quinta-feira, 25 de março de 2010

Pode chorar, eu voltei (O bom, o mau e a feia)

Eu não estava nos meus melhores dias e, para o meu azar, eu não tinha nenhuma idéia que as coisas iriam piorar. E muito. Provavelmente se minha bola de cristal não tivesse parado de funcionar e eu soubesse exatamente o que iria acontecer naquela madrugada fedida, eu não sairia para beber.

Beber e tentar arrumar alguém para ficar ao meu lado pelo menos uma noite dizendo no meu ouvido que essa merda de mundo ainda pode ser bom.

Mas como eu disse, a porcaria da minha bola de cristal estava quebrada.

Isso, e minha libido gritando nos meus ouvidos, explica porque fui tomar uns tragos no Heaven, um inferninho que ainda toca alguma coisa de rock que fica no lado errado de Botafogo. O meu lado.

- Mais uma cerveja, Vic?

- João, quantas vezes eu tenho que dizer que não precisa perguntar. Apenas fique trocando as latinhas vazias por outra cheia e eu digo quando for pra parar.

- Você nunca pede pra parar.

- Agora você está entendendo o meu ponto de vista.

Ele me encarou por alguns segundos mexendo as sobrancelhas peludas como uma barata esmagada tentando sobreviver. Depois jogou seu pano imundo sobre o ombro e pegou mais uma gelada.

O bar não estava cheio. Alguns batutas sentados em uma mesa contando mentiras e rindo de tudo de um lado, alguns gênios do futebol do outro lado, um casal que bastava você olhar para cara da mulher para entender porque o sujeito bebia demasiadamente na calçada e eu sentado no balcão esperando algum lixo para chafurdar.

Acendi um Marlboro. Deus como eu precisava de alguém pelo menos naquela noite. Faz quantos meses? Quatro? Cinco? Eu acho que parei de contar no segundo mês. Por algum motivo as coisas não estão acontecendo como antes. Talvez eu tenha perdido o meu charme, o senso de humor, as cantadas. Ou talvez elas finalmente tenham percebido que eu sou de se jogar fora. Eu sou dor de cabeça. Eu, meu ego inflado e meu senso de humor doentio.

E claro, a fumaça irritante dos meus cigarros.

Fiquei decidindo o que fazer em seguida. Poderia ir a uma discoteca dessas e tentar arrumar alguma garota bêbada o bastante para se importar. Poderia ir para o lado certo de Botafogo, fingir que sou decente e enganar alguma alma perdida. Ou, é claro, poderia apelar para o gênio da tequila. E dentro de todas as opções oferecidas, como sempre eu escolhi a pior.

- João, me dá uma dose de tequila.

- Tequila? Sal, limão e cachacinha de playboy? Qual é a sua? Tá afrescalhando?

- João, se eu quisesse ouvir filosofia barata teria ido a igreja e não nesse buraco.

Ele mexeu as baratas de sua testa outra vez, preparou a tequila e colocou o som para tocar Depeche Mode. Eu conhecia o João a muito tempo para saber que ele só colocava Depeche quando estava realmente puto.

Caguei para ele. Eu tinha um pedido a fazer.

O desejo da tequila funciona comigo porque eu não bebo essa porcaria o tempo todo. Então o gênio mexicano que existe em toda garrafa da bebida sempre escuta o meu pedido. Ele é um pouco tinhoso, às vezes demora a te atender, mas tudo é uma questão de fé. De acreditar ou de não acreditar. De fazer a magia acontecer. De ser mais Fox e menos Scully de vez em quando.

Bem, já deu para sacar e como eu disse ao João, vamos deixar a filosofia de lado. Coloquei o sal na mão, peguei o limão e antes de chupa-lo, pedi com toda confiança:

- Gênio da tequila, me arrume uma mulher para eu não ficar sozinho essa noite.

Lambi o sal, chupei o limão, engoli a tequila e esperei a magia acontecer.

****

O Heaven foi enchendo com o passar do tempo. Na primeira hora chegou um gay com duas amigas que me fizeram crer que meu pedido seria entregue em uma carruagem cor de rosa. Porém, depois de alguns minutos de flerte ficou claro que minha única chance naquela mesa seria com Pink Brother. Chegaram também dois casais que ocuparam o lugar deixado pelos batutas. Ponderei se meu desejo não iria aparecer em forma de traição. Quando a tequila não é de boa qualidade, uma vez ou outra, ao invés de gênio eu sou atendido por um cramulhão que gosta de pregar umas peças.

Eu estava enganado. Acredito que meu pedido foi atendido pelo próprio Mefistófeles. O Mastema. Azazel. Asmodeu. Quazet. Ou melhor simplificando, o próprio capeta em gritinhos histérico que surgiu nas minhas costas.

- Eu não a-cre-di-to! É você mesmo!!!

Minha mente reconheceu a voz e minhas pernas tentaram em vão fazer meu corpo escapar antes mesmo de eu virar. Puro instinto. Mas eu só percebi quem era mesmo no momento que virei.

- Oi, Núria. Quanto tempo, hein?

- Doze anos e alguns meses, para sermos um pouco mais precisos, ursinho. Eu ainda posso te chamar de ursinho, ou você está com alguma garota?

Ela lambeu os lábios avermelhados pelo seu batom barato, jogou seus cabelos desgrenhados para trás das orelhas e desabou no banco ao meu lado antes que eu pudesse dizer:

- Eu não estou com uma garota, mas corta esse papo de ursinho.

João se aproximou do balcão para trocar a minha latinha. As baratas de sua testa estavam mais suaves e ele estava com um sorriso bem babaca no rosto. Provavelmente foi ele que prendeu o satã naquela garrafa de tequila. Núria aproveitou a aproximação do João e não perdeu a oportunidade de demarcar seu terreno. Ela pediu com uma piscadela.

- Traga uma para mim também, meu bem.

- Claro, doçura.

João pegou uma latinha para ela e mandou uma piscadinha sacana para mim. Ele estava se deliciando com aquilo. Núria ameaçou abrir a latinha, mas empurrou para mim me mostrando as suas horríveis unhas pintadas de um vermelhão tão desbotado quanto o seu batom.

- Eu estou morando aqui perto e nem acreditei quando passei e te vi. Me conte, ursinho, por onde você se escondeu por todo esse tempo?

- Em um esconderijo não tão bom já que você me achou, não é verdade?

Ela apertou as minhas bochechas com uma risada:

- Você é um fofo, Vic.

Depois com a mesma mão ela ajeitou sua camisa para baixo, fazendo suas peitolas saltarem um pouco mais do decote. Foi assim que ela chamou a minha atenção da primeira vez. Mas com o tempo, ela foi perdendo a habilidade. Além dos peitos, seu sutiã bege nada sex apareceu. Seu corpo não era mais ou mesmo, provavelmente depois de algumas rejeições curadas a chocolate.

- Mas diga, Núria, o que você anda fazendo?

Ela começou a explicar como morou bastante tempo no exterior ao mesmo tempo em que meus ouvidos pararam de escutar. Só queria mantê-la ocupada enquanto raciocinava sobre a situação. Ela estava claramente para jogo, isso eu não tinha dúvidas. Porém, será que o tempo de carência era tão grave para ficar outra vez com a Núria?

Lembro-me muito bem que a carência foi o fator determinante para ficar com ela da primeira vez. Até porque alguém para ficar com aquela máquina de falar deve estar tão louco quanto uma mãe deve ser louca para colocar o nome da filha de Núria.

Outra coisa que me recordo foi como foi difícil tira-la do meu pé. Ela tem essa personalidade Stalker de ficar aparecendo em todos os lugares que você freqüenta. Para ela, uma noite vira mil e uma com uma facilidade.

- Então, pode chorar porque eu voltei. Mas e você? O que anda fazendo, meu ursão?

- Nada em especial. Trabalhando em uma firma que me paga muito mal, bebendo e morrendo aos poucos.

- Você finalmente escreveu um livro?

- Não. Parei de ter esses sonhos bobos.

- Ah, Vic. Você deveria voltar. Você tem talento. Eu adorava o que você escrevia.

Nem louco eu iria falar para ela sobre livros, blog e coisas do tipo. Seria dar um tiro na cabeça e ser enforcado ao mesmo tempo.

Ela começou a lembrar de alguns de meus textos enquanto eu comecei a ponderar se realmente deveria partir para cima ou não. Tomei um gole e comecei a fazer uma lista mental de pontos positivos e negativos.

Positivos:

1. Ela está para jogo.
2. Ela é uma mulher que realmente se entregava na cama
3. Mora perto e isso evitaria levá-la ao meu apartamento
4. Eu estou bêbado


Negativos:

1. Ela é do tipo grude
2. Ela é do tipo Stalker (que é absolutamente diferente do item 1)
3. Ela tem um papo chato
4. Ela gosta de separar sílabas quando está excitada.
5. Ursinho, Ursão e outras coisas
6. Não era exatamente bonita / gostosa
7. Ela se chama Núria

Em números absolutos a decisão já estava tomada, mas a vida não deve ser analisada em números absolutos.

Por exemplo, o item 4 da lista dos pontos positivos faz eu aturar o item 3 e 4 e um pouco da 5 dos pontos negativos, sem querer dar um soco na cara dela. O item 4 dos pontos positivos e me faz esquecer totalmente o item 5 dos pontos negativos. Porém ele aumenta o efeito do item 7, porque eu sei que uma voz vai ficar gritando essa frase no meu ouvido a noite toda “Ela se chama Núria”. Pior, quando eu estiver transando a voz gritará “Ela se chama Nú-ri-a” enquanto a própria Núria gritará no outro ouvido “enfia gos-to-so”.

Enquanto eu estava fazendo a análise da lista, Núria colocou a mão na minha perna e começou a alisá-la.

- Você não mudou quase nada daquela época para cá. Ganhou alguns quilinhos, é claro, mas ficou mais charmoso. Por que homem fica mais charmoso quando envelhece?

- É o efeito colateral do Viagra. Um minutinho, eu tenho que ir ao banheiro.

Saí do balcão com o pequeno Vic já gritando no meu ouvido. Quando passei pelo balcão, João estava com dois cd’s na mão e suas sobrancelhas tão suaves que pareciam duas suaves camurças.

- Não sei o que coloco para gente escutar agora. “Evil Dick” do Body Count ou “Self Esteem” do Offspring. Alguma sugestão?

Levantei o dedo médio e segue para o banheiro. Anos e anos atrás do balcão deram a ele a leitura perfeita de tudo o que ocorre em seu bar.

Olhei-me no espelho. Realmente os anos de bebida, cigarro e drogas não foram nada generosos comigo. Para malucas desesperadas como a Núria eu posso ter meu charme, mas na vida normal eu tenho que jogar sujo, descolar tiradas geniais e dar o máximo para conseguir alguma coisa.

- Uma noite. Ninguém está vendo. Poucas horas de felicidade descartável.

Me disse a imagem acabada e excitada do outro lado.

- Você está dizendo isso agora. Aposto o que você quiser que em algumas horas você estará pedindo para eu fugir para o mais longe que eu puder.

Fiquei esperando o que a imagem do espelho iria me responder. Ele soltou um sorriso que eu já conheço desde a minha mais estranha infância e cuspiu de volta:

- Aposto o quanto você quiser que se você não tentar acabar a noite com essa mulher, você vai passar meses se martirizando perguntando “o que aconteceria se”.

- Sabe, Vic mau, eu realmente te odeio por está sempre certo.

- Sabe, Vic bom, eu realmente te amo por você ser sempre tão manipulável.

Dei a minha mijada, lavei a mão e a última piscadela para a imagem no espelho. Tirei a carteira do bolso para uma verificação rápida. Se eu iria seguir com o plano do Vic mau, eu precisava de duas coisas:

Camisinha e dinheiro para ficar mais bêbado.

Eu estava bem no primeiro item. Depois de anos de rodagem, mesmo em uma grande entre safa dessas, eu nunca deixo de estar preparado para as oportunidades. O dinheiro já era um problema.

Com as cervejas que eu tinha tomada, cigarro e mais a tequila, eu estava bem curto. Duas cervejas de distância para ser mais exato. Como sempre, eu teria que improvisar.

Saí do banheiro. João tinha optado por Offspring. Andei pelo balcão e o alcancei.

- Sabe, amigo, estava precisando que você quebrasse uma para mim.

- Corta essa, Vic.

- Qual é, João. Eu sempre te paguei no dia seguinte. Só queria mais uma dose daquele veneno branco de playboy para executar um serviço sujo.

- Você sempre honrou com seus compromissos, mas sabe Vic? Eu tenho a pequena impressão que depois do que vai fazer essa noite, você vai ficar um bom tempo sem aparecer por essas bandas.

- Qual é, pelos bons e velhos tempos?

Ele deu uma olhada para o início do balcão onde ela estava sentada, jogou seu paninho sujo por cima do ombro e suas baratas voltarão a aparecer na testa.

- Acho que você já vai fazer alguma coisa pelos bons e velhos tempos com aquela madame ali sentada. Pelo menos, se você for rápido.

Uma de suas baratas apontou em direção a Núria. Olhei e o que era esperança desesperada virou decepção angustiante. A situação tinha mudado novamente e não estava nada boa.

****

Lembro da primeira vez que fiquei com Núria. Eu também estava em uma situação desesperadora. Só que a da época era realmente ruim. Eu estava um bagaço humano. Um amigo me apresentou e ela me pegou.

Namoramos alguns meses. No início não era exatamente bom. A verdade é que eu não me importava. O sexo era bom, isso ficou marcado na minha memória.

Tanto faz.

O tempo passou e eu comecei a voltar quem eu era. Era tarde. Ela estava me transformando em um dos seus milhares de bichinhos de pelúcia. Como uma vampira de alma, ela chupou todos os obsessores que me atormentavam. Depois que a minha personalidade voltou, ela a estava consumindo com o mesmo poder que o fogo devasta uma floresta.

****

Retornei e sentei no meu banco tentando tirar um sorriso, mesmo que amarelo do fundo do meu bolso.

- Estou de volta.

- Olha Ursinho. Deixa eu te apresentar meu marido, Esteban.

O moreno de bigodinho engraçado e cabelo de cuia sentado ao lado de Núria acenou com a cabeça.

- Ola Ursinho Vic.

- Buenas, Esteban.

É claro que por essa eu não esperava. Eu estava muito ocupado comigo mesmo, fazendo listas e coisas do tipo para prestar atenção na parte que Núria disse que morou fora do país, conheceu Esteban, casou e voltou para o Brasil.

Não tinha muito o que fazer naquela situação, somente:

- Bem pessoal, foi muito legal encontrar vocês, mas tenho que puxar o meu carro.

- Que isso Vic, a noite ainda nem começou.

Núria colocou a mão na minha perna evitando que eu levantasse. Esteban, por sua vez gastou seu dinheiro e seu portunhol cantado com João.

- Três doses de tequila para nós, por favor hombre!

- Obrigado gente, mas eu tenho que realmente que ir.

Eu estava tentando levantar, fugindo da mão de Núria quando João colocou os três copinhos em cima do balcão.

Para o inferno, mais uma tequila antes de ir partir. É possível que chupar um limão poderia adocicar a minha situação. Depois casa, punheta e cama.

Viramos os copos. Núria fez uma careta, balançou sua cabeleira preta para cima e para baixo e deu um grito:

- Tequila me deixa louquinha, louquinha!

- Arriba, muchacha!

O casal estava bem animado. João balançou suas camurças para cima e para baixo e riu da minha cara quando retirou os meus copos.

- Bem, é hora do hasta La vista.

Núria não me deixou levantar. Apertou a minha perna com mais força, rodou a cabeça algumas vezes e parou com o seu rosto próximo ao meu.

- Calma aí, Vic. Deixa eu te falar uma coisa. Somente una cosita.

- Una cosita, Núria?

- Si. Una cosita.

Afastei meu rosto e dei uma olhada para Esteban. Ele estava bebendo uma caipirinha e parecia pouco se importar com a sua esposa apertando a perna do pequeno urso Vic.

- Sabe, Vic. Es-ta-va pen-san-do se vo-cê não que-ri-a ir lá pa-ra ca-sa....Você sabe...pa-ra gen-te lem-brar a-que-la é-po-ca...

- Núria, você não está esquecendo nada? Tipo, um metro e setenta, pele morena, bigode de gosto duvidoso, estrangeiro e que às vezes atende pelo nome de Esteban. Porque ele está sentado ao seu lado.

Com uma risada e outra rodada de cabeça ela me respondeu:

- Vic, deixa de ser bobo. Ele também vai. Afinal, ele mora lá.
- Ele também vai...

- Fica calmo, Vic. Tem Núria para todo mundo.

Eu não sabia se estava rindo de nervoso ou pelo convite.

- Você está me convidado para fazer sexo com você e com o seu Marido?

- Bem, não com meu marido. Você não virou gay, ursinho?

- Claro que não, sua louca. E para com essa coisa de ursinho.

- Tá bom, Vic. Eu só queria ser carinhosa.

Sua mão subiu da minha perna, chegando a minha virilha. Ela deu uma apertada no pequeno Vic:

- E aí, topa?

Eu me levantei com um pulo.

- Eu vou ao banheiro.

Mal chegue diante do espelho e o Vic mau estava com a cara amarrada.

- Afinal, o que você está esperando?

- Você não pode estar falando sério.

- Qual é, Vic Bom? Não vai ser a primeira vez que você e outro cara dividem a mesma mulher, ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

- Eu sei. Mas isso é diferente.

- Diferente como?

- Veja bem, Vic mau. Aquele cara é casado com ela.

- E?

- E ele aceita dividir a mulher com outro cara.

- E?

- E o que isso significa?

Vic mau ficou me olhando. Ele sabia aonde eu queria chegar. Ele baixou a guarda:

- Sabe, Vic bom, eu realmente te odeio por acertar de vez em quando.

- Sabe, Vic bom, eu realmente te amo por concordar comigo de vez em quando.

Saí do banheiro e João estava na beira do balcão com aquela cara marota.

- As baratas voltaram a ser pelúcia, heim?

- O que?

- Agora elas voltaram a ser baratas novamente.

Voltei andando para o meu pequeno grupinho sexualmente depravado que estavam curtindo umas cervejas.

- Olha, Vic. Peguei uma para você.

Peguei a cerveja, fiz Núria se levantar e fui até o lado de fora do bar com ela.

- Obrigado Núria. Obrigado pela bebida e pelo convite, mas não vai rolar.

- É por causa do Esteban, não é?

- Claro que é por causa do Esteban.

- Fala sério, Vic. Vai falar que você nunca fez isso?

- É claro que eu já fiz isso, mas nesse tipo de situação.

- Por que ele é meu marido.

- Sim. Por que ele é seu marido e aceita que você transe com outro cara na frente dele.

- E daí?

- E daí que isso o excita. Não é você que excita ele, mas o fato de eu estar lá. E eu não quero estar em uma situação onde eu esteja nu e outro cara esteja excitado por minha causa.

- Mas ele não vai fazer nada com você, não vai nem te tocar. Se isso te deixa mais tranqüilo, ele nem vai apertar a sua mão na hora que você for embora, Vic.

- Você acha que eu apertaria a mão dele depois dele ficar brincando com o pequeno muchacho dele?

- Então estamos resolvidos? Sem toques.

- Não. Isso não vai acontecer, Núbia. Eu não quero estar em uma situação sexual, que mesmo sem toque eu excite outro cara. Isso é muito gay para mim.

- Você é homofóbico, Vic.

- Eu não sou homofóbico, mas não quero deixar outro cara de pau duro pelo fato de eu estar comendo a esposa dele.

- Tudo bem, Vic. Tudo bem. Eu vou pedir para Esteban dormir em um hotel hoje.

- Você o que?

- Vou pedir para ele dormir em um hotel para podermos ficar lá em casa sossegados.

- Você vai pedir para homem não dormir na sua própria casa para você poder transar com outro cara?

- Isso é muito ouver, né? É melhor nós dois irmos para um hotel e deixar Esteban dormir na cama dele. Você tem dinheiro para um motel?

- Não eu tô duro.

- Então vou pedir dinheiro a ele.

- Núria, não. Que loucura é essa? Ele é teu marido. Você vai para casa com ele e eu vou para minha casa tocar punheta sozinho.

Não foi exatamente nessa parte que as outras pessoas começaram ouvir o nosso papo, mas foi nessa parte que eu notei que elas estavam ouvindo. Definitivamente João estava certo em uma coisa. Eu não vou aparecer naquele bar por um bom tempo.

Núria me abraçou e me deu um beijo. Ela começou a colocar a sua língua dentro da minha boca e aquilo estava ficando bom, mas tive que afasta-la.

- O que você quer afinal, Vic?

- O que eu quero? O que você quer, sua maluca? Você é casada!

- Sim, eu sou casada e quero dar para você hoje. Será que eu vou ter que me separar do meu marido para isso?

- Não. Para. Você não pode querer isso, Núria.

- Olha Vic, eu e Esteban temos uma relação aberta e sólida. Ele saí com algumas garotas eu saio com alguns caras. As vezes transamos juntos, as vezes transamos separados. Isso funciona para gente muito bem. Se você quiser me comer, tudo bem. Se você não quiser, beleza. Eu não vou ficar aqui implorando para dar pra um cara que me largou sem um motivo concreto. E aí? Qual vai ser?

Ela falou tão rápido e tão determinada que eu fiquei sem fala. O Vic mau se aproveitou da oportunidade e respondeu para mim.

- Beleza. Manda ele dormir em um hotel.

- A-do-rei.

Me deu um beijo e volto para o bar para conversar com Esteban. Eu andei até a calçada, encontrei um carro estacionado e encontrei o Vic mau no vidro do banco de trás.

- Você ta maluco, Vic mau? Você não pode pegar o controle.

- Que se foda, Vic bom. A mulher que te dar e o Pepe Legal não se importa, qual é o problema?

- Sabe, Vic mau, eu realmente te odeio. Te odeio.

- Sabe, Vic bom, eu realmente de amo. Te amo.

- O que você está fazendo no meu carro, seu maluco?

Um sujeito grande e com cara de poucos amigos estava atrás de mim. Mostrei os dentes para ele e comecei a futuca-los com o meu dedo.

- Estava vendo sem tinha alface nos meus dentes, tem? Você está vendo algum?

- Fica longe do meu carro, seu doido.

Voltei para próximo do bar. Núria se despedia de Esteban que me mandou um sorriso e um tchau. Imagino se eu estivesse mais próximo ele daria um leve soco no queixo e diria “vá com tudo, Gatón”.

****

Estávamos no apartamento de Núria. O lugar era bem maior que o quarto e sala que ela vivia quando estávamos juntos. Fora isso, a decoração repleta de bichinhos de pelúcia se mantinha. A única diferença é que tinhas fotos dela com Esteban em vários lugares da América latina. Eles na Argentina dançando tango. Eles no Paraguai comprando muamba. Eles na Colombia visitando o Museu do Ouro. Eles no Peru...bem chega de detalhes.

Núria não perdeu muito tempo. Entrou no quarto e disse que iria trocar de roupa. Eu fui até a cozinha procurar algo para beber. Abri um armário e encontrei atrás de um cinzeiro com bagas de maconha uma garrafa de vodka. Abri e bebi no gargalo. Achei que Esteban que era tão generoso com a sua mulher não iria esperar que eu fosse cuidadoso em outras questões mundanas.

A bebida desceu cortando a garganta. Fiquei alerta e me climatizou na situação. Temos que ser sórdidos de vez em quando, diria o Vic mau. Dei outro gole na garrafa. Núria saiu do quarto. Vestia apenas uma camisola verde e transparente o suficiente para mostrar os seus mamilos. Não sei se era a roupa ou a bebida, mas ela não parecia estar tão gorda quando andou até a cozinha. Tirou a garrafa de mim e bebeu.

- Afinal, você veio aqui para acabar com a minha bebida ou comigo?

Bem, como diz o ditado, se você está no inferno, abraça o capeta.

Fomos aos beijos até o quarto. Parte da minha roupa ficou pelo meio do caminho. O resto ela fez questão de tirar antes que eu caísse na cama e ela viesse por cima de mim.

Com certeza era a bebida, pude perceber seus quilinhos a mais assim que ela deslizou pelo meu corpo.
Ela começou os trabalhos com sua mão e lábios. Vic, o bom, o mau e o pequeno agradeciam. Virei o meu rosto e lá estava mais uma foto de Esteban ao lado de um coelho de pelúcia azul. Peguei um travesseiro e joguei de encontro ao porta retratos. Não queria aquele latino maluco me observando com sua esposa nem em fotografia.

Núria levantou o seu corpo e fez que iria sentar em cima de mim. Eu deslizei para o lado.

- Deixa eu pegar a camisinha.

- Ah! Esquece isso! Eu quero que você me coma to-di-nha.

- Tudo bem, me dá só um segundo para eu colocar a camisinha.

Tentei descer na cama e ela agarrou meus braços. Me jogou contra o colchão, beijou minha boca, meu rosto e passou a língua nos meus ouvidos.

- Não podemos parar agora.

- Ainda nem começamos, meu bem.

Afastei a louca. Eu não iria colocar o pequeno Vic sem nenhuma armadura para se proteger de tudo que ele corpo já tinha consumido. Desci da cama e peguei a minha calça na entrada do corredor. Tirei a camisinha de dentro da carteira e voltei.

- Vamos logo, Vic. Eu estou esperando.

Bem, acho que não preciso dizer o que ela estava fazendo para me esperar. Eu tentava rasgar a camisinha, Núria me apressando e Estaban abrindo a porta da sala.

Blam.

Pulei para o fundo do quarto.

- Que porra é essa?

- Esteban chegou!

- Que parte de “você vai dormir no hotel enquanto eu dou para o meu ex-namorado” ele não entendeu?

- Calma, Vic. Eu resolvo isso.

Ela saiu do quarto e puxei as minhas roupas do corredor e encostei a porta. Não sei por que fui deixar o Vic mau entrar no controle. Aposto que aquele cara estava arrependido e iria me matar por ciúmes. Eu sempre digo a mim mesmo que não vou me envolver com mulher casado e vivo me metendo nesse tipo de situação.

Comecei a me vestir. Olhei pela janela e não daria para escapar do sétimo andar sem ser o Homem-Aranha. Por vinte segundos todo um texto como ter super poderes facilitaria a minha vida sexual correu pela minha mente. Ele sumiu na minha mente quando eu acabei de me vestir.

Abri a porta e consegui perceber que eles estavam conversando na cozinha. Não parecia que iria ocorrer um crime pacional. A situação estava até muito bem controlada. Mesmo assim, decidi não arriscar mais. Fui andando em ponta de pé pelo corredor até a porta da sala. Coloquei a minha mão na maçaneta e....

A porta estava trancada e sem chave nela.

- Ei, Ursinho. Não vá embora.

Núria estava na porta da cozinha. Eu abri um sorriso falso.

- Acho que é melhor eu me mandar.

- Esta tudo bem. Não é Esteban?

- Si. Si. Não se vá, muchacho. Yo estou de saída.

Maldita hora para um portunhol. Esteban saiu da cozinha com as chaves na mão.

- Que isso Esteban. A casa é sua, a mulher é sua. É melhor eu ir.

- Por favor, fique e divirta a minha doce Núrita.

- Que isso. Eu não sei se posso.

- Mi Casa, Su casa. Mi mujer, Su mujer.

Ta aí uma frase que não se escuta todo dia.

- Yo posso te ensinar....truques para satisfazer Nurita.

- Não Esteban, eu só quero as drogas das chaves.

Núria começou a elevar o tom de voz e dar tapas em Esteban.

- Viu? Por que você foi aparecer? Você espantou o garoto. Eu nunca te atrapalho quando você traz as suas piranhas para cá.

- Núria, está tudo bem. Eu vou embora.

- Fique e transe com Ella, hombre.

- Vamos, ursinho. Ele vai embora agora.

Andei em direção dos dois e tomei as chaves na mão de Esteban. Comecei a testá-las até que encontrei a certa. Com a porta entreaberta voltei-me para os dois e disse:

- Vocês dois deviam consultar uma porra de um psicólogo. E por favor, nunca pensem em ter filhos, sacou? Nada de Muchachitos. Seus loucos.

Saí do apartamento. Não poderia seguir mais com aquilo. Sabia que provavelmente Esteban estaria em quarto de hotel se masturbando pensando em mim e Núria. Que toscaria. Tentei pensar em outra coisa.

Não conseguia.

Ai meu Deus, eu tinha que afastar aquele pensamento.

Super poderes na hora do sexo.

Esteban tocando punheta.

Como eu iria me livrar daquilo.

Já sei.

Antes de bater a porta, voltei para o apartamento.

Os dois ficaram me olhando. Andei na direção deles.

- Dá licença.

Fui até a cozinha e peguei a garrafa de vodka. Passei de volta.

- Muchas Gracias.

Daí sim bati a porta e fui embora sem a certeza se depois de uma garrafa de vodka eu conseguiria afastar aquele pensamento de mim.

7 comentários:

  1. Durante todos esses dias eu voltei aqui pra ver se tinha algo novo e não achei.

    Porém, quando finalmente pintou um update, é absurdamente fodalhaço da floresta.

    Abração Vic!

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  2. Vic,

    voltou em grande estilo... delícia de texto, pirei! Some não!

    Talita

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  3. Cara, isso de imagem não sair da cabeça é uma merda! Quantas vezes você tá comendo uma mulher e vem alguma parada altamente brochante! Me acontece quando transo bêbado!

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  4. PQP!!!! Fodastico!! Parabéns pelo texto.

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  5. Continua a mesma qualidade de sempre. Parabens!!!
    Atualiza com mais frequência ai...

    Abraço

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  6. C A R A L H O ! ! !
    Todos os textos q leio nesse blog é alucinogico!!!!kkkkkkkkkkk
    Tu é foda demais Viiicc....

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