segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Tiros, beijos e dois dedos de whisky

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 - Parte 1

Sugestão de Música: Kiss - Bad Bad Lovin


Desde que eu comecei a queimar alguns Marlboros, o meu maior problema sempre foi apagá-los no cinzeiro. Nunca consegui amassa-los da maneira bacana como os personagens dos filmes fazem. Sempre que eu apago um cigarro a brasa pula da guimba e aquela fumaça chata sobe e fica empestando o ambiente.

Não que aquele quarto de motel fosse o lugar mais limpo do mundo. Longe disso. Eu e Nicole tínhamos estacionado ali para um descanso. Rumávamos em direção a grandiosa Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não exatamente para o campus. Não estávamos procurando conhecimento ou estávamos inscritos para alguma convenção tola. Rumávamos para um objetivo muito mais maturo e concreto.

Dividíamos a direção durante a longa viagem. Eu, a ruiva e a garrafa de JD. Dirigíamos seu Santana Prata que eu carinhosamente apelidei de Falcon Millenium Éramos jovens, apaixonados pela vida e um pelo outro. A morte era algo que só existia nos filmes que víamos e nas músicas que escutávamos. E estávamos bem nesse quesito. Viajamos de AC/DC a Johnny Cash.

Durante a viagem praticávamos pequenos saques em bares da estrada. Se a geladeira estava no meio do bar, Nicole pegava as cervas e eu distraía o cara do balcão. Se só servia no balcão, a ruiva fazia o serviço. Descobri que seu decote tinha mais serventias do que me manter excitado. Arriscávamos ser presos por conta de três ou quatro Reais. É claro que o valor era o que menos importava. O prazer não estava em tocar a campanhia do vizinho e sim em sair correndo. Não era apenas o motor do nosso Santana que funcionava a 140 km/h.

Tudo idéia da Ruiva, a louca. Se eu tivesse peitos, se Nicole tivesse um lenço no cabelo e se a Falcon Millenium fosse conversível, provavelmente nos chamariam de Thelma e Louise. Se eu fosse careca, se a Ruiva tivesse uma espingarda e a Falcon Millenium fosse conversível, provavelmente nos chamariam de Mickey e Mallory.

Deus, ainda bem que a Falcon Millenium não era conversível.

Não procurávamos os hotéis cinco estrelas quando queríamos descansar. Geralmente escolhíamos os maiores muquifos que encontrávamos. Aqueles que você pode fumar quantos baseados você agüentar e ninguém reclama. Aqueles que você pode transar até seu cérebro explodir e ninguém reclama. É claro que você precisa fazer vista grossa para quesitos como higiene e estética.

Tínhamos que ser fortes para enfrentar a rodovia da morte. A Régis Bittencourt não é conhecida pela sua bela vegetação. Eu tentava dirigir apenas enquanto a luz do dia rasgava o nosso percurso. Então, quando a fumaça do meu cigarro acordou a ruiva a mais ou menos às sete da manhã, eu não esperava sexo matinal.

- Você precisa mesmo acender essa porcaria quando acorda? – Ela atirou com seu típico mau humor pela manhã.

- Vai tomar um banho que já estamos atrasados. – Eu disse olhando para o teto. Na verdade estávamos dentro do planejamento. Os Bois só seriam castrados em dois dias e antes disso, já estaríamos na fazenda. Mas por que arriscar? Se seguíssemos o ritmo da Ruiva provavelmente não chegaríamos ao sul antes de 2012. E dizem que o mundo pode acabar nesse ano. Eu também gosto de deixar a vida guiar a minha fortuna, mas na estrada, se você bobear, o asfalto faz o seu destino.

E tínhamos um objetivo muito importante e não podíamos vacilar.

O asfalto queimava a borracha da Falcon Millenium. Eu guiava entre os caminhões e os outros loucos. A maconha estava toda entocada nos puxadores internos das portas. Não é uma coisa muito difícil depois que você saca a parada. Você desloca um pouco o plástico e esconde o bagulho ali. Nenhum Policial Rodoviário pensa em colocar uma chave de fenda no seu carro. Estávamos seguros e abastecidos. Claro que se fossemos pegos iríamos ser manchetes nacionais: Jovens da Zona Sul do Rio traficam drogas pelo Brasil.

Nada disso importava se tínhamos um sorriso no rosto.

- Veja aquela placa! Cerveja grátis a 300m! – Nicole apontou. Eu gostaria de dizer que foi o meu sexto sentindo que me alertou para não pararmos. Na verdade o meu fígado ainda não estava preparado para uma gelada. Deus, ainda nem eram onze da manhã. Acelerei ainda mais a Falcon e disparei:

- Se continuarmos nesse ritmo, quando chegarmos lá os bois poderão cantar uma opera. – Ela mordeu os lábios, torceu o nariz e metralhou:

- O único que parece ter perdido os colhões é você. – eu juro que ela é um amor de pessoa depois das onze da manhã. Ou sou eu que estou tão bêbado e não ligo mais.

- Não adianta, Biff. O McFly não cai mais nesse papo de covarde. Daqui à uma hora nós compramos algumas geladas. - Ela deu de ombros e sossegou no banco do carona. Eu empurrei a fita do Metallica no som e seguimos escutando o Black Album.

Qualquer um podia dizer que aquela viagem era sem sentido. Algo idiota. Uma burrice de dois adolescentes que pensam que sabem de tudo. E isso estava indiscutivelmente certo. Mas tudo fazia parte do pacto.

Paramos uma hora depois para abastecer, calibrar os pneus, colocar água no carro, comer alguma coisa e roubar umas cervejas. Eu dizia a Nicole que não deveríamos roubar quando fazíamos essas paradas longas, mas assim que entrávamos no carro, ela abria a sua grande bolsa e lá estavam umas três ou quatro latinhas. Nicole, a louca.

Ela pegou a direção e eu abri a primeira gelada. Quem estava no volante comandava o som, e assim seguimos escutando Pink Floyd. Eu adorava aquela sensação de estar no banco do carona, com uma lata na mão e uma gostosa ao volante. Parecia que eu era o cara mais importante e gostoso do planeta. Isso sempre me excitou e quando eu via as suas pernas brancas pulando de um pedal para o outro por baixo daquela saia preta. Bem, parecia que a Nasa estava mandando mais um foguete para o espaço.

- Esse lance dos bois. Você já participou disso antes? – Eu perguntava enquanto checava o mapa. Muito em breve chegaríamos a Curitiba e deixaríamos a Estrada da Morte para trás.

- Eu? Não. Mas tenho certeza que vai ser fantástico! O Vitinho diz que é uma experiência do tipo que combinamos fazer. - O tal do Vitinho é um primo da Nicole. A família da Ruiva é toda do Sul e talvez isso explique a sua beleza e a vermelhidão dos seus cabelos.

- Não duvido que vá ser do cacete. Mas vou logo avisando, não tenho planos de misturar nada. – A Ruiva mordeu os lábios e deu uma risada desdenhosa:

- Planos? Eu te digo que o plano é não fazer planos. E misturar não faz parte do trato? – Mais uma vez ela tinha aquele tom desafiador na sua voz. Como sua pele era muito branca, comecei a perceber que toda vez que sua adrenalina subia, mesmo que muito pouco, uma veia azul saltava do lado direito de sua face. Provavelmente Nicole seria uma péssima jogadora de pôquer.

- O pacto não é exatamente esse. Mas você tem razão. O melhor plano é não ter nenhum. Só torço que os seus primos e os amigos deles sejam pessoas legais. – Ela sorriu. A arte de fazer uma mulher sorrir, é não economizar elogios e usar de vez em quando a frase “você tem razão”. Mesmo que você use querendo dizer “Caguei, vou fazer o que me der na telha”.

- Com certeza você vai gostar deles. – Se não fosse à primeira vez no Sul, certamente não estaria preocupado. Essa região provavelmente concentra a maior quantidade de brasileiros “gente boa” desse país. O Sulista, principalmente o Gaúcho, sabe ser divertido e hospitaleiro como o carioca, mas você não precisa ficar se preocupando se aquele sujeito está ou não te sacaneando. Inclusive com o clima agradável, pessoas simpáticas, churrascos a cada esquina e as mulheres mais bonitas do Brasil, eu me pergunto o que eu estou fazendo aqui embaixo do sovaco do Cristo Redentor.

Poderíamos reduzir o tempo de viagem em um dia se não fossem as nossas paradas para roubar cerveja e para largar-la nos banheiros sujos da estrada. Eu estava mijando nesse gabinete sujo quando me ocorreu que ainda não tinha ligado para casa. É educado ligar de vez em quando para seu pai e sua mãe avisando que está tudo bem. Dizer que sua namorada continua furtando cervejas, que você já desistiu de usar camisinha e que seu estoque de maconha ainda está alto. Afinal, os pais se preocupam com os filhos.

Contei a minha mãe que provavelmente no dia seguinte a noite já estaríamos na fazenda e ela mandou de volta todas aquelas recomendações maternas.

Mas como explicar para a sua amorosa e católica mãe que era um lance único para qualquer pirado? O grande evento dos colhões de bois ecoava no Rio de Janeiro. O dia que esses estagiários de agronomia castravam o gado e eles faziam uma grande churrascada com as bolas bovinas. Como muitas pessoas têm asco de provar essa estranha iguaria, alguém teve a idéia de colocar um ingrediente a mais na festinha. Um chamariz. Eles passaram a servir aos participantes um suculento, único e alucinante chá de cogumelos em uma festa regada de sexo, drogas e rock and roll.

- Pode deixar, mamãe. Eu vou me cuidar. – Então desliguei o telefone enquanto Nicole entrava no carro com mais duas ou três latinhas roubadas.

No próximo capítulo: Sexo na estrada