quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Não é mais Domingo desde a sua morte...

Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 14

A história até aqui: Depois da noite mais longa de todas, o pior aconteceu. Vic e Nic terminaram seu namoro. Que rumo o Vic dará para sua vida agora? Se você ainda não sabe o que está acontecendo, acesse os capítulos anteriores no menu lateral. Para os fieis leitores, recomendo que releia toda a saga clicando no menu lateral para não perder nenhum detalhe dessa grande história.

Sugestão de música: Alice in Chains - Down in a Hole

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O meu pé ainda doía com o corte feito pelo caco de vidro quebrado da noite anterior, mas isso não me impedia a dar mais um passo.

Caminhando eu saí de Botafogo e cheguei no limite entre o Catete e a Glória. Estava cansado, mas isso também importava. Tão pouco eu ligava se meu rosto fervia com os sol que já queimava no céu, com os socos e tapas que Nicole me dera ou com as lágrimas que pareciam não acabar.

Nada mais fazia sentido sem ela. A dor, o cansaço ou a vida.

“Todo amor tem os ingredientes para se tornar uma grande bomba e destruir a vida dos dois de forma irreparável.”.

Essas foram às palavras de Guilherme que se tornaram reais depois de uma super-dosagem de anfetaminas.

Parei um instante e notei que as pessoas me ignoravam na rua apesar de eu ser o único vestido com roupas “de noite” em pleno Domingo pela manhã. Para elas eu era tão invisível quanto um fantasma.

Mal elas sabiam o estrago que um fantasma podia causar.

Aquela indiferença me causou um mal estar e decidi acabar com aquilo. Se estava morto, iria ficar quieto no meu caixão e tentar me isolar o maximo possível do mundo dos vivos. Eu ficaria dentro da caixa sem nenhuma esperança de alguém vir me salvar. Peguei um ônibus direto para casa e esse foi a última fagulha de pensamento racional que tive.

De resto eu só pensava em morrer.

Cheguei em casa e tudo estava tão silencioso quanto a minha alma. Meus pais tinham ido a Missa de Domingo. De certa forma, aquilo era uma benção. Eu não iria precisar explicar o que eu fazia em casa tão cedo. Ou tão tarde, dependendo do ponto de vista. Não sentia sono nem fome. Apenas sede e uma vontade infinita de morrer. Todos os meus movimentos eram lentos e pesados. Peguei uma garrafa de água e me tranquei no meu quarto.

Liguei a televisão, mas não prestava atenção no que estava acontecendo. Eu estava muito desolado para me entreter com algo.

Mesmo assim, coloquei a fita do Alice in Chains no walkman e ouvia aquele lamurio enquanto lembrava da minha briga com Nicole. Os discos quebrados, o cinzeiro estilhaçado, o buraco na parede, o meu nariz sangrando e as palavras ríspidas da Ruiva. Nenhuma briga deveria ir tão longe. Se Nicole não tivesse tão sensível e fragilizada pelas drogas certamente aquilo não teria acontecido. Se eu tivesse raciocinado que relembrar o pai falecido para a minha namorada depressiva era uma péssima idéia, aquilo não teria acontecido.

Se ela me amasse de verdade, aquilo não teria acontecido!

Sobretudo, se Guilherme nunca tivesse aparecido e dito as coisas que disse, certamente aquilo não teria acontecido!!!!

Que tipo de visão era aquela que vinha alertá-lo sobre o futuro e acaba mudando o rumo do destino? Ele me avisou que nosso namoro iria morrer e que eu aprenderia sobre sofrimento, mas se eu não soubesse disso, eu nunca teria pego aqueles discos, não teríamos brigado e tudo continuaria como sempre foi.

Comecei a odiar aquele suicida mais do que nunca. Não entendia o objetivo daquilo. Não estava certo. Afundei a minha cabeça entre as minhas mãos e o amaldiçoei com toda a raiva do mundo. Era como se eu tivesse seguido a risca um plano maquiavélico pré-formatado para mim e sem chance de escolha. Onde estava o raio do livre-arbítrio afinal?  Era essa porcaria que o destino me reservava?

Se fosse possível matar o morto, eu o faria.

Estava terminado.

Eu não conseguia absorver, mas era a mais pura verdade. Era algo muito esquisito. Como estar vivendo a vida de outra pessoa. O fim.

Gostaria de acordar na cama, ao lado da Ruiva, com a testa suada e contando a ela o pesadelo horrível que tivera. Ela iria colocar o livro da Polyanna de lado, me beijaria e diria que tudo tinha passado.

Mas não ia acontecer. Estava terminado. Eu estava na vida real e nem sempre o “jogo do contente” funciona por aqui.

Tudo perdia o sentido. Até beber aquela água para saciar a minha sede, não tinha razão.

Talvez eu estivesse experimentando o primeiro sintoma do “vazio” que a Ruiva descrevera. Conseguia prever meus dias; Em uma semana eu estaria enchendo a cara, chorando como um bebê e Lucas me consolando dizendo para ter calma e que o tempo era o melhor remédio. Os dias virariam semanas e depois meses. Nicole provavelmente estaria com outra pessoa e eu andaria novamente por aí, tentando preencher o vazio com atitudes misóginas.

Estava terminado e eu tinha sido feliz até onde o destino permitira. Pois é, nós morremos jovens.

Antes de conhecer Nicole eu me orgulhava de ser inconseqüente. Vivia a vida da forma que ela se oferecia para mim sem me importar com o que viria depois. Não queria nem saber. Nunca acreditei ou me importei com o destino.

No primeiro instante que eu vi a Ruiva caminhando pela grama do Casarão do rock, eu me apaixonei quase que imediatamente. Nesse nosso primeiro encontro ela pediu para que eu retirasse uma carta do maço de tarot e eu tirei justamente a carta da Morte. Lembro-me que fiquei assustado e ela me acalmou revelando que não era uma morte literal, mas se eu tomasse a atitude correta eu iria passar por varias transformações e no final, seria um homem diferente.

Foi o que aconteceu. Comecei a acreditar em destino e no amor. Aprendi a valorizar as mulheres, as minhas amizades e a não ser tão inconseqüente.

Agora o que eu era? Um garoto assustado de cara com a morte. Ferido, rasgado, perdido e esquecido. A verdade é que o amor é tão bom que faz você pensar que controla a sua vida, mas isso é uma mentira. Ninguém controla nada. Basta um segundo para que o jogo vire, a máscara da felicidade caia e o sofrimento surja como uma fênix renascida e fortalecida para queimar toda e qualquer alegria.

Afinal, isso era só fruto da tristeza que afundava a minha alma. Pois a grande verdade que negava era que tudo era minha culpa. Minha tão grande culpa. Eu fui atrás de Nicole enquanto ela tinha um namorado. Eu continuei com Nicole sabendo que ela gostava de garotas e eu forcei a todo o momento que ela declarasse um amor que ela nunca sentiu ou iria sentir por mim.

Estava tudo acabado, o mundo continuava girando, as pessoas continuariam as suas vidas e pouco se importando se eu estava morto por dentro ou não.

Comecei a desejar profundamente nunca ter conhecido Nicole, o amor e vivido tudo aquilo. Você pega um homem, o faz acreditar no amor. Dê para ele toda a felicidade que ele pode conceber. No final, você tira isso tudo em um estalar de dedos. O que sobra?

Dizem que a felicidade não se compra, mas será mesmo que se você nunca tivesse existido faria alguma diferença para o mundo? Se o poder absoluto corrompe absolutamente, do mesmo modo, a felicidade absoluta quando acabar trará a tristeza absolutamente.

Será que sua vida é tão importante assim?

Tentei apagar a minha mente disso tudo. Onde eu iria chegar com tantos pensamentos mórbidos? Mais um pouco eu literalmente iria pegar uma arma e estourar os meus miolos no banheiro.

Sabia que não iria conseguir dormir, não só por conta das anfetaminas, mas também pelo meu estado de espírito. Tão pouco eu iria me alegrar, mas também eu não precisava piorar a situação. Decidi deixar o Alice in Chains de lado e pegar algum livro.

Desliguei o walkman. Foi que eu percebi a televisão. A esperança estava morta, pois ele estava morto. Ele que acelerava rápido aos Domingos trazendo um pouco de vigor, de felicidade e de sonhos para todos nós acabara de falecer. 

Na televisão as pessoas estavam desesperadas. Notei que meus pais tinham retornado da igreja e choravam na sala.

Senna estava morto. O maior herói brasileiro dos últimos tempos, ou talvez de todos os tempos, não estava mais entre nós. O acidente fatal naquela curva maldita.

Todos precisam de heróis. Não precisamos do Super-homem e sua capa, da Mulher Maravilha e seu laço mágico, do Batman e seu cinto ou do Flash e sua velocidade. Precisamos de pessoas reais que superam todos os limites e nos mostrem que é possível realizar os nossos sonhos, independente de qualquer coisa. Basta ter a vontade e a determinação para vencer os obstáculos. Precisávamos de Ayrton e seu heroísmo todas as manhãs. Ele dava aos brasileiros algo muito valioso que muitos tentam vender, mas não conseguem.

Ele dava sonhos. Ele dava esperança. Mas nem mesmo o mais destemido herói pode lutar contra o seu destino.

Os heróis também morrem jovens.

Fui até a janela e olhei o mundo lá fora. De alguma forma eu sabia que todos choravam. Por alguns segundos, eu percebi que o Brasil estava tão triste como eu. Por alguns segundos eu me senti mais tranqüilo por não está sofrendo sozinho.

Até hoje me odeio por esse pensamento.

Minhas opções não eram nada boas. Poderia ligar para a Nicole e tentar uma reconciliação. E ouvir um monte de desaforos. Poderia pegar uma faca e cortar os pulsos. E acabar com uma vida aparentemente perfeita da minha família. Ou poderia simplesmente ficar ali parado esperando a morte chegar.

Desliguei a televisão e voltei a ouvir Alice in Chains no walkman. Fiquei deitado na cama virando a fita do lado A para o B e do B para o A durante horas sem nenhuma perspectiva da vida melhorar.

Até que o telefone tocou....e a vida piorou! 

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No próximo capítulo: Do pó viemos e ao pó voltaremos

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O vazio que nos preenche


Viciado Carioca - Ano I – Arco 3 – Parte 13

A história até agora: Depois de uma noite de anfetaminas e sexo descontrolado, Vic e Nic seguem para seu apartamento para a noite mais longa de todas. Se você está seguindo essa história desde o começo eu só tenho que agradecer a dedicação, a fidelidade e sobretudo a fé que eu vou continuar postando até o final.
E acredite. Eu vou continuar até o fim. 

Sugestão de Música: The Doors - The End
Chegamos à casa da Ruiva e o dia iniciava a sua luta com a noite. Estávamos sozinhos. A mãe de Nicole mais uma vez viajava com o namorado no fim de semana e só deveria voltar na segunda. Poderíamos dormir tranquilamente sem ser incomodados.

Pelo menos, esse era o meu plano.

Fiz um pequeno lanche na cozinha enquanto Nicole preparava o quarto. Ofereci a ela um dos meus maravilhosos queijos quentes temperados com orégano e alecrim, mas ela disse que não sentia fome. Com certeza efeito das bolinhas. A Ruiva é uma das maiores adeptas a larica pós balada que eu conheci. Acabei tendo que degustar o meu sanduíche com um refrigerante sem gás sozinho.

Quando terminei, fui para o quarto e desabei na cama. Eu estava totalmente esgotado. Nicole deitou ao meu lado e começou a acariciar a minha cabeça. Sua voz era tão macia quanto o de uma criança quando ela disse:

- É estranho. Sinto-me cansada, mas não tenho sono.

- O sono vai chegar logo, Nic. Só se acalme e procure não pensar muito.

Nem sei como respondi. Estava morto. Ficamos na festa o tempo todo em pé e logo depois veio à olimpíada sexual. Com certeza eu não acordaria antes das quatro horas da tarde. Não precisei de muito tempo. Em menos de dois minutos eu estava roncando.

Eu estava na minha casa. Tudo era silencioso e sem cor. As paredes, o sofá, as flores no vazo. Eu estava em um filme mudo e preto em branco.  

Guilherme sorriu, parado no corredor. Olhei para ele e levantei a mão para cumprimentá-lo, mas ele deu as costas e sumiu para dentro do apartamento. 

Eu o segui.

Ele parou na porta do meu quarto. Com sua voz tenra, ela cantou:

- Venha, Vic! Venha para a caixa!

A situação era linda. Hipnótica.

Eu entrei no quarto e ele fechou a porta. Virei para tentar encontrá-lo, mas ele não estava mais lá. Eu queria gritar seu nome, mas não fiz. Simplesmente deitei na cama, fechei os olhos e percebi que seria uma idiotice chama-lo. Por que ele estava ali comigo. Não ao meu lado, mas comigo.

Ele não estava sozinho. Deus estava conosco e todo os anjos e santos.

Ainda deitado na cama, abri os olhos e vi meu pai vestindo um terno preto. Meu irmão mais velho estava ao seu lado, segurando a sua mão. Meu pai chorava e gritava:

- Por que isso foi acontecer? Não é justo! Eu deveria ir primeiro.

- Está tudo bem. Está tudo bem. – meu irmão tentava acalma-lo.

Era exatamente o que eu sentia. Apesar de morto, tudo estava bem.

Tudo era belo e bonito. Não deveria existir sofrimento. Eu iria dizer isso ao meu pai. Então, levantei-me e toquei a sua mão para conforta-lo. Minha mão o atravessou e eu não toquei a sua carne e sim a sua alma. Ela estava tão escura, tão fria e tão seca quanto nenhuma dor que eu conhecia conseguiria causar.

Eu queria gritar, mas foi nesse momento que a Ruiva me chamou.

Nicole me acordou apenas trinta minutos após a minha cochilada. Minha boca estava amarga e uma azia de cerveja misturada com maconha transformava o meu estômago em gelatina. Ela estava sentada na cama e seus olhos continuavam tão arregalados quanto na primeira hora que ela tomara os remédios. Ela disse afobada, com uma voz vacilante:

- Não consigo dormir.

- Pega o pior livro da casa e leia uma ou duas páginas. Tenho certeza que você vai sonhar antes de terminar um capítulo.

Depois de responder eu me virei de lado, ajeitando o travesseiro. Mal acabei de me acomodar e estava dormindo novamente, mas ela me balançou outra vez.Vire-me e ela mostrou uma edição tão antiga de Pollyanna que os ácaros naquelas páginas deveriam ser tombados como patrimônio histórico.

- Eu tentei isso. Mas esse livro é muito depressivo. Essa garota é muito feliz! Ninguém pode ser tão contente assim.

Eu achava que seu mau humor matutino era por acordar, mas parecia que mesmo depois de uma noite em claro ela era naturalmente depressiva no início do dia. Eu nem conseguia raciocinar direito. Eu tentava abrir os olhos, mas as palbrebas queimavam o meu rosto:

- Escolhe outro livro, Ruiva.

- Eu acho que nunca mais vou conseguir dormir, Vic.

A ruiva estava assustada e suas veias continuavam saltadas. Suspirou e por fim disse:

 – Eu acho que vou morrer.

Esforcei-me para levantar e sentei na cama. Olhei para Nicole e o seu brilho tinha desaparecido. Sua cara estava abatida, seus cabelos alaranjados estavam desarrumados e ganhavam uma tonalidade acinzentada em algumas partes. Ela apoiou a cabeça em meus ombros e começou a chorar copiosamente.

- Fique calma. Você não vai morrer, Nic.

Sinceramente, nem eu acreditava em minhas palavras. Como tinham passado algumas horas desde que ela tomou os comprimidos e nada mais aconteceu além da sua velocidade exacerbada e seu apetite insaciável por sexo, pensei que a maior parte do efeito tinha passado. Porém, sua imagem fragilizada me abismava. Nicole era um reflexo distorcido daquela pessoa que apenas algumas horas antes era um vulcão sexual. Foi como se tivesse encontrado cara a cara com a morte que roubou um pouco de sua alma.

- Não me deixe sozinha! Por favor! – ela suplicou.

Eu fiquei pensando se estivesse ciente após o encontro com o fantasma de seu pai, eu não teria a mesma reação. Deus, eu só fui recobrar a consciência no dia seguinte e estava me cagando de medo. Nicole era sensitiva, ela limpava a aura e falava sobre o destino através das cartas de tarô. Será que ela também tinha tido uma experiência metafísica?

- Você está tendo alucinações? Viu algum espírito ou algo do tipo?

Minha voz soava fraca. Eu estava muito cansado. Mesmo preocupado, seria difícil fazer companhia a Ruiva.

- Não. Isso também está me assustando. Nem sua aura eu consigo mais enxergar. Quando forço para lembrar como era na festa, eu simplesmente não lembro. Não consigo recordar se eu enxergava ou não o espectro das pessoas na noite passada.

Ela voltou a chorar e enfiou a cara novamente no meu ombro:

 – Eu já li isso em um livro, Vic. Quando um médium vai desencarnar, ele perde a sua sensibilidade momentos antes de sua morte. Eu vou morrer. EU VOU MORRER, VIC!.

- Para com isso, Ruiva. Eu já disse, você não vai morrer. Só está muito acesa para dormir. Fica clama.

Cada lágrima que caia no seu rosto era um rasgo no meu coração. Eu senti uma pontada na cabeça e paulatinamente a dor foi aumentando, como se uma serra elétrica tivesse sido ligada na velocidade máxima no meu cérebro. Era o sono. Eu precisava dormir.

- Não me deixe sozinha. Por favor, Vic!

Mais do que qualquer coisa, eu precisava muito de algumas boas horas de sono. Mas eu não poderia. Eu tinha que ficar ao lado de Nicole. Segurei seu rosto desesperado entre as palmas da minha mão e falei em um tom calmo, quase sedutor:

- Tudo bem. Você só precisa se distrair. Por que não vai me fazer um café enquanto eu procuro uma aspirina para curar a minha ressaca, ok? Eu não vou dormir até você conseguir. Eu prometo.

Ela concordou comigo. Me abraçou, me beijou e então levantou.

Eu esfreguei o rosto. Minha cabeça doía como eu nunca tinha sentido antes. Maldita ressaca. Mesmo com todo café do mundo, eu não iria conseguir ficar acordado. Eu poderia ter despertado naquele momento, mas depois que Nicole se acalmasse, provavelmente eu iria cair no sono outra vez.

Era difícil de admitir, mas só existia uma coisa a se fazer.

Catei a minha calça jeans em um canto do quarto e não foi difícil encontrar a cartela dentro do meu bolso.

A última bala que restara.  O ecstasy que eu precisava. A pílula que Nicole poupou, pensando que estava sendo prudente. Na cabeça dela, era para tomar as quatro de uma vez, e tomou “apenas” três para experimentar a droga.

Saí do quarto e cheguei a cozinha com o comprimido na mão. Ela estava fazendo o café e deu um sorriso ao perceber a minha presença. Peguei um copo d’agua e mostrei a ela o remédio. Nicole se desesperou:

- O que você vai fazer? Você não está pensando em tomar isso!

- É a única maneira de me manter acordado.

- Você está maluco? É isso que está me matando e você pretende engolir esse veneno?

- Não acredito que isso esteja te matando, Nic. Não vou deixá-la sozinha nesse seu estado tão depressivo. De qualquer forma, esse comprimido vai me manter acordado.  .

- Isso é suicídio, Vic.

- Se for, seremos um Romeu e Julieta modernos. – Coloquei o comprimido na boca, levantei o copo em reverência - Senhorita Capuleto, ao pacto! –

Engoli a bolinha.

Imediatamente caí no chão da cozinha com a mão apertando o meu peito e estrebuchando de dor.

– Estou morrendo! – eu gritava.

Nicole me chutou:

- Não tem graça, seu babaca.

Levantei-me com um sorriso idiota nos lábios.

- Eu só queria cortar um pouco a tensão.

Segui para o quarto de Nicole novamente. Ainda não sentia nada de diferente. Não podia me deitar. Talvez um pouco de música pudesse cortar o clima pesado. Comecei a pegar os vinis para colocar alguma alegria no ambiente. Eram seis horas da manhã e eu teria um dia inteiro pela frente. Um pouco de música não faria mal.

Minha mente começou a martelar que aquela era uma bela hora para matar uma dúvida. Deixei os discos da Nicole de lado e fui até a sala. Comecei a revirar os discos. Era uma grande coleção apesar do gosto questionável. A quantidade de LP’s de novela e os promocionais de rádio eram ridiculamente constrangedores.

Não demorou muito e os encontrei. Contei no mínimo uns cinco do Gonzaguinha.

- Por que você está mexendo nessas velharias?

Nicole entrou na sala com duas xícaras altas de café. O cheiro era maravilhoso, apesar de eu não estar tão interessado na bebida. Ela se aproximou e notei que a droga já fazia efeito na minha mente.

Quando ela arriou a xícara na minha direção, entendi perfeitamente o que ela quis dizer com as gotas do chuveiro. Eu conseguia ver cada “frame” do movimento. Era como se um estrobo tivesse ligado na sala e congelasse os movimentos a cada segundo.

- Eu queria ouvir algo diferente. Algo com otimismo e acho que Gonzaguinha vem bem a calhar.

Ela olhou indiferente enquanto eu tentava escolher o disco certo. Não tive dúvidas quando vi o homem barbudo, com aquele semblante de malandro, sentado no quintal de alguma casa na capa de “Caminhos do Coração”. Escrito a caneta estava a assinatura de Guilherme e o ano 1982.

- Era o cantor predileto do meu pai. Ele escutava isso o tempo todo. Eu nunca te contei isso? – ela disse tomando uma golada no café, claramente se controlando.

- Acho que não. Isso te deprime? – eu disse sem perceber como era idiota aquela idéia. Mas ela evidenciou isso enfaticamente:

- Se me deprime? Vic, se Pollyana me deprime, o que você acha que vai acontecer ouvindo as canções favoritas do meu pai suicida? Você é um imbecil.

Ela voltou a chorar. Larguei os discos de lado e fui abraçar a Ruiva. Eu realmente não tinha pensado na sua reação. Eu queria saber se o encontro com o fantasma fora verdade. O contato com aquela visão. Entender mais um pouco sobre a psicologia de Guilherme e talvez compreender perfeitamente a sua mensagem para mim.

- Desculpa, Nic. Mil desculpas, eu não pensei direito. Eu só achei que precisávamos de um pouco de alegria e as músicas do Gonzaguinha são tão otimistas.
Minhas palavras se atropelavam. Meu sono tinha sumido de vez e eu não me sentia tão cansado como no momento que chegara.

Na verdade, me sentia cheio de energia.

- Gonzaguinha é tão otimista que o seu maior fã colocou uma pistola na boca e explodiu a sua cabeça dentro daquele banheiro. Para merda com Gonzaguinha!

Nicole correu até os discos e começou a pular em cima deles.

– Eu odeio isso. Odeio essa vida. Eu odeio tudo.

Dava para escutar o barulho dos discos quebrando enquanto a Ruiva gritava a sua ira. Eu me sentia mais culpado do que nunca. Mais uma de minhas idéias imbecis. Eu devia lembrar que a última vez que ela me falou do pai estava em prantos. Mesmo assim, só para satisfazer a minha curiosidade, eu abri uma cicatriz que nunca fora curada por completo.

A saudade paterna iria sangrar na alma da Ruiva por toda a sua vida. Eu andei lentamente ao seu encontro e tentei abraça-la.

- Desculpa, Nic. Vamos esquecer isso.

Ela desvencilhou dos meus braços e começou a socar o meu peito.

- Você não entende. Nunca perdeu alguém que não teve tempo o suficiente para amar de verdade.

Ela me empurrou para longe e caiu ajoelhada no chão. Apertava os discos com força e contra o peito. Voltou a falar:

– No início você só chora e as pessoas dizem que o tempo vai te consolar, mas quando ele passa, você não sente mais dor, saudades ou sofrimento. A única coisa que você tem é um vazio enorme que você não consegue preencher. Você nunca consegue superar isso e nunca consegue chorar de verdade quando quer se aliviar. Só existe o nada. O vazio. – ela amassava as capas dos discos e quebrava os poucos pedaços que ainda restavam. – Você me pede para esquecer isso, Vic? Eu nunca vou esquecer isso!

Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas nenhuma gota escorria pelo o meu rosto. Eu me segurava para não chorar. Não poderia me dar esse luxo. Eu tinha que ser forte para reerguer a Ruiva. Abracei forte e dessa vez ela não fugiu. Apenas aceitou aquele abrigo carinhoso e ficamos ali por algum tempo. Depois levantou-se e eu a acampanhei. Ela olhou para mim de maneira séria e disse:

- Por que você fez isso? Por que pegou nesses discos agora?

Eu tinha a resposta na ponta da língua, mas não poderia dizer-la. Não poderia contar a ela sobre a minha alucinação. Sobretudo naquele momento, depois de todo o desabafo e com nós dois sob o efeito das anfetaminas.

- Eu não pensei direito. Desculpa.

Seu corpo tremeu. Ela fechou os braços tentando segurar o máximo. Mas no fim, sua fúria explodiu e ela desferiu um sonoro tapa no meu rosto.

- Seu merda. Olha o que você me fez fazer! Eu quebrei todos os discos do meu pai. Os discos prediletos dele e isso porque você “não pensou direito”.

Eu não reagi e isso a motivou a me bater mais. Deu outro tapa e começou a me chutar.

- Eu te odeio! Eu te odeio! Eu te odeio!

Nicole gritava enquanto continuava me batendo. Eu tentava segura-la, mas ela escapava, me arranhando e me socando. Meu corpo estava em chamas e adrenalina corria como uma manada descontrolada.

- Para Nicole, porra!

Meu grito não adiantou. Ela bateu mais duas vezes em meu rosto com a mão fechada e uma gota de sangue caiu do meu nariz em cima do meu peito desnudo. Então, eu armei um soco para dar na cara de Nicole.

Pura reação de defesa. Minhas pupilas dilatadas, o sangue pingando, o corpo fervendo e a minha cara de raiva.

Foi o seu rosto assustado que me deteve antes que eu cometesse a maior besteira da minha vida. Ela ficou me olhando e eu baixei a mão não acreditando no que eu estava prestes a fazer.

- Você ia me bater seu merda? Quer dizer que você iria me bater??

Ela gritava e eu não encontrava uma maneira de justificar aquilo.

- Eu não pensei, eu só reagi.

- Você nunca pensa, seu escroto. Você é burro de mais!

Ela voltou a me bicar. Pegou um cinzeiro na mesa da sala e jogou na direção da minha cabeça.

Eu desviei no último momento e o cinzeiro se espatifou contra a parede, fazendo um pequeno buraco e quebrando-se em vários pedacinhos. Comecei a acreditar que aquele seria o momento da minha morte. Eu seria assassinado pela única mulher que amei verdadeiramente.

A Ruiva estava furiosa e todas as veias do seu corpo estavam sobressaltadas. Era uma cena até patética de se ver. Ela com um pijaminha de pano rosado. Infantil. Eu apenas de cueca e aquela briga infernal.

Limpei o sangue do meu nariz e ela partiu para cima de mim, apontando o seu dedo na minha cara:

- Saí daqui. Eu quero você fora dessa casa e fora da minha vida.

Seus olhos estavam injetados de sangue e seu rosto totalmente vermelho. Ela me bateu mais uma vez e naquele nosso melhor momento, o interfone do apartamento tocou.

- Ah, que merda! – ela gritou e correu para a cozinha.

Meu nariz ainda sangrava e fui até o banheiro. Peguei um papel higiênico. De lá de dentro, podia ouvir os gritos da Ruiva no interfone

– Aquela velha está reclamando do barulho? Manda ela enfiar o barulho dentro daquela bunda caída!

Meu Deus, onde fomos chegar?

Eu voltei para a sala e coloquei a minha cabeça para o alto, rezando para que o sangramento parasse.

- Se ela quiser chamar a polícia, que chame!

Nicole gritou e escutei ela batendo o interfone violentamente.

Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo.

Ela voltou para a sala furiosa e olhou desdenhosamente para mim. Eu não disse nada, apenas a observava como um garoto assustado. Ela colocou a mão na cintura e determinou:

- Eu vou tomar um banho e quando eu acabar espero que você tenha ido embora.

Saiu da sala e bateu forte a porta do banheiro.

Era o fim.

A grande paixão da minha vida terminava da maneira mais truculenta e brutal que eu jamais poderia imaginar.

Eu temia o fim o tempo todo. Mas achei que aconteceria de maneira tranqüila. Ela finalmente iria confessar que não me amava e voltar para o Luther. Arrumar uma garota
ou até, muito provavelmente com um idiota do tipo o Pedro dos Garotos Radioativos.

Se você não ama ninguém, mas não quer ficar sozinho, a melhor opção é escolher alguém com personalidade mais fraca possível, para não ter tantos problemas. E Pedro, o vocalista da pior banda de rock and roll era a melhor opção.

Finalmente concluí o óbvio.

O que Guilherme me alertara o tempo todo e eu com meu medo infantil não enxerguei. A morte que ele anunciara, não era uma morte física. Não era a morte de fato e sim o fim do meu relacionamento com Nicole.

A primeira gota salgada brotou preguiçosa em um dos meus olhos. Como se não acreditasse na verdade incontestável, ela desceu lentamente pelo o meu rosto e morreu inerte no meu lábio. A segunda veio naturalmente e antes de tocar meu queixo, já era seguida pela terceira. A quarta e quinta gota se transformaram rapidamente em uma cachoeira que nascia dos meus olhos.

Me vesti e fui embora.

Estava tudo acabado entre eu e Nicole.  

No próximo capítulo: O Domingo não é o mesmo desde que você se foi...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Lust for life


- Ei, chega mais perto. Posso falar com você em particular?

Meus amigos diriam que era a tarde errada para aquilo. Mas existe tarde certa? Os mais experientes diriam que não existe hora para isso. Os mais católicos diriam que isso nunca é certo. Os menos experientes nem pensariam nisso. 

Mais como vocês sabem, eu sou eu. Não existe certo ou errado. Apenas, o que eu quero fazer. 
O farmacêutico me olhou com cara desconfiada. Talvez pensando que eu fosse viado. Na imaginação machista dele, as coisas acontecem desse jeito. Alguém entra numa farmácia morrendo de coceira no rabo, oferecendo a rodela para qualquer um. 

Sei lá, não sou viado. Talvez seja sim. De qualquer forma, ele perguntou com toda a mal vontade:

- O que é? Se for Viagra eu não vendo sem prescrição... 

- Não amigo... – eu disse - não é isso...

- Ih... lá vem...

Sua cara era de poucos amigos. Menos do que a torcida do Botafogo, ou seja, quase ninguém. Eu olhei para um lado e para o outro e perguntei:

- Eu quero comprar um perfume. 

- Hum... qual?

- Não é um qualquer... é um com cheiro específico.

A cara de “esse viado vai ter que me dar” mudou para “o que esse viadinho quer”. Nada muito amistoso, eu concordo. Mas já era um avanço.

- Você ta procurando”tesão de vaca”?

Eu, com toda a sabedoria que o Didi Mocó me ensinou ao longo da minha vida, perguntei:

- Cuma?

- Você sabe.. tesão de vaca... aquele perfume com feromônios masculinos as mulheres ficam locas e querem transar com você quase que instantaneamente!

Arregalei os olhos:

- Não... não foi isso que eu vim procurar. Mas se você tem isso para vender, eu compro agora.

- Não.. não temos.

- Porra, então por que você ofereceu?

- Só par ver a sua cara de desesperado!

Eu abri um sorriso amarelo. Ele dava gargalhadas do outro lado do balcão. Eu cocei a cabeça e tentei ignorar nosso último dialogo.

- Veja bem, eu estou procurando um perfume, que é doce mais não é doce de mais, porém gruda na pele e no nariz como um cri-cri nos seus pentelhos.

Ele abriu os braços e sua alegria era uma só:

- Por que você não disse antes? Você ta procurando o famoso “perfume de puta”!

- Exatamente!

O homem saiu do balcão e mexeu nas prateleiras. Quando voltou, sua mão estava cheias de frascos. Jogou todos na minha frente:

- Bem, vamos lá. Esse daqui é o mais caro. Cheiro de puta de luxo.

- Eu passo. Nunca senti isso de perto. Prefiro que a primeira vez seja in natura.

- Certo  – ele respondeu – vamos passar para o seguinte. Esse é o genérico. É mais barato, mais o cheiro não fica tanto tempo no corpo.

- Esse seria perfeito se eu tivesse namorando. Mas não é o caso. Eu quero aquele brabeira mesmo.

- Aquele que fica uma inhaca por cinco dias te lembrando a puta feia que você comeu por que estava bêbado? – ele perguntou.

- Esse mesmo. Como você sabe tanto?

Ele esticou o braço até o meu nariz. Estava lá. Era inegável.

- Vila Mimosa. Dois dias atrás. 

- É esse mesmo.

- Três pratas, chefe. Paga no caixa.

Aviso aos solitários. Melhor custo benefício não existe. 

Para quer gastar com o sexo pago? Toda a inconveniência. A borracha, os erros de português, os gemidos falsos e o papo idiota no travesseiro de “to saindo dessa vida”? Você pode simplesmente substituir pelo auto-amor, depois joga o perfuminho no braço. 

O efeito é o mesmo. Acredite.

Essa longa introdução foi para explicar porque eu estava cheirando igual a uma puta barata naquela festinha, até que animada, porém com mais Iggy Pop do que deveria. 

Eu havia gastando uns meses vadiando com uma mulher magra de mais que super valorizava o sexo oral, bebendo vinho de qualidade questionável e gastando toda a minha teoria sobre a vida, o universo e todas as porcarias.

Quando consegui me separar daquele zumbi, decidi entrar em uma verve mais “Legião Urbana” e ir para essas festas de rock para “me libertar”. Agora você veja, logo eu que sempre disse que essa letra era apenas uma desculpa para dar a bunda.

Nunca usei o tal tesão de vaca, mas o meu odor de piranha de três reais, por algum acaso fez efeito nessa morena. Ok, concordo que eu estava jogando sujo. 

Hoje, sou quase um matusalém do rock and roll carioca quando entro nessas festinhas escuras. E, convenhamos, apesar de gordo, esses garotos com os cabelos estrategicamente descabelados  para o lado ou os meninos de cabelo ruim e grande - como uma espécie de repolho geneticamente modificado - não tem muita chance no papo, vamos dizer, mais cabeça.

Por favor, entenda como “mais cabeça” falar de vampiros antes da época Crepúsculo. Como por exemplo, o papo que eu tive com essa morena de bunda larga e com lente de contato verde para tentar distrair a atenção do que realmente importa. Eu bebendo uma gin tônica e pouco me lixando com o que ela estava enfrentando aquela noite:

- Fala a verdade. Seu nome não pode ser Bella.

- Estou falando sério, garoto. – ela dá um tapinha de leve no meu peito – Isabella, mas todo mundo me chama de Bella. Não é o máximo?  Só falta eu encontrar o meu vampiro...

Eu dei um gole na gin tônica. Fala sério, tapinha no peito, essa menina estava no papo.

- Bem, eu não me chamo Eduardo, mas sou quase um vampiro.

- Jura que você é um vampiro?

A maneira que os adolescentes acreditam em qualquer merda que você fala é quase patética. 

- Claro que não é no sentido literal, Bella. Mas entenda bem, eu passo a noite em claro, quando estou com pouco dinheiro bebo coisas tão bizarras que um ser humano normal não bebe, tipo gin. Não entro em igrejas e seu eu visse um lobisomem com certeza cairia na porrada com ele. – Dei um gole no meu gin – Tirando a parte que eu adoro um macarrão alho e óleo, eu poderia ser um vampiro. 

- Há, ta certo, Vic. Mas diz aí, você viu Crepúsculo?

Eu cocei o nariz. Aquele era um momento fatal. Mentir e conseguir sexo com uma menina quase com a metade da minha idade ou falar a verdade e manter os princípios? O grande dilema.

Foda-se. Eu sou um homem de princípios.

- Claro que não. Eu não apoio a pedofilia. 

Bella deu um passo para traz e depois dois para frente. Ela devia ter um rol de respostas na sua cabeça e eu com certeza dei a única que não estava na lista.
- O que? – ela perguntou atordoada. 

- Você sabe bem, Bella. Quando a sua xará conhece o vampiro emo, ela só tem dezessete anos e ele tem quantos? Cento e cinquenta? Duzentos anos?  Se isso não é pedofilia...

- Mas eu tenho dezenove e você tem trinta e veio me cantar...

Como um hipnotizador de galinhas, peguei ela pela nuca e respondi:

-  Gata, se passou dos dezoito anos, saiu da minha área de proteção para entrar na zona da curtição.

Daquele beijo, veio mais um, mais outro, o coração batendo forte, uma mão ali, outra mão acolá, deixei me envolver com o momento e quando menos percebi, a empolgação nos levou até a minha casa. 

O juiz do Mortal Kombat já gritava no meu ouvido: FINISH HER!

E quando eu iniciava os movimentos do Fatality, foi quando eu percebi o meu erro.

Fui à farmácia e não comprei o mais importante. 

Puta que pariu. Eu não acredito. 

Depois de tanta lenga lenga.

Eu queria me matar. 

De tudo, a única coisa que eu não podia deixar de comprar, eu não comprei. 

É claro que não dá para seguir em frente sem isso...

Como eu fui esquecer o KY? Sem KY não dá. A não ser que você seja o Marlon Brando e tenha muita manteiga na sua casa.

Bem, ficamos no básico. 

O básico durou a noite inteira.

Essa é a juventude, compensando a sua inexperiência com uma garra e uma vontade inesgotável. Eu deitado na cama e aquela mulher querendo mais e mais. 

Aquilo não era tesão. Era a ira dos Deuses.

Ela montava contra o meu corpo e pulava como se o mundo fosse acabar. Eu, acuado nos travesseiros, tentando me manter ali. Uma situação quase constrangedora. A virilidade de Bella era agressiva e eu deixava a garota se divertir.

Então o momento chegou. Eu sabia que ele iria vir. Era uma questão de tempo. A sede que parecia implacável, saciou. 

Ela, caiu de lado. As pernas tremendo, a respiração ofegante e o coração explodindo.
Ok. Era a minha vez. 

Parti para cima com tudo. Com o corpo inclinado para o lado, fui procurando o ritmo. A batida perfeita. A afinação do instrumento. Os ouvidos atentos. Esperando. Escutei o gritinho verdadeiro. Mantive a pegada com toda a energia que eu economizei.

Toquei aquela música até o fim.

As unhas delas rasgavam as minhas costas, seus gemidos ecoaram pelos quarteirões e o lençol da cama...

Bem... coitado do lençol.

Todos os músculos da menina tremiam. Ela não tinha forças para levantar o braço. Muito menos para tirar o sorrisinho do rosto. 

- O que é isso? – ela perguntou desnorteada.

- Isso se chama múltiplos orgasmos, baby. – eu respondi.

O cinturão era meu. A história se repetia. Muhammad Ali VS George Foreman. A luta terminou antes do Amanhecer. E eu só tinha uma coisa na cabeça.

Crepúsculo é o caralho.