segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Speed

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 11

A história até agora: Vic segue com Dez para pegar suas anfetaminas, mas antes tem um encontro inesperado com Luther.

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Sugestão de música: AC/DC - Night Of The Long Knives


- Eu não acredito! Eu consegui tirar Luther do Casarão! O patrono do Rock and Roll carioca abandonou o seu castelo para prestigiar o meu aniversário! - disse Dez com um largo sorriso e agitando o punho fechado em sinal de vitória.

- É o que digo, Dez. Se você tem paciência e fizer a coisa correta, você pode conquistar qualquer coisa. Não é mesmo, Vicky Boy? – Luther perguntou com olhos acirrados e um tom de voz petulante e desafiador.

- É o grande segredo dos vencedores. - eu concordei e disparei num instinto puro de autodefesa – Mas as vezes quem joga sujo também consegue levar o prêmio.

- Nós estamos indo até o quarto para pegar um atalho para a felicidade. Vamos conosco, tem um pouco para todo mundo!

- Muito obrigado, mas acho que vou deixá-los a sós e dá um giro na festa maravilhosa que você proporcionou para nós. – agradeceu Luther mostrando as palmas das mãos.

- Tem certeza? - insistiu Dez.

- Nos esbarramos depois. - ele respondeu. Abriu mais uma vez aquele sorriso cínico e se despediu - Vicky Boy.

- Luther. - eu simplesmente respondi.

Ele deu as costas e voltou para a festa e eu fiquei perdido em meus pensamentos.

Luther era cerebral demais e todas as suas palavras eram cuidadosamente escolhidas. “Conquistar qualquer coisa” era obviamente uma mensagem cifrada para mim. Aquele cara estava me forçando em um péssimo momento da minha vida. Se ele achava que eu iria aturar seus joguinhos mentais por muito tempo, ele estava enganado. Ele não tinha deixado o Casarão em um dia de sábado por um motivo qualquer. Tinha algo por trás daquilo e eu sentia que muito em breve eu descobriria o porquê.

Dez não notou o veneno nas nossas palavras. Seu coração era muito bom para perceber seus amigos aproveitadores ou arquiinimigos velados destilando hipocrisia. Eu não sabia se o melhor era enfrentar Luther e resolver nossas diferenças de uma vez por todas ou continuar deixando ele assombrando o meu namoro com Nicole. Com tanta coisa para me preocupar como o pacto, o meu sogro suicida e sem a confirmação real dos sentimentos de Nicole por mim, achei melhor deixar Luther brincar um pouco e vê no final o que iria acontecer.

Segui o meu anfitrião até o seu quarto certo da minha decisão mas sem conseguir tirar o ex-namorado de Nicole totalmente da minha cabeça.

O quarto de Dez lembrava mais a casa de um pop star dos anos 80 que o dormitório de um típico jovem carioca. Quem tem um Junk Box e um Pinball do Baywatch em um aposento? Eu pergunto e eu respondo. A mesma pessoa que dorme em uma cama com uma brega iluminação azul néon e sob uma bola de espelhos no teto.

- Psicodélico, heim? – eu disse um pouco assustado.

- Maneiro né? As mulheres amam esse covil. – ele soltou no meio de seu sorriso carcateristico.

“Certamente elas deveriam chegar ao orgasmo imaginado a oportunidade de redecorar aquele quarto.” Eu pensei enquanto ele atravessou o tapete mostarda até um armário vermelho de mogno. Eu me sentei em uma cadeira em formato de bolha e fiquei admirando o pôster falso do Exterminador do Futuro 2 com Sylvester Stallone no lugar do Schwarzenegger. O mesmo pôster falso que aparece no filme O Último Grande Herói.

Ele destrancou o cadeado do armário evidenciando um estoque gigantesco de remédios de todas as cores e formatos. Parecia que um caminhão de M&M tinha explodido ali dentro.

- Sobrou alguma coisa na Colômbia depois que você passou por lá?

Ele riu da minha pergunta, mas não disse nada. Pegou um pote bem ornamentado, uma espécie de porta jóias muito caro, e com um canudinho aspirou o pó dali de dentro. Deu uma fungada, fechou os olhos e virou o rosto para o teto.

- Acho que não sobrou muito por lá. – ele disse com outra risada. – Quer uma rapa? Esse daqui é do meu estoque especial. –

A tentação de experimentar foi grande. Se eu seguisse com o pacto de drogas uma hora ou outra teria que dar um teco em uma carrerinha. Poderia começar com um pó com qualidade que dificilmente eu encontraria novamente.

- Acho que vou passar dessa vez.

Dez deu de ombro e fechou a cara. Ele ainda estava balançando negativamente a cabeça enquanto pegava cartela e cortou quatro comprimidos.

- Presta bem atenção, Vic. Um rebite para cada um de vocês. Não vai deixar o Lucas ou a Nicole tomarem mais de um ou um e meio. Essa merda aqui é forte, não é aqueles comprimidinhos que as crianças compram em farmácia.

Eu Peguei a cartela na mão e imaginei escravas chinesas trabalhando nuas na fábrica clandestina de anfetaminas.

- Deixa comigo. – eu concordei em tom sério.

Ele ficou me encarando para provar a seriedade do negócio. Mas ele sentiu que eu era consciente. Afinal, eu acabara de negar um teco em um pó com grau de pureza elevado. Ele retornou ao armário e puxou mais uma carreira de cocaína. Eu fiquei admirando aquelas pílulas todas e então, uma das minhas idéias loucas surgiu na minha mente.

- Dez, sem querer abusar, será que você tem um calmante bom para me arrumar? – ele me olhou estranhando o pedido e eu expliquei – Fiquei pensando, eu sou um cara meio ativo e acho que posso ter uma dificuldade para dormir depois disso aqui.

- Você tá maluco? Se você misturar os dois pode ter uma parada cardíaca! – ele respondeu de forma agitada.

- Não é para hoje. Normalmente eu tenho dificuldade para dormir. Sou um cara muito aceso. Você tem tanta bolinha nessa sua farmácia particular, que eu pensei que você deveria ter algo para me ajudar a pegar no sono. – nem eu engoli aquela mentira deslavada.

Ele ficou me encarando por um tempo. Depois mexeu em uma gaveta e me deu uma cartela de calmante. Quando foi me entregar, ele segurou firme o remédio:

– Estou te avisando, essa bolinha que você tem no bolso é bem forte. Cuidado, não misture ou tome em excesso.

- Pode deixar, Dez. Eu sou mais responsável do que pareço. –

Ele apenas abriu um sorriso e soltou a cartela. Guardei os calmantes no outro bolso enquanto ele trancava o armário.

- It’s Paty time! – ele disse.

- Oh, Yeah baby! – eu respondi.

Ele deveria estar confuso como eu não tinha aceitado aquela cocaína extremamente pura, mas aceitado as anfetaminas. Eu não estava ali para me explicar a ele, mas eu não achei certo. Eu estava ali por conta do pacto. Eu estava ali pelas bolinhas. Não sabia nem o efeito que a anfetamina iria me fazer, misturar aquilo com coca me pareceu um grande convite para um enfarto. Não que fosse fazer muita diferença já que eu ira morrer logo.

Mas ao ver aquele armário foi que eu me toquei que o meu amigo não era uma pessoa normal. Um homem comum não teria tanta coisa assim em sua casa. Meu Deus, uma pessoa normal nem trancaria o seu próprio armário com um cadeado. Dez era um traficante e de repente toda aquela imagem glorificada que eu tinha dissipou-se. Se eu tinha até um pouco de inveja de seu otimismo com tudo, aquilo de alguma forma se transformou em um pouco de pena e desprezo.

Não sei por qual motivo eu me sentia daquele jeito. Eu era um usuário e os traficantes eram as pessoas que proporcionavam o acesso ao meu vício. Mas acho que nós ficamos arrumando desculpas para tudo. Sempre temos uma resposta. Sou viciado porque quero, ou porque gosto ou porque sou fraco. No caso dos traficantes na favela, eu sempre os enxergava como pessoas com poucas opções na vida e até entendia aqueles homens e suas metralhadoras. Mas o Dez? Um rapaz de classe média, simpático e com todas as oportunidades na sua frente. Qual era a sua desculpa?

Mesmo estando na festa de aniversário e até então eu considerar ele o sujeito mais simpático do pessoal, eu não tinha dúvidas na minha mente. Eu deveria me afastar de Dez. Não me sentia mais tão a vontade na sua presença. Tão pouco iria dizer a ele que Lucas e Wendy não iriam tomar as anfetaminas e que aquilo era um pacto entre eu e Nicole. Eu iria guardar os comprimidos excedentes para um outro dia caso eu gostasse da viagem de anfetaminas. Como diz o ditado, bolinha dada não se olha a quantidade.

Saímos do quarto e seguimos de volta em direção a sala. Lucas estava na pista ao lado de Wendy e suas amigas. Apesar de estar cercado de mulheres gostosas, Lucas metralhava com os olhos o Place Stealer que tinha abandonado o melhor lugar da sala e dava sugestões de músicas para o Marcelo.

- Cara, você está apaixonado por esse cara. – eu disse para ele rindo.

- Eu vou ferrar com esse motherfucker. – ele me respondeu.

- Cuidado. Troquei dois dedos de prosa com ele e o cara é durão. – eu o alertei.

- Vamos ver, Vic. Vamos ver.

- Cadê Nicole? Está no banheiro?

- No banheiro? Eu sei lá onde está a Nicole!

- Porra, Lucas, ela estava com você quando eu desci!

- É, mas depois eu desci para encarar o Place Stealer! – eu não acreditava no que ele estava falando.

- Você deixou Nicole lá em cima sozinha sabendo que o Luther está nessa festa?

- Qual é o problema, Vic? Não confia no seu taco, man? –

- Você não entende nada mesmo, Gordo! – praguejei e fui rapidamente para as escadas.

Eu sabia o que iria encontrar e sabia que teria que me controlar para não fazer o show do namorado ciumento e inseguro. Mas era difícil. Cheguei ao terraço e lá estava ele conversando com a Ruiva. Achei que Lucas nunca deixaria Nicole sozinha. Porra, foi ele que me avisou sobre Luther. O gordo não sabia o tamanho da tensão que rolava entre nós, mas é óbvio para qualquer um que não é uma boa idéia dar espaço para o ex-namorado se aproximar da garota do seu amigo.

Qualquer um, menos pro Lucas, é claro.

Luther disse alguma coisa e Nicole riu batendo em seu peito. O vulcão explodiu. Eu iria esperar para colocar meu plano dos calmantes em jogo, mas a raiva fez eu antecipar as coisas. Ao invés de ir à direção dos dois, fui para lado oposto. Na direção do banheiro.

Entrei, tranquei a porta e com raiva arranquei um pouco de papel higiênico do rolo. Coloquei sobre a pia e derramei os calmantes sobre o papel em uma virada só. Embrulhei bem, coloquei no chão e imaginei a cara de Luther.

Então eu pisei com toda a raiva do mundo. Lembrei de Luther soltando uma piada e Nicole rindo e pisei mais forte. Ela batendo de leve no seu peito e eu esmagando aquela merda. Eles dois transando e eu pulando sobre os comprimidos como se fosse o crânio dele sendo destruído e seu cérebro maquiavélico explodindo em mil pedacinhos.

Sentei na privada e tentei me acalmar. Devo ter contado até cem. Peguei então aquele embrulho e delicadamente passei o pó para um outro papel novinho.

- Tenha bons sonhos, Luther. – eu disse rindo.

Levantei-me e me olhei no espelho. Fiquei me admirando. Mandei um beijo para mim mesmo.

– Você é um cara foda, Vic. Ela pode não te amar, mas eu te amo de paixão e vou sentir muito a sua falta quando você morrer.

Saí calmamente do banheiro, peguei a bebida e a batizei. Se eu soubesse assoviar, eu estaria fazendo quando cheguei perto dos dois com as três cervejas na mão.

- Essa para você – entreguei a da Nicole – essa para você – entreguei a de Luther – e essa para mim. Saúde! –

Nós três brindamos e nenhum dos três demonstrava qualquer constrangimento.

- Eu estava fazendo companhia a Nicole enquanto você estava lá embaixo, Vicky Boy.

- Você foi um amigo melhor que Lucas, aquele Gordo ingrato que a abandonou nesse terraço frio. – eu respondi tentando disfarçar o meu nervosismo e segurando a minha risada enquanto ele bebia a sua cerveja.

- Luther estava me contando que eles estão reformando todo o Casarão. Agora eles vão construir um palco semi-profissional! – ela disse mais com o objetivo de mostrar que estavam em um papo inocente do que para me atualizar das novidades.

Aproveitei esse momento para abrir um sorriso largo e aliviar um pouco a ansiedade de ver aquele sujeito bebendo a sua própria condenação.

- A realização de um sonho! – eu anunciei.

Brindamos mais uma vez e ele tomou outro grande gole. Se eu não tivesse agido com raiva, teria levado aquela lata para o banheiro e dado uma pequena mijada lá dentro. Talvez em outra oportunidade.

- Bem, agora que você voltou, eu vou deixá-los namorar. Foi bom conversar com você, Nicole. – ele disse com seu tom simpático.

- Legal te ver também, Luther. – ela respondeu mais alegre do que eu gostaria.

- Vicky Boy.

- Luther.

Ele se afastou e eu continuava o seguindo com os olhos. A cada gole que ele dava na cerveja eu dava uma risada. Ele parou em outro grupo e eu continuava vigiando ele beber a cerveja e rindo.

- O que foi heim, Vic? Algum problema de eu estar conversando com o Luther? – disse Nicole raivosa.

- Não. Eu tô tranqüilo.

- Então porque você nem olha para a minha cara e fica ai dando essas risadinhas debochadas?

Fiquei tão hipnotizado com a queda do meu inimigo que até tinha esquecido de Nicole. Eu não poderia dizer a verdade e a solução mais óbvia era improvisar uma boa explicação. Esses são os dilemas que você enfrenta quando fica alimentando segredos e mais segredos dentro da sua alma.

- As vezes eu me acho muito sortudo de você ter o largado para ficar comigo. Ele é um cara fodão, não é a toa que comanda um dos melhores lugares de Rock and Roll dessa cidade. E mesmo assim, você o deixou para ficar comigo. Era nisso que eu estava pensado e rindo, Nic. – olhei nos seus olhos - De verdade.

Ela ficou um pouco sem graça. Então a peguei e dei um beijo. Passei a mão naqueles cabelos laranjas e a abracei como se a protegesse.

- Afinal, você trouxe ou não trouxe a parada?

- Claro que eu trouxe, senhora.

- Então, me dê a minha droga! – ela disse brincando.

Eu tirei a cartela do bolso e entreguei a ela. Ela ficou admirando os comprimidos por um tempo.

- Fase dois do pacto?

- Fase dois. – eu disse.

Lucas apareceu nesse momento. Ao invés de Wendy, ele tinha Marcelo a tira colo.

- Vic! Eu disse para você, man! O cara é um Place Stealer! – não precisava ser muito esperto para saber onde aquela história iria chegar.

- Se eu soubesse, nunca tinha pedido para o cara tomar conta do som enquanto eu ia ao banheiro! – lamentou Marcelo. Eu e Nicole começamos a rir.

- Eu vou pegar outra rodada para tomarmos essas belezinhas.

Nicole foi até as cervejas e os dois assaltados pelo ladrão de lugares continuavam a sua triste história.

- Quando ele roubou o meu lugar, na verdade ele estava estudando o Marcelo. Ficou calculando pelas cervejas a hora que ele precisaria ir ao banheiro e se aproximou falsamente para fazer amizade. – Lucas despejava a sua teoria da conspiração enquanto Eu ria como uma criança em um parque de diversões:

- Foi só eu sair para o cara mudar de rock para dance. Agora as garotas estão empolgadas dançando e não me deixaram reassumir o controle das pick-ups.

Marcelo estava desolado. Para ele ser o DJ era a resposta por não tocar nenhum instrumento. Agora ele tinha perdido o seu talento especial. Roubar o seu posto de DJ era como entregar kryptonita para o Super-Homem.

- Eu te falei que as mulheres não curtem muito o seu repertório rock junk box. Convenhamos, Marcelo, ninguém consegue dançar “Who Wants to Live Forever”!

- Mas é um clássico nas nossas festas, Vic!- ele se desculpou

- É, mas as mulheres não ficam brigando de higlander com espadas imaginárias na pista, ficam? Elas gostam de Dee-lite e porcarias do tipo. Porra, você é o DJ e eu não deveria estar te falando isso.

- Você está me dizendo para eu deixar de ser rock e ser pop? Eu não acredito que o Viciado Carioca, um dos caras mais rock and roll que eu conheço está me dando esse conselho!

- O que eu estou te dizendo é que você tem que conhecer o seu público. Por mim você colocava o Loco Live do Ramones na vitrola e deixava tocando a noite toda. Mas eu não sou ponto de comparação. Você não me vê muito na pista de dança, vê?

- Não. – ele disse vencido.

- É disso que eu estou te falando. Bicho, toca dois roques e duas dançantes. Não tem erro. – eu sugeri

- Acho que você tem razão. O problema vai se tirar o Place Stealer de lá.

- Pois é. Como nós vamos fazer para roubar o lugar do Place Stealer? Isso é quase tão difícil quanto fazer uma mágica para enganar o David Copperfield! – completou Lucas.

Era um grande problema. Ficamos os três tentando bolar um esquema para vencer o mestre de roubar o lugar dos outros. Estava tão absorto com aquele papo surreal que não percebi Nicole atrás de mim. Ela chegou com os olhos arregalados e falando alto:

- Me mostra quem é esse filho da puta que eu dou uma surra nele!

Em uma de suas mãos ela segurava uma latinha e na outra a cartela de anfetaminas restando apenas um comprimido.

No próximo capítulo: Kate Mahoney

Um comentário:

  1. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHH, LANÇA LOGO O 12 PLEASE MANOOO!, A CURIOSIDADE TA ME MATANDO !

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