Eu estava no meu escritório jogando copas fora no meu chapéu quando a linda Fox apareceu rebolando o seu belo traseiro naquele vestido vermelho apertado. Ela estendeu um cigarro para eu acender e perguntou com seus lábios grossos pintados no mesmo tom da sua roupa:
- Você é Dick Chandler, o detetive virtual?
Observei seus lindos seios que pulavam para fora de seu decote como um maldito pop-up em um site pornô. Seus cabelos eram longos e loiros e nenhum expert em photoshop conseguira reproduzir aquele corpo. Nem mesmo com um Design Tablet.
- É o que está escrito na minha homepage, boneca. – respondi confiante.
- O mesmo Dick Chandler do famoso caso do compartilhamento de arquivos?
Ela fez o seu dever de casa. Nos idos de 1995, eu prendi alguns moleques que marcavam encontros através do IRC em bares sujos da cidade, e lá trocavam fitas K7 com músicas de bandas já esquecidas como Hanson, Metallica e Guns And Roses. Os primeiros piratas musicais foram presos por mim, Dick Chandler, o detetive virtual.
- Eu mesmo, boneca.
- E como você veio parar em um chiqueiro como esse? – ela perguntou intrigada.
- Armaram contra mim, doçura. Eu estava investigando uma rede de pedofilia quando acabei me envolvendo com uma mulher em um chat da UOL. Ela me disse que tinha 21 e eu acreditei.
- E ela era menor de idade?
- Antes fosse. Era um hacker de cinqüenta anos, gordo e barbudo. Ele descobriu uma falha de segurança e acabou violando meu backdoor. A coisa ficou feia e os blogs marrons noticiaram tudo. Eu acabei entrando no “ignore list” de muita gente. – respondi em um suspiro.
- Eu lamento.
- Tudo bem, boneca. Como você descobrirá, Dick é durão. – bati no peito para mostrar que eu não era homem de apertar ctrl+alt+del por qualquer travadinha. Então perguntei: - Qual é o problema?
- Eu quero que você encontre uma pessoa.
- Uma pessoa desaparecida? Já tentou o Google? O Orkut?
- Não exatamente desaparecida, Senhor Chandler.
- Me chame de Dick, fofura.
- Eu quero que você encontre o cara.
- Um cara?
- Não, um cara. O cara. – Ela sussurrou.
Seus lábios vermelhos eram mais bonitos, vibrantes e divertidos que uma animação em Flash. A seta do meu mouse começou a balançar. Arrisquei um nome:
- Larry Page?
- Não.
- Sergey Brin?
- Nope!
- Jobs?
- Ahhh....
- Gates? – minha última cartada. Tinha que ser Gates, há séculos eu queria pegar esse cara pelo desastre do Windows 2000.
- Não. – ela baforou um anel de fumaça através daqueles lábios rubros carnudos e confessou: - Eu quero encontrar Jimmy Wales.
- Quem?
- Você não sabe quem ele é? – ela estava surpresa com a minha ignorância.
- Não sei. Acho que eu queimei essa parte do meu HD com um pozinho malhado em um desses e-mails que relembravam os anos 80.
- Mas ele sabe quem você é. Ele sabe de tudo. Ele é o inventor do Wikipédia. Ele é O Cara.
- Ninguém é páreo para Dick Chandler, o detetive virtual, doçura. Me dê alguns minutos e acharei o homem.
Ela sentou a sua banda larga em cima da minha mesa enquanto eu batia nas teclas em busca de informação. Eu sabia muito bem o meu trabalho. Se o velho Jimbo se achava o cara, provavelmente ele teria um Twitter. Todos os imbecis tem um hoje em dia. Percorri os links empoeirados do Alta Vista e rapidamente uma coisa surgiu na tela:
- Bingo! – eu disse em voz alta.
A bela Fox deu um salto tão animado como um e-mail novo na caixa de entrada.
- Você o encontrou?
- Não! Somente um pop-up para um cassino online com jogos de bingo a um dólar cada.
- Ahh! – ela desanimou e pude ver as lágrimas começarem a nascer em seus grandes olhos marrons. Código #993300. Tenho certeza!
- Não desanime, boneca. – eu disse confiante.
Segui um profile fake no twitter que me levou a outro fake e depois mais outro. Estava ficando mais difícil que eu pensava. Aquele caso iria ser mais trabalhoso do que colocar um filme em dois VCD’s na época que eu não tinha um gravador de DVD.
Se o sujeito não tinha um Twitter provavelmente teria um blog. Todos os imbecis de antigamente tinham um blog. Acendi mais um Luke Strike e fiz o que milhares de pessoas fazem todos os dias. Entrei na blogosfera sem ninguém me notar.
Não demorou muito. Segui o rastro de um comentário imbecil em um blog obscuro. Cliquei em um permelink e logo caí em um Digg de uma matéria inútil com uma nota duvidosa. Depois disso não foi difícil encontrar o sujeito.
- Done! – eu disse em voz alta, mas dessa vez Fox se conteve.
- O que foi dessa vez? Seu Download terminou? – sua crença em mim estava acabando tão rápido quanto os vídeos engraçados da semana no You Tube perdem a relevância.
- Encontrei o blog do tal do Wales.
Ela se animou e inclinou seu corpo na direção do meu monitor.
- Eu sabia que ira te encontrar, seu canalha! – ela desabafou para o monitor.
- Não tão rápido, boneca. – eu disse segurando a sua mão.
O meu trabalho é de ver o que as pessoas não percebem. Passei o mouse sobre a data do último post, destacando-o.
- Como eu suspeitava. Desatualizado! – eu disse.
Fox caiu em meu colo tão rápido quanto uma conexão discada. Mais uma vez seus olhos marrons começaram a encher de lágrimas. Ela se refez e colocou mais um cigarro entre aqueles lábios. Peguei o meu isqueiro e ofereci prontamente:
- Fire, Fox?
Ela aceitou e eu voltei a trabalhar. Se eu quisesse resolver aquele caso, eu teria que ir mais baixo do que qualquer homem jamais foi. Teria que ir até o porão da internet. Até os becos mais sujos, onde os piores usuários se escondem e os arquivos maliciosos se proliferam. Eu teria que ir aos fóruns. Mesmo que isso comprometesse a segurança da minha rede.
- Não precisa se arriscar tanto, Dick. – ela disse assustada.
- Eu nuca paro depois que entro em um caso, Doçura! Como eu disse, Dick é durão!
Entrei em um fórum de nerds. Eles sabiam de tudo que ocorriam na rede. De tudo mesmo. De cabo a rabo. De Hardware a Software. Aquelas pessoas já nasciam com Gadgets colados em suas mãos.
Eu sentia que estava chegando perto. Coloquei um mp3 de suspense no Winamp para criar um clima. Ela ficou arrepiada ao sentir a potência do meu Subwoofer. Se tudo desse certo, aquela noite poderia ser romântica em Dual Channel com a bela Fox ao contrário das solitárias noites em 5.1 que eu estava acostumado.
Encontrei o Avatar de uma sirigaita que fazia qualquer coisa na Webcan do MSN por alguns trocados. Seu perfume era tão vulgar quanto aquelas vitrines virtuais do Mercado Livre.
- Estou procurando um sujeito chamado Walles. – eu disse em PVT.
- Isso vai te custar uma grana, bonitão.
Negociei com a sirigaita e fizemos toda a transação através do Pagseguro. Mas não tinha nada de garantido naquela troca.
- Ela vai sumir com o dinheiro. – Fox reclamou.
- Toda transação comercial na internet é na base da confiança, boneca. Fique calma.
Ficamos atualizando a caixa de e-mail de cinco em cinco segundos esperando a informação chegar. O clima estava tenso e nossos corpos estava suados. As coisas nunca acontecem quando você está olhando: Papai Noel não aparece na sua árvore, a água nunca ferve, o download nunca termina e o e-mail nunca chega. Foram os 50 segundos mais longos de nossas vidas, que convenhamos, falando de informática isso é quase uma eternidade.
A espera valeu a pena. Além de um dossiê completo de Jimmy Wales ainda recebi de quebra um e-mail explicativo de como aumentar o meu pênis. Não que eu precisasse tanto disso, mas uma ajudinha extra sempre é bem-vinda. Como a extensão de um software que você usa muito, entende?
A bela Fox ficou muito triste com tudo que leu. Copiou o arquivo em seu Pen Drive, jogou o dinheiro sobre a minha mesa e se despediu:
- Não tão rápido, boneca. Que tal tomarmos um drink e abrimos um chat para nós dois? – arrisquei.
Ela soltou um sorriso ferino, deu um beijo em minha bochecha e disse antes de sair:
- Eu não sou mulher de fazer sexo virtual no meu primeiro chat, senhor Chandler. – deu uma piscadinha e complementou – Talvez outro dia.
Saiu do meu escritório e entrou em seu Cross Fox e sumiu. Linda. Absoluta. De mais.E a música daquele gato maldito no teclado não saiu mais da minha cabeça.
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Dick Chandler, Detetive Virtual. Caso 42: Fox
Postado por Viciado Carioca às 18:31 9 comentários
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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
Praticamente Inofensivo
A História até agora: Preocupado com um pacto suicida de drogado e destemido em conquistar todo o amor de sua namorada bissexual, Vic acabou sendo assombrado pelo fantasma suicida de seu sogro. Mas o que seu melhor amigo tem a dizer sobre essa experiência metafísica? Se você ainda não leu os capítulos anteriores do Arco 3, faça isso agora indo ao menu lateral.
Sugestão de Música: Al Green - Here I Am (Come and Take Me)
- Quando você diz que ele apareceu, você quer dizer tipo o Obi-wan para o Luke Skywalker no Episódio IV? – perguntou o Gordo no único momento que me interrompeu.
Há três dias que eu estava no Rio de Janeiro e há três dias que chovia sem parar. Parecia uma conspiração divina para manter o meu baixo astral. Sem muitas idéias para mudar essa situação, fui tomar uma cerveja com o meu amigo Lucas, o Gordo. Eu precisava exorcizar alguns fantasmas que me atormentavam. Literalmente. Para isso procurei o confidente certo.
Lucas arrumou uma namorada no mesmo dia que eu fiquei com Nicole. Saíamos em casais e, quando estávamos sem as nossas respectivas, íamos sozinhos para debater sobre a vida, o universo e tudo mais. Este acaso acabou fortalecendo a nossa amizade e até hoje posso dizer que ele é o mais próximo que posso chamar de melhor amigo.
- Não, Gordo, continua escutando que você vai entender. - de forma rápida tentei sintetizar tudo que ocorrera durante a viagem dos cogumelos. O Gordo ouvia atentamente. Ele sempre foi um bom ouvinte. Eu não esperava que Lucas dissesse as palavras certas ou desse a solução final para todos os meus conflitos internos. Eu só sabia que precisava desabafar aquela história. O fantasma suicida permanecia vivo na minha mente assombrando cada segundo desde que eu fiquei careta. Eu estava tão assustado que aquela cerveja era a primeira vez que eu chapava desde então. Na vida que estava levando, cinco dias caretas era quase uma eternidade.
O boteco sujo que escolhemos naquela noite era típico de Botafogo. Cervejas de garrafa e petiscos gordurosos. Nada em especial. Mas ele tinha a maior vantagem que eu procurava. Não estava cheio. Parecia que o bar estava no fim do universo e era tudo que eu precisava. Tranqüilidade para vomitar toda a minha angústia. Demorou umas quatro garrafas e dois Marlboros para eu terminar a história. Mas consegui finalizar no mesmo momento que o garçom trouxe a porção de gurjão.
- Obrigado pelos peixes! – Lucas disse simpaticamente ao homem. Fisgou a primeira fritura e apreciou demoradamente. Aquela atraso para um comentário me enervava. Não precisava ser nada muito edificante. Um simples “caramba, cara!” bastaria. Eu dava pequenos goles na cerveja de cinco em cinco segundos esperando que o Gordo dissesse alguma coisa. Mas a última coisa que você pode esperar de um maconheiro convicto é velocidade de pensamento. Finalmente ele soltou um:
- Isso tudo é realmente verdade? – fiquei até surpreso com essa pergunta. Mas era justa. Hoje em dia Lucas não tem mais moral para fazer uma pergunta dessas, pois ele sabe que eu não perderia meu tempo inventando uma história tão maluca. Naquela época era uma pergunta totalmente normal.
- Porra Lucas, essa era a última coisa que eu imaginava que o único cara que eu contei a verdade dissesse. – fiquei balançando a cabeça, incrédulo e com um sorriso no rosto. Ele franziu as suas sobrancelhas grossas em um gesto involuntário de desculpa e surpresa:
- Você está dizendo que não contou isso para ninguém? – comecei a balançar a cabeça concordando. Ele ficou tão surpreso que até parou de comer. – Nem para Nicole?
- Nem para a Nicole. – então ele deu uma suspirada forte e finalmente disse o que eu esperava:
- Caramba, cara! – eu passei a minha mão pelos meus cabelos.
- Eu sei. Desde então eu só tenho fé em uma coisa. Eu vou sofrer um acidente, ficar doente, ou alguma coisa vai me deixar todo ferrado e por fim, eu vou morrer. – com certeza o meu pensamento não impressiona você, leitor. Eu estou vivinho da silva escrevendo essa frase nesse exato momento. Mas acredite, era o que eu achava na época. Eu tinha motivos bem concretos para isso:
- É só ligar os fatos, Lucas. Eu vi a minha lapide. Eu conversei com um morto. Ele me disse que Nicole iria me ensinar tudo sobre morte e sofrimento. Eu vou morrer e isso é inevitável. – aquele assunto me aborrecia. Peguei um Marlboro para me acalmar e percebi que as minhas mãos estavam tremendo apenas por falar daquele assunto.
- Calma ai, Vic. Não me diga que você realmente acha que aquela alucinação era o espírito do pai da Nicole? Você nunca parou para pensar que aquilo era apenas uma criação da sua cabeça. – fazia sentido o que o Gordo dizia. Guilherme, ou o fantasma dele, era cuspido e escarrado a descrição que eu tinha ouvido em relatos ou visto em fotos. Talvez a presença de Guilherme fosse tão assustadora que a minha mente tinha que acreditar nela. Fiquei meio sem graça de admitir que não tinha seguido por essa linha.
- Você pode estar certo. – o Gordo apenas levantou os olhos demonstrando um “Eu sei que estou certo”. – Mas e se for mesmo o espírito do Guilherme que me visitou?
- Nós não podemos cogitar isso. É improvável, surreal e nada científico. A razão diz que você estava muito doido e ele falava tudo que você estava sentindo ou querendo ouvir. De certa forma, você sabia da maioria dos ensinamentos dele. Ele repetiu a sua onda de maconha na minha casa. Ele falou que o amor é lindo, mais pode ser destrutivo. Quem não sabe disso? Ele falou que você vai ensinar coisas para Nicole e ela para você. O que é um relacionamento sem isso? Cara, você está tão apaixonado por Nicole que catalisou um momento que ela nunca viveu com o pai para se sentir especial ao lado dela. No fim, você pegou uma Badtrip, e qualquer uma que se preze têm que ter algum sentimento ligado à morte. Desculpa, Vic. Não quero desmerecer o seu barato, mas tudo isso é mero fruto da sua imaginação. – Lucas em cinco minutos desconstruiu toda uma bela história de terror. Poderia ser tudo fruto da minha mente. Queria acreditar naquela linha de raciocínio porque além de lógica, ela me acalmava.
Eu perseguia o amor da Nicole. Esperava a todo o momento as duas palavrinhas mágicas assoprarem daquela boca carnuda. Se eu dissesse para Ruiva que a minha viagem me colocou em contato com a pessoa que seria a mais importante da sua vida e que ela jamais conheceu, eu certamente me tornaria único. Eu tive um papo aberto com Guilherme, coisa que no fundo da sua alma, ela deve sonhar. Isso era o que eu tinha para oferecer a ela, uma experiência única com o seu pai falecido. Por sua vez, Nicole poderia me dar o amor em retribuição. Como eu concluí na minha viagem, o que é o amor senão um caminho de dor e morte? Tudo fazia sentido. Eu queria realmente acreditar naquilo se não fosse:
- O que é? O que é? – Lucas me fitou com olhar curioso.
- Como?
- O que é? O que é? Como eu poderia saber que essa é a música predileta dele. Não tem como. Ninguém nunca me disse isso. – essa era a falha na teoria. É claro que o Gordo tinha várias explicações:
- Talvez você tenha visto um disco do Gonzaguinha no apartamento. Talvez seja mais uma das suas piadas. Talvez você simplesmente inventou isso. Existem muitas explicações plausíveis, Vic. – o Gordo estava tão convicto em suas palavras que voltara a comer. Degustava freneticamente os gurjões de peixes e começou a suar excessivamente. Seus cabelos longos, encaracolados e oleosos começavam a encebar, mas ele não ligava. Jogava-os para trás e continuava. Não era aquela visão nojenta que me tirava a fome. Desde o meu papinho com o defunto que o apetite me faltava. Era uma dieta bem eficiente. Eu tentava processar todas aquelas teorias e alguma coisa não se encaixava. Eu queria não estar tão convicto que aquilo era o espírito do pai da Nicole.
- Você deu várias explicações e concordo que todas são plausíveis. – o Gordo me apontou uma fritura de peixe querendo dizer “eu estou certo”. – Pena que todas começadas com “talvez”. – a derrota nos olhos do gordo me derrubou. Eu queria acreditar nele. De verdade. Mas algum diabinho detetive dentro da minha mente procurava furos em sua história para ter uma razão para continuar me assombrando.
A chuva ainda continuava inundando o Rio de Janeiro como a dúvida encharcava o meu cérebro. O Gordo acabara de devorar aquele prato de fritura e nós seguíamos calados. Comecei a notar que aquele silêncio era igual ao que fazemos depois que alguém morreu. Aquele constrangedor e respeitoso ao mesmo tempo. Pensei que Lucas estava vivendo sem cogumelos a mesma experiência que eu. Ele estava conversando com um defunto.
Depois da sexta cerveja eu consegui formular uma terceira linha de pensamento. Certamente a mais louca de todas. Não era uma teoria inteligente a qual eu me orgulhasse. Mas qualquer coisa para quebrar aquele silêncio servia. Então, dividi a idéia com o Gordo:
- Tem uma pequena possibilidade, na qual eu não acredito, mas existe. Eu realmente não conversei com o pai da Nicole. Simplesmente pode ter sido um momento de clarividência estimulada pelos cogumelos mágicos. Muita gente diz que eles têm propriedades além da nossa compreensão e eu posso ter acessado uma parte do meu cérebro que desconhecia. Eu posso ser um médium e conversado com um espírito que fingiu ser o Guilherme. – Lucas apenas me observou por alguns segundos e explodiu em uma gargalhada. Eu não consegui me segurar e me juntei a ele. Ninguém resiste a um gordo rindo. São criaturas divinas propriamente feitas para isso. Esse foi o meu primeiro alívio cômico desde que retornei da viagem de cogumelos, então eu me soltei.
Extravasei naquele momento toda a tensão que sentia pela fase delicada que eu estava atravessando. Ri como se não existisse amanhã. Esquecendo momentaneamente quanto tempo eu ainda tinha de vida. Não me importando se a minha namorada louca e bissexual me amava ou não. Sem querer saber o que iria acontecer se seguíssemos com o nosso pacto idiota de doideira. Não ligando com o protecionismo católico da minha matriarca. A única coisa que eu não consegui deixar para lá era o fato que a última risada gostosa que eu tinha dado foi com Guilherme, o meu sogro suicida.
- Vic, você tem que relaxar cara. Acho que você teve uma trip das mais bizarras e eu queria também vivenciar um momento como esse. Você pode estar assustado com o desfecho, mas no meu entendimento, o seu “fantasma” é praticamente inofensivo. – Lucas ainda recuperava a respiração depois do nosso momento bobeira.
- Você não sabe o que está pedindo, Gordo. Eu fui atrás de uma experiência transcendental e o que eu consegui foi uma maldição para me assombrar. – tentei retornar o tom sério da conversa fazendo uma voz mais soturna.
- Dá um tempo, Vic. De tudo que você me contou a única coisa ruim foi essa badtrip que você pegou no final. Se não fosse isso, nós estaríamos aqui escutando as maravilhas do chá. Aposto se nós tomarmos juntos, só vai rolar loucura. Viajaríamos pelas dimensões, pelo universo e pelas galáxias como dois mochileiros descobrindo um novo mundo. – genial. Eu, um dos poucos caras que saí traumatizado com os cogumelos daquele churrasco, estava virando sem querer o garoto-propaganda dos Smurfs. Daqui a pouco o Lucas iria sugerir que nós fizéssemos um guia de como se drogar e viajar pelas dimensões. Mais uma vez argumentei para que Lucas não seguisse com aquela idéia:
- Esquece, Gordo. Eu nunca mais vou tomar esse negócio. Você esta maravilhado porque não sentiu o que eu senti e nem viveu o que eu vivi.
- Você que esta traumatizado com a onda ruim. O seu relato é incrível, é quase mágico. Eu quero sentir isso pelo menos uma vez na minha vida. - o Gordo estava verdadeiramente fascinado. Não estava nos meus planos expor o resto da história, por motivos óbvios. Mas não queria ser o responsável por um amigo meu passar pelo que eu passei. Então, sem alternativa eu soltei:
- Você não está te entendendo, Lucas. Eu só disse metade da história. Se você souber o que aconteceu com a Nicole e depois com nós dois quando nos encontramos durante a onda de cogumelos, talvez você mude de opinião.
- Então, desembucha – suspirei e comecei a contar o que eu jurei que não iria contar a ninguém.
Postado por Viciado Carioca às 02:47 13 comentários
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Vic ANO I - 3º arco
Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
O Que É? O Que É?
A História até agora: Vic entra em contato com o Universo através do chá de cogumelos. Tudo seria maravilhoso, se o morto não aparecesse para bater papo. Se você ainda não leu os capítulos anteriores, procure na coluna ao lado.
Sugestão de Música: Ramones - Pet Cemetery
Quando Guilherme saiu do sul do Brasil para tentar a vida no Rio de Janeiro muitos disseram que ele era louco. Na verdade ele era apenas um jovem ambicioso e muito obstinado no seu sonho: ser rico. Tinha certeza que na sua cidade ele até poderia conseguir, mas o Rio era a cidade das oportunidades, da beleza e dos artistas da tevê. Uma cidade maravilhosa.
Logo o rapaz conseguiu um emprego em uma padaria. O trabalho era pesado, o patrão era severo, mas toda a semana ele recebia o seu dinheiro. Guilherme sabia onde queria chegar e investia todo o dinheiro que sobrava em livros.
Não demorou muito para o trabalho duro do rapaz chamar a atenção de outro comerciante. Ele viu na fala mansa e na educação de Guilherme um vendedor em potencial e o convidou para trabalhar em sua loja de calçados. Em um ano Guilherme se tornou o melhor vendedor e o gerente da loja. O dinheiro sobrava com certa facilidade e ele poderia empregá-lo um pouco em lazer. Foi num samba qualquer da Lapa que ele conheceu Francisca, a mulher que ira se tornar sua esposa.
Por influencia de Francisca que Guilherme começou a estudar para a prova do Banco do Brasil. Os funcionários do banco não eram apenas famosos pelo mau humor e trabalho burocrático, mas na época, também pelos altos salários. O rapaz se dedicou ao máximo e passou fácil no certame.
A vida melhorou bastante. Casou-se com Francisca e trabalhava duro no banco. Pretendia logo ser gerente e ganhar ainda mais. O seu sonho estava se tornando realidade. Era trabalhador, atencioso, bem humorado, bem informado e começou a se tornar uma referência de funcionário dentro da instituição. O seu cargo de gerente estava próximo.
Mudou-se finalmente para a Zona Sul do Rio. Com bastante trabalho e economia conseguiu financiar um apartamento em Ipanema. Morava apenas três quadras da praia e os familiares do Sul estavam felizes que Guilherme vivia no bairro dos artistas.
Mais ou menos quando a sua única filha nasceu ele foi nomeado gerente de agência. Era um caso único dentro da instituição que historicamente só promovia funcionário por antiguidade. Seguiu trabalhando e juntando as suas economias. Sapecava de uma agência a outra tentando impor o seu estilo de trabalho e mudar a cara do Banco.
A vida seguiu e Guilherme olhava orgulhoso o que tinha construído. Tinha um apartamento no melhor bairro do Rio, um bom emprego, uma esposa e a sua filha acabara de completar cinco anos. Mas sentia que algo faltava. Apesar de uma poupança cheia, ele não era tão rico como gostaria. Às vezes ele sentava-se a beira da praia no fim de semana e observava os ricos morando em coberturas na Vieira Solto e desfilando em carrões caros. Foi para isso que ele veio ao Rio de Janeiro. Quando comentava que queria mais, Francisca apenas agradecia a Deus o que eles tinham. Ela afirmava que não precisavam de mais, que eles já tinham uma casa, uma bela filha e muita saúde.
Para Guilherme aquilo não bastava. Mesmo trabalhando no banco, conhecia pouco sobre mercado de ações. Não era uma coisa que muitos clientes procuravam naquela época. Via seus amigos investindo e ganhando o dinheiro “fácil” do mercado. Sabia que a sua chance estava ali. Queria descobrir como. Então, voltou a estudar.
Começou operando pequenos valores e sentindo como aquilo funcionava. Gostou da brincadeira e logo estava operando somas mais altas. O dinheiro estava entrando e finalmente ele começou a se sentir vivo. Sabia que o sonho estava mais próximo a cada operação. Porém, drasticamente em uma ironia do destino, acabou perdendo todas as suas economias em uma série de operações erradas. Em poucas semanas todo o trabalho de uma vida virou pó.
Então, o homem ambicioso, trabalhador, corajoso e obstinado que foi para o Rio de Janeiro e enfrentou as mais diversas dificuldades em busca do seu sonho, fez o maior ato de covardia de sua vida. Com um revólver na boca explodiu os seus miolos dentro do banheiro de casa. Deixou Francisca sozinha para cuidar de sua filha de sete anos, Nicole.
Eu conhecia a história não porque ele estava sentado ao meu lado naquele quiosque. Primeiro fiquei sabendo pelos amigos. Depois, Francisca me contou mais alguma coisa. Finalmente, em uma noite de choro, a Ruiva me contou o resto.
- É muito bonito isso aqui. – ele dizia fitando o lago. Usava a mesma camisa quadriculada da foto que Francisca me mostrara. Lembro que fiquei impressionado com a semelhança das feições de Nicole com as do pai e mais admirado com os olhos daquele sujeito. Não sabia se estava chocado com a história, mas os olhos de Guilherme eram verdadeiramente de um sonhador. Brilhantes e sorridentes. Impossível você dizer que eram olhos de um suicida.
- Esse lugar é incrível. – eu respondi de uma forma calma. Eu não estava assustado com a presença de Guilherme ao meu lado. Ou surpreso. Na verdade, nem percebia como aquilo era irreal. Estava apenas acontecendo.
- Mesmo nos melhores dias no Rio de Janeiro, dentro de mim eu sentia saudades daqui. O cheiro do mato, o clima, as pessoas. No final, percebe que você é também o seu lugar e que o lugar é você. Mesmo morando a quilômetros de distância. – aquilo me fez lembrar do primeiro baseado que fumei com Lucas. Foi em sua casa. Eu estava seduzido pelas luzes da cidade e acabei tendo o mesmo pensamento. Eu não apenas vivia no Rio:
- Eu sou o Rio de Janeiro. Eu sou sujo, debochado e inseguro.
- E maravilhoso. O Rio é a cidade Maravilhosa e você também é. – ele complementou com a tal fala mansa que Francisca descrevera muito bem. Era estranho, mas eu podia literalmente ver a sua voz macia como um suave veludo que acariciava a minha orelha quando o som chegava. Tudo que ele dizia ecoava na minha mente por muito tempo. Eu não me sentia digno de estar com uma companhia tão bela e única:
- Eu sou o Rio de Janeiro. Eu sou bandido, obsceno e lascivo.
- Mas tem o Cristo te protegendo acima de tudo. - no meio daquela sinestesia lembrei-me de minha mãe e seus conceitos católicos ortodoxos. Dizendo que me amava antes de eu fazer tudo que ela sempre me educou que era errado. Praticamente voltei a se criança e o conforto do carinho materno era algo que eu não queria perder. Será que se no dia que ela descobrisse me perdoaria também de braços abertos? Guilherme continuou com a vibração gostosa de sua voz. Parecia uma música suave. – Você é um carente convicto e por isso sente esse amor incondicional pelas mulheres. Nem você percebe isso, mas é do que você é feito. É como o Rio de Janeiro e suas garotas de Ipanema.
- Eu amo aquela garota mais do que gosto de admitir. Nicole é o meu amor. Nicole, a louca – eu coçava o meu bolso em busca de um Marlboro. De uma forma estranha, nós raramente trocávamos olhares. Continuávamos fitando o lago e as montanhas ao fundo. Era uma linda área agrícola cercada de grandes pastos. Todas as cores eram profundamente bem definidas e eu podia notar vários tons de verde diferentes. Peguei um Marlboro e entreguei a Guilherme. Fiquei com o meu na boca e o isqueiro parado na outra mão. Queria acender o cigarro, mas estava mais atento ao doce som da sua voz:
- Vocês têm muito para crescer juntos. Podem viver uma linda história. Mas como todo amor, tem os ingredientes para se tornar uma grande bomba e destruir a vida dos dois de forma irreparável. – eu pensava sobre aquilo. O amor. Uma coisa que todo mundo perseguia podia deixar uma cicatriz aberta na alma. Eu podia “ver” o doce ficando amargo. Por que então desejamos tanto? O amor era como o sonho do Guilherme. Algo que te impulsiona a fazer coisas incríveis, a conquistar grandes batalhas e quando ele se acaba pode te levar incondicionalmente a morte. Tentava fugir daquele pensamento macabro, mas quando fechei os olhos consegui ver a minha sepultura. Na lápide estava escrito “A última morada de Vic”. As letras saltavam da pedra em luzes brilhantes. Abri os olhos rapidamente. Tentei me concentrar em um ponto fixo no lago. Mas eu precisava saber se algo de ruim me esperava:
- No final, o que vai acontecer comigo e com a Nicole?
- Como eu vou saber? Eu não jogo tarô!– então rimos de maneira nervosa. Gostaria de saber se Nicole me amava ou aquele sentimento era unilateral. Gostaria de saber quais decisões eu deveria tomar para nunca perdê-la. Gostaria de saber se o amor que eu sentia um dia iria acabar e no final, tudo iria ficar vazio e sem sentido. Ou pior, se um dia ficaríamos normais, apenas convivendo como amigos. Gostaria de saber a data da minha morte. Gostaria de saber tudo.
- Se eu te contar uma coisa, você jura que não vai rir? – enquanto ele perguntava, eu buscava outro Marlboro no maço. Então percebi que o primeiro ainda estava na minha boca apagado. Decidi acende-lo, mas os meus braços se moviam vagarosamente. Demorou para eu conseguir queimar aquele pequeno diabinho, e Guilherme me esperava pacientemente. Finalmente eu consegui balbuciar um tímido:
- Manda.
- A minha música predileta era “O que é, O que é?” do Gonzaguinha. – explodi em uma risada gostosa. Não tinha como não rir escutando aquilo da boca de um suicida. Ele riu também. Em pouco tempo estávamos gargalhando até as lágrimas rolar pelos nossos olhos. Eu engasgava com a fumaça e aquilo me fazia lacrimejar ainda mais.
- Poderia jurar que você era fã de Suicidal Tendencies! – eu disse gargalhando e nós dois rolávamos no chão. Só consegui voltar a respirar depois de muito tempo. Ficamos calados por uma eternidade. Não tinha o que ser dito enquanto admirávamos aquele lindo lago brilhante. Parecia que centenas de minúsculas fadas sobrevoavam a sua superfície enquanto tocavam de leve a sua varinha sobre ele. O vento soprava sobre água de forma tão suave quanto o beijo de dois amantes. Era a mãe natureza mostrando que estava apaixonada. Dei outro Marlboro para o meu companheiro e ficamos ali fitando a criação divina. Eu vibrava junto com o lago. Eu estava conectado com o mundo de diversas formas. Nada daquilo poderia ser real e da mesma forma tudo fazia sentido. Eu, o lago, o quiosque, a fazenda, Guilherme e o resto do mundo fazíamos parte de um todo. Era algo revelador sobre o universo. E mais ou menos quando o sol caía cansado por trás de alguma montanha é que Guilherme explicou o que estava fazendo sentado ao meu lado:
- Você vai ajudar a Nicole e ela vai te ajudar. Enquanto você vai fazê-la entender algo que ela não compreende e você tem de sobra, ela vai fazer o mesmo com você. – o que exatamente aquilo queria dizer, eu não sabia. Mas gostava de como soava. Guilherme seria um belo sogro se não tivesse estourado os miolos antes de eu conhecer a Ruiva. Podia enxergar nós dois bebericando algumas latas de cerveja na varanda de seu apartamento enquanto eu esperava Nicole para sair. Conseguia até sentir a cerveja gelada na minha boca e era uma explosão de sabores.
- O que eu tenho de tão valioso além do meu amor para oferecer a Nicole? – Então olhei para ele e seu aspecto tinha mudado totalmente. As sombras da noite que nascia caiam sobre o seu rosto de forma cavernosa. As linhas de suas faces deixaram de ser suaves e se tornaram grossas. Sua pele tinha uma tonalidade cinzenta, sem vida. O meu coração acelerava. Ele continuava fitando o lago que agora estava escuro e sem todas as fadas. Eu começava a me perguntar que tipo de criatura viveria submersa. Por mais assustador que fosse, eu não conseguia desgrudar os olhos da figura assombrosa que Guilherme havia se tornado. Eu estava em êxtase. Deslumbrado e hipnotizado por aquela visão fantasmagórica.
- Nada. – ele respondeu laconicamente ainda sem me olhar. Minhas mãos estavam geladas e comecei a perceber que tudo estava ficando muito frio. Em poucos segundos o meu corpo todo tremia e eu começava a sentir músculos que eu sequer conhecia. Eram disparos frenéticos no meu peito, nas minhas costas, na minha perna. Minha coluna começava a pesar absurdamente. Com as costas duras e o resto do corpo tendo espasmos, aquilo causava uma dor indescritível.
- E o q-que ela te-tem a me em-ensinar? – a minha voz correspondia ao meu estado de espírito e o que eu mais queria era estar careta. Queria voltar para o quarto e ficar embaixo de um grosso edredom dormindo um sono sem sonhos. Toquei a minha pele e ela parecia ser feita de papel de pão. Achei que facilmente iria rasgar em mil pedacinhos e ser espalhado pelo vento. Então, ele virou seu rosto para mim, e pude ver seu crânio aberto, com o seu cérebro exposto ainda pulsando e o sangue do mais brilhante vermelho correndo pelo canto de sua face dura. Sua boca era roxa e caída e as sombras no pouco que restou de sua testa contrastavam com seus olhos ainda brilhantes de sonhador. Naquela voz macia ele sussurrou:
- O que mais além de morte e sofrimento?
Postado por Viciado Carioca às 00:56 12 comentários
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Vic ANO I - 3º arco
Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Atualizações
Quero comunicar aos navegantes, que o meu blog de receitas, o Na Larica, que foi inaugurado em 2007 e ano passado só teve uma atualização, está vivo e forte com a ajuda do meu amigo Alexandre, o Tabajara e com as receitas que os leitores enviam. Então, vale dar uma conferida.
Além disso, Quinta e Sexta estou escrevendo no twitter comunitário Na Kombi (http://twitter.com/Na_Kombi) sobre o assunto: morte.
E segunda que vem mais um capítulo do 3º Arco, mundialmente conhecido também pelo singelo apelido de arco 3.
Abraços
Postado por Viciado Carioca às 15:34 3 comentários
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