segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fatalidade

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 8

A História até agora: Vic conta a Lucas a viagem de Nicole pensando que isso iria tirar a vontade do amigo de experimentar os cogumelos. Porém o tiro saiu pela culatra. Se você ainda não leu os capítulos anteriores, visite o menu ao lado.

Sugestão de música: Body Count - Evil Dick

- Quer dizer que você broxou, man? – o Gordo me perguntou não exatamente depois que eu terminei o relato, mas quando ele parou de rir.

- Lucas, fala baixo. Nós estamos em público. – apesar do avançar da hora, nunca é seguro você dizer certas coisas alto. É a ironia da vida, depois de certa quantidade de álcool, você consegue até sexo com uma mulher que nunca te deu bola, mas é impossível você fazer o seu amigo falar baixo.

- Foi mal, pau-molão. –
Eu sabia que não deveria ter dito nada. Estava tentando dissuadi-lo de usar o chá de cogumelos, então chegamos a isso: a minha ridicularização pública.

- Eu não broxei. Isso não é broxar. Pelo amor de Deus, fala baixo. – eu olhava para um lado e para o outro procurando quem podia estar escutando aquilo. Por sorte, tinha apenas uma mesa no fundo do bar. Uma turma de garotos comemorando alguma coisa. Talvez sua virilidade inabalável.

- Para mim isso é broxar. Você está no chuveiro com mais duas mulheres se agarrando e nega fogo. Desculpa, Vic. Estou olhando aqui no meu livro e isso é broxar feio. – depois da história, Lucas mantinha um sorriso permanente em seu rosto. Eu jurei que não contaria aquilo a ninguém. O que a angustia de um fantasma suicida e umas garrafas de cerveja não fazem? Desnecessariamente eu tinha mais um problema para resolver, recuperar a minha reputação masculina diante o meu amigo:

- Tecnicamente, isso não é broxar. Você só pode broxar quando está consciente do fato e não consegue ir adiante. Eu não sabia de nada. Eu nem lembro disso. Só descobri tudo porque Nicole me contou na viagem de volta ao Rio. – era uma boa linha de argumentação. Coerente, factível, cientifica e inútil quando o seu amigo está disposto a te sacanear.

- Bullshit! Para mim isso é uma conversa mole igual ao seu pau...

- Lucas, você é o pior amigo que alguém pode pedir e eu estou extremamente arrependido de confidenciar essa história. – onde a razão falha, o sentimentalismo há de vencer. Eu não podia culpar o Gordo. O que eu faria se os papéis fossem inversos? Com certeza ele sofreria muito na minha mão.

- Ok, man! Eu estou de zoeira. Mas uma coisa você não quer notar. – ele dizia em um tom sério e eu achei que tinha escapado das brincadeiras.

- O que?

- Essa sua broxada... – impossível. Aquilo iria me perseguir para o resto da minha vida.

- Não foi broxada. Eu estava doidão, tinha acabado de conversar com um defunto e nem tinha consciência do que estava acontecendo. Se eu encontrar a Nicole agora e não conseguir transar com ela, isso é uma broxada clássica. O que aconteceu foi apenas...uma...fatalidade. – eu sabia que poderíamos ficar ali a noite toda e não sairíamos do lugar. Era a vingança final do gordo sobre o magro. É o mito que construímos nas pessoas que não tem os nossos defeitos. Criamos teorias para sentirmos bem. Você escuta isso o tempo todo. Ela é loira, mas é burra. Ele é forte, mas tem o pau pequeno. Ela é rica, mas é fútil. Ele tem uma namorada bissexual, mas é broxa.

- Eu sei Maria Mole, mas o que eu quero perguntar é se você pensou que essa sua broxada....

- Fatalidade. Vamos chamar de fatalidade.

- Ok, Vic. Essa sua “fatalidade” – ele fez o sinalzinho das aspas quando pronunciou fatalidade de forma irônica – pode levar Nicole a concluir que você não funciona com duas mulheres. Certamente você desperdiçou a chance de ouro de realizar a fantasia masculina mais clássica do mundo. - fiz uma longa pausa tentando inutilmente expulsar aquilo da minha cabeça. Tenho uma namorada que não me ama, sou assombrado pelo fantasma do meu sogro suicida, broxo aos dezenove anos e vou morrer sem nunca ter experimentado uma suruba. Se alguém decidisse limpar a minha aura, teria que usar um aspirador industrial.

- Gordo, te procurei para tentar me animar, mas agora estou cogitando seguir os passos do meu sogro. – Lucas apenas sorriu e completou:

- Mas o Umiverso te ama, seu broxa. – eu fiquei apenas com o sorriso amarelo sem graça. Quanto mais eu cavava a viagem de cogumelos, mais eu me arrependia. Eu não disse ao Lucas, mas uma coisa me incomodava mais do que não realizar os sonhos eróticos de suruba. Nicole amando o universo, amando Anita, amando até a porra da grama que ela vomitou, mas não podia dizer isso para mim. Nem uma viagem profunda de cogumelos venenosos quebrava as barreiras daquela Ruiva. Isso era mais torturante do que saber da broxada, digo, da fatalidade. Lucas tinha esquecido da minha conversa com o morto e agora só pensava na minha namorada transando com outra mulher: - Como alguém fica pelado com duas lindas mulheres em um chuveiro e não se lembra de nada? Nem quando você fecha os olhos e pensa forte sobre isso, nada vem na sua cabeça?

- Nada, Gordo. – eu mantinha o sorriso amarelo.

- Nem um peitinho? – ele forçou.

- Não.

- Uma bunda? Uma bandinha balançando?

- Geralmente quando eu fecho os olhos, a única coisa que eu consigo lembrar é do Pai da Nicole e seu crânio aberto. – nem invocando essa imagem macabra cortou a disposição de Lucas:

- Lá vem você com esse papo broxa-gótico. Talvez fosse sobre a morte do seu pau que o Guilherme tentava te alertar. Think about it! – ele brincou, mas a minha disposição parar rir me escapou.

- Muito engraçado, Gordo. Acho que vou morrer agora mesmo de tanto rir. – queria fugir dali. Gostaria de ter a máquina do tempo do McFly. Eu poderia me avisar que às vezes o mais inteligente é ser medroso e não levar adiante planos imbecis como pactos inúteis de se drogar. Inclusive, essa é a mensagem no final da trilogia “De Volta para o Futuro”. Muitas vezes é mais esperto ser covarde. Lucas seguiu com seu interrogatório:

- Ok. Esquece isso. Vamos nos concentrar no dia seguinte. Onde você acordou?

- Pelado no meio do banheiro.

- Anita ainda estava no quarto?

- Não, só Nicole. – até mesmo relembrar esses momentos era difícil. O dia seguinte da experiência com cogumelos era uma lembrança torturante e nebulosa dentro da minha mente.

- Você não lembrava de nada?

- Já disse, Gordo. Eu não lembro de nada.

- Um mamilo talvez...

- Não, Lucas! Porra. – eu disse dando um soco na mesa. O Gordo recuou um pouco, mas não parou com o inquérito.

- Calma! Só para ter certeza. Quem sabe eu falando a memória retorna. – ele deu tempo para eu recuperar o fôlego. Como naqueles interrogatórios que o carrasco permite o condenado respirar antes de voltar a enfiar a sua cabeça no vaso sanitário. Depois, voltou a me afogar: - Você encontrou com Anita depois disso?

- Sim, durante o dia.

- Ela não disse nada?

- Só as coisas básicas. Disse que eu fiquei muito mal conversando com os postes do quiosque e fumando cigarro com ele. Eles encontraram um monte de Marlboros no chão e eu fui alvo de gozações. – obviamente, eu não contei sobre a minha conversa com Guilherme e deixei eles me zoarem. Essa é a melhor tática quando você quer esconder a verdade, deixar que as pessoas pensem a coisa mais ridícula sobre você. Como você não se defende, automaticamente eles assumem que aquela é a pura verdade.

- Ela não falou nada sobre você, Nicole e ela no quarto?

- Nadinha. Nenhum comentário.

- E com Nicole? Ela a tratou normalmente? – nesse momento comecei a revirar a memória e repassar todos os momentos do dia seguinte. Eu não me lembrei de nenhum pequeno episódio onde as duas demonstraram qualquer intimidade. As mulheres são ótimas para esconder os seus esqueletos no armário.

- Sim, normalmente. Nicole também foi alvo das gozações. Por mais que ela tentasse explicar a sua versão mística da história, ela saiu como a doida esotérica que nadou com os peixes na fonte. Ganhou até um apelido. Aquawoman. – nessa hora eu esbocei um sorriso. Lucas se calou chateado. Ele não poderia admitir que eu tivesse chegado tão perto do paraíso e não lembrasse nem da cara do anjo na portaria.

- Mesmo depois que Nicole te contou toda a história, nothing?

- Bem, eu fiquei puto e excitado. – Lucas deu um saltinho da cadeira.

- Você ficou excitado? – ele arregalou os olhos e ponderou. - Bem, isso é um alívio, quer dizer que ele ainda está vivo. – disse brincando.

- É claro que ele está vivo. Quer ver? – Lucas dispensou a demonstração e deu fim ao interrogatório. Pedimos as saideiras e seguimos bebendo calados. Realmente é estranho você passar por uma situação dessas e não lembrar de nada.

De certa forma, comecei a achar que até tive sorte. Pelo menos foram duas mulheres que me resgataram da doideira. Se fossem dois homens, eu poderia estar ali sentado tentando explicar uma sodomia. Provavelmente eu não estaria sentado. Certamente não estaria contando. De qualquer forma, eu tinha que saber se eu consegui o meu objetivo contando aquela história para o Lucas. Depois de tanta zoação, eu torcia para que tivesse valido a pena.

- Então, Gordo? Ainda está disposto a experimentar o chá mágico? – eu perguntei com um sorriso no canto da boca. Ele ponderou bastante e concluiu:

- Eu acredito muito no poder da mente. Tenho certeza que o seu encontro com o pai da Nicole não passou de uma criação do seu cérebro para você se sentir melhor.

- Mas o que isso tem haver com...

- Me deixa terminar. Dizem que você pode não voltar de uma viagem de cogumelos. Eu estou tão impressionado com a sua história, com o fato de você ter broxado e não lembrar nem de um mamilo. A resposta é sim, agora eu estou com medo.

- É? – eu perguntei um pouco animado. De um jeito ou de outro, a minha história vergonhosa acabou servindo para algo.

- Sim. Medo de eu broxar tão feio como você broxou, e pior, não conseguir voltar. Qualquer um que escutar a sua história vai ter o mesmo pavor. Porque essa imagem ficou gravada na mente, e sabendo do infinito poder do subconsciente, eu vou acabar seguindo os seus passos e fatalmente broxando. – dessa vez fui eu que comecei a rir. Ele sorriu de volta, mas a sua cara era de preocupado. - Imagina! Broxar e não voltar da viagem de cogumelos. Eu posso até conviver com o fato de ser maluco, mas nunca mais poder dar uma bimbada? Esse é o maior pesadelo de qualquer homem.

Era a mesma coisa que dizer alguém para fechar os olhos e tentar com todas as suas forças não imaginar, por uns dez segundos, um urso polar tomando uma Coca-cola. Impossível. Por mais que você tente aqueles pelos brancos e macios vão tomando forma na sua mente. Aquele urso com cara amigável vai colocando a mão na garrafa, toma um longo e delicioso gole e manda aquele sorriso companheiro mostrando o refrigerante. O logo vermelho pula do seu cérebro e fica piscando na frente dos seus olhos. Por mais que você tente, você não consegue escapar. Lucas sabia que se um dia tomasse chá de cogumelos, ao mesmo tempo em que o líquido descesse pela sua garganta, ele iniciaria uma batalha com a sua mente para não passar pelo que eu passei. Mas antes que percebesse, um urso polar broxa iria aparecer. Estava amaldiçoado. Mesmo que nunca experimentasse o tal chá, apenas a menção da palavra cogumelos faria correr um frio pelo seu corpo chegando até a sua virilha. O objetivo estava cumprido.

- Depois dessa, com certeza você e Nicole cancelaram o pacto. – ele disse de forma absoluta. Eu sorri e respondi:

- O trato está mais de pé do que nunca. Amanhã partiremos para a segunda etapa.

- Segunda etapa?

- Bolinhas. – ele virou o resto da cerveja e se levantou de uma só vez. Eu fiz o mesmo. Tínhamos fechado a conta. Ele partiu na frente e balançando a cabeça e eu o segui.

- Vocês são malucos. Onde isso vai parar, Vic? Daqui a pouco vocês vão tomar pico na veia, cheirar cola em sinal, roubar para sustentar o vício. – então, eu complementei:

- Ou morrendo. Não tem como fugir do seu destino. Se isso vai acontecer, de uma forma ou de outra, porque não curtir o pouco da vida que me resta?

- Você não vai curtir. Você vai acelerar o processo. Isso é insano. Quando vocês vão parar?– o maior maconheiro que conheci tentando me convencer dos maléficos das drogas. Estranhamente eu ficava mais tranqüilo em experimentar as anfetaminas do que estava antes de tomar o chá de cogumelos. Acreditava que alguns estimulantes me ajudariam a lidar com o meu estado depressivo. Poderia acelerar o meu cérebro a encontrar uma resposta criativa para tudo aquilo. Além disso, alguns momentos de euforia cairiam como uma luva.

- Nós vamos parar quando acharmos que é a hora. – eu disse encerrando aquele papo. Não precisava de conselhos moralistas. A única coisa que eu queria era viver momentos bons. Queria que a minha namorada me amasse com a mesma intensidade que eu a amava e queria esquecer as palavras daquele fantasma.

Seguimos andando por uma Botafogo ainda acordada. Às vezes eu achava que as noites de sexta ainda eram mais agitadas que as de Sábado. Provavelmente as pessoas tem grande necessidade de aliviar a tensão da semana. Os carros continuavam a descer a Voluntários da Pátria e a todo o momento grupo de jovens bêbados passavam por nós dois. Era a Botafogo dos Malditos.

- Tem uma coisa que eu queria falar com você.... – demorou umas duas quadras para Lucas finalmente se abrir. Ele estava com algo engasgado, mas o me relato fantástico não deu espaço para que ele pudesse falar.

- Se for para falar sobre a “fatalidade”, esquece. – eu disse.

- Fuck you, man! Não tem nada haver com a sua broxada! Não sei se você notou, Vic, mas nem tudo que acontece no mundo tem haver com você. – ele disse raivoso. Eu baixei a cabeça e me desculpei:

- Foi mal, Lucas. Eu sei que dominei a noite com o meu papo sobre cogumelos, fantasmas e lésbicas e nem dei chance de você falar. – ele me olhou e eu continuei de cabeça baixa.

- Whatever. O lance é o seguinte... – ele hesitou um instante, ponderou suas palavras e disse – Meu namoro com a Wendy está meio mal das pernas. – O Gordo tendia a fazer um grande drama em tudo que se relacionava a Wendy. Ele nunca me disse, mas acho que ela era a sua grande primeira namorada. Talvez a sua primeira garota.

- Por que você acha isso? –

- Ah, man! Tanta coisa. Ela tem ficado cada vez mais fria e cada vez mais distante. Hoje eu me sinto mais afastado dela do que antes de começarmos a namorar, quando éramos apenas amigos. – Lucas era apaixonado por Wendy quando eu o conheci, mas nunca teve coragem de se declarar. Fiz a cabeça dele para deixar o medo de lado e se declarar para a magrela. Foi o que fez e conseguiu o que tanto desejava e de certa forma esse foi o estopim para a nossa amizade.

- Garotas são assim mesmo, Gordo. As vezes elas ficam estranhas, introspectivas e questionam tudo. Deve ser só uma fase. Tente ser mais paciente e mais romântico com ela. – Por ser gordo e ela magra, Lucas tinha muita insegurança quanto ao seu namoro. Tendia a ser muito ciumento e qualquer pequeno acontecimento para ele era um turbilhão de emoções. Ele a amava, mas seu medo de perde-la não era apenas isso. Acredito que ele achava que se o namoro terminasse, ele nunca mais conseguiria uma mulher tão bonita como Wendy. Ele nem se importava em engolir alguns sapos se fosse para manter o seu relacionamento.

- Mas não é simples assim, Vic. Eu estou começando a desconfiar que ela esta saindo com alguém. – eu olhei para ele que balançou a cabeça positivamente confirmando o que acabara de dizer. Ele acreditava naquilo, não era apenas um ciúmes bobo.

- O que ela fez que desapertou a sua desconfiança?

- Coisas bobas. Antigamente eu ligava para ela em certas horas e sempre conseguia falar com ela, agora geralmente seu telefone está ocupado. É um telefone só dela, que fica no quarto dela e só ela usa. Ela sempre dá uma desculpa que estava falando com uma amiga, mas eu sinto que é mentira.

- Mas pode ser verdade...

- Então, ela começou a fazer uns programas alternativos no horário em que eu estou trabalhando na locadora. Uma hora ela diz que foi no cinema com as amigas, outra hora que foi ao shopping e até visitar uma prima que eu nunca ouvi falar ela já disse que foi. – ele parou e viu que eu estava ponderando que tudo aquilo poderia ser verdade e a sua paranóia era apenas insegurança. Para matar esse pensamento, ele complementou. – Mas quando eu confronto com detalhes, ela sempre se enrola. Ela diz que foi ver um filme, mas não fala nada além do óbvio sobre o filme. Ela vai ao shopping mas não conta nenhuma situação, comentário ou qualquer coisa que tenha acontecido lá. Diz que visitou a prima, mas vacila quando eu perguntei onde a prima mora. Saca?

- É fogo, Lucas. Eu entendo que tudo isso pode fazer você pensar besteira, mas nada disso prova coisa alguma. Obviamente eu conheço a Wendy menos que você, mas ela é uma garota pacata e não me parece do tipo que traí o namorado. Ela parece mais aquela garota que se apaixonar por outro homem vai imediatamente terminar com o namorado. Ela falou alguma coisa em terminar o namoro?

- Não. Mas ela não está... como eu vou dizer... ela não esta mais tão fogosa como éramos no inicio de namoro. Antes eu achei que fosse normal, uma esfriada naquele tesão todo de casal recém formado. Mas agora já estou começando a achar que ela esta me evitando.

- Isso é mal.

- Pois é. E tem mais. Agora nas festas que vamos, nunca ficamos sozinhos. Ela sempre leva uma ou duas amigas. Ou encontra com elas lá. Essas coisas. – uma coisa passou na minha cabeça. Não sabia se Lucas iria pensar que eu estava fazendo uma piada, mas eu tinha que dizer de qualquer forma.
- Será que ela faz parte do Umiverso? – ele parou e começou a me olhar seriamente. Percebeu que eu não estava brincando e começou a processar a informação.

- A Wendy com outra garota? Acho que não. – ele respirou e soltou – Fica entre nós, mas ela tem uma certa ressalva com a Nicole por ela ser bissexual. Ela é preconceituosa nesse ponto, acha que as pessoas que são assim, não são por conta da natureza e sim por uma falha de caráter.

- Por safadeza. – eu complementei.

- Exatamente. Ela acha que todo homossexual é na verdade um devasso.

- A Wendy não é um S do GLS, então. Para ela as bichas estão proibidas na Terra do Nunca! – eu disse cortando o gelo. O Gordo se animou:

- O que é uma contradição, não é? Existe coisa mais viada do que o Peter Pam?

- Eu acho até a Sininho Viado, nem fale do Peter Pam! – nós dois rimos. Eu fiquei um pouco chocado. Os roqueiros sempre foram bem tolerantes e defensores do pensamento livre. A mulher aceitava muito bem o namorado maconheiro e seus amigos drogados, mas não aceitava o homossexualismo.

- Bem, dizem que quem desdenha quer comprar. Talvez ela esteja se descobrindo agora e ainda não se assumiu. – O Gordo pensou um pouco sobre o assunto. Já estávamos parado na frente de seu prédio e agora conversávamos encostados na grade.

- Talvez, man. Mas eu não acredito muito nisso. Ainda acho que ela conheceu alguém. Sei lá. Estou muito inseguro.

- Por que você não joga limpo com ela? Sem brigar ou sem ser raivoso. Se essa for a verdade, com certeza ela vai se abrir. – ele pensou mais um pouco.

- Acho que eu posso fazer isso... Só não garanto o lance de não ficar com raiva. Se ela estiver me traindo....

- O que você vai fazer? Tu não pode fazer nada... Se for o caso é até melhor você saber logo para não ficar fazendo papel de babaca. Se não for o caso, você tira esse peso da cabeça e tenta ser mais romântico, mais atencioso para reconquistar a garota de volta. – Lucas ficou processando aquilo.

- Falar é fácil, Vic. So Easy! Quando estamos de fora, tudo parece muito simples. Mas as coisas são mais complicadas do que parecem.

- Eu sei disso, Lucas. Eu sei muito bem disso. Mas o que eu posso fazer? Eu sou seu amigo e tenho que dizer o obvio para você. Assim como você fez comigo com o lance do fantasma.

- Não é um fantasma, Vic! Aquilo foi uma viagem sua!

- Falar é fácil, Gordo! – nós rimos e nos despedimos. O Gordo foi ruminar os seus pensamentos quanto a possível traição de sua namorada e eu segui para casa sem saber da pequena crise familiar que minha mãe iria criar no dia seguinte.

no próximo capítulo: Sagrada Família

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ODE A CHARLES BRONSON

Nas minhas andanças pelo mundo, acabei esbarrando com meu amigo de fé , irmão, camarada Vinicius Trindade, vulgo Bito.

Ele é o maior e melhor poeta que eu já conheci. Não porque ele é meu camarada mas sua obra é tão suja, escrota, honesta e linda como a minha. O que eu escrevo em prosa, o Bito consegue reproduzir em poesia.

Não foi a toa que eu o chamei para fazer a revisão do meu livro "Comédia da Vida Fumada". E depois de conhecer a fundo seu trabalho, convidei o poeta a escrever a orelha do meu livro.

O Julgamento eu deixo para vocês mesmos. Apreciem a obra do poeta e visitem o seu blog. Caso alguém tenha alguma critica, meu e-mail está a disposição.


Em Breve estarei publicando a capa do meu livro.

Abraço pessoal!


ODE A CHARLES BRONSON

anjo de bigode
andavas por aí
com sua Colt 45
vingando suas viúvas
vencendo duras lutas
contra a máfia da cocaína
ameaça latina
que sem ti
voltará a brilhar
num policial noir

anjo de bigode
fez dos domingos, maiores
foi duro com justeza
aniquilou a máfia chinesa
fez mais bela a beleza
de acabar com quem merece
pois quem o Mal faz,
vive em paz
mas quem ama a Lei
não a esquece

agora que você se foi
sentirei sua falta
assistirei com revolta
o crime compensar
nas telas de cinema
ou verei, quem sabe,
o Mal ser combatido
por mocinhos sem estilo
bem nascidos, cara limpa
sem bigode, sem trejeito
que até sabem atirar
mas não matam com a ternura
que só você soube matar

morreste de pneumonia
doença vilã
mas deixaste a poesia
dos teus mais justos tiros
cravada para sempre
na alma deste teu fã

(escrito no dia da morte do Charles Bronson)


Vistem o blog do Vinicius Trindade clicando aqui!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Os Últimos Durões

Pensei em nomear esse post como “O Último dos Românticos”, mas isso seria aviadar totalmente uma geração – a minha - que precisa e merece ser respeitada como qualquer outra. Nós estamos vivos, nós, os filhos do meio.

Nós somos filhos sem década. Não somos anos 80 e nem totalmente anos 90. Estamos ali, na meiúca. Gostamos de Ultraje A Rigor como de Nirvana. Presenciamos o nascimento do Legião Urbana e do Funk Carioca – pelo menos o funk que ganhou as multidões – gostamos de Caverna do Dragão e de Freakazoid! e curtimos isso, na medida do possível, como deveria ser curtido.

Tomamos nossos porres, caímos na porrada, fizemos várias coisas que talvez não deveriam ser feitas, ou deveriam dependendo do ponto de vista. Entendemos e apreciamos Poison sem nunca passar batom ou dar a bunda. Mas sempre respeitamos quem curtia isso. Dar a bunda. Inclusive, foi na nossa geração, a da meiúca sem viadagens, que nasceu o termo GLS e, naquela época, você poderia ser um S sem ser “suspeito”.

Nós, os filhos do meio, somos uma geração de respeito. E é exatamente disso que eu quero falar. Sobre respeito. Coisa que sumiu com o passar dos anos e hoje é tão rara de se ver que pode ser banida do nosso dicionário como vários acentos e outras coisas que a nova geração intitulou como obsoletas.

Por exemplo, eu que sempre fui e sempre serei rock and roll respeitava o funk. Suas letras, baseadas nos rap’s americanos, sempre foram letras expressivas de uma sociedade marginalizada.

Sem discutir “qualidade técnica” letras dos funks antigos superam de longe várias e várias letras de músicas (do rock ao pop) atuais. “Silva”; “Eu só quero é ser feliz”, e tantas outras tinham uma coisa que é difícil encontrar hoje em dia. Tinham vida. Tinham respeito. Tinham alma.

Hoje o nosso funk – sim nosso porque é uma manifestação cultural da sociedade como qualquer outro ritmo musical – infelizmente seguiu a mesma trilha que seu progenitor, o rap americano, o caminho mesquinho, meramente sexual, comercial e sem vida.

Talvez eu esteja escrevendo essas linhas porque estou velho, gordo - muito gordo - e acabado. Acabado porque fiz tudo que fiz. Mas mesmo que eu tenha feito o que fiz com a minha carcaça de carne, eu nunca - nunca mesmo - maltratei a minha alma, os meus valores, a minha ética, o meu intelecto e meu espírito.

Eu sou o filho do meio. Nós somos. A Minha geração! Entre famílias tradicionais católicas dos anos 80 e famílias marcadas pelo divórcio nos anos 90, nós estávamos ali segurando a bandeira dos antigos valores ao mesmo tempo em que cantavamos “Sociedade Alternativa” do Raul e tudo isso sempre fez sentido.

E ainda faz.

Pelo menos para mim.

Pelo menos para os filhos do meio.

Mas isso morreu.

Hoje os jovens se orgulham de ter a pose de “marginais”. E em uma cidade como o Rio de Janeiro, cercada de favelas por todos os lados e berço da chamada “malandragem carioca” isso está ficando muito perto do insuportável.

É triste ver os plays de Ipanema com a cueca pra fora da calça ou com casacos indecorosamente grandes fazendo pose do “personagem marginal”. Suas gírias, suas atitudes, sua maneira de resolver tudo no braço, no grito, na força e má educação não é só patética. É triste. É lamentável.

O pior é que vocês estão matando tudo de bom que a minha geração construiu.

O nosso S de simpatizante, o cara gente boa e que aceita tudo em um sorriso, virou um “suspeito”. Com aspas maiúsculas se esse novo dicionário permitir. O nosso funk caiu de “Eu só quero ser feliz” para “Dança do Créu”. Meu Deus nós te entreguamos Titãs e vocês devolveram NX0!!!!

E até os nossos ídolos vocês conseguiram deturpar! O nosso Wolverine resolvia as coisas com um charuto entre os lábios e uma piadinha de canto da boca. Só mostrava o seu “SNIKT” quando realmente precisava. O Seu Wolverine resolve as coisas com garras de adamantium e com fator de cura. Ele faz “SNIKT” para qualquer Blob deformado em fim de carreira.

A nossa meta era ser o Ferris Bueller a sua meta é ser o Dadinho. Quer dizer, Dadinho é o caralho, você quer ser o Zé Pequeno!

A maior síntese de tudo que eu quero dizer é que nós éramos “Caçadores de Emoção” você é uma cópia muito deturpada e idiota do que era a nossa geração. Você é um “Velozes e Furiosos”.

É claro que não é toda a sua geração. Até por que não era toda a minha geração que estava certa. Ora porra, nós parimos o pagode e toda aquela “corno music” Culpa nossa. Somos muito bonzinhos. Mas aceitamos na boa. Até pedimos desculpa. Mas nós não entendemos essa idolatria de ser tão bandido. Tão marginal. Por que não caçar emoção? Por que ser tão veloz e furioso o tempo todo? Isso não é ser rebelde! Isso é ser ogro!

Como eu disse, talvez isso seja uma lamúria de um velho que nem é tão velho assim. Talvez eu esteja errado de a cada dia entender mais a frase de George Bernard Shaw “A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.”

Mas quando eu vejo a violência aumentar e não falo de roubos, furtos, balas perdidas. Falo da violência do dia-a-dia, violência na fila do cinema, no trânsito, na mesa do bar, resumindo, no cotidiano. Essa nossa violência de pessoas pseudo educadas. Eu só lembro daquele velho funk – que eu rock and roll sempre respeitei porque usava os ouvidos além dos braços – que tocava nos anos 90. Só que hoje onde se escuta “baile” é na verdade o nosso dia-a-dia:

Diversão hoje em dia, não podemos nem pensar.
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar.
Fica lá na praça que era tudo tão normal,
Agora virou moda a violência no local.
Pessoas inocentes, que não tem nada a ver,
Estão perdendo hoje o seu direito de viver.

Por isso tudo, como eu disse no começo desse post, não quis intitular esse texto como “o último dos românticos”. Talvez a sua geração do “fudi-engravidei-que-se-foda” não entenda os pensamentos da minha geração “fudi-engravidei-vou-assumir” diga. Mas eu preferi seguir com “Os últimos Durões” porque é o que somos.

E como Kirk Douglas e Burt Lancaster muito bem nos ensinaram, até para lutar existem regras. Você não pode fazer isso e isso, mas pode fazer isso e isso. E para saber a diferença entre o que se pode fazer e o que não pode é preciso pensar com a cabeça e não com os punhos.

De resto, fé em Deus Dee Jay!