terça-feira, 21 de abril de 2009

Ora, bolas!

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 4

A história até agora: Vic & Nic chegam na fazenda para curtir uma onda de chá de cogumelos. Isso se eles sobreviverem aos colhões Bovinos. Se você ainda não leu os capítulos anteriores, procure na coluna ao lado.

Sugestão de música:
Pearl Jam - Sonic Reducer

A fazenda nos proporcionou o primeiro café da manhã decente desde que começamos a viajar. Eu esperava encontrar uma casa cheia de gente conversando e um ambiente alegre naquela manhã ensolarada. Encontramos apenas Vitinho e Thiago, outro primo da Nicole, na cozinha.

- Isso não deveria estar mais cheio? – eu disse rodando o dedo pela cozinha. Vitinho virou:

- Bah, vocês dormem muito. Eles devem estar retornando com as bolas dos bois. Eu e Thiago estamos aprontando o chá para mais tarde. Mas tem uma galera na piscina. Tem um pessoal dando uma aquecida na churrasqueira e as costelas estão no buraco. – eu ri daquele comentário. Só mais tarde eu conheci a sinistra técnica gaúcha de cavar um buraco no chão para assar a melhor costela bovina que eu provei.

Nicole abraçava Thiago, irmão de Vitinho que parecia a sua cópia mais nova. Fomos apresentados, mas o caçula foi menos caloroso que o primogênito na noite anterior. Eu fui até as panelas de barro onde eles estavam fazendo o chá e dei uma olhada. Fiquei chocado que eu estava cogitando colocar aquilo dentro do meu corpo. O cheiro nem era dos piores, mas o aspecto marrom:

- Parece caldo de fralda de neném. – eu imaginava porque tinha cortado meio Brasil para comer um escroto bovino e beber merda de neném. Vitinho respondeu com uma risada:

- Pois é, Tchê. A visão não é dos melhores. Mas as conseqüências... – eu levantei a sobrancelha e completei:

– É o meia-nove das drogas então.... – nós dois rimos e eu parti para tomar o café. A Ruiva comia freneticamente. Eu não sabia se aquilo era ansiedade ou ela apenas estava forrando o estômago para caso não se desse bem com os culhões bovinos. Mesmo com apenas nós quatro dentro daquela cozinha, comecei a me sentir bem. Em um clima descontraído e familiar. Isso me remeteu a minha casa. Decidi ligar para lá antes de endoidar. Imagina, conversar com a minha mãe translocado de cogumelo. Percebi que em nenhum momento a Ruiva tinha telefonado para a sua melhor amiga:

- Você não vai ligar para sua mãe hoje, Nic? – ela nem desviou o olhar do segundo sanduíche que devorava e no seu mau humor matutino típico respondeu:

- Ela está viajando. Não tenho como falar com ela. – eu não disse mais nada, pois ali estava um terreno perigoso. A mãe de Nicole tinha arrumado um novo namorado e a Ruiva não aceitava muito bem aquela situação. Continuamos o café com os comentários de Vitinho sobre as propriedades mágicas dos cogumelos. Acredito que o vapor do chá causava algum efeito no rapaz. Quando terminamos, Nicole decidiu ir até a piscina pegar sol e eu disse que mais tarde a alcançaria.

Segui até a Millenium Falcon. Fiquei impressionado como no sul podia fazer um dia quente como aquele. O carro estava pegando fogo e eu comecei a soar no esforço de abrir a maçaneta interna para pegar o bagulho. Olhei para aquelas dolas de maconha e pensei, “por que não?”. Seria uma bela maneira de começar o dia. Podia multiplicar aquela sensação boa que estava sentindo e provavelmente nada de mal me aconteceria quando fosse beber o chá de merda.

Fui até a suíte presidencial e apertei um fininho. Fiquei deitado na cama curtindo o bagulho. Minha mente começou a devagar. Pensei na estrada e em Nicole. Comecei a me perguntar se ela me amava. Se amava, porque não verbalizava aquilo? Eu não sabia. Nicole, a louca. A brisa batia trazendo uma alegria suave no meu corpo. Às vezes, eu até ria sozinho. Era o estado mental que eu procurava. Comecei a verbalizar para aquele momento ficar gravado e me guiar durante o dia.

- Está tudo bem, você não vai se arrepender. - dizem que algumas pessoas não voltam da onda de cogumelo. Mas eu não queria saber.

- Está tudo bem, você não vai se arrepender. – falei mais alto. E ri. Estava perfeito. Olhei para o bagulho e ainda tinha uma boa baga. Apaguei e guardei a ponta dento do meu Marlboro. Aproveitei aquela onda boa e liguei para casa.

Minha mãe seguiu o seu repertório de “está tudo bem, toma cuidado, não vai beber muito” e outras coisas mais. Mas foi o que ela disse no final que me marcou:

- Eu te amo, filho. Eu te amo muito. – respondi um sem graça “eu também” e desligamos. As mães sempre falam que amam os filhos, mas o tom que ela usou, a maneira que ela disse aquilo me afetou. Será que dentro do seu coração de mãe ela sentia que algo de mal iria ocorrer comigo? Será que ela percebeu que eu estava chapado e ficou preocupada? Por que aquele complemento “eu te amo muito”? Eu não sabia. Decidi não pensar naquilo. Segui para a piscina.

Finalmente a imagem que eu tinha pintado durante toda a viagem começou a virar real. Ao som de um leve Pearl Jam, as pessoas riam e brincavam na área da piscina. Deviam ter umas vinte pessoas entre mulheres e homens. Alguns na água, outros na sala de jogos, outros tomando sol. Todos bem simpáticos e sorridentes. Eu e Nicole éramos tratados como duas estrelas. Eles faziam questão de nos deixar bem à vontade e nos servir de tudo.

- Segura uma latinha aí, Carioca. – um dos rapazes me abasteceu. Nicole conversava com umas meninas a beira da piscina. Se eu não tivesse apaixonado pela Ruiva provavelmente me apaixonaria por todas aquelas mulheres. Foram fazendo o tour comigo. Conheci a churrasqueira e a aquela casa de jogos por dentro. Depois fomos a sauna e por último ao quiosque do lago. Aquela fazenda era fantástica. Meu guia, Jonas um gaúcho de corpo atlético e com um cavanhaque estilo latino, então disse:

- Acho que os testículos acabaram de chegar. – eu olhei e uma rapaziada trazia as bolas bovinas dentro de vasilhas. Aproximei-me e fiquei impressionado com a quantidade. Aqueles caras deviam estar desde cedo arrancando colhões. Eu não sei se meu psicológico estava fraco depois do papo com a minha mãe, mas comecei a sentir o meu saco gelado. E se os gaúchos, doidos com chá de cogumelo, decidissem comer testículos cariocas? Deus me livre. A galera estava empolgada. As bolas estavam cirurgicamente limpas e foram direto para a brasa.

- Agora é só esperar. – disse um. Foi o que fizemos.

Enquanto as bolas assavam, eles serviam picanha, frango, lingüiça como em um churrasco normal. Segui me enturmando. Nicole se destacou com uma galera que foi fumar um baseado no lago. Decidi ficar apenas na cerveja. Já tinha queimado o meu. Ficaria tranquilamente esperando o grande momento.

O tempo passou rápido. Quando eu percebi fiquei diante de um grande culhão bovino. A galera fez uma onda. Todo mundo ficou a minha volta, tiraram foto e uma rodinha de aposta se eu iria vomitar antes da segunda garfada. Não comentei porque era uma observação homossexual, mas confesso que era um prato suculento de se ver. Sempre fui bom de garfo e não pestanejei. Cortei aquela bola e comecei a saboreá-la ao som de “ai, que nojo” da Ruiva. A galera gritando e rindo da minha cara. Estavam esperando a minha reação.

Muitos acreditam que as bolas do boi é um prato nojento. Outros dizem que é uma das coisas mais gostosa que já provaram. Eu sou o único cara que conheço que acho um prato normal. É uma carne macia e saborosa, mas nada espetacular. A costela do buraco que eu provei antes era sim algo que valeria a pena ter um dia só para ela. Não queria ser mal educado diante de tanta cerimônia. Aquele dia do ano era especial para aquele pessoal. Os gaúchos eram apaixonados pelas bolas. Então, eu sorri simpaticamente e disse:

- Ma-ra-vi-lho-so! Nunca provei algo tão sensacional. Valeu à pena a viagem! – distribuí várias caras falsas de felicidade e todos ficaram contentes. Depois disso foi a vez de Nicole. Ela tirou um lasco da minha bola (não a minha, a do boi que eu estava comendo, lógico) e provou do mesmo jeito se tivesse comendo esterco. Ela mastigou lentamente e disse:

- Até que não é ruim. – mas quando alguém ofereceu uma bola inteira ela agradeceu e fugiu de fininho. O churrasco seguiu com a gauchada com as bolas na boca.

O plano de Vitinho era bem esperto. Dava para perceber que ele era o “papa dos cogumelos”. Depois dele só conheci um cara que idolatra ainda mais o chá mágico. O cantor Ventania. O gaúcho sabia que aquele era um alucinógeno fortíssimo, então forrava a barriga da malucada antes do grande evento. Se tomar aquele negócio já não era uma atitude das mais espertas, beber de estômago vazio poderia ser considerado uma tentativa de suicídio.

A seqüência gastronômica foi bem regulada. Café da manhã com presuntos, queijos e tudo mais. Depois um franguinho e lingüiça. Depois a picanha e o coração. Na seqüência a maravilhosa costela. Logo em seguida as bolas e, finalmente o momento que todos esperavam: chá de cogumelos para a sobremesa.

Foram servidos os copos. Tinha uma galera rindo antes mesmo de beber. Eu comecei a imaginar todo aquele pessoal bem doido daqui a meia hora. Dizem que muitas pessoas vomitam depois de tomar o chá. Eu queria estar bem doido para não acompanhar algum show dantesco de nojeira. Uns queimavam uma erva enquanto bebiam o troço. Outros pareciam bem bêbados. O único que parecia preocupado era eu. A Ruiva, alegre e excitada, estava abraçada comigo. Quando nossos copos chegaram, ela sugeriu um brinde:

- Ao pacto! – eu sorri de volta e confirmei:

- Ao pacto! – comecei a beber. O gosto não era ruim. Dava para perceber que Vitinho havia misturado alguma coisa doce, talvez para melhorar o paladar. Não me importava, eu comecei a beber a coisa devagar. Alguns pirados viraram o copo de uma só vez. Eu apreciava e queria curtir aquele momento. Nicole me disse baixinho que queria curtir aquela onda sozinha, no meio da natureza e partiu para a fonte com peixes perto da casa. Eu continuei por ali e terminei meu chá. Esperava a onda bater. Alguns loucos diziam que estavam sentindo algo, mas eu achava que era invenção.

Decidi que iria me afastar dali. Não queria curtir uma onda de adolescentes rindo e falando bobeiras. Da mesma forma que Nicole, eu procurava uma experiência pessoal mais profunda. Percebi que o quiosque estava vazio e comecei a caminhar para lá. Ali parecia um lugar tranqüilo para sentar e viajar em paz enquanto observava o lago. Fui caminhando e aos poucos fui percebendo que o lugar era maior do que eu tinha notado. As madeiras que formavam o quiosque pareciam mais firmes, vivas, chegavam a refletir a luz do sol. Mesmo as que estavam na sombra. Achei aquilo magnífico, então, sentei no chão, fechei os olhos e percebi que na verdade a onda estava começando. Lentamente abri os olhos e mirei o lago brilhando na minha frente. A sensação era maravilhosa e indescritível. Comecei a imaginar o quanto àquela onda iria durar e o pensamento de “não voltar” nem parecia tão ruim. Estava convicto que o certo seria enxergar a vida através daquela ótica. Eu enxergava o brio dos meus olhos como o sol que queimava aquele lugar no fim da tarde. Era um mundo extraordinário. De tanto forçar a minha mente, captei as melhores vibrações que eu poderia. Eu podia deixar para trás a minha insegurança com Nicole, a influência que minha mãe tinha sobre mim, o meu ciúme de Luther ou toda a minha raiva contra um monte de coisas. Eu poderia ser uma pessoa mais feliz enquanto prolongasse aquela onda. A sensação de conhecimento me tornava um ser absoluto e isso para mim duraria por toda a eternidade.

Isso tudo, é claro, se aquele morto não tivesse aparecido para conversar comigo.

No próximo capítulo: I See Dead Peolpe!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Comentários

Galera,

tive que sacrificar os comentários do post abaixo e de todos os outros para acabar com um problema que os usuários do Internet Explorer estavam encontrando para acessar o blog.

O problema estava relacionado ao código do Intense Debate que foi sumáriamente limado daqui.

Acho que está tudo resolvido, se alguém continuar tendo problemas, não deixem de me enviar um e-mail. (Não sei como, pois se tiver problemas não vai estar lendo isso, mas tudo bem)...

abs

Grandes Novidades

Fala ai, Fiel Leitor! Como você está? Tudo bem? Puto com a minha ausência? Pois bem, não deveria.

Quem me segue há muito tempo, e sei que tem gente que está por aqui desde as primeiras letrinhas, sabe que sou dado a esses sumiços. De vez em quando tenho uma crise criativa ou fico muito absorvido pelo trabalho cotidiano e acabo sem tempo para criar.

Quando o dito popular fala que "Mente vazia é a oficina do Diabo" acredito que não é uma sabedoria propriamente popular e sim burguesa. Geralmente os detentores do poder não querem nós pensando. Se pensamos, começamos a teorizar e daí vem o questionamento. Se pensamos, começamos a criar e transformar o mundo que está muito bom para eles dessa forma. Então, criatividade para eles é uma merda a não ser que seja usada para vender uma nova porcaria no mercado.

Mas deixando a minha vã filosofia de lado, eu não estou sofrendo nenhuma crise criativa ou estou absorvido pelo trabalho moroso do dia-a-dia. Pelo contrário, esse ano está começando de uma forma muito positiva e agora chegou o tempo de dividir certas informações com você.

Nesse tempo, finalizei o meu primeiro romance. Opa, não precisa ficar muito curioso pois certamente você já leu boa parte dele. É uma união dos dois primeiros arcos do ANO I com algumas mudanças substanciais. Reescrevi praticamente tudo dos dois Arcos e acredite, esse é um trabalho dificílimo. Descobri que reescrever é mais difícil de escrever. Quando escrevi, e tudo que escrevo aqui no blog é assim, fiz de coração. Indo fundo na alma e encontrando o que eu queria realmente revelar. Quando você formata isso em um romance, é claro que você não pode perder essa essência, mas você tem que dar o valor literário correto para cada passagem, aperfeiçoando as nuances. Acredito que no blog está o diamante bruto e no romance ele está lapidado e sei que será uma experiência nova, curiosa e divertida para você, leitor fiel, e para todos que tiveram algum contato com os arcos, quando essa obra for publicada.

Além disso, metralhei bastante as teclas e devo dizer que o Arco III está muito adiantado. Está sendo a maior experiência literária da minha vida colocar essas coisas no papel, desde que comecei a escrever. Acabo encontrando emoções que há muito estavam enterradas e normalmente quando termino uma passagem, eu me sinto esgotado. As vezes, gargalho sozinho relembrando certas coisas e me divertindo com o trabalho. Outras, fico tão deprimido que penso em até desistir. É certamente uma montanha-russa de sentimentos, e no final vejo que escrever é uma coisa muito egocêntrica e masoquista.

Isso tudo toma meu tempo sem falar dos shows do Iron e do Kiss que me esgotaram fisicamente. Mas isso é outra história.

Mas aconteceu uma coisa, que também tomou bastante o meu tempo, mas sei que vai deixá-lo tão feliz como me deixou. É o porquê de tudo. Além de tentar acalmar um monstro que me consumia, foi a grande razão de começar a escrever isso aqui há uns quatro anos atrás. Sofri e rebati críticas. Cometi vários erros no caminho e magoei pessoas. O Ministério Público bloqueou o meu blog, mas não desisti. Montei esse novo aqui, continuei metralhando as teclas, conhecendo gente, colecionando admiradores e, sobretudo, fazendo amigos. Persegui essa meta o tempo todo e apesar de alguns tempos difíceis, não desisti. Tomei mais “nãos” que um gordinho em uma boate, e inclusive engordei bastante nesse caminho, até encontrar um sim. E agora que ele chegou, eu posso dizer que tudo valeu a pena.

Sim, fiel leitor, eu irei publicar o meu primeiro livro.

Estou tão irradiante como uma criança com a primeira bicicleta, um jovem com a primeira transa ou um político com o seu primeiro milhão desviado. E mais uma vez eu só posso agradecer você, fiel leitor, que vem me apoiando, me motivando e, porque não dizer, me mimando há tanto tempo.

E o caminho foi difícil. Descobri que é muito difícil o autor publicar o primeiro livro. Mais difícil ainda se for de contos. Os editores em geral não dão valor literário a isso e muitos nem publicam. Outros negavam sem mesmo ler, muitos nem dão resposta. Ainda bem que o pior já passou.

Bem, acho que isso explica porque o marcador “contos proibidos” está esvaziado no menu ao lado. Nesse tempo que fiquei sem escrever aqui, eu estava repassando os contos, selecionando, reescrevendo alguns, escrevendo outros, fazendo textos complementares e outras coisas e acho que esse é um motivo muito justo para o sumiço.

É claro que tudo é muito recente e não tenho datas ou outras informações para passar além de avisar que teremos um lançamento aqui no Rio. Será a oportunidade para o pessoal além de comprar o livro, conhecer o verdadeiro Vic. Inclusive, matarei a curiosidade boba de muitos, assinando o livro com o meu nome. Isso é o que menos importa, o que vale é que o contrato foi assinado. O livro está em processo de edição e a parte mais demorada, a revisão, já foi realizada.

Acho que é isso. Mais uma vez agradeço você, Fiel leitor, e garanto que farei uma homenagem especial na obra a ser lançada.


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