quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Não é mais Domingo desde a sua morte...

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 14

A história até aqui: Depois da noite mais longa de todas, o pior aconteceu. Vic e Nic terminaram seu namoro. Que rumo o Vic dará para sua vida agora? Se você ainda não sabe o que está acontecendo, acesse os capítulos anteriores no menu lateral. Para os fieis leitores, recomendo que releia toda a saga clicando no menu lateral para não perder nenhum detalhe dessa grande história.

Sugestão de música: Alice in Chains - Down in a Hole

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O meu pé ainda doía com o corte feito pelo caco de vidro quebrado da noite anterior, mas isso não me impedia a dar mais um passo.

Caminhando eu saí de Botafogo e cheguei no limite entre o Catete e a Glória. Estava cansado, mas isso também importava. Tão pouco eu ligava se meu rosto fervia com os sol que já queimava no céu, com os socos e tapas que Nicole me dera ou com as lágrimas que pareciam não acabar.

Nada mais fazia sentido sem ela. A dor, o cansaço ou a vida.

“Todo amor tem os ingredientes para se tornar uma grande bomba e destruir a vida dos dois de forma irreparável.”.

Essas foram às palavras de Guilherme que se tornaram reais depois de uma super-dosagem de anfetaminas.

Parei um instante e notei que as pessoas me ignoravam na rua apesar de eu ser o único vestido com roupas “de noite” em pleno Domingo pela manhã. Para elas eu era tão invisível quanto um fantasma.

Mal elas sabiam o estrago que um fantasma podia causar.

Aquela indiferença me causou um mal estar e decidi acabar com aquilo. Se estava morto, iria ficar quieto no meu caixão e tentar me isolar o maximo possível do mundo dos vivos. Eu ficaria dentro da caixa sem nenhuma esperança de alguém vir me salvar. Peguei um ônibus direto para casa e esse foi a última fagulha de pensamento racional que tive.

De resto eu só pensava em morrer.

Cheguei em casa e tudo estava tão silencioso quanto a minha alma. Meus pais tinham ido a Missa de Domingo. De certa forma, aquilo era uma benção. Eu não iria precisar explicar o que eu fazia em casa tão cedo. Ou tão tarde, dependendo do ponto de vista. Não sentia sono nem fome. Apenas sede e uma vontade infinita de morrer. Todos os meus movimentos eram lentos e pesados. Peguei uma garrafa de água e me tranquei no meu quarto.

Liguei a televisão, mas não prestava atenção no que estava acontecendo. Eu estava muito desolado para me entreter com algo.

Mesmo assim, coloquei a fita do Alice in Chains no walkman e ouvia aquele lamurio enquanto lembrava da minha briga com Nicole. Os discos quebrados, o cinzeiro estilhaçado, o buraco na parede, o meu nariz sangrando e as palavras ríspidas da Ruiva. Nenhuma briga deveria ir tão longe. Se Nicole não tivesse tão sensível e fragilizada pelas drogas certamente aquilo não teria acontecido. Se eu tivesse raciocinado que relembrar o pai falecido para a minha namorada depressiva era uma péssima idéia, aquilo não teria acontecido.

Se ela me amasse de verdade, aquilo não teria acontecido!

Sobretudo, se Guilherme nunca tivesse aparecido e dito as coisas que disse, certamente aquilo não teria acontecido!!!!

Que tipo de visão era aquela que vinha alertá-lo sobre o futuro e acaba mudando o rumo do destino? Ele me avisou que nosso namoro iria morrer e que eu aprenderia sobre sofrimento, mas se eu não soubesse disso, eu nunca teria pego aqueles discos, não teríamos brigado e tudo continuaria como sempre foi.

Comecei a odiar aquele suicida mais do que nunca. Não entendia o objetivo daquilo. Não estava certo. Afundei a minha cabeça entre as minhas mãos e o amaldiçoei com toda a raiva do mundo. Era como se eu tivesse seguido a risca um plano maquiavélico pré-formatado para mim e sem chance de escolha. Onde estava o raio do livre-arbítrio afinal?  Era essa porcaria que o destino me reservava?

Se fosse possível matar o morto, eu o faria.

Estava terminado.

Eu não conseguia absorver, mas era a mais pura verdade. Era algo muito esquisito. Como estar vivendo a vida de outra pessoa. O fim.

Gostaria de acordar na cama, ao lado da Ruiva, com a testa suada e contando a ela o pesadelo horrível que tivera. Ela iria colocar o livro da Polyanna de lado, me beijaria e diria que tudo tinha passado.

Mas não ia acontecer. Estava terminado. Eu estava na vida real e nem sempre o “jogo do contente” funciona por aqui.

Tudo perdia o sentido. Até beber aquela água para saciar a minha sede, não tinha razão.

Talvez eu estivesse experimentando o primeiro sintoma do “vazio” que a Ruiva descrevera. Conseguia prever meus dias; Em uma semana eu estaria enchendo a cara, chorando como um bebê e Lucas me consolando dizendo para ter calma e que o tempo era o melhor remédio. Os dias virariam semanas e depois meses. Nicole provavelmente estaria com outra pessoa e eu andaria novamente por aí, tentando preencher o vazio com atitudes misóginas.

Estava terminado e eu tinha sido feliz até onde o destino permitira. Pois é, nós morremos jovens.

Antes de conhecer Nicole eu me orgulhava de ser inconseqüente. Vivia a vida da forma que ela se oferecia para mim sem me importar com o que viria depois. Não queria nem saber. Nunca acreditei ou me importei com o destino.

No primeiro instante que eu vi a Ruiva caminhando pela grama do Casarão do rock, eu me apaixonei quase que imediatamente. Nesse nosso primeiro encontro ela pediu para que eu retirasse uma carta do maço de tarot e eu tirei justamente a carta da Morte. Lembro-me que fiquei assustado e ela me acalmou revelando que não era uma morte literal, mas se eu tomasse a atitude correta eu iria passar por varias transformações e no final, seria um homem diferente.

Foi o que aconteceu. Comecei a acreditar em destino e no amor. Aprendi a valorizar as mulheres, as minhas amizades e a não ser tão inconseqüente.

Agora o que eu era? Um garoto assustado de cara com a morte. Ferido, rasgado, perdido e esquecido. A verdade é que o amor é tão bom que faz você pensar que controla a sua vida, mas isso é uma mentira. Ninguém controla nada. Basta um segundo para que o jogo vire, a máscara da felicidade caia e o sofrimento surja como uma fênix renascida e fortalecida para queimar toda e qualquer alegria.

Afinal, isso era só fruto da tristeza que afundava a minha alma. Pois a grande verdade que negava era que tudo era minha culpa. Minha tão grande culpa. Eu fui atrás de Nicole enquanto ela tinha um namorado. Eu continuei com Nicole sabendo que ela gostava de garotas e eu forcei a todo o momento que ela declarasse um amor que ela nunca sentiu ou iria sentir por mim.

Estava tudo acabado, o mundo continuava girando, as pessoas continuariam as suas vidas e pouco se importando se eu estava morto por dentro ou não.

Comecei a desejar profundamente nunca ter conhecido Nicole, o amor e vivido tudo aquilo. Você pega um homem, o faz acreditar no amor. Dê para ele toda a felicidade que ele pode conceber. No final, você tira isso tudo em um estalar de dedos. O que sobra?

Dizem que a felicidade não se compra, mas será mesmo que se você nunca tivesse existido faria alguma diferença para o mundo? Se o poder absoluto corrompe absolutamente, do mesmo modo, a felicidade absoluta quando acabar trará a tristeza absolutamente.

Será que sua vida é tão importante assim?

Tentei apagar a minha mente disso tudo. Onde eu iria chegar com tantos pensamentos mórbidos? Mais um pouco eu literalmente iria pegar uma arma e estourar os meus miolos no banheiro.

Sabia que não iria conseguir dormir, não só por conta das anfetaminas, mas também pelo meu estado de espírito. Tão pouco eu iria me alegrar, mas também eu não precisava piorar a situação. Decidi deixar o Alice in Chains de lado e pegar algum livro.

Desliguei o walkman. Foi que eu percebi a televisão. A esperança estava morta, pois ele estava morto. Ele que acelerava rápido aos Domingos trazendo um pouco de vigor, de felicidade e de sonhos para todos nós acabara de falecer. 

Na televisão as pessoas estavam desesperadas. Notei que meus pais tinham retornado da igreja e choravam na sala.

Senna estava morto. O maior herói brasileiro dos últimos tempos, ou talvez de todos os tempos, não estava mais entre nós. O acidente fatal naquela curva maldita.

Todos precisam de heróis. Não precisamos do Super-homem e sua capa, da Mulher Maravilha e seu laço mágico, do Batman e seu cinto ou do Flash e sua velocidade. Precisamos de pessoas reais que superam todos os limites e nos mostrem que é possível realizar os nossos sonhos, independente de qualquer coisa. Basta ter a vontade e a determinação para vencer os obstáculos. Precisávamos de Ayrton e seu heroísmo todas as manhãs. Ele dava aos brasileiros algo muito valioso que muitos tentam vender, mas não conseguem.

Ele dava sonhos. Ele dava esperança. Mas nem mesmo o mais destemido herói pode lutar contra o seu destino.

Os heróis também morrem jovens.

Fui até a janela e olhei o mundo lá fora. De alguma forma eu sabia que todos choravam. Por alguns segundos, eu percebi que o Brasil estava tão triste como eu. Por alguns segundos eu me senti mais tranqüilo por não está sofrendo sozinho.

Até hoje me odeio por esse pensamento.

Minhas opções não eram nada boas. Poderia ligar para a Nicole e tentar uma reconciliação. E ouvir um monte de desaforos. Poderia pegar uma faca e cortar os pulsos. E acabar com uma vida aparentemente perfeita da minha família. Ou poderia simplesmente ficar ali parado esperando a morte chegar.

Desliguei a televisão e voltei a ouvir Alice in Chains no walkman. Fiquei deitado na cama virando a fita do lado A para o B e do B para o A durante horas sem nenhuma perspectiva da vida melhorar.

Até que o telefone tocou....e a vida piorou! 

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No próximo capítulo: Do pó viemos e ao pó voltaremos

10 comentários:

  1. escreva logo a parte 15!!! :D
    estarei esperando ansiosamente!

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  2. caramba.. da pra ficar pior? [2]
    tô ansiosa pela parte 15 tbmm... posta logoooo!!

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  3. ai meu deus q curiosa q estouuuuuuuu uhahuauhahaauh

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  4. Estamos esperando o desfecho !!

    Abs

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. hj vou à livraria so para comprar um dos seus livros!:D :D

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  7. é amigo... a vida fica pior
    a gente que não tem imaginação

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  8. Clear all your sins.
    Get born again.

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  9. Cara, você sabe ser dramático, escreva novelas

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