abrindo seu característico sorriso largo. – Essa aqui é Maria Verruga.

- Olá Maria Verruga! – disseram todos de uma só vez.

Maria olhou com desdém para eles todos, de um muxoxo e ficou olhando como suas unhas eram feias enquanto o gordo se apresentava:

- Meu nome é Augusto, o gordo! Eu encontrei o Cogumelo de Willy Marofa quando eu estava fazendo uma festinha de cogumelos, com maconha, com vodka, com absinto. Eu já estava ficando doidão e o pessoal pedindo para eu parar, foi quando eu quebrei uma televisão velha na cabeça da minha irmã mais nova e quebrei os dentes do namorado dela com um cabo de vassoura.

Os outros ficaram olhando constrangidos com aquele excesso de informação enquanto Augusto batia no peito gordo e anunciava que somente ele sabia se divertir.

- Meu nome é Violeta e eu acho que estou aqui por acaso. Ninguém podia acender um baseadinho para quebrar o gelo dessa apresentação? – houve um silêncio durante alguns segundos e como ninguém se mexeu, Violeta continuou. - Eu fui na casa de uma amiga para ver se ela tinha um fininho para cortar a minha fissura quando eu descubro que ela estava fazendo um chá com um cogumelo estranho que ela encontrou no jardim. Ela mexia na panela e dizia que não ia me dar um gole, mas eu fui lá e filei uma caneca antes de todo mundo e agora estou aqui!

Ela terminou a apresentação abrindo um pequeno sorriso tentando inutilmente conquistar a simpatia dos outros. Charles achou que era a hora certa dele se apresentar:

- Meu nome É Charles e eu estava tomando um chá com esse cogumelo dourado que encontrei por acaso e acabei conhecendo esse homem maravilhoso chamado Willy Marofa. Acho que essa é uma das viagens mais sensacionais que eu já tive!

O rapaz franzino observou Charles terminar sua apresentação com seus olhos arregalados, depois de olhar umas três vezes que não tinha ninguém por perto e de se certificar mais outras cinco que era realmente a sua vez ele disse:

- Meu nome é Mike e se isso for uma pegadinha de algum amigo meu, eu vou me vingar. Isso tá parecendo coisa do Bronha. Vocês conhecem o Bronha? Ele é um amigo meu que fuma pra caramba e de vez em quando faz uns trabalhos de vapor para levantar uma grana. Olha gente, isso fica entre a gente. O Bronha não gosta que ninguém fique falando por aí que ele é vapor. Vocês não conhecem ele, né? Conhecem? Conhecem?

O sujeito estava todo elétrico e mesmo com todos dizendo que não ele olhava para todo mundo com olhos desconfiados. Charles não entendeu porque ele contou sobre o tal do Bronha para depois dizer que era segredo. Resolveu não tentar entender aquelas pessoas neuróticas com quem dividia aquela viagem maravilhosa e decidiu apenas curtir.

- Já chega desse blá, blá, blá e agora vamos ao que interessa.

Willy Marofa tirou uma chave grande e dourada e enfiou uma das pontas na porta e virou a outra ponta que era em formato de folha de cannabis. Eles atravessaram o portal e entraram no mundo mágico da Fantástica Fábrica de Alucinações.

Atravessaram um grande corredor enquanto Violeta insistia para alguém acender um fininho. O Corredor era decorado com quadros de figuras importantes como Bob Marley e Philip K Dick. Augusto não escondia dos seus amigos a ansiedade de experimentar as famosas bolinhas de Willy Marofa enquanto Verruga achava tudo aquilo um saco. Só Charles e Mike pareciam admirados com tudo aquilo, mas enquanto o primeiro demonstrava em um belo sorriso, o segundo tinha olhos preocupados.

Finalmente chegaram ao fim do corredor. Marofa abriu um portão e o grupo chegou em um grande jardim. Arbustos de Sativa misturavam-se com arbustos de Salvia Divinorum entre cogumelos e mescais gigantes.

- Tudo aqui é alucinógeno, inclusive eu. Mas certas pessoas vão sentir dificuldade em me fumar. – disse Willy Marofa entre alguns gritinhos e sorrisos.

- Nós podemos consumir o que quisermos? – perguntou Augusto visivelmente excitado.

- É claro, amiguinho. Só não percam a linha.

Foi o suficiente para Augusto sair como um trator destruindo arbustos e cogumelos. Enquanto engolia alguns, ele destruía outros com socos e ponta pés. Charles resolveu apertar um fininho e dividiu sem problemas o seu cigarro com Violeta. Enquanto Verruga estava indecisa se utilizava maconha ou salvia.

- Eu sei que a maconha vai me deixar com azia, mas com certeza a salvia vai me deixar mais louca do que o gordão. Ah, que saco!

Mike estava puxando um pó escondido atrás de um arbusto quando Augusto apareceu e tomou a droga do coitado.

- É tudo meu! É tudo meu! – disse ele enfiando o pó dentro do nariz enquanto dava um soco na cara de mike.

Mike absorveu a bofetada, mas não pensou duas vezes. Correu em direção de Willy Marofa para denunciar o mal comportamento do amigo. Não precisava, Augusto já estava chamando a atenção de todo mundo. Ele quebrou mas alguns arbustos e enfiou as folhas na boca, arrancou a roupa e pulou no estilo “bomba” dentro do rio de Ayahuasca que passava por ali.

Todos estavam paralisados com o colega perdendo não só a linha, mas o resto do carretel inteiro.

- O que os jacarés coloridos estão olhando? Eu nem comecei ainda o concurso de barrigadas! – disse Augusto para a turma.

O que Augusto não notou é que a atenção do grupo já tinha desviado dele para um grupo estranho de anões que estavam se aproximando da margem do Rio.

- Seu Marofa, o que é aquilo? Eles são tão feios que me deprimem! – perguntou Verruga.

- São da polícia, eu tenho certeza! – disse Mike. Então, ele começou a gritar em direção dos anões enquanto aspirava o resto de pó que ainda tinha nas mãos - Olha eles que estavam fumando, eu não estava usando nada!

- Ora bolas, eles são Songa-mongas! – disse Willy intrigado com a burrice dos seus novos amiguinhos.

- Eles têm dedo de gorila! – observou Charles!

- E perninha de grilo! Você me deixa fumar um? – pediu Violeta.

- Não, não e negativo! – respondeu Willy Marofa. – Foi muito difícil trazer esses Songa-mongas até aqui. Eles são criaturas que gostam de se drogar e de cantar, o que é muito bom porque economiza o custo de um rádio.

- Ah, acho que eles vão começar a cantar. Eu odeio música! – comentou Verruga.

- Sim, eles vão começar a cantar! Vamos ouvir! – mandou Willy.

Songa-monga... onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga... onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

Nesse momento os Songa-mongas tiraram zarabatanas do bolso e começaram a assoprar dardos recheados de heroína em direção de Augusto. Enquanto uns assopravam outros começaram outra música:

Augusto, Augusto seu gordão
Não pensa, mete logo o narigão
Na sua viagem, perde a noção
Deixa todo mundo Boladão!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
Você é mais inútil que uma fimose
Nós ainda temos muito que fumar
E você vai morrer de Overdose!

Augusto, Augusto seu gordão
Não pensa, mete logo o narigão
Na sua viagem, perde a noção
Deixa todo mundo Boladão!

- Seu Willy, ele vai realmente morrer? – perguntou Verruga quase chorando.

- Não só ele, como todos vocês, eu e o planeta. Afinal, a esperança é a ultima que morre, mas ela fatalmente sempre morre!

Verruga começou a chorar com a Bad trip, Violeta decidiu que não iria mais filar nenhum cigarro de Willy Marofa, Mike tinha certeza que ele era um agente da polícia disfarçado. Mas e Charles? O que Charles achava daquilo tudo?

Charles não sabia. Gostava da fábrica e do jeito meio louco de Willy Marofa e no fundo achava que Augusto merecia ser punido por perder a noção. Charles odiava quando estava fumando um tranquilamente e algum amigo ficava doido além da conta e começava a fazer brincadeiras desagradáveis. Mas aquilo não era um pouco além da conta?

Charles refletiu um pouco e pensou que fatalmente aquele seria o destino de Augusto de um jeito ou de outro. Ninguém pode perder a linha sempre e achar que nunca vai sofrer as conseqüências. No fim, o gordo colheu o que sempre plantou. Ao concluir isso um pequeno sorriso se formou no canto da boca de Charles. Ele não deu bola e acompanhou Willy e o resto do grupo até a outra sala.


Willy abriu uma grande porta e todos entraram em uma sala que o chão era feito de terra. No chão existiam quatro buracos onde Willy pediu para que todos se deitarem. Entre alguns estranhamentos por parte de Mike e algumas reclamações por parte de Verruga todos se deitaram. Então Songa-Mongas vieram e os cobriram com terra deixando apenas a cabeça dos quatro visitantes de fora.

- Essa é a sala Castanheda e espero que todos vocês tenham uma experiência cognitiva muito especial. – disse Willy enquanto enfiava alguns capacetes cheios de eletrodos no crânio de todos.

- Ei, o que é isso? De alguma forma você vai denunciar a gente? Se você me entregar eu te entrego também! – ameaçou Mike.

- Sim, meu amiguinho de língua solta. Eu vou denunciar vocês. Irei denunciar vocês a vocês mesmo!

Willy Marofa abriu um sorriso e puxou a alavanca de um estranho aparelho que se encontrava do outro lado da sala. Raios de diversas cores saíram do aparelho em direção aos capacetes. Charles ao ver aquilo fechou os olhos e se preparou para o que ele tinha certeza de ser uma experiência única. Violeta notou com o canto do olho o sorriso de Charles e começou a imaginar que viagem fantástica ele estava tendo e desejou estar dentro da cabeça dele. Mike começou a rezar para que nem seus pais, seu chefe ou a polícia descobrisse que ele estava ali e que no fundo Willy Marofa fosse um bom sujeito. Todos começaram a ter uma viagem fantástica, menos Verruga. Ela surtou.

Quando o terceiro raio atingiu o capacete de Verruga e ela começou a ser transportada para um mundo onde não existia guerra, doenças, fome, pobreza ou morte ela empurrou o seu capacete para longe. Aquilo era tão irreal que não poderia existir nem no mundo das alucinações. Ela tinha certeza que não existia amor sem dor. Não era possível e a felicidade era algo tolo que as pessoas inventavam para fugir da verdadeira crueldade que era o mundo.

- Para com isso, você vai matar todos nós! – disse ela se balançando e batendo com a cabeça na direção do chão tentando destruir o capacete.

- Não faça isso, minha belezinha. Você pode inverter os raios de felicidade cognitiva da minha máquina de...de...como mesmo se chama essa máquina que gera felicidade cognitiva? – perguntou Willy Marofa para um Songa-monga.

- Máquina de felicidade cognitiva, mestre Marofa. – respondeu um Songa-monga.

- Ah, claro! Eu sempre me esqueço dessa parte.

Enquanto Marofa conversava com o Songa-monga Verruga batia mais forte com o capacete até que os raios da máquina pararam de ser coloridos e se tornaram negros.

- Rápido, amigos Songa-Mongas, desliguem a máquina!

Os Songa-mongas começaram a apertar alguns botões mas a máquina de recusava a parar. Então Willy apontou para os quatro que estavam deitados nas covas e os pequenos homens com dedos de gorila e perninhas de grilo entenderam o recado. Pularam em direção ao grupo e trataram de arrancar os capacetes. O primeiro foi de Mike, logo em seguida de Violeta e Charles. Porém a dupla que ficou responsável em tirar o capacete de Verruga não conseguia arranca-lo. A menina tinha o amassado de um jeito que a máquina ficou grudada na sua cabeça.
- O que aconteceu? Em um momento eu estava voando pelas praias da Indonésia e de repente eu comecei a cair e cair. – disse Charles assustado!

- Eu também estava lá. Você estava me levando e de repente virou para mim e disse que não iria mais compartilhar a sua viagem comigo! – Violeta estava espantada!

- Calma, meus miuxos. Vocês estavam tendo uma felicidade cognitiva até a sua amiga começar a ter pensamentos tão ruins que destruiu a minha maquina. – explicou Marofa.

- Mas como ela conseguiu fazer isso? – perguntou Mike.

- Ora, seu tolo. Vocês humanos lêem tantos livros sobre o poder do pensamento positivo mas nunca se preocupam com o poder do pensamento negativo? – Marofa estava cada vez mais intrigado com a burrice daquele grupinho.

Os Songa-mongas desistiram de tentar arrancar o capacete de Verruga ou de desligar a máquina. Qualquer coisa que tentavam era impossível de realizar. Por fim, resolveram acender um do bom e cantar mais uma música:

Songa-monga onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

Enquanto eles colocavam Verruga e a máquina em um suporte com rodas, mudaram o rítimo e cantaram uma música diferente:

Maria Verruga, Maria Verruga
Atrás da sua orelha sempre tem uma pulga
A tristeza você divulga
Para infelicidade, não tem fuga!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
Você não teve muito carinho fraterno
Nós ainda temos muito que fumar
E você vai queimar no inferno!

Maria Verruga, Maria Verruga
Atrás da sua orelha sempre tem uma pulga
A tristeza você sempre divulga
Da infelicidade você não tem Fuga!


Willy Marofa começou a empurrá-los para fora da sala. Mike e Violeta ainda estavam assustados com aquilo. Charles mais uma vez refletia. Augusto mereceu o que teve, mas será que Verruga tinha alguma saída para a sua infelicidade profunda? Tudo bem que ser negativa não é uma coisa muito agradável, mas uma pessoa merece ir para o inferno apenas por isso.

Mais uma vez Charles concluiu que de uma forma ou de outra Verruga já estava no inferno. Qualquer pessoa que só vê o lado negativo das coisas vive em um inferno eterno.

O sorriso de Charles ao concluir isso ficou um pouco mais aberto e até lembrava o sorriso estranho de Willy Marofa.


Entraram em uma outra sala. Estava tinha uma cor verde oliva nas paredes e três confortáveis poltronas onde os convidados de Willy Marofa logo de ajeitaram. A vitrola massageava o ouvido de todos com o leve som de um álbum do The Alan Parsons Project.

- O que vocês vão experimentar aqui é uma erva tão suave e única que foi projetada especialmente para cada um dos meus amiguinhos. – disse Willy Marofa.

Os três pareciam estar bem felizes e despreocupados, parte pela música e parte pela ausência de Verruga no grupo. Nem Mike, sempre preocupado em se livrar de flagrante, estava mais tão estressado. Willy Marofa estava orgulhoso e demosntrou isso durante sua explicação enquanto os Songa-mongas entregavam um diminuto cigarrinho para cada um deles.

- O lance é que para fazer algo tão específico e único os Songa-mongas tiveram que colher mais de vinte tipos diferentes de plantas e fizeram experiências com várias gramaturas para encontrar a mistura perfeita. Eu apresento a vocês o “Phelps”

O cigarro chamado “Phelps” era tão pequeno que quase sumia entre os dedos. Charles calculou que aquilo daria para duas ou três tragadas no máximo.

- Por que tão pequeno? – perguntou Charles.

- Ora, mas isso é lógico. A perfeição está nos mínimos detalhes. – respondeu Marofa que não ficava mais tão impressionado como os seus convidados depois de tantas experiências não conseguiam abrir a mente.

- Por que não juntamos os três e fazemos um beck decente? – sugeriu Mike.

- Não, não e negativo! – respondeu Willy de imediato – cada um desses cigarrinhos foram totalmente planejados para cada um de vocês. Como diria meu amigo Raul, o que eu como a prato pleno, pode ser o seu veneno. – então Marofa completou bem baixinho sem que ninguém pudesse escutar, porém Charles ouviu:

- E eu espero que seja.

Os Songa-mongas trouxeram os isqueiros e eles acenderam os baseados. Charles deu uma pequena tragada e realmente o negócio era muito bom:

- Nossa é maravilhoso! É mágico.

- Sim. É fantástico! – concordou Mike.

Violeta ao ouvir aquilo ficou elétrica. Matou o seu cigarro em três profundas e rápidas tragadas e chegou ao êxtase. Orgasmos múltiplos era uma sensação efêmera perto da maravilha que era aquele baseado. Ela não conseguia se segurar. Arrancou o cigarro na mão de Mike rapidamente:

- Me dá um tapinha do seu!

Ela pegou a maconha especial de Mike e matou em uma só tragada. Mike não teve tempo de reagir. Quando percebeu que seu cigarro estava na mão de Violeta, correu para contar a Willy o ocorrido. Willy fez sinal para que ele ficasse quieto e apontou para que ele observasse a menina.

Os órgãos internos de Violeta começaram a balançar dentro do corpo. Ela podia sentir o pulmão começar a caminhar para frente do seu peito e o seu coração caminhar em direção ao estômago. A dor era indescritível. Na tentativa de abrandar um pouco o sofrimento, roubou a última tragada do cigarro de Charles que estava alheio a tudo, apenas viajando.

Charles afastou-se da garota a tempo que um olho que saltou da cara retorcida de Violeta não lhe acertasse a teste. No meio da fuga, passou pelos Songa-mongas que cantavam alegremente:

Songa-monga onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

A pele de Violeta estava esticada tentando segurar os órgão que dançavam freneticamente sob ele. Violeta gritou de dor quando um rim saiu pela sua boca e caiu em cima da cabeça de um Songa-monga, parecendo uma boina. Ele começou a cantar outra música:

Violeta vem serrotar, Violeta vem serrotar
Nunca compra, ela só sabe filar
Só comparece se for para roubar
Nem a pontinha ela deixa escapar!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
Os dados já foram lançados
Nós ainda temos muito que fumar
Enquanto os seus órgãos serão arrancados e doados!

Violeta vem serrotar, Violeta vem serrotar
Nunca compra, ela só sabe filar
Só comparece se for para roubar
Nem a pontinha ela deixa escapar!


Pâncreas, intestino, útero pulavam como pipoca do corpo de Violeta enquanto os Songa-mongas a tiravam da sala. “Coloquem tudo no gelo rápido, os doadores estão esperando” lembrava Willy Marofa enquanto os anãozinhos corriam com suas perninhas de grilo para frente e para trás para pegar os órgãos da menina antes que encostassem no chão.

Mike se mijou de medo ao ver aquela cena dantesca enquanto Charles nem ponderou muito. A menina que tinha roubado o seu tão maravilhoso cigarro teve o que merecia.

O sorriso de Charles estava cada vez mais parecido com o do Willy Marofa.


- Tomem esses cigarrinhos de maconha para acalmar os ânimos. Não é um cigarro campeão como o Pehlps, mas quebra o galho.

Mike e Charles aceitaram a oferta e começaram a fumar o beck de Willy.

- Nossa, toda essa explosão meu tirou um fôlego. Vamos respirar um ar puro.

Dizendo isso Marofa abriu mais uma porta que dava para o pátio da fábrica. O céu estava amarelo e o sol brilhando de um azul tão intenso enquanto nuvens voavam para o Sul cantando alegremente enquanto atravessavam pássaros fofinhos e volumosos no caminho.

Charles e Mike admiravam tudo enquanto Willy acendia um cigarro para ele próprio. O seu cigarro era branco com listras vermelhas em volta e soltava uma fumaça anil enquanto o esguio homem fumava.

- Nada como dividir um beck com os meus amiguinhos.

Foi nesse momento de tranqüilidade que a polícia invadiu o pátio da fábrica. Homens vestindo coletes e capacetes desciam em cordas do telhado enquanto outros surgiam por todas as janelas e portas da fábrica.

- Todo mundo no chão! Todo mundo no chão!

Os três deitaram com o peito colado no chão ainda com os baseados entre os lábios. Willy Marofa olhou para eles e disse pelo canto da boca:

- Fofinhos, hora de engolir o flagrante.

Marofa sugou seu baseado como se fosse um macarrão e engoliu-o inteiro de uma vez. Charles entendeu o recado e mastigou o seu rapidamente e engolindo aos poucos conforme a saliva ia se juntando dentro da sua boca. Antes que Mike pudesse fazer qualquer coisa, um policial chegou por trás e pegou o seu beck.

- O que nós temos aqui? Esse garoto está fumando tóxico capitão!

Mike se tremia de medo enquanto o policial o colocava de pé. Em sua direção caminhava um homem duas vezes maior do que o policial que o segurava. Ele não conseguia ver o rosto do sujeito por causa do capacete que ele usava, mas Mike podia jurar que o homem era pior do que o próprio demônio.

O sujeito colocou a mão no ombro de Mike e apertou. Antes que pudesse falar alguma coisa, Mike já foi entregando tudo:

- Isso não é meu! É tudo desse homem de cartola. É ele que vocês estão procurando. Ele tem um monte de droga lá dentro! Eu nunca usei nada, eu juro! Se você quiser..blouf..blouf..blouf

Mike não conseguia falar mais nada. O sujeito segurou sua língua enquanto ele estava falando. O homem puxou uma faca afiada da cintura e sem pestanejar cortou a língua de Mike.

A língua ainda pulava no chão como um rabo sem lagartixa enquanto os policiais abriam os seus casacos e retiravam os capacetes revelando-se nada mais do que Songa-mongas um em cima do outro:

Songa-monga onga-dee-dee
Você quer fumar, aperta um aí
Songa-monga onga-dee-dica
Vamos comer e matar larica!

Eram quatro Songa-mongas que formavam o capitão. Eles formaram uma rodinha em volta de Mike que apertava a sua mão contra a boca sangrando enquanto a sua língua pulava no pátio da fábrica.

Mike, dedo duro, Mike, dedo duro
não sabe o significado de "eu juro"
Não guarda segredo, sempre dá um furo
Agora você deu de cara contra o muro!

A nossa viagem você não vai atrapalhar
A galera não vai ficar bolada
Nós ainda temos muito o que fumar
Agora que sua língua foi cortada!

Mike, dedo duro, Mike, dedo duro
não sabe o significado de "eu juro"
Não guarda segredo, sempre dá um furo
Agora você deu de cara contra o muro!

Os Songa-mongas levaram Mike para fora da fábrica enquanto outros ficaram brincando de futebol com a sua língua.

Charles não conseguia mais conter o seu sorriso ao ver todos os outros sofrerem. Se dessem uma cartola ele seria o próprio Willy Marofa em pessoa. Ele só não entendia porque ele ainda estava ali. Por que ele ficou por último?

- Agora só resta eu e você! – disse ele a Willy.

- E nesse exato momento você deve estar se perguntando por que, não é mesmo amiguinho?

Charles começou a pensar sobre a visita na fábrica. Logo depois que Augusto sofreu aquele ataque de dardos dos Songa-mongas eles entraram em uma sala que só tinha quatro buracos. Por que não cinco? Por que os Songa-mongas só fizeram três baseados? Por que Willy Marofa armou com os anões esse lance da polícia se já não soubesse que Mike iria se entregar?

- Você testou todos eles nas suas fraquezas e você sabia que eles não iriam resistir.

- Sim, meu amiguinho.

- E, eu? Também não vou ser testado?

- Mas você foi o mais testado, meu miuxo. Desde o início.

- Só que eu gostei de tudo. Eu concordei com tudo. Eu sorria enquanto as pessoas tinham a língua cortados, os órgãos arrancados ou iam para o inferno. Eu sou igual a você.

- Exatamente...

- Eu poderia ficar no seu lugar e controlar a fábrica caso você desejasse e você teria a certeza que tudo isso ficaria exatamente como você sempre fez. – disse Charles em um salto de excitação.

- Sim. Eu tenho certeza que você seria um grande administrador da minha fábrica. – Disse Willy - mas a pergunta que você quer realmente fazer é....

Charles fitou o fundo dos olhos de Willy e viu uma pequena chama brilhar.

- Quem é você? Quem é Willy Marofa? – perguntou Charles.

- Pense bem, Charles. Como chegou até aqui?

- O Cogumelo dourado.

- Exato. Você acha correto um homem normal tomar um chá de um cogumelo dourado, um negócio quase parecido com um lixo atômico e ainda ficar vivo para ter alucinações?

- Não, obvio que não... isso quer dizer que o tempo todo nós já estávamos mortos. E se nós estamos mortos, o que é esse lugar.

- Onde é o lugar que os miuxos malvados vão para aprender e pagar pelos seus erros?

Marofa estava com um sorriso que Charles teve certeza que por mais que treinasse, ele nunca conseguiria ter igual. O único sorriso que não transmite felicidade e sim desdém. Charles estava tão incrédulo que não conseguia dizer nada.

- Deixa eu te ajudar, é a palavra que começa com I e é quente, ah, me desculpe a redundância, mas é quente para diabo!

Marofa gargalhava enquanto colunas de fogo arrebentavam o chão, as paredes da fábrica, as chaminés e tudo mais. Em poucos segundos o fogo do inferno ardia em volta deles e Willy Marofa já não fazia questão de esconder seus chifres com a cartola ou seu rabo pontudo com o seu terno.

- E você acha, Charles, que eu estou procurando um substituto? Você acha que eu vou abrir mão de todo esse divertimento para um sujeito idiota que ficou me invejando por todo o tempo?

Os braços e pernas de Charles foram presos por correntes e em um piscar de olhos seu corpo estava preso a quatro estacas que saiam do chão.

- Por que você fez isso? Por que? – perguntava Charles com lágrimas nos olhos enquanto pequenos anzóis perfuravam espetavam seu corpo.

- O que você quer que eu responda? Que fiz isso para provar que até mesmo os heróis sofrem de tantos ou mais defeitos que os fazem perseguir os bandidos? Para provar que todo coração bom tem seu lado negro? Eu não fiz isso para provar nada, Charles! Eu já sei disso! Eu fiz isso apenas por que é divertido pacas! Agora sofra!

Com um gesto de Willy Marofa os anzóis espetados pelo corpo de Charles foram puxados cada um em uma direção, arrancando a pele, o tecido muscular e nervoso. Um anzol arrancou o tampão de sua cabeça e seu cérebro escorreu pelo crânio e evaporou antes de tocar o chão em chamas do inferno.


Charles acordou suado de uma das piores Bad trips de sua vida. Em sua mão a caneca vazia do chá de cogumelos dourado. Na televisão um clássico filme infantil terminava. Ele limpou o suor de sua testa e tentava controlar os espasmos musculares que o faziam tremer.

Charles correu até um espelho e ficou procurando as marcas de anzol pelo seu corpo, mas não tinha nada. Fora apenas um sonho, ele pensou.

- A pior Bad trip de todos os tempos! - Comentou em voz alta para si mesmo.

Por fim sorriu aliviado com tudo aquilo. Então congelou novamente. Aquele sorriso não era dele. Aquele era o sorriso exato de Willy Marofa. Charles correu até a janela e gritou em fúria para o mundo lá fora.


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6 comentários:

  1. Eu sabia que tinha algo a mais naquela fábrica... aquilo tudo é uma bad trip!

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  2. PORRA !!, daria um exelente Filme/Gibi !

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  3. Superação, "pequeno Vic". É a unica palavra pra definir esse texto!!!!!! Esse é o melhor de todos os tempos!!!!!!!

    Parabéns!!!!

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